Curtas do Metro – A Chegada dos Veraneantes

A Chegada dos Veraneantes
Final de tarde de um dos primeiros dias de Primavera a sério. O sol brilhou todo o dia e ainda está intenso. Pela primeira vez este ano, os termómetros marcaram mais de 25º. Apesar disso, a temperatura geral ainda não subiu muito. Acontece que vivemos num país mediterrânico e estamos talhados para receber o sol. Assim que desponta, mudam-se atitudes, comportamentos e roupas. É todo um folclore.
Ao chegar à estação de Baixa/Chiado vindo do Cais do Sodré, mudo de plataforma para a direcção Santa Apolónia. Enquanto desço as escadas, sinto alguém atrás de mim pelo meu lado direito. Espreito pelo canto do olho e espanto-me ao ver umas pernas de homem nuas. E pareceram-me uns calções de banho, mas desconfiei. Afinal de contas, estávamos numa estação do Metro. Atrasei um bocadinho o passo. O rapaz passou por mim. Chinelos de enfiar no dedo, amarelos. Calções de banho, tipo bermudas, em azul e rosa bebé. Uma T-shirt cinzenta e, ao ombro, uma toalha de banho. Quando chegou à plataforma depois de descer as escadas, dirigiu-se para o longo banco de pedra, estendeu a toalha nele e deitou-se ao comprido como se estivesse a apanhar banhos de sol. A única diferença é que estava no túnel do metro!
Eu sei que a chegada da Primavera muda comportamentos, mas isto foi mais do que um comportamento a mudar, foi o sol primaveril a fritar cérebros, foi o anúncio oficial da chegada dos veraneantes!
jpv
Histórias do Autocarro 28 – Pitty

Pitty
8:55h. O 28 está cheio. Não cabe mais ninguém. Aparece o eléctrico 15. As pessoas vão entrando umas atrás das outras e depressa o espaço fica preenchido. No meio da turba entra uma moça jovem, cabelo escuro encaracolado, uma trela pela mão e na ponta dela um cão rafeiro de pêlo longo branco e preto. Ela ficou de pé. Ele teve o cuidado de ir deitar-se praticamente debaixo de um banco. Assentou o queixo no chão entre as patas e olhava para cima como quem não percebe o que está a passar-se, mas tem paciência para esperar porque a sua dona está ali. E confia.
Na paragem seguinte entra mais gente, com o pé, ela empurra-o ligeiramente e ele enfia-se todo debaixo do banco e continua, paciente, à espera. Tudo aquilo deve parecer-lhe agressivo. Um carro de gente muito alta, sons e ruídos inúmeros e ele junto ao chão, o espaço a fugir-lhe e ele paciente à espera, confiando o seu destino no meio da selva de pernas àquela que o guia. E não quer nada de volta. Enfim, talvez uma festa.
E fiquei contemplando aquela paz e aquela paciência e aquela confiança de estar, de se entregar nas mãos de outrem. E perguntei:
– Como se chama?
– Maria.
– Não, ele…
– Pitty.
– Como se escreve?
– P-i-t-t-y.
– Obrigado.
jpv
Futebol de Causas
Aqui se divulga uma iniciativa que nos parece a todos os títulos louvável e interessante como, de resto, o Cineclube de Santarém já nos habituou.Mais informação no blogue do CineClube de Santarém: http://cineclubesantarem.wordpress.com/
SINOPSE: O regime ditatorial vigente em Portugal, estendeu-se durante grande parte do século XX. Coimbra, como grande pólo universitário, viveu momentos de grande tensão e inconformismo, nos quais o seu movimento académico de grande mobilização e agitação, acabaram por desencadear e espoletar socialmente o espírito da necessidade colectiva de fazer cair o regime. Um dos principais meios de divulgação e propaganda dos estudantes e dos ideais revolucionários e reivindicativos académicos residiu na sua equipa de futebol, a Associação Académica de Coimbra, como forma de fazer chegar a mensagem e consciencializar o maior número de pessoas. A Académica transformou-se numa bandeira viva da luta estudantil e deu voz ao acordar de um povo, sendo o seu ‘toque a reunir’. Foi de resto com o luto académico, em plena ‘crise de 69’, que se viveu o ponto mais alto da posição de força estudantil com a presença da Académica na final da Taça de Portugal, na qual os jogadores, também eles estudantes e parte activa na militância da causa estudantil, aderiram ao projecto, tornando aquela final no Estádio Nacional no maior comício de sempre contra o regime. Este documentário pretende mostrar o movimento estudantil e crises académicas pelo ponto de vista dos jogadores da Académica e a forma como estes contribuíram e se envolveram na luta enquanto estudantes e Homens. As figuras centrais do documentário serão concomitantemente os dirigentes estudantis e os jogadores da década de 60, directamente envolvidos no processo.
De Negro Vestida – LXXIV
Abandonar o Negro – XI
– Sabe, qualquer coisa na atitude da minha mãe a havia já denunciado. O cantarolar pela manhã, os jantares cada vez mais frequentes “com as amigas”, se é que me entende..
– Carolina, a mãe queria ter falado contigo, mas não tinha a certeza, quer dizer, não sabia ao certo no que isto ia dar…
– Mãezinha, não precisas dar-me satisfações, és tu a mãe, lembras-te?
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O Romance “De Negro Vestida” foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.
Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.
Obrigado pela vossa dedicação.
Setembro de 2013
João Paulo Videira
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Sons do meu Tempo
Bucólica Viagem
Suspensa está a Natureza
dos raios de Sol exuberantes,
porque só um véu de cinza
cobre os céus circundantes.
Ouvem-se, porém, suaves
chilreios e sopros de frescura
e eu viajo até às águas
dos ribeiros, sua brandura…
Saltitantes, ondeantes,
nas montanhas, nos pinhais!
Mas sem a alegria do Sol
até eu me sinto mole,
sem vontade, sem reacção,
ouvindo esta doce canção
da rola, do cuco, tão musicais,
e ainda muitas mais notas
dos passarinhos às voltas,
nas suas verdes catedrais.
É tão suave o ar que se espraia
e dilata por toda a paisagem
que trocava, para ir à praia,
meus afazeres pela viagem!
Tu Destruíste-me a Vida

Tu Destruíste-me a Vida
A acusação soou
E trouxe no eco da sua entoação
Um grito de desespero
Um prenúncio de destruição.
Fugiram-me as ideias para longe
Para o tempo de não ouvir-te dizer isto,
Mas perdi-me no caminho do reverso.
Assalta-me a questão fatal,
O anúncio do final:
Será capaz de olhar em frente
Quem não vê o fim do passado?
Quem não tem memória que valha ser lembrada,
Ainda tem pernas para a caminhada?
Há coisas que se não pensam,
E há coisas que se não dizem,
Porque ditas,
Ou pior, pensadas,
São barreiras levantadas,
Fendas abertas nas estradas,
Cortes que não ardem nem sangram.
Apenas doem e secam.
Tu destruíste-me a vida!
Não há homem, nem mulher,
Capaz de viver
Com o peso desta acusação!
É demasiada a força,
É demasiado o peso,
Da destruição.
jpv



