Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Estórias ao Acaso: Noite Fria (III)

Noite Fria (III)

A reunião decorria intensa. Os pontos de vista defendiam-se com fervor. Por vezes, as divergências levavam a ironias, sarcasmos e invectivas mais ou menos bem encaixadas, consoante o estofo do atingido. Mas, desta vez, ele não conseguia envolver-se. Havia à sua volta uma redoma de um vidro invisível, como que um escudo daqueles com que na ficção científica se salva a Terra da grande catástrofe. Ele ouvia-os ao longe e, no entanto, estavam todos encerrados na mesma sala. Por diversas vezes tentou envolver-se com a reunião mas estava demasiado envolvido com ela. O que sentia chama-se antecipação, esquadrinhou as palavras na mente e planeou centenas de vezes as coisas que não viria a dizer-lhe. Era hoje. Faltavam poucas horas. Tudo se resumia a um café em conjunto, um encontro fugaz de amigos que reatavam contacto. Não podia mentir a si mesmo. Não era nada disso. Era o momento que tanto imaginara e por que tanto esperara…

Resolveu enviar-lhe uma sms: “só já faltam duas horas e trinta e três minutos!“
A resposta foi breve: “Está quase a acabar o sofrimento.“

Ela não soube, nunca, o impacto e o efeito daquelas palavras nele. Havia alguém nesta Terra imensa de desencontros que se encontrara consigo e para quem o tempo da ausência era sofrimento. A falta que tinha desta dedicação. Desta coisa simples que era alguém dizer-lhe “Estás aí, sei que estás aí e para mim isso tem um significado. Estás aí e eu quero estar aí contigo!“. De repente, com a precipitação mental que o caracterizava e a paixão que agora o dominava e submetia, pensou deixar a outra vida e viver só nesta.

Nada havia, contudo, de errado na outra vida. Era uma boa vida. Só não era esta. E, num momento de euforia, atravessou-se-lhe na mente a nuvem negra das limitações com que nascem os humanos. Esta condição estranha que é termos uma coisa maravilhosa, a vida, mas só podermos tê-la uma vez. Irrepetível. Amarrados, inexoravelmente, a cada opção, a cada gesto, sem espaço de erro ou manobra e, paradoxalmente, entregues à mais absoluta ilusão de liberdade. Sacudiu os pensamentos, voltou ao tom de voz dela, ainda ecoando desde o telefonema iniciático. Hoje era dia desta vida. Amanhã, esta vida seria a outra.

Chegou ao local combinado mais cedo. Queria evitar um desencontro. E esteve ali tremendo, escolhendo uma posição de que ela pudesse gostar. Ficou na pior possível. De pé, pernas afastadas, braços cruzados, parecia um segurança de discoteca. Haviam de rir-se disso, quando fosse o tempo de rir.

O dia estava caindo. O sol espalhava-se pela cidade amarelecido da tarde e o calor era pouco mas a luz era irrepetível. Ela anunciou-se ao longe, passo firme como quem sabe exactamente para onde vai querendo ir. O recorte da silhueta contra a luz foi-lhe mostrando um corpo igual ao que conhecera, o mesmo cabelo, o mesmo trejeito de cabeça inclinada para um lado a entornar o sorriso. Notou, com interesse, que ela foi reduzindo o vigor da passada à medida que espaço encurtava entre si. Quando estava já junto a ele, a menos de um metro e as respirações eram audíveis, parou.


E um estranho fenómeno aconteceu. Os amantes das palavras, pelas palavras, com as palavras, ficaram sem elas! Um olhar no olhar. Um sorriso mútuo, uma contemplação. Um estou aqui, aqui me tens, sou tua. Um estou aqui, aqui me tens, sempre fui teu. Foram as ideias que se comunicaram mas para tanto não houve precisão de palavras. E, estando os corpos presentes, também não foram necessários para mais do que sorrir e olhar. A conversa era agora outra. E as palavras que fossem pronunciadas nada mais seriam que ruído.

Ele estende-lhe as mãos abertas com as palmas para baixo. Ela estende-lhe as mãos com as palmas abertas para cima. Encaixam. Ela percebeu-lhe a força. Ele leu-lhe a gentileza. E abraçaram-se. Ficaram imóveis, de corpos colados, sentindo a verdade daquela presença, cheirando, comunicando com o corpo todo as coisas que estavam suspensas das palavras há tantos anos. Alguns transeuntes estranharam aquelas duas pessoas, ali, de pé, que se não largavam, abraçadas, como se não quisessem falar-se, olhar-se mais… só sentir-se.

Ainda sem palavras, afastaram os corpos, voltaram a olhar-se nos olhos e a sorrir-se nas almas. Deram as mãos e começaram a descer a rua, lado a lado, com o sol a aquecer-lhes as costas e a projectar as suas sombras na calçada.


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Estórias ao Acaso: Noite Fria (II)

Noite Fria (II)

– Olá! eu sou a…
Ela não precisava dizer mais nada.
Não foi só o tom doce da voz que ele reconheceu. Foi a confirmação de um momento que antecipara em sonhos, em pensamentos altos e nos escondidos. Fora um desejo que sufocara. Fora algo que escondera dentro de si até esquecer-se de que o tinha guardado no peito. E aquelas palavras, ainda que poucas, foram suficientes para acordar em si tudo o que adormecera. E assim que ela acabou de pronunciar o seu nome ele estava já falando como se a última vez que tinham trocado palavras não tivesse sido há quinze anos mas somente há quinze minutos. O que houvera fora breve mas intenso, tão intenso, que o tempo não apagara. E tudo se reatou com um “Olá!”.
– Sim, eu sei quem és. Claro que me lembro de ti. Estás com a voz mais segura…
– Obrigada! Passei uns tempos difíceis mas superei. Agora estou bem. Trabalho estável, cabeça limpa. Não tinha o teu número. Calculei que ainda trabalhasses aí. Liguei-te para o trabalho e deram-me o número.
A voz era, como sempre fora, doce, fluida. Tinha um timbre de seda e carinho e no fim de cada palavra, de cada frase, emergia da aparente fragilidade uma força e uma firmeza que sempre constrastaram com o corpo fino e esguio a anunciar vulnerabilidade. Esta mulher não era frágil. Esta mulher já o vencera uma vez.


O dia que prometia pouco e terminava em noite fria estava aquecendo almas e prometendo o mundo. A juvenilidade destes adultos revelou-se nos minutos que se seguiram. Trocaram-se telefones, mails, reavivaram-se momentos passados e cada um foi tenteando o outro, procurando perceber-lhe as intenções, avaliando os estragos do tempo nas promessas de amor. A noite foi longa, ao computador. Frases longas, fotos a avivar a imagem esfumada na mente. O motivo que justificava o contacto bailou na conversa mas quando foi trazido às palavras já interessava pouco. Nenhum acreditou nele e seguiram fazendo o que melhor sabiam: amaram-se com as palavras que nestas coisas do amor, o corpo é mais o pretexto do que o texto. É mais o motivo do que a razão. É dispensável e, contudo, sempre presente. As palavras, essas, ardiam na pele e queimavam por ser ditas. Acariciavam, envolviam de ternura e entendimento o que os corpos nunca suprimiram: a solidão.

Encontrar-se-iam, claro. Como amigos. Amigos sempre foram…

Ela está agora a deitar-se. Encolhe-se, como sempre faz. E o som dos carros lá fora, e as sirenes das ambulâncias intermitentes, e algumas vozes altercadas ao longe, tudo isso é hoje música nocturna a embalar a alma numa noite fria.

Ele está agora a deitar-se. Cumpre os rituais de sempre mas há nesta noite fria algo diferente: hoje o coração não lhe cabe no peito. A verdade não o convence. Belisca-se. Sim, está nas nuvens da terra! Puxa um pouco mais para si os cobertores e pronuncia “Boa noite!”. E uma voz ensonada e distante responde-lhe do outro lado da vida: “Boa noite, meu amor!”


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Estórias ao Acaso: Noite Fria (I)

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Noite Fria (I)

Noite fria. Ombros encolhidos e o bafo a desenhar figuras brancas à frente das mãos juntas. Ele sai do trabalho no fim de um dia que promete pouco. O piscar irritante das luzes do carro anuncia portas destrancadas. Casaco atirado com desprezo para o banco de trás. Chave na ignição e o telefone toca…

Em momentos destes, hesitava sempre se atenderia ou não. Se é certo que o dia prometia pouco e o que quer que fosse que respirasse vida do outro lado pudesse ainda fazer brilhar uma qualquer centelha de calor humano, não é menos certo que a vida, nestas alturas em que as noites têm pouco para dar e já perderam a aura idílica e romântica da juventude arfada entre seios generosos e beijos ávidos e desencontrados, tinha uma certa estabilidade. E saber com o que se conta, mesmo que seja nada, é uma conquista dos anos que aprendemos a apreciar.
Há, contudo, essa humana curiosidade que dita, não raro, as nossas atitudes e a inscrição “número desconhecido” no painel do telemóvel espicaçava tanto como incomodava. Há homens e mulheres que resistem a isto. Ignoram. Desligam. E seguem a sua vidinha como se nada tivesse acontecido. São poucos. E há outros que não se perdoariam, nunca, não ter sabido o que estava ao dobrar da esquina. Que grande cometimento ou que coisa nenhuma se escondia por detrás do enigma anunciado. Ele era desses.
Deixou tocar mais umas vezes. O tempo suficiente para meter a primeira, acelerar, segunda, pisca à esquerda e com o telémovel entalado entre a orelha e o ombro articulou em tom expectante de quem, sem estar perguntado, perguntava: “Estou?”


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O acordar de Domingo

Olá mana,
hoje, quando acordei, já éramos três na cama. Vindo da penumbra do seu território, o miúdo enfiou-se no nosso ninho.

E dei comigo a recordar os momentos em que fazíamos exactamente o mesmo. Ao longo da semana afirmávamos a nossa independência juvenil, íamos às lutas todas, desafiávamos a figuras paternas e, depois, assim que desconfiávamos que estivessem acordados, como que descansando das guerras e das máscaras, havia um diamante bruto, um sentir insubstituível, uma pulsão de carinho e ternura que nos fazia trepar pela cama dos pais acima até ao centro e ali ficávamos entre o seu calor e o seu amor contando as aventuras, as estórias, rindo, usufruindo do correr aconchegante do tempo. Era como o sono depois de um dia de trabalho: o momento de aprender, de tirar partido, de amar.

Fundiam-se os territórios, esbatiam-se as fronteiras e as barreiras, não havia conflito de gerações nem qualquer outro porque o momento era de magia. A minha mulher tem uma imagem terna do assunto: diz que gosta de imaginar que vamos os três voando juntos, isolados do resto do universo e que a nossa cama seria assim uma jangada de percorrer os mundos todos…

Às vezes penso que a magia do acordar ao Domingo de manhã na comunhão dos espaços, dos risos, das aventuras e das desventuras podia bem ser uma forma de refundar a nossa sociedade.

Beijo,
mano.


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Grão a grão…

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Devagarinho, “Mails para a minha Irmã” vai fazendo o seu percurso, contando as suas estórias e construindo a sua história. Hoje completámos 2000 visitas! Bonito número. Grato a todos os que por aqui passam alguns dos seus minutos.

João Paulo Videira


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Da entrevista a Isabel Alçada.

É possível ter uma visão poética sobre todas as coisas? O impulso é dizer que sim. Tudo tem poesia. Mas há obstáculos. Sei lá, assim de repente, onde está a poesia daquele pedacinho de plástico que colocam nas pontas dos atacadores para que se não desfiem? Onde está a poesia do motor de ignição de um carro? Onde está a poesia do composto químico do conteúdo das pilhas? Onde está a poesia de uma entrevista à nova Ministra da Educação?

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Trazias um sorriso inseguro e uma voz trémula, a espaços entrecortada pela força da determinação. Sabias o que querias mas não como querias e por isso o discurso saíu-te confuso. Mas as hostes, excepção feita aos cépticos de sempre, gostaram de ouvir-te. Fizesses o que fizesses, mostrasses as incertezas todas, e todas as dúvidas. Hesitasses, errasses, mesmo, e estaria tudo perdoado por via de um gesto só: colocaste-te ao lado dos injuriados, foste uma de nós. Sem soberba, com simplicidade e até alguma poesia. Atacaste as perguntas e os desafios pela perspectiva abandonada no passado. E veio-te daí a fraqueza e a força também. E olhaste o futuro com brilho nos olhos e um sorriso. Um sorriso. Há quanto tempo não víamos um sorriso.

Sabes, eu estou céptico. Não por ti. Pelos contornos que conheço ao problema. Pelos agentes. Pelas circunstâncias em que vieste a ser quem és. Pelas pedrinhas todas que vão colocar-te na engrenagem. Pelas forças que não controlas, algumas até desconheces. Tão acima de ti! Podem sufocar-te como já me fizeram. Sabes, há moinhos atrás dos moinhos de Quixote e há monstros escondidos na sombra do Adamastor. E há, haverá sempre, a cortina da dúvida pairando entre a tua vontade e a tua autonomia, entre a sinceridade com que te colocaste ao nosso lado e a possibilidade de não ter sido sinceridade nenhuma. Esta mediação não é da tua responsabilidade. É uma herança. Uma herança de desentendimento. Sabes, eu não quero dar-te conselhos. Não sou ninguém nem tenho nada comigo que me autorize a tal. Mas tenho o atrevimento. Simplifica. Não fujas para a frente, não vás atrás da enxurrada da complexificação do que não ganha nada com a complexidade porque tem uma matriz de simplicidade. Ser professor é dar. Dá! Ser professor é dedicar. Dedica! Ser professor é conquistar. Conquista! Ser professor é ceder. Cede! Ser professor é trabalhar. Trabalha! Ser professor é amar. Ama! Concentra-te no cerne, concentra-te no essencial e corta a facadas pujantes e decididas as excrescências, os excessos. Sabes, eu vivo um paradoxo desde que me conheci. Acho que é um paradoxo português. É que sou céptico mas gosto de acreditar. Hoje acreditei.


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Efeméride

Não há já o fulgor e há quem diga que é normal. Que o fogo esvanece. Que a energia fenece. Que a entrega enfraquece e se encosta à rotina, com a idade. Mas eu quero ainda o o fogo, a energia, a entrega e o pueril vigor que me dizem não ser da minha idade ainda cá mora. Dancei nas curvas do teu corpo agarrado a ele projectando sombras no chão, silhuetas da aventura de sermos um só na mesma loucura. E, entretanto, entrou aqui algures, por entre os espaços que os corpos sempre abrem entre si essa ideia da idade. A idade do corpo. Então e a outra? E pergunto-me, será que alguém sabe a idade de alguém? Conhece alguém a sua própria idade? Ou a idade é o que fazemos com o tempo e a vida. São as virtudes e os pecados. Só não consta da nossa idade o que não vivemos. E isso não se deixa, só, de contar: desconta-se! E o teu corpo, outrora visita constante é hoje mais um irmão do que um amante. Está presente mas não me invade. Sinto-lhe o calor mas não o fogo. Eu sou mais uma presença a que te habituaste do que a África quente, harmoniosa e sensual que exploraste. Deixámos há muito de pecar! E faz falta à pureza de um amor inflamado, o sabor picante e vivo do pecado.


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A canção do pastor

De mãos unidas
e ungidas de Deus
e joelhos colados
ao chão,
o silêncio é o lugar
onde o pastor
ouve
a sua própria canção.
Os verdes campos
são uma porta fechada
pelo lado de dentro
e a liberdade
é um grito
que emudece
quando o pastor adormece
nas mulheres
com que se deita…

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Hoje estou com veia divulgadora.
Este texto veio daqui: http://arcadehistorias.blogspot.com/


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De pequenino…

Olá mana,
por estes dias, finalmente tristes, de Inverno, um sol houve que brilhou na seara da minha esperança: os miúdos fizeram um blogue.

Ao que parece a zona é complexa, mas, como sempre, os miúdos encaram a vida com alegria e galhardia e aquilo que entre os adultos poderiam ser problemas complexos, discussões, litígios, para eles são só o dia-a-dia.

E depois, há no meio disto tudo um professor, o Manuel, que acredita, efectivamente, no que faz e faz bem.

Estão por isso reunidas as condições para que a vida aconteça. E no espaço de um apoio, criam-se blogues, visitam-se blogues, pesquisa-se, intervem-se, aprende-se!

Como sabes, tenho sido um defensor prudente das novas tecnologias nos ambientes educativos. Defendo-as, sim, mas com critério, com acompanhamento para que o crescimento seja sustentado. Acontece, contudo, que a vida acontece e irrompe para além das nossas ânsias e mesmo para além das nossas capacidades de controlo. E mesmo com o acompanhamento do Manuel, os miúdos inscreveram-se na esfera cibernética e agora a vida é deles e acontecerá como tiver de acontecer. Resta-nos estar atentos.

Não farei o texto muito longo porque eles não gostam, mas queria usar este espaço que é, por norma, teu para divulgar o trabalho e o orgulho destes miúdos que de resto me lembram a tua fibra e o brilho do teu olhar quando tinhas feito alguma…

Sejam muito bem-vindos, amigos, a este mundo paralelo do outro e que ele vos traga as alegrias todas.

Aos leitores de “Mails para a minha Irmã” sugiro uma visitinha a:

Beijo,
mano.


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Parabéns mana!

Doce mana,

já em tempos escrevi um texto sobre o dia em que nasceste daí que tentarei felicitar-te sem repetir o caminho de magia que foi, para mim, o dia em que nasceste.

O texto será breve porque no que respeita à tua chegada, à tua existência, à tua vida, ao teu nascimento e ao teu aniversário, as coisas que sinto são de tal forma avassaladoras que me compactam os sentidos e tolhem as palavras. Todas me parecem de menos, pequenas, limitadas e aquém do turbilhão com que lido desde o dia 4 de Novembro de 1972.
É como se não fosses “só” minha irmã, mas o milagre de toda uma vida. É como se a minha existência se tivesse iluminado a partir do dia em que te vi, rosada, pela primeira vez.

O engraçado é que eu acho que tu sempre pensaste que eu era um exemplo a seguir e em surdina, num silêncio respeitoso de quem deixa passar a vida, eu seguia o teu exemplo. A bravura, o brilho malandro no olhar dedicado, o dente cerrado aquando da defesa das tuas posições e o carinho…

Não sei, não saberei nunca se fui um bom irmão. Não me interessa isso muito. Não é o tipo de mensurabilidade que eu ache que possa alguma vez ser justa. Sei, contudo, que devo ter sido um irmão aquém de ti porque tu mereces sempre mais. Sei, também, numa avaliação muito subjectiva mas que considero que é pertinente porque é a minha, que foste a melhor irmã que alguém poderia ter tido. Foste tudo o que sonhei no dia em que desejei um mano. E foste muito mais do que isso tudo.

Já uma vez to disse e agora repito: a palavra “irmã” faz sentido porque tu existes.

Parabéns, mana. Do fundo mais honesto e genuíno que o teu irmão encontra em si emana este voto, assim, cristalizado nesta palavra “parabéns”.

Gosto muito de ti e quero ver-te viver até que a Parca corte a corda. E peço à Parca que corte a minha primeiro!

Beijo, mano.