07:06h. Estação de caminho de ferro de Entroncamento. Bar.
– Um café cheio, por favor.
– Estes são os meus três?
– São!
07:06h. Estação de caminho de ferro de Entroncamento. Bar.
– Um café cheio, por favor.
– Estes são os meus três?
– São!
A carinha laroca e bem reguila que está na foto é a Madalena.
A Madalena é um doce de menina e, ao mesmo tempo que é um doce, é de uma insuperável energia e de uma vontade muito forte. Os primos que o digam!
O giro da coisa reside em como vim eu a ser padrinho da Madalena.
É interessante porque não foi uma obrigação daquelas em que se escolhe uma pessoa de família porque tem de ser ou porque ainda não é padrinho de ninguém ou porque está mais à mão. A verdade é que não sou da família. Pelo menos não sou da família de sangue. Tenho a certeza, no entanto, que sou da família dos afectos. O pai da Madalena é um amigo antigo, um homem honesto e trabalhador que conhece o valor verdadeiro e intrínseco da amizade. A mãe da Madalena veio a ser minha amiga mais tarde mas a sua generosidade e o seu sentido de família rápido me acolheram no seu seio.
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Por razões que se prendem com a vida agitada e cheia de horários que todos levamos, eu não vejo a Madalena muitas vezes, pelo menos, não a vejo as vezes todas que queria e devia. Acontece que isso não tem nada a ver com o que eu gosto dela porque é das pessoinhas que mais amo e admiro. E porquê? Porque acho que ela é uma criança adorável, muito disponível e cheia de génio. De resto, vinda da família que vem, seria sempre fácil gostar dela.
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Ora, ontem, fui visitá-la porque tinha feito anos esta semana e tinha uma festinha no sábado. O pai telefonou-me na sexta-feira e colocou a menina ao telefone e a vozinha meiga dela a dizer, Padrinho vem à minha festa!, era absolutamente incontornável. O milagre deu-se quando cheguei. Como a vejo pouco, ia no caminho a pensar como é que haveria de fazer para mostrar a uma criança de 4 anos que o facto de a ir ver poucas vezes não tem nada a ver com o que gosto dela porque gosto dela um mundo inteiro de carinho e ternura… Pensei usar uma linguagem próxima dos valores que as crianças com 4 anos dominam melhor e dizer-lhe que gostava dela daqui até ao céu o que, além do mais, é a mais pura verdade. Ora, as crianças parecem ter uma sensorialidade diferente e, ao contrário dos adultos, sentem muito, sentem bem, interpretam muito melhor e, mais do que tudo, sabem agir de acordo com esses sentimentos de forma simples e clara. Eu não via a Madalena há 6 meses, imaginei que me reconheceria mas estava preparado para uma recepção pouco efusiva. Acontece que ela resolveu surpreender-me. Quando me viu, gritou:
——– Padrinho!
Correu para mim, atirou-se para o meu colo, enrolou os seus bracinhos frágeis à volta do meu pescoço com quanta força tinha e apertou-me a cintura com as pernitas finas mas cheias de energia. Depois ficou ali, agarrada a mim, como se não quisesse sair, e os minutos iam passando e eu comovido, quase envergonhado, sem saber bem como reagir resolvi fazer como ela, ser simples, e devolvi-lhe o abraço apertadinho, caminhei com ela abraçada a mim e disse-lhe simplesmente, O padrinho gosta muito de ti!
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Foi o meu milagre. Um milagre chamado Madalena. Esqueci-me das coisas que tinha para lhe dizer e só passado um pedaço de tempo é que me lembrei de lhe dar a prenda. Já mais nada interessava. O mais importante já tinha acontecido e uma menina de 4 anos tinha acabado de me ensinar que se pode amar com o coração todo, em dádiva plena, sem regras, só com reconhecimento. Não chorei ali. Fiz um esforço porque estava mais gente. Mas no regresso, no carro, as lágrimas que havia contido, resolveram ganhar a batalha.
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Obrigado Madalena, por seres uma menina que faz milagres de Amor. O padrinho gosta muito de ti e da tua família e isso não tem nada a ver com as vezes que o padrinho te vai ver. O que importa é que cada vez que o padrinho te vai ver leva o coração cheio de luz e alegria e amor puro. O que interessa é que o padrinho gosta muito de ti os dias todos. O que interessa é que o padrinho está a aprender contigo que o Amor puro e a dádiva dele não têm regras.
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Beijinho do padrinho.
Se vires bem, contam-se os anos vividos de acordo com a lógica das voltas que a terra dá em torno do sol e sobre si mesma e, se quisermos ser honestos, os anos de vida tanto se poderiam contar assim como de outra forma qualquer e, nesse caso, talvez até nem se chamassem anos. Imagina, seria possível que um dia fosse um ano, como seria possível que dez anos fossem um ano. De resto, as pessoas raramente contam a sua vida pelo anos. Raramente dizem, “Isso foi quando eu tinha 34 anos…” Normalmente dizem “Isso foi no ano em que mudámos de casa”, “Isso foi no ano que o nosso filho nasceu”, “Isso foi quando comprámos o carro”, “Isso foi quando fizemos aquela viagem à Grécia”, “Isso foi quando o Faísca veio cá para casa”, “Isso foi quando o miúdo entrou para a escola”, “Isso foi quando o meu pai morreu”, “Isso foi …”
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E isto é importante. Importante porque não interessa nada quantos anos foram. Os anos de fora não têm nenhuma, mas mesmo nenhuma importância. O que tem importância são os marcos. E hoje que fazes os anos que fazes, venho dar-te os PARABÉNS, não pelos anos, mas pelos marcos e por um outro assinalável marco: é que na minha vida, assim como na tua, já há mais marcos em conjunto do que dos outros e, curiosamente, todos aqueles que escrevi ali em cima, à laia de exemplo, já nos aconteceram. Não faças anos. Colecciona marcos e ao coleccioná-los constroi uma história de vida.
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Todos te reconhecem a generosidade, a lealdade e o amor que pões nas coisas. Eu sou o tipo que tem tido a sorte de conviver com elas!
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Muitos Parabéns, sempre.
João Paulo
Eu acho que o fenómeno José Mourinho é interessante no sentido de que vai para além do futebol e contagia as grandes massas. Ora, sendo o comboio o manancial de vida que é, não podia, de maneira nenhuma, ficar imune a esse facto. Ainda não se joga à bola no interregional das 7:18h mas já se operam transferências de treinadores e jogadores.
Tal como todos os outros, é uma pessoa de hábitos. Normalmente veste calças de ganga de cós baixo e um cinto preto ou castanho, largo, encima essas mesmas calças. É larga de ancas e volumosa mas está longe da obesidade. Traz sempre uns óculos escuros daqueles que ocupam a face toda e quando entra no interregional das 7:18h tira-os e deixa transparecer o olhar meigo e tranquilo dos seus olhos cor de amêndoa. Normalmente veste casacos cintados. O cabelo castanho cai-lhe por cima dos ombros e completa o quadro de uma moça jovem vestida de forma prática mas elegante para cada dia de trabalho. A vestir daquela forma deve haver umas dezenas no comboio pelo que não foi essa a razão por que me detive nela.
Esta conversa aconteceu mesmo e garanto que os intervenientes na dita perceberam tudinho. A nossa língua é uma maravilha. Não é preciso dizer muito para dizer tudo. Ora vejamos:
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De Negro Vestida – XIII
Caro leitor, se chegou até aqui pare ou salte para o próximo capítulo. O que vai escrever-se a seguir não deveria ser escrito. O que está prestes a ler, não deveria ser lido.
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O Romance “De Negro Vestida” foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.
Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.
Obrigado pela vossa dedicação.
Setembro de 2013
João Paulo Videira
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O interregional das 7:18h não é só virtudes. Às vezes pára. Pára e fica parado e não avisa quando vai retomar sua ruidosa rota. Os motivos são vários. Para passar outro comboio, para não se cruzar com outro comboio, por razões técnicas de diversa ordem, porque se apaga todo, vai abaixo e depois é o cabo dos trabalhos para retomar a marcha, e ainda por um outro e interessante motivo: pára sem sabermos o motivo!Seu Guia de Inspirações e Reflexões Diárias
Ensaios e reflexões.
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As featured in Olympus Passion Magazine and on The Art of Photography
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