Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Poema da Mudança de AC

Poema da Mudança de AC

Estás na idade
Em que se define
A tua figura fina.
Anuncia-se a mulher,
Despede-se a menina.
Ondulados, os cabelos,
Como numa estátua helénica,
O sorriso cândido,
O olhar melancólico
E a pose fotogénica.
Finda o tempo
Da menina que anda,
Começam os dias
Da mulher que caminha
E se insinua
Só com o passar.
Estás na fase de ser senhorinha…
Para nós, sabes como é,
Mude o que mudar,
Veremos sempre a bebé.

Mas vive, já,
Nos teus gestos
E na tua presença,
O porte que dita
A sentença
Da perseguição.
Olham-te com volúpia
Os mancebos e os homens,
Teu pai senta-se à porta de casa
Com a caçadeira na mão!

E tudo isto
Me conta uma história,
Ainda que guarde na memória
Quem foste,
Eu já não o sou.
Passou por mim o tempo
Que te esculpiu
E me desgastou.
O mesmo espelho
Que te reflete mulher
Mostra-me velho.
E a única glória
É ver na minha morte
A tua vitória.

Nenhum homem
Comanda o tempo.
Nenhum homem,
Faça o que fizer,
Fica isento
À mudança de uma menina
Para mulher.

jpv


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Poema Escrito com os Pés dentro de Água

Poema Escrito com os Pés dentro de Água

O mar
Persiste
Em regurgitar
A clara
E límpida ideia.
Essa falua
De sonhos e imaginários
Batendo contra a rocha
E mostrando, exposta,
A luz e seus contrários.
E a escuma rebrilhando
Multiplica os brancos
Na água dançando.
Presa estava a alma
Do poeta,
E agora vive liberta
E voa
Na água ondulante
Prenhe de vida
E sal.
Passa a moça
Em seu biquíni sensual
E o poeta não a vê,
Bronzeada,
Porque nesse exato
Momento
Tem a alma lavada.

E o mar persiste em seu vai-e-vem,
E o poeta vê como ninguém
A clara e límpida ideia:
A vida é uma imensa teia
E não há coisa nenhuma
Que se não lave
Com a ondulante
E branca escuma.

jpv


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Seara

Seara

No andar,
A força da terra.
No olhar,
O espanto do céu.
Na mente,
O sonho de luz.
Nas mãos,
Pouco de seu.
Na voz,
A melodia do amanhecer.
No peito,
A vontade de viver.

Em cada dia,
Um gesto certo
E outro impreciso.
A ciência antiga
Nas coisas simples
E nas complexas.

No ventre,
O calor da seara por ceifar.
Um grito contido
No pecado do prazer.
Escapa-se um gemido
Na hora de acontecer
Vida.
Prometida.
Em teu seio de acolher.

jpv


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Crónicas de Maledicência – Eu quero de volta as Matronas

Crónicas de Maledicência – Eu quero de volta as Matronas

Caros leitores e amigos,
esta crónica é um autêntico grito de revolta, é um pedir de volta, é um ato desesperado procurando ajuda e socorro. Eu percebo que o mundo tem de mudar e evoluir, eu percebo que as coisas não podem ficar iguais, mas há ícones que não podem perder-se, há verdadeiros baluartes da nossa cultura que não podem desaparecer e, contudo, alguns vão-se eclipsando paulatinamente e, quando damos por ela, é demasiado tarde. Já se foram. Um gritante exemplo disto que vos acabo de escrever é a genuína matrona portuguesa.

Não sei se gastam tempo com estas observações e reflexões de alto teor intelectual e sociológico, também conhecidas pelo nome técnico de “parvoíces sem jeito nenhum”, mas eu gasto e sinto-me realizado com isso. Ultimamente tenho reparado nas recém-mamãs, aquelas senhoras que ainda estão na fase pós-parto e que, a bem dizer, deveriam estar deprimidas e cheias de olheiras, e que vejo eu? Vejo que a única coisa que têm em comum com a antiga matrona portuguesa, é estarem a empurrar um carrinho com um ou mais bebés. Tudo o resto mudou. A mãe dos dias de hoje tem as pernas bem feitas, o rabo firme e bem colocado, os seios hirtos a fazer inveja às solteiras, a barriguinha musculada e com aquelas covinhas dos lados, usa vestidinhos de malha agarradinhos ao corpo e nota-se claramente que a lingerie é diminuta, ou então calças justas de cós baixo com o ventre ali a saltitar à nossa frente, o cabelo brilha lustroso e luminoso e fazem os homens retorcerem-se todos a olharem para trás e garanto-vos que não é para ver as belas das criancinhas. Tem um ar jovem e fresco, deslocam-se com elegância e falam pausadamente e em tom sereno como se não carregassem o fardo da educação, a responsabilidade de cuidar de uma vida, e nada nelas transparece sacrifício. Enfim, quase nada. A verdade é que deve ser um sacrifício aturar o tipo barrigudo que segue atrás dela com um pólo Ralph Loren de imitação, uns calções, chinelos de enfiar no dedo e um chapéu de palha na cabeça.

Sejamos claros, eu não me importo que haja mulheres assim, muito pelo contrário, são um regalo e um bem da Natureza. Só estava à espera que fossem solteiras e não mães de gémeos!

Ora, o advento deste fenómeno tem erradicado a terna e tradicional figura da matrona portuguesa. Normalmente era uma senhora de pose avantajada, uns vestidos largos às pregas, uma barriga proeminente, umas cuecas que davam para fazer um jogo de lençóis para uma cama de solteiro, duas rodelas de tecido por baixo do sutiã que eu nunca percebi para que eram uma vez que o vestido surge manchado do leite materno na mesma. O mais normal é estarem com o cachopo mais pequeno ao colo e a darem uma valente bofetada no mais velho que estava a implicar com o mais novo. Atrás segue um marido em tudo idêntico ao já descrito só que este empurra o carrinho de bebé que, imagine-se, vai vazio! Esta mãe desloca-se desajeitada e fala alto com toda a gente como se continuasse sempre a ralhar com os filhos. É desajeitada, mas muitíssimo atenta e cuidadosa. Faz parte do meu imaginário juvenil e sinto um vazio imenso por estarem a desaparecer… por isso e por continuar a achar que as outras, as apetecíveis, não deveriam ser recém-mamãs. Uma recém mamã apetecível faz-me lembrar aquelas fatias de bolo da minha avó, acabadinhas de fazer, muito cheirosas e luzidias e quando a malta ia deitar a mão, alguém dizia, não comas que isso está acabadinho de fazer. Ora gaita, atão não é por estar acabadinho de fazer que apetece comer mais?

Tenho dito!

jpv


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Crónicas de Maledicência – A Culpa não é Dele


Crónicas de Maledicência – A Culpa não é Dele


No domingo, ao final da tarde, em Espanha, reparem bem, caros leitores, em Espanha, o mediático Cristiano Ronaldo, num jogo que não interessa para nada à nação lusa, marcou dois golos e em vez de comemorar, fez birra! Amuou!


Nessa noite, os jornais online e as televisões encheram-se com a notícia. Chegou mesmo a ser a notícia de abertura em alguns canais de televisão. Na segunda-feira, os rádio-jornais acordaram a falar do assunto e a imprensa escrita dedicou meias páginas e páginas inteiras ao sucedido. Na terça-feira, os comentadores da TV voltaram à carga e hoje, quarta-feira, ainda é notícia. Não a birra, mas as razões da birra!

E a mim apetece-me perguntar, Mas então anda tudo louco?
O país definha economicamente, a taxa de desemprego nunca foi tão elevada, há milhares de professores sem trabalho, os enfermeiros são pagos a tuta e meia, as empresas fecham, a restauração está na miséria e a fechar, o fogo queima Portugal de lés a lés, a troika visitou-nos pela quinta vez e o Senhor Primeiro Ministro disse que ninguém gosta de aumentar impostos mas ele não pode prometer nada, os ordenados são cortados, os subsídios de férias e Natal são suprimidos e o jonalismo retrógrado e bacoco da nação atreve-se a abrir telejornais, noticiários e a gastar tinta com a birra de um tipo que ganha mais de QUINHENTOS MIL EUROS por mês?! Mas então anda tudo louco?

Eu admito todas as dificuldades e faço todos os esforços, mas haja decoro! Haja respeito por quem tem de viver com dificuldades, por quem passa fome neste país, HOJE! Então mas aquilo é lá notícia? Para QUATRO dias?!

Eu bem sei que hoje em dia é muito difícil dizer mal do jornalismo. É uma Santa Intocável. E depois lá vêm as represálias! Sabem que mais? Estou-me nas tintas para as represálias! Qualquer jornalista, jornal, rádio, televisão, que tenha dado mais de 3 segundos de atenção à birra do CR7 praticou MAU JORNALISMO!

Tenho Dito!

jpv


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A Paixão de Madalena – Capítulo 2

A Paixão de Madalena

Livro I – A Paixão de Madalena

2. Há cidades que exercem sobre os seus habitantes e visitantes uma magia especial como se algo nos fosse familiar mesmo sendo a primeira vez que lá vamos, como se pairasse no ar certa nostalgia ou ainda como se houvesse a comunhão de um sentimento coletivo clara e facilmente identificável. Genebra tem esse sentimento. É a paz. A tranquilidade. Rodeada de montanhas cobertas por mantos brancos de neve, composta, na parte velha, de ruas estreitinhas e típicas, a cidade usufrui, sobretudo, da presença do imenso lago. É como se aquela água límpida, quase sem ondulação, sussurrando nas margens, transmitisse uma paz comum. Hoje em dia, o trânsito já se vai vendo caótico, sobretudo na travessia do lago, mas na década de noventa, quando Kyle Mckenzie aí vivia, o frenesim urbano era mínimo e Genebra podia descrever-se como uma aldeia grande. Estamos nos primeiros dias de outubro de 1994, o frio começa a fazer sentir-se, as nuvens de neve vão cercando as montanhas que, em breve, estarão brancas como véus de noiva. Já sabe bem um casaco de pele ou mesmo de penas. Sendo trágico perder-se uma vida humana, sempre que tal acontece, e aconteça com quem acontecer, mais trágico se torna quando a pessoa que deixará este mundo sabe o que vai passar-se. E Kyle sabe. Há vários anos que luta contra esta doença, fez os testes todos, fez todos os tratamentos, ganhou, perdeu, avançou para a vida e cedeu espaço à morte, mas hoje, neste preciso momento em que Madalena lhe segura a mão e lhe diz, Não partas, não podes partir, falta fazer uma coisa, pelo menos uma, quero ter um filho teu, nosso, tu sabes, Sim, eu sei, mas não posso já cumprir essa promessa, meu amor, acho que o meu tempo se esgotou, não sinto forças para continuar, também eu quis esse fruto do nosso amor, mas não foi possível, acho que os deuses nos invejaram, Kyle sabe que não sobreviverá a este ataque silencioso da doença. Como se houvesse formas diversas de conceção natural, Madalena cerra os dentes, fecha os olhos, leva a mão de Kyle ao seu ventre e deseja um filho dele, um filho do amor perfeito. Ele pressente a intenção, sorri levemente e murmura, Sempre uma sonhadora…

O último ano fora uma tortura. As dores, as perdas de consciência, as consequências devastadoras da quimioterapia. Tinha resistido bem nos últimos sete anos, tinha combatido de todas as formas possíveis, seguiu todos os conselhos e fez as experiências todas, até o xarope de aloé vera, o cato milagreiro, mas o facto é que a missão em África o fragilizara bastante e agora não lhe apetecia mais, não conseguia mais sobreviver. A morte havia vencido pelo cansaço. Não leva arrependimentos, exceto não ter dado a Madalena o filho que ambos desejavam. Com esforço e sofrimento, ainda tentara há um par de meses atrás, mas o seu amor, abençoado de tantas formas, parecia não ter colhido a bênção do Senhor naquela vontade.

Madalena passa-lhe uma mão pela face, vê-o muito fraco, completamente vulnerável e pressente, também ela, que o vai perder. As máquinas à sua volta fazem bips metálicos, mostram gráficos e de quando em vez cospem tiras de papel. O quarto está escurecido e não são permitidas visitas à exceção da mulher de Kyle. Ela beija-lhe as mãos e a face e a testa e repete mecanicamente, como se tivesse desaprendido todas as outras palavras, Meu amor, meu amor, meu amor…Nunca chorou junto a ele. Kyle era a fonte da alegria e da vontade de viver, não poderia, não quereria, trazer sinais de tristeza à sua beira. Foi quando saiu do hospital que Madalena explodiu num choro desesperado e convulso, caminhava sem destino a ver se a dor a perdia por entre o emaranhado das ruas, limpava as lágrimas com as mãos e continuava a chorar e a dar gargalhadas pelo meio do choro à medida que imagens da sua vida em conjunto lhe afloravam à memória. Às vezes, quando queria fazer amor com ela, Kyle brincava com a sua diferença de idades, Princesa, anda cá ao velhote, vamos ver se isto ainda funciona, e viam e acabavam mergulhando em carícias apaixonadas até a princesa e o velhote tombarem suados e exaustos. A própria cidade lhe parecia mais triste, menos amistosa, menos acolhedora. Só mais tarde perceberia, mas a verdade é que Madalena nunca viria a superar a perda de Kyle. Conhecera-o. Entusiasmara-se com ele. Aprendera com ele a ser mulher. Entregara-lhe a vida. Rira com ele. Chorara com ele. E agora ficava-lhe um vazio profundo no peito. Madalena perguntava-se se seria possível, se seria justo, se seria humano, conhecer o homem da sua vida, encontrar o amor dos amores e só poder desfrutá-lo durante sete anos. Poderiam sete anos valer uma vida inteira de paixão e de amor? Não compreendia porque teria de morrer o homem que lhe mostrara a vida, que lha entregara. No último ano, Kyle não se cansou de repetir, Princesa, não te preocupes, vais encontrar um homem melhor do que eu… e mais novo! Não sejas tonto, Kyle, não há dois homens como tu. Tu és como essa cerveja irlandesa que bebes como água, podem fazer outras, mas é na Guiness que está a essência. Ah, princesa, a Guiness! Essas garrafas fazem milagres! Kyle Mckenzie, comporte-se! Riram da partilha cúmplice e ambos souberam que Kyle a havia libertado. E ela percebeu que essa era só mais uma razão para nunca desprender-se dele.

Olhando a cena que agora presenciamos, podemos dizer sem grande risco de imprecisão que lá fora é Genebra e aqui dentro é Belfast. O lago adormecido e calmo exala tranquilidade. Está frio. O manto branco circundante da cidade cresce a cada noite que passa. É manhã, mas ainda muito escuro. Madalena está na cozinha, tem um café forte fumegando em cima da mesa, ao lado, scones que acabou de confecionar e está de frente para o fogão onde rebrilham tiras de baconfrito com ovos estrelados. Espremeu duas laranjas e juntou um pouco de água. Decidiu reviver sozinha todos os rituais que praticava com Kyle. Tem-no gravado na alma e no peito. Quer também incluí-lo nos seus gestos do dia-a-dia. Vai cantarolando “The Whole of the Moon” dos Waterboys e prepara-se para começar a comer. Algo aconteceu, contudo, que não tinha acontecido ainda. O odor perfumado do bacon e dos ovos, o aroma do café, tudo isto que, normalmente, lhe fazia crescer água na boca e comer com satisfação trouxe-lhe, súbito, um vómito. Correu à casa-de-banho e vomitou tudo o que tinha no estômago. Água. E pensou, Mas ainda nem sequer comecei a comer, deve ser a sugestão. E voltou à cozinha. Desta vez nem precisou sentir o cheiro da comida, assim que avistou ao longe os ovos, foi acometida de novos vómitos. Enfiou a cabeça na sanita e expeliu água. Colou os olhos na parede e gritou: Kyle!Pegou na carteira, desceu as escadas numa correria de saltar degraus, saiu para o frio com um braço no ar e a palavra a saltar-lhe dos lábios, Táxi! Táxi!Entrou na farmácia afogueada, com o peito cheio de esperança e medo e antecipação:
– Um teste de gravidez, por favor.
– Que idade tem a menina?
– A suficiente para estar grávida do meu amor.
– De acordo.
– Posso usar a casa-de-banho?
– Claro que sim, respondeu-lhe o farmacêutico perguntando a si mesmo que urgência poderia haver para saber uma jovem se estava grávida ou não. Se não estivesse, problema encerrado. Seria talvez o melhor. Se estivesse, nada poderia fazer agora se não esperar, marcar umas consultas, contar à família, ao pai e continuar a esperar. Pensou isto o farmacêutico porque desconhecia as aflições e as urgências de Madalena, as mesmas que o amável leitor já conhece.

A casa-de-banho era pequena, mas Madalena não precisava de mais. Um lavatório com um espelho por cima e a sanita onde está sentada. Lê apressadamente as instruções e inicia os procedimentos. Dois minutos mais tarde agarra na prova da sua satisfação e sai à rua com o teste de gravidez em punho gritando, pela segunda vez nessa manhã, Táxi! Táxi!

Depressa! Depressa! Repetia ela ao segundo taxista do dia. Entra no hospital com a roupa em desalinho e o peito em sobressalto, atravessa um corredor, sobe dois pisos de elevador, respira fundo, sai para outro corredor, dirige-se à ala de internamentos de oncologia, Deixem-me passar, preciso falar com Kyle Mckenzie, sou a mulher dele, deixem-me passar. Um enfermeiro segura-a, tenta acalmá-la, puxa-a para uma salinha e diz-lhe, Tenha calma, por favor, tenha calma, precisa ouvir-me. Ela pressente as piores notícias e grita, Ele morreu? O meu Kyle morreu? Não. O senhor Mckenzie não morreu ainda, mas temo que as notícias não sejam animadoras. Como assim? Deixe-me falar com ele. Eu deixo, mas ele não vai poder ouvi-la, há duas noites atrás, pouco depois da senhora sair, o senhor Mckenzie entrou em coma e nada indica que vá recuperar, infelizmente só os aparelhos de suporte de vida o mantêm entre nós. Madalena levanta-se, ignora as palavras e os avisos do enfermeiro, corre para o quarto, ajoelha-se junto à cama de Kyle e fala com ele entre lágrimas e soluços, Acorda, meu amor, acorda, acorda seu irlandês teimoso, vamos ser pais, conseguimos, conseguimos, ouve-me, Kyle, ouve a tua princesa, conseguiste, Kyle, conseguiste, ficará entre nós uma semente de ti, o fruto do nosso amor. Dizia estas palavras como que esperando que a maravilha da notícia o despertasse, como se, pronunciadas as palavras de anunciação, Kyle se libertasse dos tubos e dos fios e das máquinas e lhe respondesse, Sim, princesa, conseguimos, vês, o teu velhote ainda funciona. Ela esperou depois algo mais ténue, um sinal impercetível, um sorriso tímido, um piscar de olhos. Nada. Kyle Mckenzie não voltou a acordar. Nunca saberia, neste mundo, que fora pai. Morreria semanas mais tarde naquele quarto de hospital. Morreria, por ironia, junto à estação do nascimento dos nascimentos, o Natal. Madalena recebeu do seu professor uma última lição. Aprendeu que pode um homem estar morto e vivo ao mesmo tempo. Pode jazer inerte e frio numa cama de hospital e fervilhar de vida no ventre de uma mulher. É preciso ser-se um homem especial para conseguir tal feito. É preciso ser-se uma mulher especial para aceitar a vida de um tal homem e dedicar-lhe com devoção a alma e todo o amor de que se é capaz.

É por serem especiais que contaremos a sua história. Fazemo-lo já porque maio não vem longe e com ele chegará o fruto do seu amor: Jacob.

——————————– jpv —————————–


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A Paixão de Madalena – Capítulo 1

A Paixão de Madalena

Livro I – A Paixão de Madalena

1. A tarde cai. Fenece a luz do dia. Um manto cinzento e triste cobre esta Terra que viemos habitar. Já o coroaram de espinhos. Já percorreu a última estrada. Caiu e levantou-se. Chegou carregando o seu próprio madeiro. Ao madeiro o pregaram. O madeiro ergueram. Do madeiro sangrou fundindo carne e sangue e lenha num só. Escarneceram dele com propostas materiais e impossíveis, Se és o Senhor, liberta-te daí! E não viram que não foi pela matéria que deixou pregar-se. Não foi a matéria que quis libertar. Ferido, cansado, acertadas as contas com o ladrão a seu lado, desceram o madeiro e descravaram-lhe o ferro da carne. A mãe o tem no colo e o limpa e o acaricia. E junto a ela outras mulheres de família ajudam a tratar o corpo do Homem, filho do Senhor e da Mulher escolhida para o entregar ao mundo. E entre elas uma outra mulher. Sem laços de família nem outro direito ao seu corpo que não fosse tê-lo amado. Madalena.

A mãe e as demais familiares podem reclamá-lo como seu, podem chorá-lo e todos acharão legítimo esse choro. Um choro de dor. Um choro de posse. Acredita o escrevedor humilde destas linhas que Cristo veio até nós para amar. Para ensinar-nos o amor e a salvação por ele. Acredita e sente-se confortável com tão nobre crer. E que Cristo seria o nosso se não conhecesse todas as formas de amor e, conhecendo-as, as não quisesse experimentar a todas? Sim, preferimos a ideia de um Cristo amador que amou tudo de todas as maneiras inclusive as mulheres à maneira dos homens. E, tendo-o feito, que outra mulher poderia ter sido amante de Si que não essa que se encontra aí prostrada, lavada em lágrimas de silêncio, limpando-lhe as feridas do corpo?

Sim. Amou Cristo a Madalena. E amou Madalena a Cristo. E outro laço não tiveram que a certeza desse amor. Cristo despojou-se do Seu corpo e entregou-lho. Madalena despojou-se da sua alma e ofereceu-lha. E enquanto as outras mulheres o limpam em gestos de posse, chorando a perda, Madalena percorre-lhe o corpo com um pano humedecido, limpa-lhe as feridas e reconhece-lhe as formas e fá-lo em gestos de desprendimento e dádiva. Deu Cristo a vida pela Humanidade e resgatou-a. Deu Madalena a alma pelo amor do filho do Senhor e encontrou-os. Ao amor. E ao Senhor. E encontrou um caminho de arrependimentos e expiações pelo poder resiliente do Amor.

Desceram o madeiro. Descravaram-lhe o ferro da carne e ficaram as mulheres limpando-o. Mas só uma o conhecia por inteiro. A si e ao seu legado de Amor. Madalena.

—————– jpv ———————


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É Este o Espírito!


(Clique para Aumentar)

A Liga dos Campeões no seu melhor. Para azar dos catalães, o sorteio da fase de grupos colocou o Benfica no caminho do Barcelona. Temos pena! Até perdermos, vamos sempre dar quatro a zero!
Messi e os amigos que se cuidem. Isto aqui não é só facilidades como costumam encontrar frente ao Real Madrid. Se o nosso Melga se lembra de marcar na baliza do Barça um golaço igual ao que meteu na nossa baliza contra o Braga, desequilibra logo a eliminatória!

Beeeenfiiiiica!

Mai nada!

PS: boa sorte para os outros clubes portugueses a quem saíram equipas fortes, nós só temos de arrumar o Barça!


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"A Paixão de Madalena" – Advertência

Caros Leitores e Amigos,

Há uns dias prometi começar a publicação do romance “A Paixão de Madalena” em setembro e é isso que farei. Impõe-se, contudo, uma explicação que funciona também como advertência. Embora os capítulos iniciais estejam escritos e revistos, muito falta ainda redigir e rever e corrigir. Como sempre faço, estou a investir muito neste texto. Gostava imenso que resultasse num texto bem escrito com uma história interessante e, de preferência, bem contada. Tudo isto acontece numa fase em que várias mudanças estão acontecendo na minha vida pelo que venho alertar-vos para eventuais demoras na apresentação dos capítulos.

Quem seguiu os romances anteriores, apercebeu-se de que, normalmente, não gosto de fazer intervalos de publicação superiores a cinco dias. Honestamente, não sei se será possível. Sei que tentarei. A investigação está feita. A estrutura está concluída e a redação começada. Tudo dependerá de como a vida se apresentar nos próximos meses.

Queria demorar um pouco menos de um ano a concluir e publicar aqui no MPMI este romance até porque tenho já na calha um outro projeto que me anda a fazer comichão na mente.

Assim, posso adiantar que os cinco livros que apresentei se desdobrarão por 35 capítulos. Ora, se conseguisse publicar um capítulo por semana, em nove meses, mais coisa menos coisa, teríamos a publicação concluída.

Dada a satisfação por respeito aos leitores que decidirão se seguirão, ou não, a história, resta-me um “até já” e desejar-vos boas leituras. Divirtam-se!
jpv