Cónicas de Maledicência – A Falta de Ética da RTP.
Author Archives: mailsparaaminhairma
Parabéns aos "Destemidos"
Aqui fica o refrão:
E o clip de vídeo para poderem decorar:
Paisagem Fraterna
Paisagem Fraterna
A perfeição
Do teu olhar
Estava naquilo que vias.
O brilho
Da paisagem
Morava no que sentias.
E eras criança
Na forma como cruzavas as mãos.
E tinhas esperança
Na verdade de sermos irmãos.
E tinhas uma paisagem
Entrecortada de luz
E escuridão.
Uma suave miragem
Semeada, fundo,
No teu coração.
Não te salvei.
Trouxe-te
E perdi-te.
E ainda hoje damos
As mãos no vazio
E as preenchemos
Uma com a outra.
À procura do calor
E do arrepio
Da palavra sã
E da saudade louca.
Relembro-te inocente.
Inocente te vejo.
A tua mão fechada na minha
A carícia fraterna de um beijo.
Tremi por ti.
Por ti temi.
Mas foi a tua existência pequenina
Que me não deixou perder
De mim.
Fui teu guia.
Teu Universo
Circunscrito
E seguro.
Foste meu farol,
Minha razão.
Só soube que existia
Quando senti na minha
A tua mão.
jpv
Carícia Certa e Valerosa
Carícia Certa e Valerosa
É precisamente
Por ser o dia da criança
Que recordo emocionado
Essa breve e suave dança
Das brincadeiras
E das obrigações.
Era a liberdade.
A maior de todas.
A da inconsciência.
Eu era livre
Sem estudo nem ciência.
Sem lógica nem tratado.
E não dava explicações.
E as que dava,
Estavam claramente
Estabelecidas.
Entre brincadeiras e corridas
Chegava ao ninho para lanchar,
À escola para estudar e…
Brincar!
E isso não era crime.
Era natural
E aceitável
Que uma criança
Brincasse,
E dormisse,
E estudasse,
E obedecesse,
E risse
E corresse.
Eu era livre
Sem estudo nem ciência.
E tinham comigo
A paciência
Dos joelhos esfolados,
Dos calções rasgados,
Da face ruborizada
Escorrendo suor,
E a vida
Era a coisa maior.
Eu era livre
Sem estudo nem ciência.
E tinha em mim a urgência
De conquistar o Universo,
Galgar planícies e montanhas,
Voar os céus,
Arrebatar donzelas com véus
E lantejoulas,
Cruzar campos floridos
De papoulas,
Erguer uma espada,
Romper a alvorada
Em meu cavalo alazão,
Imaginário
E invencível.
Esse, fui eu
Até trinta e um de maio.
E depois morri.
E em um de junho
Renasci.
E era já outro.
O homenzinho.
O rapazinho.
O rapaz.
O moçoilo.
O homem.
O homem.
O homem.
O menos livre
De todos quantos fui.
Aquele que sabe que não se vive,
Apenas o tempo flui.
E as regras.
E as razões.
E os protocolos.
E as convenções.
E as assinaturas.
E as notícias suaves
E as mais duras,
Mesmo as graves.
E a palavra que se deu.
E a recebida.
E a palavra que se recebeu.
E a perdida.
E os valores.
E as escalas de valores.
E essa incontornável
E singular verdade
Que, afinal,
Tinha plural.
E os princípios
Assassinados pelos fins.
Os homens sérios
E os que dobram.
E os que cobram.
E os afins.
E os desonestos.
E os lentos.
E os lestos.
E os que conheci.
E os que não quis conhecer.
Depois de ter sido
Criança,
A única carícia certa
E valerosa
É saber
Que vou morrer.
jpv
Aniversário
Maio.Mão.Mana.

Maio.Mão.Mana.
Era uma madrugada
De palavras em surdina,
Era um menino
E uma menina.
Era um amanhecer
De gestos rápidos
E vozes sussurradas.
Era o exemplo de como não deviam nascer
As madrugadas.
Era uma inocência,
Uma emoção e uma esperança,
Era o fim violento
Do meu tempo de criança.
E a tua mão solta
No ar
Entregue depois na minha
Anunciava que a desgraça viria
Mas tu não estarias sozinha.
Nem eu.
Teu pequeno guardião,
Homem para te segurar a mão
E cruzar os ares,
As geografias dos homens
E da violência.
E percorrer contigo
As emoções todas.
Quem nos quis separar
Uniu-nos.
E perdura inquebrantável
Esse laço,
Esse breve
Espaço,
Esse fundo
Traço
Da nossa união.
Porque um dia,
Quando quiseram separar-nos,
Demos a mão.
E dada ficou
Para sempre,
Por entre mundos
E gente,
Sucessos
E insucessos,
Mínguas
E excessos,
Os meus
E os teus.
E, afinal,
Aquilo que fora o fim
Foi, de facto,
Para ti e para mim,
O princípio
De todas as vidas.
Das esperanças perdidas,
Das derrotas
E das conquistas.
E as coisas,
Bem vistas,
Ficaram bem como estão.
Eu, no teu peito.
Tu, no meu coração.
E viemos a crescer
E a ser outra gente.
E, hoje,
Olhamos para trás
Lá, onde jaz
A nossa infância.
O início da errância
E o fim do amor,
Nessa madrugada
De medo e terror,
E sorrimos.
Ficaram só os teus olhos
Nos meus olhos,
As tuas mãos
Nas minhas mãos,
A tua presença
Na minha existência,
O teu sorriso
Na minha essência.
E nada teve importância,
Tendo a importância toda,
Porque, para além das leis dos homens,
Das armas, das balas e das guerras,
Amanhecemos outra vida,
Nascemos outras pessoas,
Crescemos nos braços
Um do outro
E hoje somos um.
Não foi a morte, afinal,
Que nos matou.
Não foi a vida, afinal,
Que nos viveu.
Foi o amor fundo
Do teu coração
Que fez bater o meu.
E há nessa cumplicidade
Um rasto estrelado de mistério,
O mano e a mana
São um caso sério
Do amor
Semeando imortalidade.
Era maio
E eu segurava a tua mão,
E tu eras a minha mana,
E contra essa força
E essa razão
Os homens não podiam nada.
Era noite,
Mas era também a alvorada
Do nosso perene amor.
jpv
À minha mana no 37º aniversário
do dia em que morremos e vivemos
juntos. Para sempre.
O Clã do Comboio – Ao Engano

Ao Engano
Cheguei cedo a um comboio tardio. E quando ela entrou, eu já lá estava há um bocado. Tinha mais de setenta anos, um aspeto frágil, mas saudável. Saia abaixo do joelho como manda o decoro, blusa e casaquinho de malha por cima. O cabelo era uma neve penteada. Trazia consigo uma mala com rodas, enorme e de um peso brutal. Tiveram de ajudá-la a pôr aquele exagerado volume dentro da carruagem. Quando se sentou paralela a mim, do outro lado do corredor, ofereci-me para lhe colocar a mala no suporte junto ao teto:
– O senhor não pode.
– Posso, posso.
– E depois quem é que a tira?
– Para onde vai?
– Santarém.
– Tiro-lha eu que só saio em Riachos.
– Muito obrigada. É um anjo.
– Não sou nada. Os anjos têm aureola.
– Isso não lhe falta a si.
Gargalhada geral. Suei para subir a mala, mas lá acabei por conseguir.
– Fui a Paris, visitar uma irmã.
– Muito bem.
E mergulhei na escrita enquanto ela colocava um enorme saco de mão no banco ao seu lado. E a coisa foi calma até ao Oriente. Acontece que a carruagem encheu e o lugar onde ela levava o saco foi preciso. Para ele.
Eu não sabia que ainda se podia ser marialva junto aos noventa anos, mas, pelos vistos, pode. A menos que se vá ao engano. Como foi o caso. Ele entrou. Aproximou-se do lugar onde estava o saco. Nem lhe pediu para o tirar, limitou-se a empurrá-lo e sentou-se no que sobrava do banco:
– Não se preocupe, deixe lá estar o saco, eu sou bom de arrumar. Estou assim magrinho porque já fiz vinte anos.
E riu-se. Era um sénior com bem mais de oitenta. Completamente calvo, olho muito azul e ligeiramente curvado para a frente. Calças de bombazina, camisa e casaco com cotoveleiras. Trazia um boné que tirou assim que entrou no comboio. Ela respondeu-lhe:
– Fez vinte anos? Então muitos parabéns!
– Muito obrigado. É a primeira vez que ando de comboio.
– Ah sim?
– Sim, tirando hoje, foi mais de setenta anos montado neles… deixe lá estar o saco, não me estorva.
E atirou-lhe uns olhares de irresistível malandro a que ela foi correspondendo com sorrisos que, segundo percebi, não eram de malandrice, embora pudessem ser de gozo com ele. Estranhei, mas esperei. E fiz bem. Tudo viria a esclarecer-se. Ele voltou à carga:
– Então e donde é a bela donzela? Com licença do atrevimento.
– Está licenciado. Sou de Santarém.
– Boa terra. Por acaso é uma boa terra. Dá de comer a quem passa, mas se não levar dinheiro na carteira, nem água bebe.
– Bebe, bebe!
– Não bebe nada. Santarém é uma boa terra, mas não tem uma única fonte. É que a gente procura e não há uma única fonte. E a gente vai pedir. E dão-nos. Mas cobram!
– Se o senhor for pedir um copo de água lá onde eu moro, dão-lho pela caridade.
– Ah sim? E onde é isso?
– É mesmo no centro da cidade…
– É lá que estão as moças mais bonitas!
– Devem estar, mas de moças percebo pouco.
E com esta se ficou. E ele deve ter desistido porque um homem, mesmo aos noventa, sabe quando não é desejado e, vai daí, calou-se. Ele saiu em Pontével. Fez um aceno de cortesia e despediu-se com um Boa tarde muito educado. Depois de uma série de invetivas, umas mais discretas que outras, depois de certo pavonear da sua existência, porque infrutífero, aceitou a estocada final e foi cavalheiro na despedida. Ela olhou para mim, sorriu, encolheu os ombros como que diz, Este não sabe da missa a metade, e calou-se. Não me deu uma única pista, embora tivesse percebido que eu e o resto da carruagem íamos atentos ao enamoramento. Quando chegámos a Santarém, agarrei na brutalidade que era aquela mala e levei-lha até à rua. Ajudei-a a sair da carruagem e só então lhe vi um sorriso malandro. Reveladoramente malandro:
– Muito obrigada. O senhor é muito simpático. Ainda há gente boa no nosso país.
– Não tem de quê. Um bom regresso.
– Muito obrigada. E olhe, se algum dia passar por Santarém e for com sede, vá ao lar das Carmelitas e pergunte pela Irmã Maria Rita. Terei muito prazer em oferecer-lhe um copo de água.
jpv
Pergunta muito específica que fiz a mim próprio sem obter resposta

Pergunta muito específica que fiz a mim próprio sem obter resposta
Onde está a medida?
Onde jaz a melodia?
Onde vagueia meu ser?
Numa bala perdida?
Numa arma vazia?
Numa profunda ferida
Que não sara?
No sangue que jorra
E não para?
Nas minhas mãos
Abandonadas no teu corpo?
No homem que fui,
Agora morto?
Onde está a medida?
Vale a pergunta
Sem resposta?
Serve a mentira
Pela verdade composta?
Onde está a medida?
No corpo?
Na alma?
Na palma
Da mão?
Dentro ou fora
De meu coração?
Onde está a medida
Da infância perdida?
Da morte?
Da vida?
Onde está a medida?
jpv
Teasing The Dark Sweet Cherry Bunch
Num Voo Nunca Acontece Nada – O Beijo

Num Voo Nunca Acontece Nada
Fazemos o check-in, tiramos o relógio, o cinto e os anéis, passamos no detetor de metais, percorremos a loja dos chocolates, a dos perfumes e a das revistas, dirigimo-nos para a porta de embarque, esperamos, entramos no avião, arrepiamo-nos no momento da subida, comemos uma refeição a bordo, lemos uma revista, vamos à casa-de-banho, arrepiamo-nos com a descida, saímos à rua e… fazemos tudo de novo. O que a seguir se conta são histórias entre o primeiro e o último momento da sequência que acabámos de registar.
O Beijo
É imprevisível, a vida. E, por sorte, são imprevisíveis os comportamentos. Não é que as surpresas sejam sempre boas. É que não poderíamos viver sem elas. As boas. E as más. Esta história é simples. Conta-se de um fôlego. Os motivos por trás dela, ou pela frente, ou pelo meio, ou dentro das pessoas dela, esses, é que dão que pensar.
Era um casal. Dois carrinhos de bebé. Uma criança tinha um ano. A outra tinha dois. Depois do check-in, quando se deu o embarque, tiveram direito a ser os primeiros por via dessa especial e preciosíssima carga. À entrada do avião, um rapaz simpático num colete fluorescente ficou com os carros. As duas crianças ficaram cada uma num banco. A de dois anos junto à janela. A outra no assento do meio com uma cadeirinha especial. Na ponta, o pai. A mãe com os seios inchados e generosos de amamentar o mais novo, ficou no primeiro lugar da mesma fila mas depois do corredor. Descansaria na primeira parte do voo e depois trocavam de lugar e assumia ela o comando da criançada. Ao lado dela, um anónimo e a seguir a ele outro anónimo.
Ela percebeu com o decorrer do tempo que o anónimo junto a si reparava insistentemente nos seus seios. Era bonito, o rapaz. Novo. Barba rala, loira. Olhos azuis. Cabelo curto. Fato beige e um ar sorridente. Cruzaram o olhar duas ou três vezes e houve, nesses momentos, um subtil sentido de oportunidade. Há três anos que vivia soterrada em gravidezes e crianças e afazeres relacionados. A vida era demasiado previsível. Demasiado repetitiva. O jovem estava em trabalho e tinha tudo consigo, a vantagem de responder só perante si mesmo. Claro que reparou nos seios dela. Claro que os achou atraentes. Claro que relacionou isso com a amamentação. Mas não se importou. Aquele decote merecia um olhar demorado e generoso. E olhou. Sensivelmente a meio da viagem, um pouco antes da refeição que ia ser servida a bordo e acabara de ser anunciada, o marido informou que ia à casa-de-banho. Depois iria ela e trocavam de lugar. De posto. Assim que ele virou costas, ela sentiu de novo o olhar do rapaz anónimo no seu peito. Pensou repreendê-lo. Conteve-se. Pensou vestir o casaco de malha e tapar a provocativa abertura. Não quis conter-se. De repente, todo o stress dos últimos anos quis explodir, a loucura aflorou-lhe a mente como uma descarga emocional, como quem tenta sorver em segundos a vida desperdiçada em anos. Virou-se para ele. Fez um olhar atrevido. Ele não se amedrontou. Fez um sorriso malandro. E, num repente, ela colocou-lhe uma mão na nuca, puxou-o para si e beijou-o avidamente na boca como quem quisesse sorver-lhe a língua e absorver-lhe a vida prometida no sorriso malandro. Ele beijou-a de volta. E, enquanto se beijavam, ela agarrou-lhe numa mão e colocou-lha sobre os seios que ele acariciou abundantemente por cima da roupa. Quando terminaram, compuseram-se nos assentos como se não se conhecessem. E não conheciam.
O marido voltou. Trocaram de lugares como combinado. Ela tratou das crianças. Nunca mais olhou para o anónimo que nunca mais lhe olhou para os seios. Aterraram. Foram às suas vidas e não voltaram a cruzar-se.
jpv







