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O Clã do Comboio – A Rapariga das Palavras Claras
Encontramo-nos num desses interregionais do mundo?
A Rapariga das Palavras Claras”
"Com Amor," – Documento 21
Rui, meu homem Rui,
Não sei que te diga. Apetece-me ter a tua coragem e o teu desplante perante a vida. Pela primeira vez desde que nos escrevemos, vi ternura no teu atrevimento. Apetece-me pensar que o amor é um valor em si mesmo e que as outras coordenadas são geríveis separadamente, isoladamente. Mas, Rui, onde há amor, há sofrimento e uma mulher sabe isso. Toda a mulher sabe que, para amar, terá de sofrer. Toda a mulher sabe que, quando ama plenamente, pode contar com tudo, com toda a plenitude e todo o esplendor do amor, mas sabe também que não pode contar com nada. Nenhuma mulher vive segura do que representa para um homem ou do amor que ele lhe tem. São elementos, são sentimentos, são vectores incontroláveis e voláteis.
Não estavas a falar de sexo, Rui, eu sei, e foi isso que mais me assustou.
Verónica
"Com Amor," – Documento 20
Verónica,
Eu acho que, por vezes, as pessoas em geral e as mulheres em particular, têm medo de usar as palavras. E também acho que, por vezes, têm medo de as ver usadas. A linearidade com que os homens encaram a vida, dá-lhes a vantagem de saberem com mais facilidade o que querem dela e, como tal, de se posicionarem e usarem as palavras com menos cautelas. As mulheres, por sua vez, não sendo mais complicadas, discordo dessa teoria, são mais profundas, mais complexas e isso leva-as a medir com prudência todos os gestos e todas as palavras que são gestos também. Repara, tu escreveste-me e leste-me e nunca tiveste problemas com isso, mas assim que o assunto é o amor e sabes que implica outras pessoas porque tens filhos e sabes que sou casado e tenho filhos, retraíste-te imediatamente e enclausuraste o amor dentro de um jogo de prudências, medições e mediações que o matam completamente. Enfim, quase completamente. Vamos às palavras-chave do teu mail. “Implicações”. São as que são. Tenho plena consciência delas à luz do que te disse e tenho também plena consciência de que só a mim cabe geri-las. Esse não é um problema teu, nem uma responsabilidade tua. As tuas implicações, isto é, as implicações na tua vida, cabe a ti gerir e não interfiro. “Lançar de escada”. Que expressão tão infeliz, Verónica, que expressão tão infeliz. Perante uma afirmação tão profunda e tão séria, perante o colocar das pedras do amor no tabuleiro da vida, tu falas-me em lançar de escada. Expressão marialva e prosaica. Não sei se reparaste, acredito que sim, eu não falei de sexo, nem nada que se pareça. Eu disse que tu precisavas de amar e eu estava no teu caminho. Quantas formas tem o amor? Até o escrito é válido, Verónica. Afinal, não precisei mais do que escrever para ter para ti um significado maior do que o próprio Deus. “Perdida”. Admito que sim, mas isso não invalida estares no meu caminho e esse ser um caminho de amor. O processo é simples. Precisas reencontrar-te, pacificar-te, e poderás, depois, perceber o que fazer com este caminho, mas não há dúvida de que estás nele tal como eu. Caso contrário o que significaria esta troca de mails? Não interessa que nos tenhamos zangado no início, Verónica, se vires bem, o que temos feito desde que nos escrevemos tem um nome: Chama-se NAMORAR!
Rui
O Clã do Comboio – As Teorias da ZC
De Volta!
O Clã do Comboio – A Rapariga do Riso Fácil
O Clã do Comboio – Para Mais Tarde Recordar
"Com Amor," – Documento 19
Rui, fiquei preocupada com o teu mail anterior. Não quanto a Deus e ao entendimento que temos da Sua presença nas nossas vidas. Esse assunto fica encerrado por agora.
Mas o teu PS. Não sei se escreveste o que escreveste consciente das implicações do que lá está escrito. Não sei se aquilo era um lançar de escada, como se costuma dizer, se era uma forma amistosa de terminar um texto, ou se há, por trás do que lá está escrito, um universo de sentimentos sérios e significativos. As mulheres, Rui, esta mulher, Rui, não brinca com certas palavras ou, pelo menos, não as usa levianamente.
Surpreendeste-me.Há ali um atrevimento que vindo de ti não me espanta. Só não sei o exacto teor dele. Fiquei preocupada, Rui. Preocupada e perdida.
Beijo,
Verónica.
PS: Se estiveres no meu caminho, não sei em que caminho estou.
"Com Amor," – Documento 18
E quem me pôs no teu caminho para te ouvir?
Eu posso ser o instrumento de Deus na tua resiliência com Ele. Já te disse, não sou nenhum beato puritano, mas não viemos do nada nem estamos sós.
Rui
PS: Tu precisas de amar, Verónica. precisas muito de amar. O teu caminho é o amor e eu estou no teu caminho.








