Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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O Clã do Comboio – O Sorriso Enigmático

O Sorriso Enigmático

Era tarde, quase 20h. Estava junto ao comboio olhando o vazio, descansando de um dia intenso, à espera de entrar. Fora um daqueles dias de tarefas inúmeras e infindáveis. De emoções fortes e contraditórias. Saudade, tristeza, alegria, entusiasmo, solidão. Uma profunda e inexplicável solidão. Como tinha, nesse dia, uma reunião de tom um pouco mais formal, de manhã saí de casa com um fato cinzento, uma camisa azul-clara e uma gravata azul-escura. E foi com esse fato-macaco que venci as tarefas e naveguei as emoções. E quando parei junto à carruagem, antes de entrar, foi para olhar a estação sob uma outra perspetiva. A de terminar. A de partir. A de mudar.

E foi então que ele apareceu. Teria cerca de setenta anos, cabelo branco, pouco, um polo castanho de manga curta, calças de ganga e sacos do supermercado antigos e usados, cheios de não sei o quê, em ambas as mãos. E começou a olhar para mim. Olhei de volta e desolhei. Um curioso, pensei. Mas quando voltei a olhar para ele, ele continuava a olhar para mim insistentemente e a sorrir como quem tenta descobrir alguma coisa. E não parava de olhar para mim com aquele sorriso enigmático enfiado na cara. E foi por isso que fiz a pergunta que fiz e obtive como resposta uma outra pergunta e foi essa outra que me fez registar o episódio:

– Boa tarde. O senhor deseja alguma coisa?
– Você por acaso não é revisor?

E pronto. Um sorriso. Um, Não sou não senhor e a vontade secreta de nunca mais vestir aquele fato com aquela camisa. Não tenho nada contra os revisores, pelo contrário. Só não sou um!

jpv


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Por causa dA Dívida – XI

Por causa dA Dívida – XI

– Autor? Sr. João? Está a ouvir-me?
– Sim, estou aqui. O que me queres?
– É assim Sr. João: o Marinho ficou a trabalhar tarde hoje e eu aborreço-me aqui sozinha em casa. Então pensei que talvez o autor quisesse vir aqui … ter comigo … fazer-me companhia…

– Está parva ou quê? Onde é que já se viu um autor juntar-se com as suas personagens?
– Em muito lado. Além do mais, é bem comum a ideia dos autores se reverem nas suas personagens.
– Pois, mas eu não me revejo em si nem no parvo do seu marido. Esta história foi um erro meu e da Dulce. O vosso destino é o caixote do lixo.
– Meu Deus! Tão drástico! Se tenho estas formas e esta malandrice, a si o devo. E, além do mais, se me matar, morre também um pedaço de si…
– Bem visto, a Belinha não costuma fazer sentido, mas tem aí um argumento de peso.
– Vamos discuti-lo num jantar… Vá lá…
– OK. Amanhã, num local público.
– Combinado.

Era um restaurante agradável que, sem ser de luxo extremo, tinha as condições ideais para que, sendo uma refeição pública, fosse privada também. Como o autor é ribatejano, foram jantar ao Remédio D’Alma, em Constância, Vila Poema. Havia velas e um frappé junto à mesa com uma garrafa de champanhe. Ele foi de fato cinzento e camisa azul-clara. Ela levava um vestido encarnado cereja, colado às formas sensuais do corpo e um decote até ao umbigo num V imenso a convidar o olhar. E ela convidou o olhar e ele conteve-se. Conversaram sobre esta história e ela terá argumentado que o João e a Dulce tinham de a continuar porque essa seria a única forma das personagens viverem. João, o autor, criticou-lhe o caráter, assim como o de Mário e disse-lhe que estava determinado a pôr um fim a tudo. Foi uma refeição agradável, pautada por uma conversa tranquila e suave e muita sensualidade no ar. João, o autor, só pensava que a Dulce o havia metido num lindo sarilho e Belinha tentava seduzi-lo até que arriscou:

– João, eu fiquei hospedada na Quinta de Santa Bárbara para não voltar hoje a Lisboa… é muito acolhedor. Aceita um chá na Quinta?
– Está louca? Acha que quero alguma coisa consigo?
– Não está a entender. A ideia é conversarmos com o Mário e tentarmos resolver isto entre os três. Não é um passe amoroso, são negócios…
– Não tenho mais nada a dizer-lhe a ele do que lhe disse a si.
– Pois, mas quem sabe, entre homens, conseguem resolver este impasse.
– Enfim, quem já veio até aqui…

– Belinha, não está aqui o Mário.
– Esperemos um pouco. Deve estar a chegar. Olhe, vou fazer um chá para mim. São tão simpáticos, põem estas cafeteiras com as saquetas… Também quer para si?
– Pode ser…

– Mário, Mário, venha cá, querido, o JP já dorme que nem um anjo…
– Belinha, a menina é um génio. Esta ideia de o sedar com o chá foi brilhante… Como é que despejou o pó?
– O pacotinho de açúcar, Marinho, não tinha açúcar…
– Hahaha! Sua malvada brilhante. Então e agora?
– Agora pegamos no caderno dele e escrevemos o capítulo XI de “Por causa dA Dívida” de forma a assegurar o nosso futuro.
– Belinha, aí é que eu tenho as minhas reservas… Ele vai estranhar a caligrafia, o estilo, não se vai lembrar de o ter escrito…
– Marinho, vocês, homens, são uns inúteis. Então acha que eu não pensei nisso? Vá ao carro buscar a máquina fotográfica, a Polaroid que cospe as fotos no momento. Está no porta-bagagem.
– Para quê?
– Deixe-se de perguntas e faça o que eu digo.

– Belinha, nem acredito no que estou a ver. A menina está nua, completamente nua! E se o JP acorda?
– Não acorda nada. Eu dei-lhe dose de cavalo. Vá, ajude-me a despi-lo.
– A quê?! A Belinha enlouqueceu?!
– Deixe-se de parvoíces e faça o que eu digo! Vá, ajude aí a tirar os sapatos, as calças, cuequinhas, olha, tem o Diabo da Tasmânia nas cuecas, isto seria promissor… a camisa…
– Ai Belinha, a menina intriga-me. Então e agora?
– Agora eu vou deitar-me ao pé do nosso autor, abraço-o, ponho as mãos em sítios… quentes…
– Belinha!
– Cale-se! Não podem ser só sacrifícios, também tem de haver algum prazer. Vá, tire lá as fotos. Assim, assim, sim, assim também…
– Belinha, a menina está a… tem mesmo de pôr aí a mão?
– Cale-se! É pela nossa sobrevivência… vá, tire as fotos.
– Então e agora?
– Agora colocamos três fotografias destas aqui no caderno do senhor autor João Paulo Videira e escrevemos assim: “Senhor autor, andou em grandes noitadas e muito bem acompanhádo. Acha que esta sua escaldante escapadéla se pode turnar pública? É melhor não! Para que tal não acontessa, basta que publique o capítolo XI de “Por causa dA Dívida” que lhe deixamos aqui escrito no seu caderninho…”
– Belinha, isso é terrível, até deve ser crime!
– Deixe de ser parvo! Quem é que ia condenar uma personagem de uma história? Vá, vamos lá escrever o capítulo, vamos lá salvar as nossas vidas. Já sabe, quero ser rica. Isto vai ser assim, eu dito, o Marinho escreve.

Por causa dA Dívida – XI

– Autor? Sr. João? Está a ouvir-me?
– Sim, estou aqui. O que me queres?
– É assim Sr. João: o Marinho ficou a trabalhar tarde hoje e eu aborreço-me aqui sozinha em casa. Então pensei que talvez o autor quisesse vir aqui … ter comigo … fazer-me companhia…
– Claro que sim, quem podria rezistir aos seus incantos…
– Sabe caro e doçe autor é muito sensoal… deiche cá ver o mosculo… é firme!
– Belinha, você é uma Deuza… vou fazer de si uma princeza.
– Isso é que é falar.
E fizeram amor tórrido em caza dela e João Paulo sintiu-se tão apaichonado que lhe oferesseu um anel de brilhantes no dia seguinte. Belinha, avessa ao jogo, sintiu-se inspirada e jogou no euromilhões e saiu-lhe uma fortuna e Marinho pagou as dívidas e suburnou uns policias para apagarem os rastos dos seus pecados fiscais e hoje vivem nas Maldivas num chalé com vista para o mar e de vês em quando mandam um pustal ao seu amado autor.

— FIM —

– Dulce…
– Sim, JP…
– Preciso contar-te uma coisa…
– Força, amigo! Pareces preocupado. O que se passa?
– Nem vais acreditar, Dulce, nem vais acreditar… estamos metidos numa bela alhada.

jpv


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Voz

Voz

Tem seda, a voz,
E um esgar de rouquidão
Que é sempre mais bonito,
O perfeito,
Com um traço de imperfeição.
E transporta tons
De sensualidade
E malandrice anunciada,
Pode ser séria e grave,
Ou rebentar
Numa gargalhada.
Tem promessas
E tem melodia.
Pinta palavras antigas
E desenha quadros
De sintonia.

É uma voz que vem de dentro
E preenche o espaço em volta.
É uma voz que prende
E é uma voz que solta.

E tem sexo e desejo,
Tem movimentos sensuais.
Tem o amor num gotejo
De palavras ideais.
E incita.
E motiva.
E conduz.
E cativa.

É um instrumento
De trabalho
E de amor.
E solta a cada momento
Uma força e um clamor.
Vive nela
Uma vida
Em pujança
E em emoção.
A minha voz traça sempre a dança
Da libertação.

E é com ela
Que me zango.
E é com ela
Que amo.
E é com ela
Que me entristeço.
E é com ela
Que me alegro.
É com a minha
Dolente e triste voz
Que me faço.

E dou,
Como num ritual antigo,
Um jogo de risco
E de perigo,
Ao mundo
A minha forma
Em palavras fundida.
É com a minha voz
Que escrevo a vida.

jpv


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Os Destemidos – Seremos Campeões

Vote aqui:
760 101 004

A Mana que dá nome a este blogue a que os leitores dedicam alguns momentos por dia, candidatou-se com um grupo de colegas e alunos ao concurso da RTP1, Canta Portugal, para escolha do Hino da Seleção Nacional de Futebol durante o Euro 2012.

O projeto é muito interessante porque não é individual. Trata-se de uma canção cuja música é da autoria dos Técnicos Superiores da Câmara Municipal da Lousã que são responsáveis pelas Atividades de Enriquecimeto Curricular e cuja letra foi construída em conjunto por esses técnicos e as crianças que as cantam, ou seja, cerca de 70 jovens do 1º e 2º Ciclo do Ensino Básico. Chamam-se “Os Destemidos” e cantam “Seremos Campeões”.

É uma melodia que fica no ouvido e uma letra simples mas exortativa que apetece trautear. De resto, quem pode esquecer as palavras:

Seremos Campeões
Entre todas as nações,
Pooooortugal!

Para que possa ajudar a ser este o hino da nossa seleção, basta ligar 760 101 004 e o voto fica automaticamente registado. Os custos são os do costume (0,60€ + IVA).

Pode ver os miúdos da Lousã em ação no canal 1 da RTP e, já agora, fica aqui um cheirinho:



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BRIIIOOOOOSA!

Por motivos de trabalho, não tive oportunidade de ver a Final da Taça de Portugal – 2012. Nem tão pouco, ainda, de saborear a vitória da Académica.

A Briosa não é um clube. É uma ideia. Uma ideia coletiva de superação, de fazer as coisas bem feitas, de constituir exemplo, de passar no exame oral, de ter uma família do tamanho de uma cidade.

A Briosa é uma devoção, um carinho, um sentir irmanado e cúmplice, é uma cidade inteira.

E não ganha muito, mas sabe ser especial quando ganha. De resto, ser da Briosa não é só ganhar, muitas vezes basta jogar bem, de forma empenhada e delineada e esse sabor de ver as camisolas negras a desenhar bom futebol sobre o relvado é já uma alegria. Claro que, quando a isso se junta uma vitória, é a receita perfeita.

No passado domingo, pelo que vi do resumo, o jogo teve tudo. Lances de perigo, grandes falhanços, emoção, sofrimento e uma festa linda no final. Hoje, um amigo disse-me ao telefone, João, quando o jogo acabou começámos a chorar como crianças! Se não fosse o trabalho, teria lá estado em corpo. Assim, estive em espírito. Estava num avião quando me telefonaram a dizer o resultado final e eu gritei sem vergonha nem pudores em pleno voo:

BRIIIOOOOOOSA!


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Quotation of the Wise Words



“If you aren’t in bed by 10, come home!”






OG’s Grandmother


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The Dark Sweet Cherry Bunch

The Dark Sweet Cherry Bunch

A bunch of guys. Well, actually, it’s three guys and a girl. The leader on joyful mood is, undoubtedly, the Short Secret Agent, aka, SSA. He’s secret because he’s short and he’s got some of the secret agents’ weird stuff and gadgets. For instance, he had a surgery on his eyes to have some technical implants that allow him to see through women’s clothes. Nevertheless, he keeps wearing glasses. We suspect that’s a secret disguise. He’s closely followed by the Sweet Cherry. She’s from a distant civilization, never stops running and her main goal is to find the starting point. Who can understand this? Nobody sane. That’s why in The Dark Sweet Cherry Bunch we all understand her very well. She’s athletic and does all the hard work in the group like turning short things into long ones. She’s quite elegant and has all the beauty in the group. Her gadget is the sweet cherry that’s why we call her Sweet Cherry. We really don’t know what she uses it for, but we suspect it’s for hunting. She’s facing a huge problem now because in a moment of urge and madness, ASS ate her cherry. It was in front of us and he kept mumbling Hmmmm, hmmmm, hmmmm… We believe he was kind of hallucinated. Than we have The Gentleman. He’s very useful for he has this exterior respectful aspect and people really think he’s serious. So, when we need to order a glass of wine, or a beer, or a small meal, bunch people don’t eat much, he’s the one who does the job because people listen to him. Well, he also makes intelligent remarks during a conversation and he speaks English with French accent not being one or the other which is perfect for a bunch of Dark Sweet Cherries. And than we have the south mediterranean loud talking laughing guy, aka, Man. We call him Man because when addressing to him we always start by Man… He does a nice job on arriving late to important events which makes the group noticed, he distracts the enemy, when the enemy is trying to work during meals, by saying meaningless stuff very loud. Some of the group members are experiencing hearing problems… he drives them depth!

At the last gathering in between work they had several important things to do on behalf of Mankind. They had dinner together, discussed wine quality and quantity, drunk some, they had a laughter, well, several laughters, they heated Sweet Cherry’s sweet cherry and than they ate it. They tried the kiss approach but they weren’t finish, they were polish! At least for some days. They had a night walk, a lunch together in a very cosy environment, they inspected the Cathedral Island and sang Tina Turner’s last hit: “Wroclaw’s got to do with it”. There was some street dancing involved and also some groom hand-shaking and bride kissing. Everything ended up on a mixed session of Opera and football. A cultural option  that only the special people from The Dark Sweet Cherry Bunch can appreciate. And they passed through their biggest probation since ever: they listened polish on pedagogika nauczyciele program for five hours in a row… managed to survive though!
The mission is over and the Dark Sweet Cherry Bunch is ready for the next… cherry. Cheers!

Man


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La poésie et le poète

La poésie et le poète

Elles passent
Toutes à la fois
Et aucune
T’amène près de moi.

Elles passent…
Laisse-les passer.
Tant qu’elles passent
Je vis pour t’aimer.

Elles passent
Et je ne sais pourquoi.
Tant qu’elles passent
Point je ne te vois.

Je te touche
Avec un mot,
Avec mes mains.
Je t’attends pendant la nuit
Jusqu’au sourire du matin.
Mais tu n’es pas là
Et ça ne me suffit,
Je te voudrais dans mes bras,
Mes mains…
Mon lit.

L’histoire n’est point complète.
Il faut encore dire
Que toi… tu es la poésie
Et moi, je suis le poète.
Il faut dire que je t’accueille
Dans mon cœur.
Ça, c’est sûr,
Je t’étreins dans mon âme.
Ça, c’est l’amour.

jpv


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Quotation of Memory

“My hands never will forget yours.”
Da Net


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De Porto em Porto – Outra vez Munique

20 de maio – Aeroporto de Munique – 15:33

Apesar de pequenino, o aeroporto de Wroclaw mostrou-se muito funcional e tem, de facto, um design fantástico.
Trago na bagagem o sentido do dever cumprido. Uma contribuicao ativa e dignificante do meu país e do Ministério da Educacao. Nao seria capaz de fazer outra coisa. Trago também a inestimável consideracao que me foi manifestada em termos humanos e profissionais pelos colegas da ENTEP e do Conselho da Europa. Ou seja, no regrets.
Tenho saudades da minha casa e da minha malta. Caes incluídos.

Mas a razao porque escrevo este texto é mais engracada. Finalmente, ao cabo de muitas viagens de trabalho e lazer ao longo dos anos, calhou-me voar numa Moulinex. O Otmär é que os batizou. Sao uns avioes para pequenos trajetos, muito pequeninos e que, mesmo que sejam a jato, duvido, tem umas hélices por baixo das quais vamos sentados. Aquilo faz um barulho ensurdecedor e é tudo tao pequenino que se torna desconfortável. O trem de aterragem nao é por baixo do aviao. De cada asa sai uma roda, o que é esquisito, mas o certo é que a aterragem foi perfeita.
E agora estou fazendo tempo e a pensar na minha cama que quase nao aquecerei…

jpv
Nota: texto escrito em teclado alemao, daí algumas falhas, a saber, cedilhas, acentos circunflexos e til…