Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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"Com Amor," – Documento 5

Olá,

eu nunca disse que precisavas de um homem. O que eu disse foi que tinhas um problema de carência afectiva. Disse também que uma companhia podia ajudar-te a resolver esse problema e disse também que precisavas de amar. O que, afinal, vens agora reconhecer.

Sabes, eu não tenho tempo a perder. Tenho 46 anos, o tempo foge-me por entre os dedos e não quero mais desperdiçá-lo. O que tenho para dizer, digo. O que tenho para fazer, faço. Não se trata só de atrevimento, embora haja algum, trata-se, sobretudo, de viver. Disseste que o Amor era a tua religião. Pois bem, a minha é a Vida!

Outro Beijo
Rui.

PS: Vê lá se fazes as pazes com Deus. Deus, tal como o Amor, não nos abandona. Por vezes, nós é que nos fechamos a Ele, tal como ao Amor!


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"Com Amor," – Documento 4

Rui,

Estou de volta. Pensei muito antes de escrever-te de novo, sobretudo porque se passou muito tempo. Mais de dois meses. O meu último mail foi uma reacção firme e intempestiva à forma como tinhas terminado o teu com um “Beijo”. Pensei logo que era o teu imparável atrevimento. Depois comecei a pensar que podia tratar-se só da coloquialidade de um beijo naturalmente oferecido, ou mesmo de uma simples forma de terminar um mail. Se foi isso, peço desculpa.

Acho que nós gostámos um do outro, penso até que criámos alguma admiração mútua, mas a partir do momento em que disseste que eu precisava de um homem, tudo se precipitou numa vertigem de agressividade em torno das nossas diferenças. Atrevo-me a escrever-te para que retomemos o processo de conhecimento mútuo, amizade, talvez, pela exploração do que nos une e atrevo-me a dar o primeiro passo.

Rui, de tudo que disseste, houve uma coisa em que estavas certo e preciso reconhecer-to. A minha honestidade e a minha integridade a isso me obrigam. Eu sou, de facto, uma mulher com urgência de amar! O amor é a minha religião, Rui, não tenho outra, não creio noutra. Em tempos, sim… mas isso são histórias antigas. Acontece que Deus abandonou-me, ou então esqueceu-se de mim… e eu tive de reinventar a fé. A minha fé é o amor, Rui. Mas isso não quer dizer que eu precise de um homem.

Espero que respondas.
Verónica.


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O Clã do Comboio – Diversidades

Diversidades

Hoje foi um dia marcado pela diversidade no Clã do Comboio.
Antes de mais, regressou a Estranha e o seu misterioso e lindíssimo porte.
Depois, logo às 7:18, assim que entrámos, um puto pequeno e reguila começou uma conversa daquelas em que vai sempre perguntando “O que é isto?” e “Porquê?” e não deixou ninguém dormir em paz.
Em Santarém, entraram dois dos três amigos que querem salvar o mundo e, pensei eu, iriam acabar com o pouco sossego que já lá ia. Enganei-me. Eles fizeram a parte deles. Falaram alto, meteram-se comigo, atiraram indirectas à Mulher Vampiro. Enfim, um reboliço pegado donde destaco duas tiradas. Primeiro entre o RB e o VM e depois uma provocação que o VM fez ao Escritor.
Vejamos:
RB: Vivemos nas trevas da ignorância.
VM: Eu conheço é as terras do Demo.
E passados uns minutos:
VM: Já leste “A inabalável leveza do ser”?
Escritor: “Insustentável”.
VM: Era só para te ouvir corrigir-me!
Ora, quando a coisa estava a sossegar porque o reportório de conhecimento inútil estava temporariamente esgotado, toca um telefone de um moço que ia ali ao mesmo lado que tinha um toque no mínimo… curioso. Era um riso, à gargalhada, de um cachopo. Então se aquilo tocava muito. Muito e alto!
Às 18:18, a Mulher Vampiro estava com uma roupas inusitadamente claras, brancos e cinzentos leves e, como a essa hora já acordou, vinha faladora e foi por isso que resolveu apresentar-me uma reclamação por usurpação. O facto é que o seu tradicional banco vinha ocupado por um jovem de portátil no colo e phones nos ouvidos. Culpa da CP que ainda lá não colocou a chapinha aqui solicitada.
Enfim, sem ter nada de especial, foi um dia de diversidades no Clã!


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Curtas do Metro – "Sandui-Chita"

“Sandui-Chita”

Não é bem uma curta do Metro. É mais à porta do Metro.
E também não é uma história. É só um apontamento.

Na estação do Cais do Sodré há um pequeno bar, daqueles feitos em materiais pré-fabricados, fica ali na confluência da saída do comboio, do barco e das escadas rolantes do Metro. Conclusão: tem muito boa frequência. Servem cafés, meias-de-leite, galões, bolos, sandes, croissans, chás, enfim, pequenos-almoços e refeições ligeiras. Chama-se “Sandui-Chita“.

Em Lisboa deve haver centenas de pequenos bares destes o que não justifica esta curta do Metro. O que a justifica então? Dois aspectos. A eficiência das senhoras que servem e a extrema simpatia do senhor que está na caixa. Ele é daquelas pessoas que marca a diferença porque faz das pequenas coisas, coisas especiais. Uma pessoa chega ali pouco depois das 8:30 da manhã, pede um café duplo e uma merenda, ele tem dúzias de merendas num tabuleiro, todas quentinhas porque acabadas de fazer, mas é bem capaz de dizer “Sai um café duplo e uma merenda quentinha bem especial para este senhor que está cheio de fome!” E aquela merenda deixa de ser mais uma em vinte e passa a ser a especial merenda quentinha. Tenho reparado que, das pessoas de circunstância, ele vai observando os hábitos de consumo das que lá vão passando mais vezes e quando faz os pedidos invoca a particularidade de cada um. Ora, no meio da turba de milhares de pessoas que chegam, que partem, que passam, nós deixamos de ser mais um e passamos a ser aquele, o tal, o da merenda especial.

Esta atenção e este cuidado merecem uma referência neste cantinho. Porquê? Óbvio. Porque vivemos tempos de impessoalidade e agressividade e no “Sandui-Chita” somos todos especiais e com especial simpatia tratados! Com merendas quentinhas!

jpv


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Curtas do Metro – Separados

Separados

18:01h. Estação do Cais do Sodré na direcção Santa Apolónia.
O Metro está parado fazendo um compasso de espera antes de se pôr em marcha. Está cheio. Não cabe nem mais uma pessoa. Ou melhor, vai caber mais uma. Duas é que não. Chegou um jovem casal de namorados, a rondar os 17, 18 anos. Ele entra, o alarme de fechamento de portas soa, ela não entra, ele estende-lhe a mão, ela estende-lhe a mão, depois encolhe-a, ela não entra, seria difícil, mas não impossível, ele não sai.

E é isto que eu não percebo. Isto e o que se passou a seguir.

Ela acenou-lhe e fez uma cara triste. Ele acenou-lhe e riu-se. Mas, afinal, o tipo estava a rir-se de quê?

jpv


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O Regresso da Estranha

O Regresso da Estranha

Sabes, o teu regresso
Não foi inesperado.
Um homem sabe
Que volta sempre
O sorriso anunciado.
E que trouxesses
Alguma surpresa,
Disso, não tinha a certeza.
Só sabia que vinhas.
E acordaste o que estava
Adormecido.
Um sentimento longínquo,
Mas não perdido.
Uma incerteza, talvez.
Era a natural ânsia
De ver-te sorrir outra vez.
E houve vida em mim.
Cantaram meus anjos,
Dançaram meus demónios
E todos se juntaram
Na comunhão de ti.
Tu, que não me conheces,
Mas a quem eu vi,
Regressaste.
E o teu regresso
Foi meu mudo sucesso.

jpv


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"Com Amor," – Documento 3

Olha lá, mas tu achas que eu não te topo?

Beijo? Mas que beijo? Beijo a quem ou de quem?

Mas que petulância!

Verónica


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"Com Amor," – Documento 2

Olá Verónica,

Peço perdão pelo “olá”. Depois do teu e-mail não sei se é muito atrevido.

As mulheres são para mim, sempre foram, um universo fascinante, Repara, tu pudeste dizer-me tudo o que pensavas, pudeste chamar-me infantil, atrevido e intrometido. Só retive estas. E, para ti, tudo isso se inscreve no âmbito da frontalidade. Perfeitamente lícito, portanto. E para que usaste a tua frontalidade? Para criticar a minha!

Ora, analisemos. Quem éramos nós? Dois desconhecidos que têm em comum o mesmo trabalho e se conheceram num evento social. Comungámos o mesmo espaço durante alguns dias, trocámos ideias, partilhámos visões da profissão, da sociedade e até da forma de estar na vida. Até aqui tudo bem. e quando erro eu? Quando te digo aquilo que penso em relação a ti. E, que fique claro, não retiro o que disse. Eu acho mesmo que tu és uma mulher muitíssimo bonita, mas também acho que tens um evidente, gritante, problema afectivo e esse problema chama-se carência. E essa carência resolve-se com companhia. E é nesse contexto que te digo que deves arranjar um namorado. Nem sequer me ofereci para preencher a vaga. Não podia fazê-lo. Mas isso não anula o facto de haver uma vaga no teu coração. E, sim, precisas fazer amor. Uma mulher com a tua urgência de amar, precisa de amar em todas as frentes e amar um homem é só uma dessas frentes.

Talvez este seja o nosso último e-mail. Não acredito que me respondas, mas, cara Verónica, arranja um homem!

Beijo
Rui


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"Com Amor," – Documento 1

Olá Rui,

Escrevo-te, obviamente, por causa do que aconteceu ontem. Vais permitir-me duas coisas; que te trate por tu e que seja absolutamente franca.

Estava longe de imaginar que ainda houvessem homens tão infantis, tão atrevidos e, claro, tão intrometidos.

O facto de sermos colegas de trabalho não te dá, não pode dar-te, o direito de fazeres observações acerca da vida dos outros sem qualquer conhecimento de causa, dos assuntos e, sobretudo, sem que te fosse dada qualquer confiança para o efeito. Eu não te conhecia. Este evento, como tantas vezes acontece, permitiu que colegas que trabalham distantes pudessem conhecer-se, trocar experiências e ideias. Não tenho qualquer dúvida de que serás um bom profissional, mas não tenho dúvida nenhuma, também, de que precisas crescer. Se, eventualmente, pensas que um homem conquista uma mulher só com atrevimento, então deixa-me dizer-te que não conheces as mulheres. Enfim, nem sei se o que pretendias era conquistar o que quer que fosse. A minha atenção conquistaste. O meu respeito não.

Passa bem.

Verónica Gomes


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"Com Amor," está quase.

“Mails para a minha Irmã” começa esta noite a publicação de “Com Amor,” o novo projecto de escrita.
Ao contrário do que é costume, a numeração das publicações não será por capítulos, mas por documentos. Relembro que este projecto consiste na publicação de cartas e e-mails de carácter íntimo donde deverá emergir a trama.
A publicação dos textos foi autorizada, bem como os endereços de correio electrónico.
Boas Leituras!