Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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"Com Amor," – Documento 17

Já te disse uma vez, Rui, que a minha religião é o amor. Vou tentar pacificar o meu coração numa convivência tácita com Deus, uma espécie de pacto de não agressão. Mas não Lhe concedo mais do que isso. Até tu, Rui, até mesmo tu que me enervas e me irritas com o teu atrevimento e despudor, já fizeste mais por mim do que Deus.

Tu OUVISTE-ME, Rui!
Verónica


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"Com Amor," – Documento 16

Pensa o que quiseres. Esse mesmo Deus que queres expurgar da tua vida está em ti pelos teus filhos!


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Feira Medieval da Torres Novas

(Pormenor do Castelo durante a feira. Foto de Ana Ludovino.)
Pelo segundo ano consecutivo, Torres Novas tem a brilhante iniciativa de realizar uma feira medieval. A feira estende-se por toda a zona da cidade velha e incorpora o castelo. A feira tem actividades, gastronomia, demonstrações, exposições, apresentação de animais, uma colónia de pessoas que vive ao jeito da época medieval, procissões e este ano teve a representação da chegada do Rei Menor.

A iniciativa tem mobilizado toda a cidade e é um misto de evocação histórica e cultural com uma festa popular. É, sem dúvida, um evento a visitar.


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Lição de Humanidade!

Por favor, não deixem de ver o final!
A não perder!


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Nota de Agradecimento Público

No final de um dia preenchido, intenso, complexo e um bocadinho complicado, a máquina de café decidiu ficar fora de serviço. Lamentei-me sem pedir nada e, precisamente do nada, nasceu um lanchinho de retemperar forças e dar ânimo para o resto da jornada.

A amizade e o companheirismo não se manifestam só nem sobretudo nos grandes gestos, mas sim nas pequenas atitudes que confortam e ajudam a superar as dificuldades.

Pelo cafezinho com bolachinhas na hora exacta, o meu agradecimento público à IP, SC e à TL. Se eu podia viver sem elas? Poder, podia, mas não era a mesma coisa!


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O Clã do Comboio – Rapariga com Brinco de Pérola

Rapariga com Brinco de Pérola

Nunca chega tarde à estação. Ainda na plataforma, acende um cigarro, fuma-o tranquilamente e fica com um meio sorriso à espera do Interregional das 7:18.
Normalmente usa calças de ganga, uma blusa ou uma camisa e um casaco de cabedal preto por cima. Também pode trazer uma saia larga em ganga ou sarja. O que ela nunca deixa em casa é o sorriso simpático, o olhar redondo e azul e o seu ritual de abrir um livro e lê-lo avidamente. Lê em francês, em inglês ou em português e lê sempre. De todo o clã é a que mais rapidamente devora as suas leituras. Todas as semanas muda de livro e há semanas em que lê mais do que um. Digamos que, enquanto um dos amigos que quer salvar o mundo, o VM, lê um livro, ela devora meia biblioteca municipal. Tem um marcador de página curioso. É um objecto em prata em forma de ponto de interrogação mas todo trabalhado em ramagens e peixinhos e um golfinho mergulhando, na ponta.
Aguenta estoicamente as piadas do escritor e dos três amigos que querem salvar o mundo. Tem a face clara e redonda como o olhar, os cabelos castanhos compridos caem-lhe pelos ombros. Junta ao seu hábito poliglota de ler um cumprimento matinal sonoro e sorridente o que denota uma boa disposição que já lhe fez conquistar um lugar no Clã.
Um dia destes, contudo, algo a tornou particularmente interessante. Apanhou o cabelo e a face arredondada ficou mais clara, o olho azul brilhou mais forte e enfeitou o quadro com uma pérola singela em cada orelha. Assim, de repente, parecia mesmo a pintura do Vermeer, com as devidas distâncias, claro está.
Bem-vinda ao Clã, rapariga com o brinco de pérola!


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"Com Amor," – Documento 15

Desculpa, Rui, se te magoei ou ofendi. Em todo o caso temos aqui um problema. Tu disseste que eu era tua amiga. Ora, os amigos dizem o que pensam uns aos outros. Eu sinto que Deus é uma fraude porque fui sempre abandonada por ele. Nunca me sobreveio. Até pelos filhos, Rui, até por eles tive de lutar. Lamento que possa magoar-te, mas se eu não posso escrever-te o que sinto e penso, então que sentido faz continuarmos a conversar?

Vivi dificuldades em pequena, Rui. Talvez todos as tenhamos vivido. As minhas foram agravadas pelo temor a Deus. Pelo medo constante do castigo, por decorar orações cujo significado desconhecia, por praticar rituais de obrigação, por ser tocada, ainda menina, pelas mãos do padre sabujo e ter de calar porque ele era Deus e eu seria uma mentirosa se pensasse revelar o que quer que fosse. E, mesmo assim, Rui, procurei-o. Fui ao seu encontro, refugiei-me na Sua palavra. Rezei. Casei-me segundo as Suas regras e depois, Rui, foi em Seu nome que tive de calar a violência de que era vítima. Era eu ou Deus e durante muito tempo foi Deus. Até que a mulher em mim, a dignidade que restava, resolveu erguer-se. E quando me ergui, Rui, foi em nome de Deus que deixaram de falar-me, que a minha própria família me virou as costas e me negou apoio. Eu tinha crianças para alimentar, Rui.

Esse Deus que tu vês só existe nos desenhos animados da Walt Disney!

Fui eu que venci, Rui. E tive de vencer Deus na terra. E sofrer.

Verónica


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"Com Amor," – Documento 14

As desculpas eram as do título. E só. E agora já não são. Aquilo era uma brincadeira para depois conversarmos sobre o que nos dividia, mas, neste momento não quero conversas contigo.

Eu não sou um puritano, Verónica, longe disso. Mas sou crente, tenho fé e não tenho culpa das tuas desavenças com Deus. Devias engolir as palavras que escreveste. Além de não serem verdade, são um insulto. Dizes que sou atrevido porque digo que precisas de um homem, então diz-me os que és tu quando dizes que Deus é uma fraude? Sabes como se diz em inglês o que eu sinto agora? Shame on you! Podemos pôr em causa tudo o que quisermos, mas não a vida. Ela aí está todos os dias em toda a sua revelação e em todo o seu esplendor. E Deus é a vida! Deus é vida. Resolve os teus problemas, Verónica, mas não me insultes. Falaremos de sexo, de política, da sociedade, das relações entre as pessoas, da nossa profissão, de nós próprios e poremos tudo em causa. Mas não isto, Verónica, não desta maneira.

Não sei se te apercebes que a minha frase “Deixa-te de merdas”, que te provocou uma reacção puritana, não é nada em dimensão e em gravidade quando comparada com essa coisa abjecta que escreveste. “Deus é uma fraude”.

Sabes que mais? A fraude és tu que o não vês! Deixa-te de merdas, Verónica.

Até sempre.
Rui


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Curtas do Metro – Lapsus Linguae

Lapsus Linguae

8:4o da manhã. Esperamos o Metro para o Cais do Sodré. Chega. Ao entrarmos, o baralho de gente que esperava entra e distribui-se. Como estamos todos à procura de um espaço onde possamos seguir de pé, nem olhamos uns para os outros. Só quando estamos lá dentro é que olhamos uns para os outros. Desta vez calhou-me um 13 no totobola, um poker de mão. Entro na carruagem, dirijo-me à porta oposta que está fechada, sou apertado pela multidão, levanto a cabeça e vejo quem está em volta. À minha direita uma moça muito interessante, formas muito bem definidas, pernas altas e redondas e peito muito generoso. Tem meias de vidro, calções brancos curtos, um casaco de cabedal lilás e o cabelo castanho encaracolado e com madeixas loiras. Pintou as unhas de azul. À minha esquerda uma moça um pouco mais magra mas cujas formas são igualmente perfeitas. Calças de sarja pretas, blusa com decote em vê às listas horizontais verdes clarinhas e brancas, sapatos lisos, cabelo preto liso e compriso, óculos rectangulares muito sensuais e um olhar castanho e doce. À minha frente a mais velha e generosa das três. Túnica branca colada aos seios redondos e generosos, calças de malha pretas coladas ao corpo, cabelo escuro e olhos muito bem definidos por um lápis firme. Era a mais velha, mas não era a menos interessante. E ali fico eu, entalado entre a visão do paraíso e a tentação do inferno. Tento desviar o olhar, mas não é fácil. Para onde quer que olhe há uma mulher atraente. A curta viagem chega ao fim. As portas abrem-se. Todos saímos. Ao sairmos, um homem pequenino, anafadinho, enfiado numas calças de ganga, numa camisa às riscas azuis e brancas fininhas e num casaco de cabedal coçado pelo tempo e pelo uso, vira-se para mim e diz:

– Ó chefe, hã, você ia bem tóreado!
– Toureado? Quer dizer torneado, rodeado…
– Ó isso!

jpv


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"Com Amor," – Documento 13

Rui,

Tu revoltas-me e enterneces-me. Prefiro acreditar na ternura, mas não consigo esconder a revolta.

Vamos à revolta. O teu mail tem como título “Deus e Desculpas.” Onde estão as desculpas. Esqueceste-te? Quero ler-tas! E palavrões, Rui? Até percebo que possas aborrecer-te com uma atitude minha, mas achas que passas a ter razão se escreveres “merda”? Isso é uma infantilidade! Quanto ao amor e ao sexo, precisamos conversar, mas, cá para mim, andas a contradizer-te um pouco. Ou bem que o sexo faz parte do amor, ou bem que, mesmo havendo sexo e amor, seja lícito desejar uma terceira pessoa… neste departamento, andas a precisar de fazer umas arrumações!

Vamos a Deus e sejamos breves e directos. O teu raciocínio faz sentido, mas só serve como historieta de ir deitar criancinhas. Deus e os passarinhos, blá, blá, blá… não insultes a minha inteligência. Os meus filhos são meus filhos. Fui eu que os fiz, os pari, os criei e sofri para que fossem meus. O resto explica-se cientificamente, até os passarinhos! A única coisa que não se explica cientificamente é Deus e a razão é simples, Rui. Deus é uma fraude!

Verónica.

PS: eu falo contigo. Escrevo-te. Leio-te. Isso não faz de mim tua amiga. Sendo o inverso verdade!