Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Crónicas de Maledicência – Conchita Wurst: A Diferença Incomoda

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Crónicas de Maledicência – Conchita Wurst: A Diferença Incomoda

Conchita Wurst é uma moça austríaca que ganhou, este fim-de-semana, o Festival Eurovisão da Canção. E vai daí toda a gente, e quando digo toda a gente, refiro-me ao mundo inteiro, começou a falar dela.

Até aqui, aparentemente, tudo bem. Só aparentemente. É que ninguém, desse toda a gente, resolveu falar da canção, da voz da cantora, do mérito, ou não da vitória. Nada disso. O mundo inteiro concentrou-se na barba de Conchita. E isso deixou-me triste. Triste, porque eu às vezes deixo crescer a barba e ninguém fala dela. Triste, porque expurgamos todo o tipo de diferença sempre com o pressuposto de que “isto não é nada comigo”. Triste pelo exacerbado e desrespeitoso exercício de preconceito. Os seres humanos são corrosivamente preconceituosos e exercem essa mesquinharia sem o mínimo de critério. Basta que seja diferente. E, se for diferente, incomoda. Muitos, não sabem nada da moça. Viram uma foto, leram ou ouviram alguém a dizer mal e vai de fazer eco do preconceito.

Esteticamente, eu não gosto da opção. Acontece que isso não me dá o direito de ser desrespeitoso nem insultuoso. Eu próprio tenho diferenças e quero que as respeitem. Acho, por isso, que um bom caminho para respeitarem as minhas é respeitar as dos outros. Logo, podemos manifestar o nosso gosto por uma opção estética ou dizer que não gostamos. Destruir, por princípio, é preconceito primário.

De resto, quem somos nós, humanos, para criticar a diferença. Uma mulher de barba? Era o que faltava que isso fosse o mais incomum que vimos até hoje. Se vivemos com homens de longa cabeleira loira, se vivemos com negros de cabelo oxigenado, se vivemos com mulheres de cabeça rapada, e outras de cabeça tapada, se vivemos com homens e mulheres tatuados, com brincos, piercings por todo o corpo incluindo onde o prazer acaba e a vida começa, furos nas orelhas, no nariz, as roupas mais extraordinárias que se pode imaginar, unhas pintadas, caras maquilhadas, se convivemos com pessoas que usam brilhantes nos dentes e anéis nos dedos, se convivemos com pessoas que não usam nada disto e optam por uma gravata a sufocar o pescoço e um fato cinzento num dia de Verão, porque raio nos há de incomodar a barba da Conchita? Enquanto humanos, não temos autoridade moral para criticar a diferença pois é, ela mesma, um dos nossos principais traços comportamentais.

Enfim, criticar, criticar, só me apetece criticar o nome, Conchita. Sei lá, Conchita faz-me lembrar espanholas, touradas na Andaluzia, Malaguenhas com vestidos de roda às bolas vermelhas, castanholas e olés. A Conchita merecia um nome mais helénico. Digo eu.

Já quanto à canção, deixem-me dizer-vos que gostei bastante, tem um crescendo melódico muito bonito e a Conchita tem um vozeirão de fazer inveja. Olha, fazer inveja, será que… Enfim, para os Amigos e Leitores de MPMI poderem avaliar convenientemente, aqui ficam a canção e uma entrevista com a mais recente vencedora do Festival Eurovisão da Canção.

TenhoDito!
jpv


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Crónicas de África – Diferenças Profundas

Crónicas de África – Diferenças Profundas

Maputo, 15 de março de 2014

Quando se vem viver para África, Moçambique, no meu caso, muitas são as diferenças que se encontram e dessas diferenças fui dando notícia na minha escrita de estranhamento e pasmo a que dei o pouco original nome de “Crónicas de África”.

Há, mesmo, o hábito, qual desporto instituído, de comparar a vida, a nova vida, moçambicana, com a vida, a velha vida, portuguesa. E não há mal nenhum nisso. São só as pessoas a certificarem-se de que o estranhamento é comum e, como tal, está tudo bem ainda que diferente.

Ao cabo de um ano e meio de vida em Maputo, noto que os ritmos se vão interiorizando e as diferenças esbatendo porque me acomodo àquilo que inicialmente tanto estranhamento causou. Chama-se a isso adaptação.

Há, contudo, aspetos que continuo a estranhar e já sei que são diferentes e já toda a gente sabe que são diferentes e, mesmo assim, sempre que os presencio, sempre que me cruzo com eles, sinto aquela indefinida e familiar sensação de Isto não era assim. É desses aspetos que venho falar-vos. São as diferenças profundas.

As Cores do Verão
O meu verão português e europeu foi sempre seco e amarelo. As searas, as ervas secas, a vegetação moribunda, eram a paisagem. E, onde antes houvera água, deixara de a haver e a paisagem secara. Em África, o Verão é verdejante e húmido. Caem chuvadas torrenciais como se fosse inverno e essa água pródiga, abundante e ruidosa, de pingos largos e pesados, seca em minutos e dá lugar ao mesmo sol que lá estava há pouco. Ainda hoje estranho o facto de estarem trinta e muitos graus, um calor arrasador, e a paisagem ser verdejante e a chuva cair invernia.

A Temperatura da Água
Em Portugal, há duas razões por que evitamos apanhar uma chuvada no lombo. Ficarmos molhados e o gelo da água a incomodar a pele. Aqui, a água, qualquer água exceto a do frigorífico, é quente. Sempre que tenho de cruzar uma chuvada, encolho-me, como toda a gente faz, por causa do friozinho da água, e depois surpreendo-me. A água da chuva é tépida e, como tal, não é agressiva ao toque. Por outro lado, é tanta e tão cerrada que, tentar escapar a uma chuvada é uma tolice. Ao cabo de duas passadas, estamos molhados até às cuecas! Da mesma forma, quando olhamos as águas cristalinas de um rio, ou intensamente azuis do mar, pesamos duas vezes antes de entrar porque a água sempre é fria. Engano nosso. Isso é a realidade portuguesa. Por aqui, os rios e o mar não parecem vir de uma nascente, mas antes de uma longínqua caldeira e ainda trazem parte do calor originário. Molhar os pés é sempre uma surpresa agradável.

Os Rios Correm ao Contrário
Esta diferença pode parecer-vos esquisita. A mais esquisita. Acontece que estranho com frequência a direção dos rios. Eu bem sei que os rios correm todos, ou quase todos, para o mar, mas, ainda assim, o mar aqui está do outro lado! Eu explico… Quando vivemos em Portugal, se vamos para Norte, o mar fica à nossa esquerda, logo, os rios surgem da direita, e se vamos para Sul, o mar fica à direita, logo, os rios surgem da esquerda. Ora, como o mar, aqui, está do lado errado, os rios correm ao contrário. Quando vamos para Norte, o mar fica à nossa direita, logo, os rios surgem da esquerda, e se vamos para Sul, o mar fica à nossa esquerda, logo, os rios surgem da direita. Assim, quando vou a conduzir e me aparece um rio do lado contrário, fico sempre com a sensação de que vou a subir para baixo ou a descer para cima! Confuso? Naaa… Geografia pura!

A Rota do Sol
Que o sol nasce no mar e se põe em terra, habituamo-nos rapidamente. Estranha-se, mas entranha-se. O que custa mais a entranhar é por onde é que ele passa! É comum, andar de cabeça no ar à procura do sol. Em Portugal, até de olhos fechados sei de onde vem e para onde ele vai. Aqui, não consigo achá-lo e tenho esta sensação esquisita de que em Portugal ele me passa pela frente e em Moçambique me passa por trás! O Marco diz que aqui o sol faz um arco não sei das quantas. Sei lá se é um arco. Sei que ele nunca está onde era suposto estar, mesmo já incluindo o facto de andar sempre em marcha-atrás!

A Lei da Oferta e da Procura
Esta é das diferenças mais interessantes em termos culturais. E estranha-se sempre. A verdade é que nos habituámos, em Portugal, ao comodismo de termos o que pedimos e até a exigir o que queremos. Ou seja, de acordo com as regras do mercado, na lei da oferta e da procura, manda a procura. E isso gera expectabilidade e conforto. Pois os livros das leis do mercado, em Moçambique, têm de ser reescritos porquanto, na lei da oferta e da procura, manda a oferta!  Quero com isto dizer que, aqui, os consumidores também procuram, mas só compram o que procuram, se houver. Se não houver compram outra coisa! Não vale a pena habituarmo-nos a um certo sumo, uma determinada compota, um chocolate específico, um creme de barbear ou uma carne e a razão é simples, o facto de estar hoje no supermercado e ter sido consumido, não quer dizer que o produto vá ser reposto. Pode ser. Pode não ser. Há múltiplos fatores que fazem oscilar a fiabilidade da oferta, logo, a expectabilidade e o conforto só existem na seguinte medida: se hoje há o que querias, compra! Amanhã pode não haver, podem mesmo passar-se meses sem que seja reposto. Até já me aconteceu um episódio engraçado. Fui comprar um sumo de maçã ao supermercado e pedi sumo de maçã da marca xis a um funcionário porque não estava a encontrá-lo nas estantes. Ele apontou os sumos de maçã e disse, Está aí! Eu olhei, não vi o sumo e disse-lhe que não estava. Ele voltou a apontar e esclareceu com ar admirado, Quer sumo de maçã? Está aí sumo de maçã! E sorriu. Eu também e trouxe de outra marca.

Os Supermercados Mandam Menos
Uma coisa a que paulatinamente nos fomos habituando em Portugal e depois deixámos de estranhar é a ditadura dos supermercados em relação ao calendário. Em Portugal, são as grandes superfícies que decidem quando termina o verão e começa o regresso às aulas, quando chega o Natal, quando vem a Páscoa, o verão e depois as aulas outra vez. Aqui não. Primeiro, porque há muito poucos hipermercados. Depois, porque eles não têm uma presença tão vincada na vida das pessoas como em Portugal. Verdade, verdadinha, a festa aqui faz-se quando os moçambicanos querem e normalmente eles querem de oito em oito dias porque o fim-de-semana é um oásis. Além disso, datas já muito esbatidas em Portugal, são aqui motivo de celebração entusiasta. O dia da criança, dos namorados, da mulher e todos os feriados nacionais. As pessoas festejam o que querem, quando querem, quer os supermercados queiram, quer não.

Religião Vigente
Em Portugal, o Estado é laico e, não obstante a liberdade na escolha da religião que cada um quer professar, há, por razões culturais, uma evidente predominância da religião Católica. Isso nota-se na organização do calendário, nas celebrações, no discurso oficial e institucional. Em Moçambique nota-se que não se nota isso. Não sinto que haja uma religião vigente, não sinto que haja uma e as outras. Sinto que há diversas comunidades religiosas, todas muito vincadas, todas muito fortes, todas em natural e quase sempre harmoniosa cohabitação.

Caos e Boa Disposição
Nos últimos vinte meses, não me lembro de ter visto um moçambicano zangado, exaltado. Eles devem zangar-se como as outras pessoas todas, mas têm uma latente e constante boa disposição. E porque é que eu estranho? Sei lá, porque há situações do quotidiano, no trânsito, no supermercado, no banco, na polícia que seriam potencialmente de grande discussão em Portugal, dedo em riste, voz alterada, palavrão célere, e aqui vejo tudo isso ser tratado com muita contemplação e com muita paciência e sempre com um desconcertante sorriso. Certa altura, a minha mulher estava a dar um raspanete a um aluno e ele continuava a sorrir, vai daí ela disse-lhe que ele devia levar aquilo a sério e ele respondeu com o mesmo sorriso nos lábios, Eu levo a sério, setôra, eu sou mesmo assim. E era! E é! Ele e os moçambicanos quase todos. De contagiante boa disposição. Já não tão contagiante, mas admirável, é o caos de Maputo. O caos no trânsito, na ordenação do parque habitacional, nos mercados, nos transportes, na forma como as pessoas se deslocam e organizam. Em Maputo, tudo parece desorganizado e, contudo, a vida faz-se, acontece e desenrola-se com naturalidade. Não há falta de ordem. Há outra ordem. E nós aprendemos a viver com ela, mas estranhamos sempre.

Um ano e meio! De diferenças. De adaptação. De ritmos que mudam. De perspetivas que se alteram. Foi tão pouco tempo e parecem já décadas. Tudo é intenso em África. Mas não é uma intensidade frenética. É uma intensidade profunda e tranquila que nos transforma por dentro. Não sei se alguma vez mais me vou embora. Estou a moçambicanizar-me. Há sinais evidentes disso e serão esses sinais o motivo da próxima crónica…

jpv