Reencontro
É oficial. estou velho. E gordo!
Author Archives: mailsparaaminhairma
Nota Mental
O Duelo
Era uma vez um lorde que se zangou com outro. Já não sei bem a propósito de quê. Acho que tinha a ver com umas questões de terrenos e extremas e medidas e violações das ditas. E esse problema invocou querelas antigas. E o lorde, ferido no seu orgulho, certo de que estava coberto de razão, senhor da sua verdade, manipulador dos seus juízos de valor, marcou a sua posição e fez as suas exigências. O outro, assim lhe chamaremos, não cedeu. Não concordou. E não lhe satisfez as exigências. Tinha razões que só a ele assistiam e assistia compreender. Ora, não fosse o caso ficar em impasse e a honra manchada, o lorde esbofeteou o outro com a luva branca da palavra e desafiou-o para um duelo que, por duelo ser, acabaria com a morte de um e poria fim à querela. O outro revoltou-se todo por dentro. Não lhe parecia necessária tão radical solução, mas aceitou. Preparou a alma para o durante e o depois. Rearranjou e perspectivou a sua vida de acordo com todas as consequências possíveis do duelo. E treinou-se. Treinou a posição de partida com o braço levantado e a pistola na mão virada ao céu, treinou os passos a dar, quando virar-se, quando esperar o disparo do outro, como encarar a bala dele, quando fazer o seu, a firmeza da mão, a força no premir do gatilho, a pólvora a salpicar a vista, o que fazer se sobrevivesse, como tratar a viúva do adversário, os filhos, como apoderar-se das terras e dar-lhe amanho e cultivo. E, nos poucos dias que decorreram entre ser desafiado e apresentar-se a duelo, o outro mudou por dentro, fez-se um homem diferente e olhou para o mundo de diferente forma. Aparelhou o coração e fortaleceu a mente para apresentar-se a duelo.Quando os padrinhos exibiram as pistolas numa caixa de madeira exótica forrada a veludo no interior, o lorde exclamou:
– Afinal, já não quero o duelo, não foi nada assim tão grave, vamos ser vizinhos e amigos como sempre fomos.
O outro ficou parado, especado, à espera do duelo que não pedira mas para o qual aparelhara o coração e fortalecera a mente. E ficou ali. Perdido. Sem saber o que fazer com a pistola que tinha na mão nem com a vida que tinha nas veias. Fizera-se um homem diferente para travar o duelo e já não havia duelo. E foi estranho o que depois aconteceu. O outro tirou uma pistola da caixa. Encolheu o braço e virou-a ao céu. Virou-se de costas para o local onde ainda agora estava o lorde. Fingiu que estava de costas para ele. Foi caminhando e contando os passos. Quando terminou, virou-se tranquilo, esperou o tempo que o lorde levaria para dar o tiro que não deu. Estendeu o braço. E disparou no vazio.
Soube sempre que o lorde lá não estava. Não soube nunca porque travou o duelo sozinho. Soube só que algo em si o obrigara a terminar aquilo para que se preparara. Um homem não aparelha o coração nem fortalece a mente em vão.
O Clã do Comboio – Não chores!
O Clã do Comboio – O Rómingue
Falta de Tempo
Passei por ti e não vi
Não vi porque não olhei ou,
Se olhei nem reparei no teu olhar
Perdido, vagueando por um passado longínquo
Combatendo o tempo que passa devagar
Falaste para mim mas não ouvi
Ou se ouvi não escutei
As tuas histórias
As tuas histórias que estavam ali
Ao alcance de um minuto de prosa
Mas agora não…
Agora não tenho tempo
Não tenho tempo para ouvir as tuas histórias
De guerras e batalhas
Por pouco mais que meio palmo de terra
Eu sei que foste herói
Foste guerreiro
Foste jovem travesso e menino traquina
Foste um príncipe
Foste um grande rei no teu pequeno império
Amanhã, talvez eu tenha tempo…
Amanhã…
É irónico!
Eu não tenho tempo
Mas… é o teu tempo
Que se está a esgotar
Parabéns, pai.
De Negro Vestida – LIII
De Negro Vestida – XVII
Vivemos nós, quer queiramos, quer não, e sem teoria que comprove o contrário, na mais absoluta umbilicalidade. E nem há nisto falta de vontade de conhecer o outro ou de ser solidário com ele. Deve-se, simplesmente, ao facto de, para estarmos neste mundo, termos uma existência e a ela vivermos agarrados e dela fazermos depender a perspectiva que vamos tendo do que nos rodeia.
————————————————–
O Romance “De Negro Vestida” foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.
Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.
Obrigado pela vossa dedicação.
Setembro de 2013
João Paulo Videira
————————————————–
1-1-11
Feu
Feu
Ardia forte e em rubor
E trazia nesse arder
Mais coisas do que calor.
Era um chamamento
De gentes rurais e antigas,
Um aquecimento de velhos,
De rapazes e raparigas.
E pouco se ouvia falar
Que ficavam enfeitiçadas as gentes
Pela conversa do crepitar.
Em silêncio.
Um respeito mudo por aquele poder
De aquecer em plena praça
Qualquer alma errante que passa.
E as gentes vieram chegando
Em ritmo lento e venerado
Como se estivessem orando
À coragem de Prometeu Agrilhoado.
E pairou ali uma nuvem ancestral,
Uma história de contorno imperfeito,
Uma dança e um ritual
Com homens, fogo e respeito.
jpv









