Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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O Clã do Comboio – A Greve

A Greve.

Hoje, o interregional das 7:18 foi às 9:43. E não foi interregional, foi regional. Ou seja, um trabalhador que, normalmente, chegue ao local de trabalho por volta das 9h, hoje não o conseguirá antes das 11:30h.
A razão é a greve da CP. Esta composição não substitui só o interregional das 7:18, substitui tudo o que havia antes uma vez que é o primeiro comboio do dia a ligar o Entroncamento a Lisboa.
Sobre a legitimidade da greve nem falarei. A democracia tem os seus mecanismos de participação, a greve é um deles e, quanto ao resto, são razões e motivos legítimos que uns apresentam de uma forma e outros de outra. Esta é uma consequência inevitável da gestão de um país mergulhado numa profunda crise financeira e social.
O comboio está cheio!
As pessoas conversam sobre a greve e a crise e ninguém fica indiferente a este estranhamento que é estarmos a sair a uma hora em que já costumamos ter a viagem feita e algum tempo de trabalho realizado. Outros brincam, passam pelos colegas e dizem, Isto é que são horas? E depois riem-se e brincam com a situação.
Vai aqui muita gente das 7:18, mas também vai aqui muita gente de outras horas. Vêem-se algumas caras conhecidas e muitas desconhecidas. Todos com os lugares trocados, como alguém disse, Hoje não há reservados! E, imagine-se, ninguém dorme. É um comboio em alvoroço com conversas altercadas, jornais abertos e o sol alto e quente a iluminar a composição. Emerge algo das conversas: é que nenhum de nós sabe a que horas volta ou mesmo se volta porque não há garantias de haver transporte. É a primeira vez que coloco os óculos de sol. Sabem, acho que toda esta diferença traz algo de positivo. É uma pedrada nas rotinas, um desalojar de repetições. Lembram-se quando éramos miúdos e, por qualquer razão, chegávamos de manhã à escola e não havia aulas. A miudagem não arredava pé. Ficávamos ali a usufruir da companhia uns dos outros e da diferença de um dia desusado. Ou porque havia uma greve, ou um congresso na escola, ou porque tinha nevado, ou porque se tinha rompido um cano de esgoto, ou porque os portões não abriam, ou porque tinha morrido alguém importante. E isso, sendo diferente, era saboroso. É esse o sentimento que noto neste estranho interregional-das-7:18-9:43-cheio-de-gente-que-sendo-de-cá-não-é-de-cá.
E logo? Logo, se vê!


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O Clã do Comboio – Lonely

Lonely.

Sabem aquelas pessoas com que simpatizamos naturalmente mesmo sem as conhecermos? Hoje NÃO conheci uma! Não conheci, mas vi.
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E, ao contrário do que normalmente acontece com os textos do Clã do Comboio, hoje não tenho mesmo nenhum motivo para escrever este texto a não ser ter-me apetecido.
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Regional das 20:48. Não houve um episódio. Não houve uma curiosidade. Não houve uma conversa. Houve só uma moça com calças de ganga, uma blusa colorida em verdes e rosas, cabelos castanhos pelos ombros e um ar doce e triste, sentada sozinha num banco de madeira à espera de acabar um cigarro para entrar no comboio. E essa meiguice, que não conheço, e essa tristeza, que não conheço, e esse ar solitário, que não conheço, esvaíram-se como por magia no momento em que sorriu.
–
Eu estava cansado. Precisava entregar o olhar ao sono e a cabeça à música para descansar. Não foi preciso. Ela sentou-se e sorriu para qualquer coisa que tinha na mão, talvez um telemóvel, e foi como se eu estivesse contemplando a imensidão do mar nos seus olhos.
–
Às vezes ouvimos teorias avulsas e populares sobre pessoas que infundem tranquilidade só com a sua presença. Ela fez isso e nem soube.
–
Obrigado, estranha do olhar doce.


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Perguntas de Algibeira

Porque é que passamos anos a cruzarmo-nos, quase todos os dias, com um determinado objecto de que não precisamos e quando precisamos NUNCA sabemos onde está?


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Uma Noite Nicola

“Hoje, Calhou-me este!”


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Perguntas de Algibeira

[Inicia-se hoje aqui a secção “Perguntas de Algibeira”. São grãos de areia no cérebro das gentes. Por vezes serão perguntas sem sentido, desconexas, outras vezes serão só parvas, o certo é que andam bailando na mente das gentes. Se quiserem, podem responder. Se o não fizerem, não faz mal nenhum. Elas continuaram a vadiar por aí…]
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Porque é que aquele tipo que veste todo de preto, calça botas pretas enormes, tem os cabelos compridos a dar pelo fundo das costas e um cigarro pequenino entre os dedos amarelecidos é SEMPRE alto e magrinho?


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Palavras

Hoje vi uma mulher forte e combativa e trabalhadora e habituada a grandes tensões ficar vulnerável com o poder de uma frase. E pensei: “As palavras são tramadas! Piores que as outras armas!”


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After Sex

Sim?

Sim!
E tu…
Também!
Para a próxima podemos…
Não penses nisso.
Então?
Em equipa que ganha não se mexe!


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Uma Noite Nicola

“Hoje, calhou-me este!”


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Não Chorei


Não chorei
Mas ficou uma lágrima presa
Na garganta apertada
Não falei
Mas tinha tanto para dizer
Achei que, naquele momento,
Uma palavra a mais ou a menos
De nada adiantaria
Vi-te partir sem dizer adeus
E, enquanto a tua sombra esvaecia no horizonte
A minha alma gritava : “não vás”
Mas… tu foste
Dos meus lábios apenas o murmúrio: “ Sê feliz”
Mas… tu não foste
E as palavras ficaram caladas
Engolidas, sufocadas
Pelo “se” que não aconteceu
Só a lágrima…
Apenas a lágrima…
se desprendeu.

Rosinha


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A Chuva

A chuva, o sol e o vento
Escultores do tempo
Ao serviço dos séculos
Com jeito e talento
Transformam a pedra
Em formas perpétuas

O sol ilumina
Queima e define
Um molde perfeito
O vento soprando
Polindo e afagando
Vai moldando a seu jeito
A chuva que deixa
Aqui e ali
Uma gota
Um orvalho
Numa estreita corrente
Lancinante, pungente
Dá vida ao calcário

E basta um momento
Um olhar mais atento
Soltar as amarras
Para ver a beleza
Que a Mãe Natureza
Deu às formas bizarras

Não existem acasos
Nem formas sem nexo
Mas olhos que vêem
E vislumbram perplexos
Frutos perfeitos
Da imaginação dos séculos

Rosinha