Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


2 comentários

Elegia da Sentinela

Tenho comigo
Os abraços que quero.
Tenho comigo os olhares
De ternura que não dispenso.
Tenho comigo
Os sentimentos que sinto
E os pensamentos que penso.

Não sou incompreendido
Porque seja incompreendido.
Quem me não compreende
Escolhe não me compreender.
As minha dores são só minhas.
Ninguém me faz sofrer
Dores órfãs.
Escolho cuidadosamente
As dores que quero sofrer.
Adoto-as e acaricio-as
Como a um cachorro abandonado.
Só.
Absolutamente só.
E de pé até morrer.

Nasci desamparado
Como todos nasceram desamparados.
Vivo isolado
Como todos vivem isolados.
E, quando morrer,
Não terei tombado.
Sou o homem vertical.
O cadáver que incomoda.
A consciência ausente e justa
Da podridão impune.
A coisa fora de moda
Que se despreza
E se escarnece.
Sorriso fétido
Que apodrece.

Essas criaturas nojentas
E alapardadas
Não precisam que lhes diga
Que estão erradas.
Elas sabem que estão erradas.
E persistem…

E a nau,
Ondulante e silenciosa,
Passa certa e vagarosa,
Por esses sargaços de gente.
Burro cego e impotente
Como o país do Almada.
O único onde há chegada
Sem ter havido partida.
O único, onde recebe a medalha
Quem não correu a corrida.

AAhhh! Puta de vida.
Pudesse eu lavar-vos da lama
Sem me sujar nela.
Pudesse denunciar
Sem se denunciar,
A sentinela.

Adio-me
No adeus.
Há dias em que vivo
E há dias em que morro.
E há dias em que contemplo
A paisagem decadente.
E há dias em quem me afasto.
E há dias em que me despeço de tudo isto
E minh’ alma sorri e alegra-se.

E volto aos braços que me querem
E aos olhares que me ressuscitam.

jpv


Deixe um comentário

Ana Paula Canotilho: singela e belíssima homenagem

A Cristina, que anda zangada comigo, faço-te queixa, a ver se conversas com ela, hoje, numas momentâneas tréguas, disse-me, João Paulo, tens uma coisa na tua secretária. Espero que seja boa, repliquei curioso. Ora, sabendo eu que ela sabia que, uma vez chegado à secretária, teria de ver a coisa, inferi que o realce justificaria algo de importante e significativo, independentemente da natureza.  E era. Era o teu livro.

Fiquei ali a soluçar, com duas lágrimas impertinentes a roubarem-me o estatuto de homem forte. O teu livro, porra!

É uma obra muito especial. Faz-te justiça de muitas formas diferentes. Profissional, ética, reivindicativa, equalitária, social, política, sindical, solidária, e, sobretudo, humana. São palavras dos teus amigos e das pessoas que te admiram e respeitam e amam. São palavras simples e profundas.

E tem uma carrada de fotos onde brilhas com o teu olhar incisivo, provocador e doce. E está cheio de África. Como tu adorarias.

Sabes, depois de o ler uma vez e outra, senti paz. Senti como se um ciclo se tivesse fechado. Como se algo incompleto se tivesse completado. Como se, de repente, já não precisasse mais de andar preocupado com algo que me atormentava: a justiça para contigo, a tua figura ímpar, a tua pessoa única. Acho, mas não tenho a certeza, que esse sentimento vivia em mim por teres partido tão repentinamente e por ter-te acompanhado de forma tão próxima naquelas últimas horas.

Há muitos agradecimentos a fazer, ao SPN, à Maria José, ao Baldaia, ao Borges, e a tantos outros. Mas eles não querem agradecimentos. O que eles querem é o mesmo que eu: que se preserve bem viva a memória de ti e tudo o que representas para nós e o Mundo em que vivemos. Tentaremos estar à tua altura, fazer justiça ao teu legado. Tarefa nada fácil. Ergueste a fasquia bem alta.

Paz… sinto paz… e saudades… vamos falando…

jpv.


Deixe um comentário

Solitária Tortura

Quero pecar
Os meus pecados.
Não posso deixá-los para trás.
Quero acariciá-los
Como se acaricia
Uma existência.
Um prazer breve e fugaz.
Quero os excessos
E as luxúrias.
A presença
De todas as coisas
E a sua ausência.
O lume a arder
E o seu reflexo
Na taça de vinho abandonada.
A luz do luar
Na tua pele desnudada.
Quero do teu choro
A erótica heresia.
Quero o teu corpo
Na minha língua
Sabendo a maresia.
E quero que me faças
Uma oração
Submissa e tentadora.
A prece dos pecadores
Sob a rotina redentora
Do amor.
E hás-de ser minha
Para sempre.
E sempre será o que quisermos.
Será o tempo de um beijo.
Um lânguido beijo deleitoso.
Ou então uma eternidade.
A eternidade de acolher-me em ti
Sem chão, nem mar, nem radar.
Só o toque cego e prazeroso
De quem tenteia a felicidade.
E peco.
Peco o pecado de fechar-me
Para o Universo
E ressuscitar em ti
Pelo toque,
Pelo urro,
E pela palavra feita verso.
Não quero o pecado
Pelo pecado.
Quero o pecado
Do teu desejo
A arder-me na carne.
Quero as tuas unhas
A arranhar-me
Como um náufrago perdido.
Teu corpo único
A meus prazeres estendido.
E quero saber
Que sabemos
Que pecamos.
Consciência inútil
E vital.
Quero finalmente acreditar
Que vieste a ser minha.
E quando, à noitinha,
Encostares teu corpo
Ao meu
Antes de dormir.
Quero estar pronto para partir.
E levar comigo nossos pecados
Envoltos em ternura.
E algum que nos tenha escapado
Seja da alma, em paz,
A solitária tortura.

jpv


Deixe um comentário

Bruma da Manhã

As manhãs frescas
Envoltas em espessa bruma
Trazem-me memórias profundas
De nada e coisa nenhuma.
Adensa-se a paisagem,
Encurta-se o horizonte.
Na alma, contudo,
Afia-se o olhar por entre
Os pensamentos a monte.

jpv


Deixe um comentário

Brinde à Mãe

À Mãe que me trouxe
Ao mundo.
Ao amor verdadeiro
E profundo
Que me ensinou
Ao nascer.

À Mãe mulher
Que se fez Mãe
De amor e poder,
Que sabe, a lágrimas
E sorrisos,
Que pode ser Mãe
Quem quiser
Quem souber aprender
O dom de dar,
A dádiva de receber.
A Mãe que se fez Mãe
Pela vontade absoluta
E cega
De aprender a amar
De aprender pela entrega.
De sofrer o arrepio de Mãe na pele.
À Mãe de Isabel.

À Mãe dela.
Vivida aguarela
Do passado
No presente.
Mãe que sabe e sente.
Mãe proteção,
Mesmo ausente.

À Mãe de meus netos
Senhora de passos leves
E olhar intenso.
Mãe de todos os afetos.
A Mãe que nasceu Mãe
E se ensinou a maternidade.
Uma mãe jovem
Com gestos nascidos
Numa longínqua antiguidade.

À Mãe de meu filho.

À Mãe de minha Mãe
E à Mãe de meu pai também.
Mulheres de um tempo
Que já não vem.
Mães de antes de eu saber
Que havia Mães.

A todas as Mães antigas
E recentes.
Origem e amparo
Das gentes.
Amor genuíno e puro.
Mães na Luz,
Mães no luto e no escuro.
Mães de mãos estendidas
E braços abertos,
Mães que ensinam pelos erros
E pelos acertos.
Mães do perdão
E de esperar o refluxo da revolta.
Mães com o coração nas mãos
E o olhar na porta.
Mães com relógio nervoso
Ou sem relógio, sequer.
Mães do homem.
Mães da mulher.
Mães de todos…
Mães da dor.
Mães do sofrimento.
Mães de apagar-se a existência
Quando era seu, o momento.
Mães públicas, a lutar,
Mães do incerto
E também do exato.
Mães do anonimato.
Mães que se importam
E Mães que fingem
Não se importar.

Não há meias Mães.
Há só Mães a dobrar.
A dobrar o choro
E o riso.
A dobrar a dor
E o prazer
Pelos filhos vivido.

Às Mães
E às Mães delas também.
Mães de todos os dias
Porque todos os dias
São dias da Mãe.

jpv