Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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"Com Amor," – Documento 36

Vai, minha menina Verónica, vai…

Sim, vai. Sim, é dilacerante. Mas que raio de homem seria eu? Que raio de hipocrisia seria a minha? Que egoísmo tamanho e desumano seria o meu se te retivesse agora? Eu sou casado, Verónica! Não há um “Nós”! O “Nós” que existe está acima de todas as coisas dos homens e é por isso que não é aceite por eles. É um amor divino e abençoado e esse amor nunca deixará de existir. Há um cantinho do meu coração que será sempre teu. Há um cantinho do teu coração que será sempre meu. Há um estilhaço de vida que será sempre e exclusivamente nosso. Preciosamente nosso. É nesse patamar que existe um “Nós”, amado, divino, reservado.. Mas temos de existir para a Vida e vivê-la. Vai viver a vida, Verónica, vai reconciliar-te com ela e com os homens. Digo-o com uma pontinha de tristeza, como se algo se desprendesse, mas digo-o, também, com uma alegria imensa.

Só um cuidado: certifica-te de que ele te merece!

Com Amor,
Rui


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"Com Amor," – Documento 35

Meu Homem Rui,

Como gosto de ti! Como te quero! E como posso perder-te!

Tens insistido, Rui, para que me reconcilie com a vida. Tens dito que depende só de mim e da minha predisposição, da minha atitude. E das nossas conversas nasceu este amor bonito. Esta verdade. Estas almas em sintonia, este afago de corpos em desejo.

Conheci um homem, Rui.É mais velho do que eu. Do que nós. É a gentileza em pessoa. Limitei-me a aceitar um café, mas percebi-lhe as intenções. É educado. Parece dedicado. Quer ver-me. Quer estar comigo. Não sei se quero. Bem sei que me estou reconciliando com a vida e com os homens. Devo-te isso, Rui. Foste tu que me mostraste o caminho. Mas não quero que sofras. Agora que estávamos crescendo um para o outro. Agora que havia um “Nós”…

Ajuda-me, Rui.Que faço?Mostra-me um caminho…

Com Amor,
Verónica.


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"Com Amor," – Documento 34

Cara Verónica,

Um homem na minha idade já viu muitas coisas acontecerem, já percebeu o curso da vida, onde pode deter-se e onde precisa ser determinado e avançar.

Não tenho tempo a perder. Não temos tempo a perder. Vi em si elegância. Viu em mim gentileza. Pois é com elegância que lhe peço juntemos as nossas vontades, conversemos, estejamos um com o outro.

Posso visitá-la?

Por favor, não me diga que não. Se tiver de o fazer, faça-o olhos nos olhos. Peço-lhe que saltemos as tecnologias e nos encontremos frente a frente, sintamos a presença um do outro, ouçamos a conversa das palavras, mas também a dos olhares… das presenças.

Posso visitá-la?

Com respeito,
Eduardo Luís.


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Harry Potter – O Fim da Ilusão

O Fim da Ilusão

Nunca esquecerei. Ocupei o lugar nº1 da fila B. As luzes da sala de cinema escureceram, as pessoas silenciaram-se, em letras brilhantes surgiu um aviso que nos dizia para colocarmos os óculos 3D, as pipocas da Vodafone saltaram e logo a seguir as bolhinhas de gás da Água das Pedras invadiram a sala. Algumas pessoas levantaram as mãos numa tentativa vã de as agarrar. O símbolo monocromático e sombrio da Warner Brothers avançou para nós, seguiu-se-lhe o título do filme, “Harry Potter e os Talismãs da Morte – Parte 2”, e só depois chegou o princípio do fim. Os Devoradores da Morte suspensos rodeando Hogwarts. E, suspensa com eles, ficou uma geração inteira de jovens que viram na metáfora do feiticeiro Gryffindor a sua única ilusão. O momento era perfeito e muitos desejaram que a película não avançasse, queriam ficar ali suspensos olhando Hogwarts imaginando que algo lá dentro continuaria a fervilhar. Avançar agora seria o princípio do fim. Qual fim? O da Ilusão!

Mas a vida é um contínuo temporal que nem Rowlings conseguiu evitar e sob a batuta experiente e genial de David Yates a acção avança e, perante os olhos de uma geração inteira, desenrola-se a fase final daquela que foi, ao longo de uma década, uma profunda e perturbante viagem introspectiva. Harry Potter não foi mais uma saga de feiticeiros, nem sequer foi somente uma extraordinária saga de feiticeiros. Para isso, teria de ter-se resumido a um conjunto de aventuras e, no entanto, o mundo criado por Rowlings é muito mais do que isso. É a criação quase perfeita do imaginário que faltou aos nossos jovens, a resposta para as suas frustrações e desilusões, lamentavelmente, a única forma que tiveram de conhecer e enfrentar o Mal. E, deixemo-nos de rodeios, a culpa é nossa. Nós, os pais e educadores desta geração, com certeza invocando as mais plausíveis razões, entre elas a absurda “Não quero que passem pelo que eu passei”, demos-lhes tudo, fornecemos-lhes todas as condições, criámos-lhes todos os caminhos, abrimos-lhes todas as portas, inventámos-lhes todos os sonhos e as possibilidades todas e, em muitos casos, vivemos e sonhámos com eles e por eles. Não foi por mal, mas demos-lhes tanto que acabámos deixando-os sem nada, sem uma dificuldade para superar, sem um Mal para enfrentar, sem uma dor para sofrer. E restou um pungente e dilacerante vazio. Harry Potter, com os seus amigos e inimigos, veio desenhar um universo paralelo onde a vida se repetia e onde tudo era permitido, até sonhar por si, até sofrer. Tal como a de Voldemort, a alma dos nossos filhos andou dividida e escondida em Horcruxes inimagináveis e escondidos sabe-se lá onde. Por felicidade, Rowlings encontrou um imenso e colectivo Horcrux e deu-o a conhecer a estes jovens e mostrou-lhes um pedaço da sua alma perdida. Foram precisos dez anos para o destruir, mas agora que o feito está consumado, é tempo de se reencontrarem e reunirem forças. Para quê? É simples. Eles sabem, como Rowlings sabia, que nenhuma alma é tão pequena que se esconda num só Horcrux, seria demasiado perigoso, de resto. E por isso, sabem também que é tempo de procurar os outros e destruí-los um a um na reconstrução das suas forças, dos seus sonhos, das suas almas, das suas vidas. E é nesse processo que conquistam a felicidade de sofrer os sofrimentos, de sonhar os sonhos, de amar os amores, de destruir, de reinventar, de viver e reviver. Chegou o fim da ilusão, mas houve um processo de aprendizagem. Aprendeu-se o valor do sofrimento, da amizade, do companheirismo, aprendeu-se a força de sonhar e acreditar e aprendeu-se que o mais fechado de todos os becos, o da incompreensão e da solidão, também tem uma saída. Tudo o que é preciso é acreditar o suficiente para encontrar a plataforma 9 e ¾ e partir para a aventura da vida. Essa mesma vida que é sempre uma escola encantada.

Boa viagem, miúdos!
[Ao Iago, à Ana e à geração que cresceu com Harry Potter]


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Blue Valentine

Blue Valentine não é uma comédia romântica apesar do nome poder sugerir isso. Nem sei se é um romance. Talvez sim, talvez não. É dos filmes mais interessantes e mais conseguidos que vi nos últimos anos. É um filme difícil de ver. Duro. Mas é também o cinema no seu melhor.

Ryan Gosling e Michelle Williams têm interpretações soberbas e no fim… apetece ver outra vez. Sem máscaras, nem facilidades, com alegrias e esperanças, tristezas e desilusões, este filme é um retrato da vida tal como ela nos pode suceder. Não dá mesmo para perder!


Mais informação clicando AQUI.

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Um cheirinho:


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O Clã do Comboio – Mudanças

Mudanças

Como já aqui foi relatado, a época balnear da CP obrigou-nos a mudanças. E as mudanças trouxeram-nos vizinhança nova. A adaptabilidade do ser humano é fantástica. A do Clã do Comboio, além de fantástica, foi célere. Efectivamente, ao cabo de dois dias, dois simples dias, o Clã estava ganhando um novo espaço, construindo novas relações.

Mudámo-nos para o fundo da última carruagem que é agora a sexta e não a nona. E as razões foram simples. É a que pára mais ou menos onde parava a outra e é a que tem uma configuração interior semelhante, o que permite ter um cantinho similar ao anterior. Ora, como a nossa mudança não foi a única, encontrámos uns figurões e umas figuras simpáticas. Entre outros episódios mais ou menos vergonhosos, darei conta, hoje, de duas dessas simpáticas aquisições do Clã. Fá-lo-ei como quem resume esta mudança e homenageia a simpatia de quem resistiu estoicamente à nossa ruidosa companhia.

O Rapaz do Fato Cinzento foi assim nomeado porque em três dos quatro dias que viajou connosco levou um fato cinzento. Sempre o mesmo fato cinzento. Foi por isso que nos metemos com ele. É que o Escritor tem um fato igual que comprou certa vez à pressa e com pouco critério. Fez notar o Rapaz do Fato Cinzento, contudo, que a sua gravata, da mesma cor da do Escritor, cor de cereja, era de seda… aceitámos o reparo com galhardia porque ele merecia. Chamamos-lhe rapaz e não homem por via da sua evidente juventude. Andará pelos finais dos vinte, princípios dos trinta. É magro, tem um porte elegante, a face alongada, uma barba que tenta ser distinta e cerrada, mas que ainda precisa de algum tempo mais para isso. As mãos finas, o porte direito, um ar e uma atitude civilizados e duas interessantes características. Tem um olhar que ri e um fantástico sentido de humor. Nem todos o terão topado, já. Mas eu reparei que é aquele tipo de pessoa que está a brincar com uma situação, mas continua a falar com um ar muito sério e composto o que coloca o interlocutor menos preparado numa intrigante posição de não saber se ele está a sério ou a brincar. Também tem a sua pancada. Por exemplo, não gosta que se fale para ele começando as frases por… ouça… Ora, como já foi dito, começámos por nos meter com o fato dele, mas a Mamã das Duas Crianças fez pior, muito pior. Durante três dias, esfregou as sandálias ou os sapatos, conforme o dia, abundantemente pelas calças e pelos sapatos do Rapaz do Fato Cinzento. Depois, em vez de lhe pedir desculpa, virava-se de lado, mas ao virar-se de novo de frente voltava a roçar com o pó dos sapatos na roupa dele. Ele não só aguentou isto, como entrou com facilidade no registo jocoso do Clã e até já fez panelinha com o VM a tentar denegrir a imagem do Escritor. Não fosse isto e este texto teria sido bem mais simpático para com ele. Enfim, no último dia não trouxe o fato. Era Casual friday. Mas trouxe o sentido de humor e a capacidade de rir-se. Pode ser que me engane, mas este Rapaz do Fato Cinzento ainda vai dar que falar. Ele e o fato dele.

A outra interessante personagem que se vem juntando a nós, é a Senhora da Revista de Culinária a quem, desde já, agradecemos a simpatia e a paciência com que tratou o VM. Entra em Santarém. No primeiro dia que, por casualidade, se sentou ao pé de nós, acto de que pode vir a arrepender-se amargamente, trazia consigo uma revista de culinária. Ora, o VM que é um rapaz muito envergonhado começou a ler a revista da senhora sem lhe pedir licença nem nada. Limitou-se a esticar o pescoço e a estender o olhar por cima do ombro da senhora. A princípio ainda pensei que estivesse a olhar para o decote dela, mas não, nada disso, ele estava genuinamente interessado na salada de gambas thai e nas vieiras recheadas. O mais fantástico é que passados meia dúzia de minutos a Senhora da Revista de Culinária já não tinha a revista com ela e o VM ia todo refastelado a deliciar-se e a babar-se com as vieiras recheadas. Para cúmulo, no dia seguinte, a Senhora da Revista de Culinária trouxe, em fotocópia, as receitas preferidas do VM o que deu direito a uma repenicada troca de dois beijinhos por insistência do Escritor. Tratava-se de um caso da mais elementar educação e agradecimento. É uma mulher de estatura um pouco acima da média, tem um olhar receoso e um sorriso luminoso que se revela com facilidade. Toda a sua postura indica um confortável à vontade e uma certa bonomia. Intui-se facilmente que é uma pessoa de bem. E paciente! Sim, que isto de aturar o VM, só eu é que sei…

Foi já na presença destas duas personagens que aconteceram dois episódios interessantes do Clã do Comboio. Um, foi termos sabido que a Rapariga do Riso Fácil ia na noite de sexta-feira para o seu curso de inglês quizenal: o Speak Easy. Para quem não sabe, é uma discoteca afamada de Lisboa. Até aqui nada de novo. Acontece que o VM reparou que ela levava uma roupa alternativa, para vestir depois do trabalho e levar ao Speak Easy. Até aqui nada de novo. Acontece que o VM reparou que o saco da roupa era minúsculo, um daqueles em que se transporta um frasquinho de perfume. Ora, como calculam, isto foi motivo de conversa. Como é possível colocar toda uma roupa num saquinho daquele tamanho. Aventou-se a possibilidade de ser daquelas coisas minúsculas de cabedal… ela, como é costume, riu-se com simpatia e… não negou! Entretanto, a Mamã das Duas Crianças, despenteada como sempre, e cheia de sono como sempre, vinha a contar peripécias com as duas crianças na últimas noites. Uma, foi que terá adormecido, levantado tarde, a arriscar perder o comboio, embrulhou as crianças no lençol de cama atado pelas quatro pontas e largou-as como quem larga um embrulho em casa da paciente sogra. Outra, ainda mais interessante, foi termos sabido que uma das crianças acorda religiosamente às três manhã para beber um biberão de leite aquecido no micro-ondas e não dispensa certo ritual que é dirigirem-se os dois para o micro-ondas fazendo gestos circulares com as mãos, dando às ancas, também em movimentos circulares e cantando:


Roda, roda, roda,
Gira, gira, gira,
Roda, roda o meu leitinho…
É claro que, à medida que nos contava isto, cantava a cantiguinha e fazia os gestinhos sentada no banco do interregional das 7:18 o que levou o VM a perguntar:
– Olha lá, e tu quando amamentavas também fazias isso?

Risota geral. Sim, a CP obrigou-nos a mudar de carruagem de lugar e até alguns hábitos, mas a boa disposição matinal do Clã é inquebrantável. À prova de qualquer mudança. Porquê? Porque fazemos questão de enfrentar a vida armados de companheirismo, de boa disposição e… com um sorriso nos lábios. E há mais: não tarda, temos aí o primeiro almoço do Clã do Comboio. O anúncio oficial está para breve…


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O Clã do Comboio – O Eterno Conflito

O Eterno Conflito

É difícil escrever sobre quase nada. Mas quase nada pode ser muito. Perdoem-me se esta história do Clã parecer difusa e confusa. Não pretende sê-lo. Será só a vida que às vezes é confusa e difusa. Nem sei se isto é uma história. Talvez não. É só o relato de um conflito antigo com gente nova.

Regional das 20:48, de regresso a casa. Entra um casal jovem. Eram namorados. Ele de calça de ganga azul, pólo verde seco, cabelo muito curto, sapatos práticos. Ela de sandálias abertas, unhas dos pés pintadas de encarnado, calças de ganga preta, muito justas, uma blusa encarnada com folhos e o cabelo liso sobre os ombros.

Sentaram-se de frente um para o outro e algo não estava bem. Ora trocavam palavras atenciosas e envoltas em carinho, ora resmungavam desentendidos acerca duma opção dele que a prejudicara a ela. O problema é que pareciam não concordar em relação ao facto de ele a ter consultado ou não. Ele dizia que sim. Ela dizia que não… que talvez… mas em todo o caso achava que ele devia ter decidido de forma oposta.

Não me interessou o conteúdo. Interessou-me o jogo. O desentendimento em si naquilo que foram os comportamentos de um e de outro. Ele era claramente acusado de ser pouco compreensivo, pouco atencioso para com os problemas dela, muito focado em si e nada preocupado com eles enquanto casal. Um insensível. Ela foi acusada de ser hiper-sensível, de estar a exagerar a propósito de quase nada, de o recriminar. Ele queria que continuassem bem, que passassem ao lado daquilo. Ela queria que assumissem que não estava tudo bem, que analisassem o problema. E neste jogo de medição de muitas coisas, entre elas, forças, algo fez a diferença e não teve nada a ver com as palavras, argumentos ou sentimentos. Foi a postura física!

Ela ia sentada, encostada às costas do banco e nunca se desencostou. Levava as pernas encolhidas para trás e nunca as desencolheu. Ele ia de pernas abertas e esticadas para a frente por fora das dela e mexia-se muito. Ora se chegava para trás, ora se projectava para ela e punha-lhe as mãos nas pernas e na face e puxava-lhe a cabeça para lhe beijar os lábios quando ela falava. Ela foi passiva. Ele foi proactivo. Invasivo. Ela nunca usou a força, nem para marcar o espaço. Ele usou-a para o marcar e para a puxar para si.

As razões que os moviam não me interessaram. Interessou-me o jogo. E o resultado. Quando saíram do comboio iam abraçados e aos beijos e tudo estava bem. Uma falácia imposta, mas não conquistada. Um problema adiado. Um homem. Uma mulher. Um conflito eterno.


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O Clã do Comboio – Época Balnear

Época Balnear

Um dia destes a CP iniciou a Época Balnear. Eu nem sabia que havia época balnear nos comboios, mas há. Há e tem consequências.
Um pouco antes das 7:18 já estava na plataforma o grupinho do costume. Parte dele. alguns estão de férias e outros entrariam em Santarém. Esperávamos pela sétima carruagem para ocupar o nosso canto habitual e predilecto. E foi às 7:18 que colidimos frontalmente com a época balnear da CP. Nós e os nossos hábitos. Em vez de trazer as habituais nove carruagens, o interregional das 7:18 trazia… seis! Isso mesmo, menos uma composição, também conhecida por tripla. A nossa porta não parou à nossa frente. Entrámos confundidos, sentámo-nos baralhados e ficámos desgarrados uns dos outros. A redução revelou-se excessiva. Muitas pessoas tiveram de seguir de pé até Lisboa. Quando o VM e o JJ entraram em Santarém, também ficaram de pé e… longe de nós. Houve reclamações diversas. A Rapariga do Riso Fácil disse que isto assim não tem piada. O VM dizia graçolas do meio da carruagem para nós. Eu levantei-me, juntei-me a eles e fui de pé por solidariedade. A Mamã das Duas Crianças aturou a antipatia de quem não queria. Chegámos a Lisboa perdidos… desconjuntados. No dia seguinte ensaiámos uma estratégia de ocupação. Já ficámos melhor, mas, mesmo assim, ainda precisaremos de fazer uns ajustes.

Compreendemos que é preciso poupar, mas obrigar pessoas que pagam antecipadamente uma assinatura mensal a fazer uma viagem de uma hora e meia em pé, não é poupar, é uma falta de respeito e configura o incumprimento de um contrato.

Alguém nos explicou que, de Julho a Setembro, era assim. A malta foi-se à Net e escreveu umas reclamações. É que o interregional das 7:18 ficou parecido com aquelas praias onde é suposto ir gozar-se do ar puro e do espaço livre e amplo e afinal não há onde estender uma toalha. Há uma visível falta de lugares o que nos rouba o conforto e esse foi um dos argumentos das reclamações, mas, aqui para nós, o Clã do Comboio tinha outra razão. Um desnecessário atentado à sua coesão e companheirismo matinais. A CP pode ter Época Balnear, mas o Clã continua a precisar de ir para o trabalho todos os dias. Ainda assim, ou me engano muito, ou a malta do Clã vai dar a volta a esta contrariedade…


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Curtas do Metro – Um Certo Odor

Um Certo Odor

Eu tenho um olfacto apurado. E sou muito sensível aos odores. Não esquisito. Só sensível.

Todos os dias faço o trajecto de Metro entre o Cais do Sodré e Baixa/Chiado ao final da tarde ou ao princípio da noite. Nunca tinha pensado em Lisboa como uma cidade balnear, mas há muito quem pense. São muitos, muitíssimos, os passageiros que entram àquela hora no Metro do Cais do Sodré e que, claramente, vêm da praia. Vai um homem encarcerado no fato e enforcado na gravata e eles passam de chinelos, areia nos pés e nas pernas, calções, toalhas ao ombro, t-shirts… algumas raparigas ainda com o top do biquini e uma saia, sacos de praia, chapéus-de-sol, pranchas, peles encarnadas e peladas do sol e conversas de…mar! É de fazer inveja. É curioso observar o Metro atravessado pelo folclore da praia à mistura com saltos altos, fatos e gravatas, pastas de trabalho penduradas das mãos.
Ainda não tinha decidido escrever sobre isto porque, sendo interessante, não me marcara. Hoje, contudo, senti um odor familiar, adocicado e inconfundível. Pairava, suave, na carruagem onde eu ia e, de repente, foi como se a praia fosse ali comigo, a envolver-me o espírito e o corpo. Quis perceber o que me transportava para a tranquilidade nostálgica das férias, que mar era aquele a entrar-me pelas narinas e a provocar-me os sentidos.

Concentrei-me e rapidamente o identifiquei. Viajávamos envoltos pelo odor espesso e suave de… protector solar!

jpv


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Curtas do Metro – Reminiscências do Padre Borga

Reminiscências do Padre Borga

Hoje, quando cheguei ao trabalho por volta das 9h da manhã e fui cumprimentar a minha equipa de sala em sala como sempre faço, ia cantarolando, sem me aperceber, uma cantiga do Padre Borga. Sim, aquele padre do Entroncamento que grava discos e aparece na televisão. Era uma coisa de que não conheço bem a letra, mas cuja melodia fica facilmente no ouvido: Tenho a mão na mão do meu Senhor da Galileia…
E, de repente, parei e perguntei a mim mesmo: Mas porque carga de água é que eu estou a cantarolar uma cantiga do Borga? Em pensamento nunca digo Padre. Tentei consciencializar. E consegui.

Entrei no Metro pouco depois das 8:40. Era o trajecto Baixa/Chiado – Cais do Sodré. A carruagem estava muito cheia junto às portas. Dirigi-me para o meio do corredor. Segurei-me ao varão horizontal de um banco. Ela tinha uma idade respeitosa. Os cinquenta já lá iam, por certo. Talvez até os sessenta. Nunca olhei para ela, mas pelo reflexo do vidro pude reparar que era uma mulher muito bem posta, com poucas rugas. O cabelo um pouco ralo. Ia de pé ao meu lado e segurou-se ao mesmo varão que eu. A sua mão, que não ficou a mais de um dedo de distância da minha, rápido deslizou e se encostou. Senti-lhe o calor. Pelo reflexo do vidro vi que olhava muito para mim. Tive o cuidado de não olhar de volta e fui fugindo com a mão, mas a dela foi-se sempre encostando. Até que cheguei ao fim do varão. A mão dela encostou-se e depois, sabendo que a minha estava encurralada, agarrou-ma completamente. E ficou ali, com a sua mão aberta envolvendo a minha. Eu estava indeciso entre o direito de não querer ser agarrado por uma estranha e o facto de não querer parecer rude ou discriminatório por tirar a minha mão daquele aperto forçado. Olhei de novo pelo reflexo do vidro. Ela continuava a olhar-me. Quando chegámos ao Cais do Sodré, eu saí, ela também. Nunca mais a vi. Era cedo. Estava bem disposto e não me apetecia interpretar aquilo. Veio-me à cabeça a cantiga do Borga em reminiscência longínqua, mas presente e, agora que penso nisso, acho que a cantei desde o Cais do Sodré até à 24 de Julho, elevador acima e depois no corredor onde me surpreendi cantarolando Tenho a mão na mão do meu Senhor da Galileia…

jpv