Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Os Teus Olhos

Os Teus Olhos

Os teus olhos
Contam histórias incontáveis.
Bailam neles
Mistérios improváveis,
Traços de sã loucura,
Luas de ternura
E sóis de paixão.
Cabe nos teus olhos
Toda a emoção
De uma surpresa.
A intensa
Chama acesa
De uma palavra
Que se adivinha
Mas se não diz.
O ar reguila e traquina
De um petiz
Que sorri
Depois de roubada
A maçã e dobrada a esquina…
Sem pecado.
Os teus olhos
Contam histórias incontáveis
Sem ninguém
As ter narrado.

jpv


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Mãe

Mãe

Tens na voz
Um tom suave
De ternura
Que me diz
Viver em nós
Um sentimento sem fratura.
Aceitas para mim
A minha vida
Como se fosse tua.
Entregas perdida
Na minha decisão
A tua alma nua.
E sofres baixinho
Para não me incomodar,
Como se o teu carinho
Pudesse estorvar.
Tens gestos
E cuidados mil,
E tens, como ninguém,
A bater-te no peito
Um coração de Mãe.

Sossega…
Não há tormenta
Nem tempestade
Que nos ameace.
Passe o que passar,
Não há humano evento
Capaz de desatar
Este enlace
De Amor.
Nasci de ti,
Em dias de felicidade
Desmedida.
Vives em mim
Os dias todos
Da mesma vida.

Sossega, Mãe…
Não deixes que a tua voz
Perca o cristalino e a alegria
Com que me disseste um dia
Que tudo correria bem.
E eram lei as tuas palavras.
Lei sagrada,
Gravada em certezas de Mãe.

jpv


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Por causa dA Dívida – XVI

Caros leitores,

Num estilo muito Agatha Christie, Dulce Morais acaba de limpar o cebo a uma personagem da mais louca Blogonovela da Web e depois pira-se de mansinho e deixa-me com o cadáver nas mãos! Em breve, muito breve, publicarei um surpreendente penúltimo capítulo. Para já vamos todos ao Crazy 40 Blog ler o Capítulo XVI de “Por causa dA Dívida”.


Boas leituras!


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Conversas Vadias – O Pecador

Conversas Vadias – O Pecador

Duas senhoras conversando numa mercearia em ambiente rural:

– Olhe, já lá vem.
– Pois vem…
– Não está melhor?
– Melhor? À noite, quando chega a casa já leva uma bebedeira de caixão à cova, mas logo pela manhã vai para o café..
– Ai é?
– Então pois, para onde é que acha que vai a esta hora?

Como era cedo, ainda não eram nove da manhã, espreitei lá para fora a ver se identificava o pecador, mas a única pessoa que passou foi uma velhinha muito velhinha, mais de noventa anos, agarrada a um andarilho dando um passo arrastado de cada vez. Como nunca mais passava o pecador, espreitei um pouco mais. Foi então que uma das senhoras me disse:

– É ela, é!

jpv


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Conversas Vadias – Alegrias!

Conversas Vadias – Alegrias!

– Então o Padre M. vai estudar para Itália?
– Ele não vai estudar, ele vai para lá porque tem lá a família. Os padres também são seres humanos.
– Pois é. Era um santo na boca das pessoas quando chegou, mas agora…
– Agora há pessoas que precisavam de uma machada a dar-lhes na língua o dia inteiro. Falam do que não sabem. Ele é novo, pois está claro que convive com toda a gente, mas é normal que puxe mais para os da idade dele… as pessoas são muito más!
– Mas isso é gente lá da terra ou também são os de fora?
– São de lá e de fora, há pessoas que precisavam da língua toda cortada…
– E depois o Senhor Bispo mandou-o embora…
– Não foi o Senhor Bispo que o mandou embora, não comecem já a espalhar mais mentiras. Foi ele que pediu para ir…
– Que pena! Gostava tanto dele! Quando ele vinha aqui fazer um funeral era uma alegria!

jpv


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O Clã do Comboio – O Fim de um Ciclo

O Fim de um Ciclo

Está a chegar ao fim, na minha vida, a fase do Clã do Comboio. Penso que até ao final deste mês farei mais uma dúzia de viagens e depois termino um ciclo.

E trazia isto na cabeça pensando como fecharia, por agora, uma vez que nunca sabemos o que o futuro nos reserva, a secção deste maravilhoso Clã. E o Destino, ajudado por amigos inesquecíveis, trouxe-me o motivo perfeito para a 120ª história do Clã do Comboio.

Entrei, com a Rapariga do Brinco de Pérola, no regional das 18:48 para regressar a casa. Percorremos os seis minutos que separam Santa Apolónia do Oriente e aí entraram de forma inusitada e inesperada diversos amigos do Clã do Comboio, daqueles que animaram muitas destas crónicas no interregional das 7:18, daqueles que me proporcionaram verdadeiros momentos de companheirismo e cumplicidade.

Juntaram-se ao Escritor e à Rapariga com Brinco de Pérola, a Senhora da Revista de Culinária, a Senhora das Caralhotas e sua sensual e generosa amiga, o Rapaz do Fato Cinzento e ainda um Tipo Careca a que a Gente Chama Álvaro.

Revisitámos momentos em conjunto, dissemos as maluqueiras todas que havia para dizer, tirámos fotos uns aos outros e a algumas passageiras de invejável porte, incomodámos a senhora que ia a estudar o Código da Estrada e se riu connosco e rimos, rimos em conjunto, rimos uns com os outros e uns dos outros como sempre, saudavelmente, conseguimos fazer.

Há dois anos não nos conhecíamos e hoje já sinto uma saudade imensa por saber que não vou reencontrá-los aqui e ali no meu quotidiano. Reinventámos o prazer de nos deslocarmos para o trabalho e do trabalho. Festejámos a bordo, fizemos saídas rápidas às ginginhas e aos coiratos, almoços, jantares, lanches, fomos a feiras de gastronomia, a feiras, ao cinema, etc. etc. etc. Tem sido uma vivência partilhada nos melhores e nos piores momentos de cada um e de todos nós. Gostei de conhecer estas pessoas maravilhosas. Faria tudo de novo. E gosto de pensar em mim como o rastilho que provocou esta explosão de amizade. Mais nada. Depois, a responsabilidade foi de todos nós. Uma responsabilidade especial: a de mostrar o Ser Humano no seu melhor.

Para além das personagens de ocasião, recordo com emoção, como se escrevesse os créditos de um filme, um daqueles que ganha o Óscar:
A Mulher Vampiro
O Aluno do Escritor
A Rapariga do Riso Fácil
O Mano da Rapariga do Riso Fácil
A Prima da Rapariga do Riso Fácil
A Senhora da Provecta Idade
A Mamã das Duas Crianças
O Rapaz do Fato Cinzento
A Rapariga Com Brinco de Pérola
A Senhora da Revista de Culinária
O VM
O RB
A Esposa do RB
O JJ
O JA
A PL
O Senhor da Mala Térmica
A Senhora das Caralhotas e sua Sensual e Generosa Amiga
A Setôra
O Cunhado da Setôra
O Ceguinho
O Músico
O Américo
Um Tipo Careca a que a Gente Chama Álvaro
A Vê
A Rapariga das Palavras Fáceis
O Iago mais Velho
O Pequeno Iago
A Mana do Escritor
A Titi e Sua Excelsa Companhia

E tantos outros que nos fizeram companhia de forma breve, mas que, mesmo assim, ficaram nas nossas memórias. Sim, todos sabemos que houve pessoas que nos marcaram mesmo só com uma viagem… ainda me lembro de quando o VM se encolheu todo enquanto uma passageira lhe explicava como tinha esfaqueado uma batata a pensar no marido… livra!
De resto, as histórias do Clã do Comboio vão continuar a ser contadas pela Dulce Morais no Crazy 40 Blog na secção “O Clã do Comboio Segundo Dulce Morais”. Sim, isto não acaba aqui…

A todos, uma palavra de sincera amizade, uma nota da minha gratidão e um emocionado “Até já!”. A gente vê-se, não tarda nada, numa esquina da vida. Quanto mais não seja no lançamento… sim, estamos a pensar nisso!

Obrigado, amigos, muito obrigado!

jpv, o Escritor (também conhecido como o Explicador da Classe Operária!)
Excecionalmente e sem identificar ninguém, aqui ficam algumas imagens do Clã do Comboio


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Praia

Praia

Quando chegaste,
Parti de mim.
Nunca vira
O mundo assim.
De meu corpo exilado,
Navegante de ti
Nesse mar encapelado
De emoções,
Nesse triângulo das Bermudas
Onde os gestos
Me saem sôfregos
E as palavras mudas.
Perco o meu Norte
E a minha ambição,
Entrego o meu sopro
Na tua mão
E regresso.
Já retomo a consciência.
Já tenho de mim a ciência
E de ti a dádiva.
Andei perdido
Até achar-me no teu corpo,
Até perder-me
Para me reencontrar.
És minha costa,
Minha espera.
A firme rocha
Onde se abate meu mar.

jpv


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Ouvido de Passagem…

Duas senhoras e um homem à porta de um elevador. Uma delas fala:

“Entramos os três e vamos para o quarto.”

Hehe… em que piso? Pergunto eu!


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O Clã do Comboio – A Amy Winehouse de Riachos

A Amy Winehouse de Riachos

Vi-a durante todo o inverno, mas nunca lhe dirigi a palavra. Não havia motivos para isso. Não a conhecia, nunca fôramos apresentados e nada justificava que o fizesse só por que sim. Eu era só mais um trabalhador a apanhar o regional das 7:47 em Riachos para Santa Apolónia e ela era só mais uma moça com a pele muito alva a emergir da escuridão das roupas. Botas de tropa. Calças de ganga pretas. Blusa preta. Casaco de cabedal preto.

Um dia destes, porém, senti o impulso de dirigir-lhe a palavra e fiz bem em não resistir-lhe porque a resposta dela foi deveras interessante.

Eram 7:35. Fui beber um café e ela lá estava com uma amiga. Acontece que o dia amanhecera quente e abafado a prometer suores e a pedir menos roupa e mais corpo.

Ela tinha as mesmas botas pretas de tropa, as mesmas calças pretas de ganga, uma blusa preta com tiras de tule alternadas com tecido opaco, cabelo preto, liso e comprido, a face oblonga e muito alva e os olhos castanhos e rasgados marcados com um risco de lápis que os faziam parecer ainda mais rasgados. Acontece que a blusa era de cavas e permitia ver os braços na íntegra e nos braços é que estava a história de vida, a marca indelével da sua individualidade, aquilo que é, para mim, o reflexo de um traço de caráter.

Do ombro direito até quase ao cotovelo estende-se uma enorme tatuagem a ocupar-lhe quase todo o braço. É um complexo desenho de flores e ramagens entrelaçadas onde pontua uma palavra e duas violas cruzadas. No pulso do antebraço direito mais um complexo apontamento gravado a tinta. No braço esquerdo, junto ao ombro, a imagem de duas mulheres em jeito de pin-up girls e, nesse antebraço, uma inscrição em chinês.

Não sou muito bom a adivinhar idades, quer dizer, até me dizem que sou mas, para isso, tenho de conhecer minimamente as pessoas, o que não é o caso. Ainda assim, diria que a Amy Winehouse de Riachos tem entre 17 e 20 anos. E, com uma idade tão tenra, tão jovem, ter já assumido o compromisso de marcar e alterar o seu corpo para toda a vida parece-me de uma alma com grande determinação, muito segura de si, muito convicta das suas opções e foi por isso que perguntei o que perguntei. Não tanto pela resposta concreta, a do sim ou não, mas mais para perceber se essa determinação e essa força de caráter habitavam o corpo tatuado. Acho que a resposta dela foi inequívoca e fala por si:

– Essas tatuagens são permanentes?
– Mas porque é que toda a gente me pergunta o mesmo? Quando se faz uma tatuagem tem de ser para sempre, para toda a vida, se não for, não é uma tatuagem.

E pronto. Eis uma pessoa que na aurora da vida tem convicções para todo o caminho a percorrer. É raro na juventude, mas acho que é muito saudável. Falta este caráter ao nosso país. E a jovem Amy Winehouse de Riachos tem-no.

É muito interessante a semelhança física entre ela e a cantora falecida. Espero, sinceramente, que viva muitos mais anos, uma vida longa a passear pelo Universo a sua determinação e as suas tatuagens. As do corpo. E as da alma.

jpv


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Saudade que Fica

Já está!
Já tem novo dono!

Desejo ao novo proprietário tantos bons momentos quantos o Bronco me proporcionou a mim e à minha família.


Não sei como é que se agradece a um carro. Nunca tive de o fazer antes. Sei que fica a saudade da sua força. Da sua incapacidade de desistir, da forma como conversava comigo, da sua generosidade, das paisagens que nos levou a ver, do mato, da serra, da praia, das noites ao relento só com o céu por manto. Não foi um carro, foi um verdadeiro companheiro. Mas a vida espreita ali àquela esquina e a mudança anuncia-se.


Um LandRover Defender não é um carro. É um conceito. Uma forma de estar na vida. Hei de voltar!

jpv