Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Histórias do Autocarro 28 – É a Vida!

É a Vida!

Eram cerca de 18h da tarde. O 28 ia muito composto mas não estava completamente cheio. Ao aproximar-se de uma paragem, uns dois ou três metros para lá dela, estava um homem nos seus sessenta anos. Fez sinal para o autocarro parar. O motorista parou, mas advertiu:
– Oiça lá, a paragem não é aí. Era ali atrás…
O homem lá entrou com algum custo e o 28 seguiu caminho. Um pouco mais à frente, nem era uma paragem nem nada, era só um semáforo, a luz estava amarela, prestes a passar a encarnado, ainda assim, se o motorista passasse no amarelo, não seria o primeiro em Lisboa a fazê-lo. Acontece que, nesse preciso momento, uma mulher jovem de aspecto muito saudável e atraente, com um vestido de alças, em motivos florais e tons de rosa escuro, decote bem pronunciado, esticou o bracinho, fez um sorriso e foi assim que pediu ao motorista do 28 que parasse. E ele, todo simpático, parou a viatura e deixou a beldade entrar em pleno… semáforo! Nem paragem por perto.

Lá dentro ia um velhote ao meu lado, agarrado ao varão, com um bigode branco e farfalhudo e as rugas a sulcarem-lhe a pele. E falou num tom conformado e encolhendo os ombros naquele gesto de não há nada a fazer:

– O que é que você quer? É a vida!

jpv


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Frutaria Original

O que está na imagem parece uma enorme árvore. E é. Mas não só. É uma frutaria sazonal que existe em Torres Novas e desde o final da Primavera até ao princípio do Outono nos oferece frutas e legumes caseiros, produzidos pelo próprio. A árvore foi plantada em 1982 e oferece uma sombra soberba. É lá que compro as melancias enormes que fazem a delícia de toda a família. Como dizia Manuel Laranjeira, “Portugal tem coisas dignas de muita simpatia.”


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Inquilinos

Eu tenho uns portões de garagem com automatismo de abertura. Nunca deixo os portões completamente fechados, ou seja, descidos até abaixo, para os cães poderem entrar e sair de noite. Pelos vistos não são só os cães a entrar. Há umas semanas reparei que um passarito se refugiava na garagem. Achei piada, mas não suspeitei que ele estivesse a fazer… família! Ontem ouvi um piar famélico, procurei o som e dei com um ninho cheio de passarinhos em cima, precisamente, do motor do portão!

Não sei como é que não caem porque, sempre que se abre ou fecha o portão e o motor trabalha, há uma trepidação forte no mesmo. Enfim, lá deixarei os inquilinos na sua paz sempre à espreita de os ver sair e tentar fazer uma foto… Por enquanto, decidi não cobrar renda!


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"Com Amor," – Documento 33

Caro Eduardo,

Há pouco tempo atrás, há meses, talvez até há semanas, tê-lo-ia repelido. Teria sido seca, amarga, ou pior do que tudo isso: indiferente. Acontece que ando a reconciliar-me com a vida, ou ela comigo, e ando mais desperta para as surpresas e imprevistos que possam suceder-me. Por vezes basta cruzarmo-nos com alguém que nos altere a perspectiva, que nos faça, com poucas e sensíveis palavras, olhar as pessoas e as situações de outra forma e todo o curso da nossa existência se altera. O Eduardo encontrou-me exactamente na fase em que estou reolhando a vida e os homens nela.

Viu elegância em mim, confessa. E sabe que vi em si? Delicadeza. Uma intensa e genuína delicadeza que já não é deste tempo. Nas palavras. Nos gestos. E no olhar. Havia delicadeza até na forma como se movimentava. Agradeço-lhe por isso. Quanto ao seu inusitado gesto, à sua ousadia, até o facto de o considerar inusitado é pouco comum. Muitos homens não medem as distâncias e fazem abordagens incorrectas e indelicadas. O Eduardo foi ousado, sim, mas nunca desrespeitoso. E isso marcou a diferença. Gostei de o conhecer, sabia?

Claro que nos escreveremos. Não o estamos fazendo já?

Até já!
Verónica.

Ps: pagou o café!


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Publicidade – Mais Old Spice

Caros leitores,
ainda ontem fiz um post sobre a campanha publicitária da Old Spice, “Homem que é Homem”, e hoje, assim que entro no Metro, deparo-me com o jornal “metro” e uma nova e interessante frase daquela marca. Aqui fica a dita e o respectivo comentário.

Ora bem, em primeiro lugar não se diz cueca. Diz-se cuecas. Cueca é exactamente um termo do universo feminino muito usado na versão cuequinha. Em segundo lugar, os boxers são uma coisa de homem e não estão abrangidos. Em terceiro lugar foram lamentavelmente obliteradas as formas trusses e mesmo ceroulas que, sendo uma outra peça de roupa, é bem máscula. Ainda me lembro do meu avô…
Por fim, meus amigos, aquilo que está errado nesta publicidade… é que Homem que é Homem não usa roupa interior. Usa nada! Percebem? A verdadeira masculinidade está na coragem de enfrentar o universo em contacto directo com a fazenda, bombazina, sarja, ganga da calça!
Enfim, tragam lá de volta o Old Spice das ondas a rebentar, dos veleiros, do windsurf e do som inconfundível dos Carmina Burana… isso é que é de homem!


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Publicidade – Homem que é Homem

Os frequentadores deste blogue sabem do gosto que tenho por publicidade. Sobretudo quando é engenhosa, espirituosa, simples, interessante, eficaz… Nessas alturas, chamo a atenção para alguns anúncios, cartazes, o que quer que seja que tenha espírito criativo.


Pois, amigos, esta não tem nada disso. É só preconceituosa e sexista, mas, verdade, verdadinha, captou a minha atenção. Trata-se da campanha que a Old Spice colocou estes dias no jornal “metro” intitulada “HOMEM QUE É HOMEM”


Seguem uns comentariozinhos junto às fotos…

Primeira regra: sempre que quiseres vender um produto, conota-o com o consumo de bebidas alcoólicas! De resto, em termos de saúde e qualidade de vida, todos sabemos que vale mais uma cervejinha do que um sumo… digamos, natural!

Claro que apanhar fruta é para fraquinhos e mulheres frágeis e indefesas. Por exemplo, qualquer um consegue fazer nas calmas doze horas ao sol a apanhar fruta. Depois, sejamos honestos, é muito melhor fazer a linda figura de abanar uma árvore a ver se a fruta cai… Quem escreve isto já esteve no campo?

E, por fim, a cereja no topo do bolo. Toda a gente sabe que os gatos são TODOS uns fofinhos, nem arranham, nem se defendem, nem nada. São só FELINOS! E, claro, o Pit Bull é mesmo um malvado que não lambe as mãos do dono… De resto, cães para gajos e gatinhos para as meninas!!

Amigos leitores, não levem nada disto a peito… eu achei muita piada às frases, a sério, e percebo que são metáforas que apelam ao espírito do Old Spice, blá, blá, blá… mas, aqui para nós, dá que pensar tanta testosterona embrutecida num anúncio só… quer dizer, em três anúncios! Eu cá acho que homem que é homem bebe o que quer, vai à fruta como lhe apetece e tem os animais de estimação de que gosta… sem rótulos. E, já agora, perfuma-se com o que lhe dá na gana, nem que seja Old Spice!


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"Com Amor," – Documento 32

Cara Senhora,

Permita-me que a trate pelo seu nome próprio. Gesto invulgar, por certo, não mais invulgar do que a forma como nos conhecemos.

Perdoe-me o atrevimento. Sou um homem respeitador. O gesto que tive para consigo é, a todos os títulos, inusitado. Há uma verdade, um reduto último de defesa pessoal, de justificação para a minha ousadia: não resisti à sua elegância. E perdoe-me, de novo, se lhe não falo de beleza. Não questiono. Contudo, a beleza insere-se na esfera da arbitrariedade do gosto. A elegância não. Ou se tem, ou não se tem. E a Verónica tem elegância, uma fina elegância no porte, uma presença distinta.

Quando a vi no café, julguei estar enganado, julguei não ser possível, uma mulher com o seu porte e a sua presença estar desacompanhada e veio-me aquele impulso de sorrir-lhe, de cumprimentá-la de conversar consigo… já não sei se lhe paguei o café… espero que sim… Verónica… penso que podemos conversar… gostaria imenso de corresponder-me consigo e agora com estas tecnologias fica tudo mais acessível e rápido.

Com deferência,
Eduardo Luís dos Santos


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A Quarta Folha do Trevo

A Quarta Folha do Trevo

Joguei a minha vida
Às sortes,
Entreguei-a ao capricho
Da Fortuna.
E por entre vivas de esperança
E traços de morte,
Descobri a miraculosa lacuna.
Tem o trevo
Três folhas
Que representam
As acertadas escolhas.
E tem aquele que me deste
Uma folha mais,
Uma falha da Natureza
Que sendo espúria e indesejada,
Pela brisa da Fortuna
Veio a ser bafejada.
É o quebrar da linha
E o infinito para além do horizonte.
É o sol nascendo
Por trás do elevado monte.
É a chuva regando
Em tempo e medida certa,
É a água jorrando na fonte
Quando o calor aperta.
E é o amor.
O encontrar-te na turba,
O desenhar da tua figura
Na multidão.
Em manhã clara
E em noite escura.
E é o sorriso de uma mulher que ama,
De um homem que é amado.
E é o canto do pássaro
Na frescura da tarde,
A criança que nasce,
O fogo que arde.

É o que faltava
E o que vem trazer sentido à ordem.
É o amanhecer da vida
Na neblina púrpura da alvorada.
É a perfeição contida
Na quarta folha do trevo,
Enjeitada.

jpv


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O Clã do Comboio – Jesus Esteve no Interregional das 18:18h

Jesus Esteve no Interregional das 18:18h

Já há algum tempo que não havia uma história do Clã do Comboio externa aos passageiros habituais do Clã. E não é por falta de atenção ou disponibilidade para a escrita deste vosso humilde escrevinhador. É só porque não se tem presenciado nenhum episódio digno de registo. Esta semana aconteceu.
Entrei com dois dos Três Amigos que Querem Salvar o Mundo, o RB e o JJ, no interregional das 18:18. O JA também vinha connosco. Nessa tarde, reparámos, as mulheres do Clã abandonaram-nos. O que até nem foi mau porque houve oportunidade para ter conversas mais… como é que hei-de dizer… mais técnicas!
Ora, em Santarém, saíram o RB e o JJ. E foi em Santarém que ele entrou. Nada o fazia prever, mas aquele jovem ia proporcionar-nos vinte interessantes minutos. Não tinha trinta anos. Era moreno. Muito moreno. Olhos castanhos, cabelo penteado a fazer uma espinha ao longo da cabeça, calças de ganga, uma t-shirt castanha e um pormenor inconfundível: uns óculos de lentes castanhas espelhadas que ele punha e tirava e colocava na cabeça e recolocava na vista como se não quisesse dar-lhes descanso. Tão inconfundível como os óculos, só mesmo o sotaque. Era um timbre brasileiro com aquele arrastar enrolado dos nordestinos. O revisor reparou que ele não tinha bilhete porque o rapaz não se apressou a mostrar-lho e perguntou-lhe o que a seguir se transcreve tendo obtido a resposta que também se relata:
– Então o senhor vai para onde?
– Santarém.
– Santarém?! Oh homem, em Santarém entrou você…
– Sim, mas eu quero ir para Santarém centro.
– Oh homem, isso não existe!
– Não ixisti? Como assim não ixisti? Tem trem prá lá?
– Não. Tem de ir de autocarro.
– Autocarro? Mas eu istou no comboio!
– Pois está, mas agora vai para o Entroncamento.
– E sê mi diz como é qui eu faço pá voltá?
– Sai no Entroncamento e apanha um de regresso.
– E si paga?
A conversa desenrolou-se em torno do paga e não paga. O rapaz pagou nas calmas e quando o revisor voltou as costas, ele disse:
– Esse daqui é cobardi. Isso é qui é são funcionários? Vamo acabar qui nem a Grécia!
Uma senhora de respeitosa idade tentou defender o revisor:
– O senhor entrou em Santarém, não podia sair em Santarém, e o senhor revisor não lhe pode vender um bilhete para um sítio que não existe.
Eu acho que a senhora se vai arrepender desta intervenção para todo o sempre. É que ela deu origem a um monólogo de mais de quinze minutos de que se relatam alguns momentos:
– Sê lê a Bíblia? Todo o mundo divia lê a Bíblia. Sê tem di lê o Apocalipissi. Está lá tudo. É a palavra di Deus. Está lá qui vai havê fomi, há fomi. Está lá qui vai havê guerra, há guerra. Está lá qui vai havê terremoto, há terremoto. E também vai vir as pragas. Deus é bom!
Houve uma pausa, alguma estupefacção, uns sorrisos, e eu pensei que também vai vir charters da China, mas não acrescentei para não interromper o rapaz e ele continuou:
– Eu falo a palavra di Deus em todo o lado. Jesuiz istá com a gentchi em todo o lado, Jesuiz istá comigo, Jesuiz vai aqui com a gentchi e eu cumpro a minha missão qui é falá a Sua palavra e não me fauta nada. Tenho uma cama, tenho roupa, tenho o qui comê e sou feliz porqui cumpri a minha missão. Si sê mi acha chato, sê mi chama di chato. Não faz mau não. Deus mi recompensa. Eu sou uma pissoa espirituau, não sou materiau. No Apocalipissi está escrito prá sê pagá dez por cento.
Aqui, eu indignei-me com a desvalorização de Deus. Dez por cento… isso não é nada. O Passos Coelho que não é Deus acabou de me levar cinquenta por cento do subsídio de Natal.
No fim, lá voltou a dizer à velhinha para ela ler a Bíblia e reforçou que Jesus ia ali connosco. A velhinha ficou lívida e viajou sempre em silêncio. O revisor não voltou à carruagem e eu… eu resolvi escrever esta história do Clã do Comboio. Afinal, não é todos os dias que se viaja no interregional das 18:18 com Jesus. Jesus e o seu porta-voz.


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Histórias do Autocarro 28 – Civismo

Civismo

Há muito tempo que não presenciava uma história no autocarro 28. Sobretudo, uma suculenta, com muitos pormenores e que valesse a pena ser contada detalhadamente.

Hoje foi o dia. A coisa tem requintes de peripécia urbana do quotidiano agitado da grande urbe, com traços de discussão cívica, pinceladas de multiculturalidade e disputa de interesses democraticamente reclamados.

Apanhei o 28 na Infante Santo pouco depois das 18h. Duas paragens depois, na Conde Barão, o motorista abriu as portas da frente para as pessoas entrarem e as portas de trás para as pessoas saírem. Importa referir que as portas estão bem assinaladas e têm funções exclusivas. As da frente só servem para entrar. As de trás só servem para sair.
Quando o 28 parou na Conde Barão e enquanto a fila de pessoas que havia esperado entrava calmamente, seis homens entraram pela porta de trás. Dois brancos de fato, um branco de roupas práticas e três negros de roupas práticas. Quem viajava naquela zona da viatura reparou na infracção, mas é daquelas coisas que depende do civismo de cada um e já ninguém está para se incomodar com isso. As pessoas podem não concordar, podem achar condenável, mas deixam passar em branco, na impunidade dos dias cansados.

Ora, desta vez, quiseram o Destino e o motorista do autocarro 28 que a nossa tarde saísse do anonimato cinzento de todas as outras. Uma coisa qualquer aconteceu na cabeça dele e ele resolveu não deixar passar em branco:
– Os senhores que entraram pela porta de trás, é favor saírem.
Como ninguém se mexeu, ele esclareceu:
– Enquanto os senhores que entraram pela porta de trás não saírem, o autocarro não avança.
E aqui, eu pensei que, ou eles saíam, ou não estava bem a ver como é que o motorista ia cumprir a promessa. Os dois brancos de fato e um dos negros de roupa prática saíram. Só já faltavam três. Nesta fase, as pessoas começaram a reclamar em coro para eles saírem porque se estavam a atrasar para outros transportes, mas eles nada. Até este momento a coisa já estava suficientemente complicada e a ficar quentinha. Não precisava de mais ninguém a intervir. Acontece que a vida é como é e não como a queremos e, por isso mesmo, contra todas as expectativas, um rapaz negro que ia sentado levantou a sua voz em tom bem audível e sonoroso enchendo todo o autocarro com a sua opinião:
– Você não tem nada que se meter nisto. Você é motorista é para conduzir o autocarro, não é para vigiar as pessoas.
– Tenho sim senhor e a responsabilidade é minha e o senhor cale-se.
– Não calo nada. Isto é um país livre e democrático.
– Livre mas não libertino.
E pronto. O 28 explodiu em conversas, opiniões, contra opiniões, argumentos, a favor e contra. Havia quem defendesse que o rapaz tinha razão e havia quem o mandasse calar e havia quem pedisse aos três teimosos para saírem e havia quem pedisse ao motorista para avançar e outros não lhe pediam, gritavam-lhe essa vontade e havia pessoas que gritavam com o rapaz atacando-o por estar a defender os desordeiros ele dizia que só não queria estar parado porque se estava a atrasar e não podia ser prejudicado pela irresponsabilidade dos outros, mas também havia quem dissesse que o motorista, não sendo responsável pelos bilhetes, era responsável pela manipulação da viatura e que as pessoas que tinham esperado para entrar pela frente deviam ter o direito de ser respeitadas e poderem entrar. E houve quem citasse leis, eu próprio dei uma opinião em pleno 28. E, às tantas, alguém, fugindo a quem tinha razão ou não e fugindo às leis, invocou que era tudo uma questão de civismo. E foi aqui que o ruído, já ensurdecedor, aumentou ainda mais. Uns riram-se, outros comentaram, mas ninguém acreditava que a coisa se resolvesse só com recurso ao civismo. As reclamações eram tantas que o motorista arrancou. E houve quem reclamasse por tê-lo feito. Afinal de contas, três dos prevaricadores ainda lá iam. O rapaz continuou a defender bem alto o seu ponto de vista só com o apoio de uma ou duas pessoas. E aqui aconteceu mais um inesperado. O motorista parou o autocarro de novo e veio até meio do corredor para dizer ao outro:
– Isto é uma falta de respeito. Se diz mais uma palavra, chamo a polícia.
Então, o outro usou um trunfo, mas a jogada correu-lhe mal:
– Pronto, eu calo-me. Já percebi que não posso dizer nada porque sou negro.
O 28 voltou a explodir. Desta vez contra o rapaz e a sua argumentação. De facto, ele tinha estado a expressar livremente a sua opinião, em termos até um pouco exagerados, e ninguém o discriminou ou impediu ou cerceou na sua liberdade por razão nenhuma incluindo a rácica. Alguém disse ao motorista para se acalmar e prosseguir e ele lá foi resmungando entre dentes a palavra respeito enquanto o rapaz ia dizendo, Eu calo-me, eu calo-me.

Entretanto fui conversando com uma simpática passageira e concluímos aspectos diversos. Um, foi que nos atrasámos. Eu devo ter perdido dois comboios à custa do incidente. Outro, foi que o civismo é algo de muito escorregadio, difícil de medir e implementar. O último e o mais irónico dos aspectos que concluímos, foi que os três tipos que entraram à socapa pela porta de trás e não saíram se calaram muito caladinhos, deixaram o resto da malta em polvorosa e seguiram viagem sem nunca saírem, nem se envolverem, nem nada… é o tal civismo!

jpv