Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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O Clã do Comboio – Iago

Iago

Um destes dias, os três amigos que querem salvar o mundo iam na conversa com o escritor e a mulher vampiro e, a propósito do facto do RB ir ser pai, começou-se a falar em nomes para crianças. Quando o escritor disse que o filho se chamava Iago, lá veio a sacramental pergunta que oiço há vinte anos:
– Tiago?
– Não, sem T.
Como os sobrolhos se franziram e as caras ficaram com um ar interrogado, lá se explicou a origem do nome. Que vinha de Iachus, Iagus, Iago e que o nome do santo se começou por escrever Sanctus Iagus, Sant’Iago e, finalmente, por corruptela, São Tiago sendo que o T não era do nome mas da palavra santo.
A malta desmobilizou. Foi ao trabalho e, no dia seguinte, quando os três amigos que querem salvar o mundo entraram no comboio, o RB disparou:
– Olha, aquela história do nome… a minha mulher adorou e já deu a sentença: Miguel Iago.
É engraçada a vida, são engraçadas as pessoas. Ainda há uns meses não sabíamos da existência uns dos outros e já andamos trocando destinos. Ora, acontece que há já uns dias que o RB não aparece, por isso impõe-se perguntar:
– Então RB, diz lá à malta se já nasceu o quarto amigo que quer salvar o mundo…


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Curvas Formas

Curvas Formas

A redonda curva
Que o teu seio fazia
Acompanhava a linha
Elegante da baía.

A prenhe forma
Que o teu peito traçava
Tinha a linha da areia
E do mar que a banhava.

jpv


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Muda a Hora

Muda a Hora

Muda a hora.
E onde estava o sol
Ainda agora,
Lá se mantém,
Que os relógios mudam
Pela humana mão,
Mas o sol não quer saber
De ninguém.

E mantêm-se os passarinhos
Aconchegados em seus ninhos,
E correm os rios desvairados
Por montes, cabeços e valados,
E ribomba com pujança o mar
Lavando as mágoas da areia,
E tece a aranha
Sua letal teia,
E zumbem no ar silvestre as abelhas
Reencontrando-se na colmeia,
E balem as ovelhas
Pela manhã,
E continua a crescer-lhes a lã.
E o galo anunciou
Orgulhoso e altivo
A aurora de mais um dia,
Enquanto passava furtivo
Um lagarto de figura esguia.
E as formigas fizeram seu carreiro,
E a Natureza reproduziu
Um dia por inteiro.

E meu coração
Continua a bater assim
Como se não soubesse
Que um dia terá fim.
E porquê?
Porque só tem aqui e agora
E não lhe interessa para nada
Se mudou, ou não, a hora!

jpv


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O Clã do Comboio – A Rapariga da Voz Doce

A Rapariga da Voz Doce

Já há muito tempo que ando para escrever sobre ela. É quase como se fosse obrigatório porque tem um certo e inegável encanto. Contudo, não tinha muito a dizer. Até que a ouvi falar e a nomeei. Ficará conhecida no Clã do Comboio como a Rapariga da Voz Doce.
Entra e procura invariavelmente o mesmo lugar ao fundo da carruagem, junto à janela e, em vez de encostar-se a ela, oferece-lhe as costas, senta-se de lado com as pernas a fazerem um triângulo e a ocuparem um segundo banco. É assim uma passageira do tipo dois em um, que é como quem diz dois bancos para uma pessoa. E porque faz isto? Básico e compreensível. Porque assim pode colocar os seus óculos escuros à prova de qualquer luz e encostar a cabeça de lado, nas costas do banco. Dorme profundamente até ao Oriente e chega mesmo a resistir às conversas do escritor com os três amigos que querem salvar o mundo. Tem a pele tisnada pelos trópicos e os olhos redondos e grandes emanam simpatia mesmo antes de falar. Mas é quando fala que a rapariga da voz doce encanta. Não interessa o que diz, pode ser só Bom Dia, Até Amanhã ou uma qualquer banalidade acerca da greve na CP. O que interessa é que, quando diz, somos embalados por uma melodia suave ao jeito de bossa nova de quem fala, um tom tranquilo que encanta e apetece ouvir mais. Traz um sotaque brasileiro acopolado e, por isso mesmo, é invocativo de aventuras e exotismos que todos transportamos na memória herdada das vidas que não vivemos e, quando a ouvimos, é como se as tivéssemos vivido. Quando o interregional das 7:18 enche um pouco mais e ela tem de ir direita ocupando um lugar só, nota-se de imediato a contrariedade. É como se o dia começasse sem uma parte fundamental, o sono iniciático.
Um dia destes estendi-lhe um papel com o endereço de Mails para a minha Irmã para que conhecesse o Clã do Comboio. A resposta foi pronta:
– Já conheço.
E naquelas duas breves palavras bailadas, houve ritmo e embalaram-se ideias para além das que lá estavam. Todas as pessoas, quando falam, deviam poder fazê-lo como a rapariga da voz doce. Antecipavam-se mal-entendidos e desarmavam-se mal-intencionados. Ela é a prova de que o que dizemos não vai só no que dizemos, vai também no como dizemos.


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IZ

IZ é a abreviatura do nome de Israel Kamakawiwoʻole, um homem que, não obstante não ser um modelo físico e viver com visíveis problemas de obesidade mórbida, constituiu um exemplo e uma inspiração para os seus irmãos e semelhantes. No final deste clip, a festa que vemos é o seu funeral. Imaginem se cada ser humano, ao morrer, infundisse alegria e esperança naqueles que partilharam a existência consigo… A mim resta-me repetir, em tempo de crises e desgraças que, algures, para lá do arco-íris há esperança. IZ lives!


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Futre no seu Melhor: O Projecto!

Embora possa parecer o contrário, quero deixar expresso que o meu interesse no vídeo que aqui se coloca não tem nada a ver com futebol, nem quero intrometer-me na vida do Sporting. Pura e simplesmente não é nada comigo. Acontece que, ou me engano muito, ou esta intervenção vai dar muito que falar e… rir! É, a meu ver, uma pérola da comunicação discursiva e do patamar para que trouxemos a nossa sociedade! Uma coisa é verdade: há muito tempo que não me ria tanto nem com tanta vontade: fantástico!


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O Clã do Comboio – A Tigresa Ensonada

A Tigresa Ensonada

Já tem viajado mais vezes, mas não é uma passageira de todos os dias. É jovem, muito jovem, mas essa juventude, hoje, teve contrastes.
Corpo magro e bem feito, com formas harmoniosas e frescas nos seus vinte e picos anos. Tem o cabelo castanho-escuro liso e farto caindo comprido quase pelo meio das costas. Um vestido colado ao corpo estampado de pele de tigre a acabar ligeiramente acima do joelho e botas creme de cano alto, a condizer. Por cima, um casaquinho de malha fina em cinzento desconfia da subida da temperatura. Leva as mãos cruzadas no colo de onde desponta o encarnado das unhas bem tratadas.
E neste quadro há juventude e frescura que hoje foi cortada por um bocejo. Muitas vezes! Interrompia os pensamentos para levar a mão à boca, fazer um ar ensonado e bocejar. E lá seguiu, transportando a sua juventude, a sua pele de tigresa ensonada e bocejante. Era bonita, mesmo com bocejo.


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O Clã do Comboio – Em Bebedeiras de Verde

Em Bebedeiras de Verde
Poucos minutos depois de estar em marcha, o interregional das 7:18 parou no meio do nada. Estacou e desligou-se completamente. Dois tipos bem dispostos que não iam a deixar dormir a Stôra exclamaram em sequência:
– Acabou-se o gasoil.
– Ficamos a ver a paisagem!
A segunda frase fez-me levantar os olhos do “Eterno Marido” e olhar em volta. Era um mar imenso de verde. Uma lezíria completa a perder de vista. E ficámos ali, enlevados, a pensar em como tinha sido uma sorte vivermos até hoje para embebedarmos o olhar com o verde da lezíria.


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Curtas do Metro – Pequeno-Almoço

Pequeno-Almoço

Um dia destes, de manhã, duas amigas iam sentadas de frente uma para a outra. Uma estaria a meio dos quarenta e a outra caminhava, grisalha, para os cinquenta. Esta, tirou da mala uma bisnaga de creme para amaciar as mãos, espalhou um bocadinho numa mão e depois começou a esfregá-las. Antes de colocar a tampa na bisnaga, disse:
– Mesmo quando ponho isto, tenho sempre as mãos tão ásperas. Queres um bocadinho?
– Não, obrigada. Já tomei o pequeno-almoço!

jpv