Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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De Negro Vestida – XLII

 

De Negro Vestida – VI

José dos Santos Silva criou muitas regras durante a sua vida e alterou-as quando mais lhe conveio e voltou a alterá-las e alardeou que as tinha respeitado rigorosamente. Tão rigorosamente como a mentira ou o adornar da verdade que sempre fizeram parte de si. Justiça lhe seja feita, até porque não é mau homem, uma regra houve que nunca alterou. José não suportou desde pequenino que lhe chamassem Zé. Primeiro, porque não gostava, depois, quando as palavras vieram a bailar-lhe na boca como cerejas envenenadas, porque sentia que se perdia uma qualquer dignidade com a amputação do nome. Construiu então a regra com a seguinte fórmula:
– Zé é a puta que te pariu, óvistes? Para ti, senhor José!
Foi sempre um inquieto. Incapaz de sossegar, de assentar, de receber ordens ou viver dependências. E tinha uma dificuldade tremenda em não ter razão.

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O Romance “De Negro Vestida” foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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Bom Domingo

Os mais velhos talvez se lembrem da expressão “Porque hoje é Domingo” que passava em certo programa televisivo. Vem a isto a propósito deste post. Não há nenhuma razão objectiva para este post, a não ser pedir-vos que descansem do stress, da crise, dos problemas, das compras, que olhem os outros com mais tolerância, que estejam com a família, que aproveitem o glorioso sol que nos visita. Acho que são sentimentos e gestos adequados a um dia que, precisamos, seja de efectivo descanso.

A música que vos deixo consegue fazer-me sentir assim. Tem poderes e efeitos mágicos, a música.

Bom Domingo!

Angela Gheorghiu – Casta Diva


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Os olhos da crise

Hoje enervaste-te de novo. Explodiste. E, como te disse, isso não te ajuda. E, depois, não deixa transparecer a tua verdadeira personalidade. A doçura. O sorriso. A simpatia que todos pressentimos que tens mas anda tão afastada. Quem te pode sensurar? A vida, por vezes, é muito dura. Sabes, a culpa é minha e da minha geração. Bem, talvez também um pouco das gerações anteriores. Mas, a verdade é que ainda devias estar a sair da adolescência, ainda devias andar a brincar aos namorados, e a vida já te exige que tomes conta de toda a família. Claro que um pai desempregado não ajuda, claro que uma mãe muito doente, tanto que não pode trabalhar, também não ajuda, claro que teres de sustentá-los mais ao teus, muitos, irmãos também não ajuda, claro que terem-te despedido por causa da crise também não ajuda, mas precisas acreditar, precisas sorrir, precisas deixar crescer em ti coisas boas. És tão nova ainda. Tanta vida te vai sorrir ainda!–

–
Hoje fiquei triste com o teu sofrimento. Sofri contigo. Vi-te a crise nos olhos. Não a dos gráficos. A verdadeira. Quase me pareceu despropositado pedir-te que fosses menos agressiva com os teus companheiros, mas, acredita, tudo correrá melhor quando soltares e semeares as coisas boas que há em ti. Queria tanto ajudar-te e sinto-me tão impotente. Em nome do conforto e do conceito de ter, andamos a sacrificar jovens, famílias, padrões e depois as pessoas suaves e doces como tu ficam agressivas. Não é justo. Será que os senhores de fato que discutem percentagens e estratégias e cortes e planos sabem que a tua vida, a tua dor, o teu sofrimento, a doença da tua mãe, o teu desemprego, o facto de sustentares uma casa com a adolescência ainda na face, sabem que tu não podes ser um fragmento de uma percentagem? Será que sabem que és gente? Será que sabem que a crise se materializa em ti? E em todos os que possam estar como tu?
–
Espero que me tenhas ouvido. Espero que encontres força e fé para acreditar. Desejo-te o melhor do mundo. Desejo-te que um dia o mundo seja teu. Desejo-te que preserves a tua família. Desejo-te que um dia vivas numa sociedade em que possas ser o que és e não o que reages.
–
Não sabia bem como despedir-me de ti neste texto que provavelmente nunca vais ler, mas lembrei-me de uma expressão simples que as pessoas da tua idade usam muito e considerei-a a mais adequada. Por isso cá vai: “Fica bem!”


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Oculto

Oculto

É no gesto que escondes,
É nas palavras que não dizes,
Nos olhares que não trocas
Que se revelam
Os mais extraordinários matizes.
É na suspensão dos sentimentos,
No adivinhar dos pensamentos ocultos
Que oiço mais nitidamente
O que me sussurras.
E amo os beijos que me não dás
Mais do que os outros
Porque há coisas que um homem não faz
Que encerram mais coragem de viver.
E quando não fazes amor comigo,
Te não entregas doce e violenta,
Há nessa suspensão
O amor prenhe de quem tenta.

O oculto mora em nós
E tem força e tem pujança,
E nada do que acontece
Lhe rouba
Um só átomo de importância!

Não venhas, meu amor.
Não irei.
E completaremos nosso halo
Com esta incompletude.
Viveremos inquietos e insasiáveis
Na nossa tranquila quietude.

jpv


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A menina do chapéu de palha

A menina do chapéu de palha

Entras nas pessoas
De mansinho,
Quase sem te anunciares,
Mas há um brilho e uma vida
Que transportas no olhar
E marcam com inquietação
A tua presença,
A tua intenção.
Baila em ti certa curiosidade
E uma insatisfação constante
Assim como se percebesses
Coisas ocultas,
pensamentos ausentes,
O que foi dito e o que ficou suspenso.

E vem contigo
Essa aura de contradição
Que é ver em ti a criança
E a mulher em tentação.
E a mais bela explicação de ti
É que não há palavras para explicar-te,
Saltitas pensamentos e versos,
Abalas crenças e convicções
Só porque uma vez sem exemplo,
Sem razão nem nada que o valha
Enfeitaste o mundo cinzento
Com a beleza de um chapéu de palha.

jpv


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A não perder

Frei Fernando Ventura fala com serenidade e contundência dos tempos que vivemos. “A História dos jovens não se cruza com a memória dos mais velhos”, diz. “Vivemos a cultura do penacho”, acrescenta.
–
Obrigado, M, por teres mostrado.

Parte 1

Parte 2

Se não conseguir ver os vídeos, siga para aqui:
http://videos.sapo.pt/JoFz521LdtWURRpTF1YY


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Púbis

Púbis

Tens um mar encapelado e revolto
Nesse mundo em que me perco,
Nesse caminho donde não volto,
Nesse cume de profundezas.
Tens aí a tentação
De ir p’ra não voltar,
Suave colina
Que percorro com os lábios e com a mão
Em aventuras de encantar.
E tens aí teu tesouro,
Meu abismo voluntário.
Pagava por ele todo o ouro
Que custa comprar uma vida ao contrário.
E tens tango, e tens samba, e tens valsa,
E tens poesia de arrebatamento
E prosa espraiada e voluta.
Tens qualquer íman que me puxa
Com uma força mais que bruta.
E mora em ti
O centro do Universo,
Fonte de contas inimagináveis
Que não cabe num verso
O meneio das tuas coxas hábeis.

Dá-me esse centro,
Oferece-me teu vortex,
Chama-me para dentro,
Prende-me em teu calor.
E, depois, no halo do amor
Que acabámos de fazer,
Deixa-me acariciar sem pudor
A fonte do nosso prazer!

jpv


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E o povo, pá?!

Sorria, está a ser lixado!
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Diva de parede

Há papel de parede, jornais de parede, paredes meias e paredes inteiras. Antigamente fazia-se parede. Hoje, eu encontrei uma diva de parede.
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Acho uma ternura certas figuras que os humanos fazem por causa do amor. Podemos dizer que o que nos move é o dinheiro, são os interesses, a ambição, mas nada nos arranca a expressão mais sã, mais íntima e mais profunda como o faz o amor.
–
Riscam-se paredes por muitas razões: mensagens políticas, gritos de revolta, reclamações e outras que tais, mas esta que encontrei hoje em Torres Novas é uma pérola do sentimento amoroso na sua mais genuína e portentosa expressão. Houve um rapaz que cortou a noite e arriscou ser visto para que pudesse colocar o seu sentir numa parede torrejana e fê-lo de forma genial: ou seja, na constatação, para ele óbvia, de que tinha sido ela a sua DIVA desde o COMEÇO! Mai nada!
–
Isto merecia ser divulgado. Rapei do telemóvel e fiz a boa acção do dia, tirei-lhe a fotografia!
–
Ei-la!


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Vá lá, pá!

Vá lá, pá!

Ó pá,
Chega-te para cá,
Aquece-me estes pés.
Não sejas má!
Traz-me esse corpo esguio
E aquece este tipo frio.

Ó pá,
Deixa-te de cenas
Traz o edredão de penas
E vem aquecer-me já.

Ó pá,
Mas afinal onde andas tu?
Na via digital ou na minha cama?
Vê lá se não termina a semana
Sem te acariciar o corpo nu.

És porreira, pá,
És mesmo à maneira!
Tão gentil e graciosa
Que me despertas a brincadeira
Em tarde, de Domingo, ociosa.
E enches-me de emoção
Na exacta proporção
De um sorriso…
Ou de teus seios
Bailando na minha mão!

Ó pá,
Veste uma tanguinha, pá,
Assim, a espicaçar-me a curiosidade
E a expor à luz do dia
A maravilha
Da tua sensual idade!
Vá lá, não sejas tímida
E faz-me um sorriso convidativo,
Como quem chama para
O baile dos corpos festivo.

E fechamos as cortinas,
Trancamos as portas,
Viramos ao contrário
O quadro de Jesus
E acendemos a luz!

Vá lá, pá!

jpv