Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Vinte e Cinco


Vinte e Cinco

Olá!

Foi ontem. O nosso 11 de setembro. Marcante, este. Completaram-se 25 anos desde que, ainda muito jovens, imberbes, literalmente (!), resolvemos casar. E, na altura, queríamos que fosse para sempre, mas não sabíamos quanto tempo duraria sempre. Olha, afinal, num ápice, num átomo de tempo, já vamos em vinte e cinco.

Uma coisa é certa, se fizéramos planos para sair do país e trabalhar longe de casa, se isso alguma vez cruzou as nossas mentes, acho que foi no início da nossa união. Nunca pensámos que, se chegássemos aqui, passaríamos o dia em Maputo. Do outro lado do mundo.

O percurso tem sido fantástico. Melhor do que alguma vez sonhei.

Se alguma coisa me fica destes anos é a certeza de que estão neles os mais extraordinários momentos que vivi. Estão neles, também, o nosso filho que, por via das sinuosas linhas do Destino, fez ontem 23 anos. Falámos com ele de manhã. Está lá longe. Está bem. É nosso. É como se estivesse aqui, onde está sempre. Nos nossos corações.

Sim, vivemos dificuldades, passámos por crises. A maior parte das vezes, responsabilidade minha, por esse espírito deambulante que me faz questionar tudo. Tu és mais como era o meu pai: uma rocha de firmeza. Outras vezes, também, por inconstância tua. Nada disso importa. Somos, como disseste, companheiros! E acho que somos mais do que isso. Uma metade da outra metade. Um amor que ficou e resistiu e perdurou e renasceu e que habita hoje, tranquilo, nossos corações. 

Mudei contigo. Para melhor. E, sei-o com convicção, não quereria ter passado o dia de ontem com mais ninguém. Sendo honesto: não quereria ter passado os últimos vinte e cinco anos com mais ninguém.

Foi um dia de trabalho. Mas também foi um dia de flores e bolo de chocolate. E, sobretudo, foi um dia sem a energia de outros tempos, mas com a ternura e a certeza da companhia um do outro. 

Agora, acho, inicia-se um outro caminho. Por mais que custe, é preciso dizê-lo, escrevê-lo. Meu amor, acho que começou a estrada onde envelhecemos juntos. É precisa, agora, a sabedoria para tirar partido destes anos que são aqueles em que tudo é melhor e, ironicamente, em que tudo caminha para o fim. Seja! Contigo a meu lado!

Com a ternura dos quarenta e muitos, com o amor de sempre,

jota


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Citação da Criação



“Nunca o Criador fez alguém tão perfeito que lhe não colocasse uma falha a lembrá-lo da sua humanidade, da mesma forma que nunca se dedicou a fazer alguém tão vicioso que lhe não atribuísse uma virtude a lembrá-lo que emanava da mesma divindade que todos os outros.”

João Paulo Videira 
In “De Negro Vestida”


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Crónicas de África – A Inigualável Gente de Moçambique

 

Crónicas de África – A Inigualável Gente de Moçambique

Só mesmo em Moçambique: regressámos há duas breves semanas e há já tanto para contar. Histórias com gente dentro.

Hoje, propositadamente, substituímos a habitual foto das “Crónicas de África” por essa que aí está e que retirámos da página Moz Maníacos no Facebook. Fizemo-lo porque estes sorrisos não os conhecemos em mais lado nenhum. São genuínos, transpiram a alegria verdadeira de quem não sabe ser de outra maneira. Há uma esperança no olhar de cada moçambicano que não sabemos de onde vem, mas que sabemos ser parte da identidade deste povo. E há também uma verdade transparente em cada pessoa, mesmo que essa verdade não nos agrade. Os moçambicanos são ímpares. Inigualáveis. São o que são, dizem o que têm a dizer, fazem o que têm a fazer, sempre com essa transparência expectável, sempre com um sorriso e uma alegria desconcertantes. Quatro breves apontamentos.

O Assalto.
Não vou entrar em pormenores. Não é isso que interessa. O que me interessa é a conclusão da história. Fui almoçar. Deixei uma pasta com um computador debaixo do banco do pendura. Claro que me tiraram a fechadura do carro, destrancaram a porta, abriram a mala, tiraram o computador, voltaram a fechar a mala, colocaram a fechadura no sítio e fecharam a porta. Quer dizer, toda a gente tem princípios, até um larápio de computadores. Se era para palmar o computador, não havia necessidade de estragar a viatura. Mai nada. Assim que chego a casa, estranho o facto da porta de trás estar a abrir mal, mas penso que se trata de uma avaria, a minha mulher sente a pasta mais leve, oh se estava(!), abre-a e computador viste-lo. Relaciono uma coisa com a outra, meto-me no carro, vou ao local onde tinha estacionado o carro para almoçar, chamo o arrumador a quem tinha pago para guardar o carro e nem lhe dou hipótese de argumentar, nem sequer lhe pergunto se sabe do computador, mostro-lhe o branco do olho e o ranger dos dentes e peço-lho de volta com a convicção firme de que ele o tinha e eu o queria. Resultou. Ele levou-me a quem o tinha que, perante argumentos similares, branco do olho e ranger de dentes, não hesitou em devolver-me o computador. A história acabaria aqui. Acontece que estamos em Moçambique, acontece que esta crónica teve uma introdução e é necessário que esta historieta seja coerente com ela. No momento em que me estende o computador embrulhado num saco preto, o larápio olha-me a medo e diz:
– Desculpa lá, boss.
Caros amigos e leitores, onde, em que outro lugar do mundo, é que um larápio devolve o produto do roubo e pede desculpa ao lesado?

Welcome Drink.
Um dos hipermercados a que vamos, também não há assim tantos, o Mica Premier, tem um bar com um longo balcão e umas mesinhas onde, por exemplo, se pode tomar o pequeno almoço. Uma vez por semana, ao sábado de manhã, costumo beber lá um café. Não é uma regra. É um hábito. Ora, com o café e a natural simpatia e abertura dos moçambicanos ajudando a isto o facto de, de vez em quando, eu vestir uma camisola do Benfica, os empregados foram metendo conversa, eu fui respondendo, criámos ali uma saudável picardia e umas palavras de saudação no início de cada fim de semana. Para mim, eram uma presença simpática a acordar-me o sábado. Para eles, pensei ser só mais um cliente. E até talvez seja, mas há algo especial nos moçambicanos: a forma generosa como reagem à simpatia. Um dia destes, penso que na sexta feira, passei por lá a beber um café antes de ir comprar não sei o quê para a despensa e eles vai de saírem para o lado de cá do balcão e distribuir demorados e apertados abraços, Então, porque nos abandonou tanto tempo? Estive de férias, fui ver o meu filho e a minha família. E encontrou tudo bem por lá? Graças a Deus. E vocês, estiveram bem por cá? E a conversa desenrolou-se e os abraços repetiram-se e eles renovaram as saudações e entretanto bebi o café e quando pedi para pagar eles disseram-me que pagavam eles, era uma Welcome Drink. Eu sei o preço do dinheiro para estas pessoas, por isso insisti para pagar até que um explicou. Nem pense nisso, hoje pagamos mesmo nós, é que pusemos um metical por dia de parte enquanto esteve fora para lhe poder pagar um café quando voltasse. E pronto. Lá segurei as emoções como pude, mas não há qualquer dúvida de que os meus companheiros de saudação matinal ao sábado e discussão dos lances mais duvidosos do futebol de fim de semana me cativaram, uma vez mais, com a sua alegria e a sua simpatia. Como eles se autoproclamam num cartaz, são mesmo capazes de um antendimento excepcionalmente super extraordinário! Mai nada!

É por isso que vale a pena!
Hoje vinha caminhando com a Paula, lado a lado, queimando umas calorias, como eu preciso, meu Deus, e cruzou-se um par de jovens connosco. Ouvimos, de passagem, a voz de um, em tom entusiasmado, revelando ao outro: Assim posso sonhar de duas maneiras! E pronto. Eis a súmula de tudo o que vale a pena nesta terra de oportunidades. Há desvantagens? Claro. Muitas. Mas há essa sensação preciosa que é a tangibilidade do sonho e da esperança. Sim, aqui pode-se sonhar. E, mais do que isso, podem concretizar-se sonhos. Os nossos e os de muita gente à nossa volta. É fundamentalmente por isso que esta terra vale pena!

O Outro Cão.
O nosso cão estava com o pelo demasiado grande. Tão grande que podiam advir-lhe uns incómodos. Ora, quando o mandei tosquiar e me perguntaram como queria o pelo, disse que queria o mais curto possível, nem mais, era o que faltava andar sempre a correr com o cão para o “cabeleireiro”. E o veterinário cumpriu a promessa. Deixei-o lá e quando o fui buscar já o guarda estava aqui a rondar o prédio. E a conversa que aconteceu, assim que saí do carro com o cão foi, mais ou menos, assim:
– Eh patrão, tem outro cão?
– Não, C., é o mesmo.
– Não pode. O outro tem o cabelo comprido.
– Não é outro. É o mesmo. Só que lhe mandei cortar o pelo.
Ele olhou demoradamente o cão e rematou:
– Tem a certeza?
– Tenho.
– É que parece mesmo outro.
– Mas é mesmo o mesmo.
– OK.
E abriu um sorriso confiando que eu estava mesmo certo de ser o mesmo cão. Não fosse a vida pregar alguma partida e surpreendi-me a olhar para o cão a verificar os traços. Era o mesmo. Pelo menos responde pelo mesmo nome!

Cada dia, uma aventura, uma surpresa. Umas boas. Outras más. Cada dia, esta terra e, sobretudo, esta gente com que me cruzo, vai entrando na minha vida e nos planos dos meus gestos. É uma terra fantástica. Diferente, em tudo, de tudo o que conheço. É uma gente de sonho e esperança. Inigualável.

jpv


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Citação da Perspetiva


“Envelhecer é chato, sim, mas é a única maneira de se viver mais.”

Eva Vilma
Citando uma personagem que interpretou.


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Tento na TV – É o Chamado Dentro e Fora

Tento na TV – É o Chamado Dentro e Fora

“Esta vitória deve-se a todos os jogadores que estiveram dentro do campo incluindo os que estavam de fora.”

Bruno Alves
Jogador da Seleção Nacional
à RTP1 após o jogo com a Irlanda do Norte

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Ó amigo Bruno, vai uma bússola?!
Em bem sei que, apesar da estrondosa vitória e do fantástico jogo do CR7, as coisas estiveram, por momentos, muito feias, mas também não é preciso perder o Norte!
Então e aos que estavam na bancada não se deve nada?
E aos milhões de telespetadores?

jpv


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Tento na TV – A mim, desagradou-me!

Tento na TV – A mim, desagradou-me!

“Respeito as decisões do Tribunal Constitucional quando me agradam e quando não me desagradam…”

Luís Filipe Menezes
Candidato à Presidência da
Câmara Municipal do Porto
RTP1 – 6 de setembro de 2013

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Ó senhor candidato, como diria o meu avô, Era o que mais faltava!
Eu bem sei que lhe agrada respeitar quando lhe agrada e que não lhe desagrada respeitar quando não lhe desagrada, mas dizer isso é público… é precisa muita coragem, oh se é…
Já agora e quando as decisões lhe desagradam ou quando não lhe agradam, também as respeita? É que faltou essa parte…

jpv


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Motorcycle Chronicles – Multiple Choice

Multiple Choice

É noite. É uma imensa esplanada ao ar livre, num recinto fechado com um tapete de relva fresca cortada muito curtinha, há centenas de mesas redondas, todas com uma tolha branca caindo às pregas, as cadeiras estão forradas de tecido também branco e têm um enorme laçarote atrás. Cada mesa tem um pequeno candelabro e está iluminada só pela luz da vela indecisa. Há pratos e copos e talheres de prata. Ao lado das mesas, emerge do chão um varão em ferro e no topo dele uma espécie de telefonia onde pode regular-se o som do filme que se projeta no enorme ecrã colocado num dos topos do recinto. É uma espécie de cinema a céu aberto com refeições requintadas. Os empregados deslocam-se, elegantes, tentando não perturbar muito a visão dos clientes. Ainda assim, em boa verdade, os filmes são mais um pretexto. É bom jantar com uma companhia agradável ao som de um diálogo entre o Humphrey Bogart e a Lauren Bacall.

William Brody tinha duas paixões na vida. Motos e mulheres. Nem sempre por esta ordem, mas também acontecia. Enveredou pela carreira de Polícia Militar. Algo lhe agradava na ideia de regular a ação e o comportamento dos colegas assim como que garantindo uma postura incólume às forças da Defesa Nacional. Não fora essa, contudo, a única motivação para a escolha daquele ramo em particular das forças armadas. Digamos que poder ter um jipe Willys sempre à mão e uma Harley Davidson para uso quotidiano ajudaram muito na decisão. Tratava a moto como se fosse sua, manutenção diária, cuidados especiais com cada barulhinho fora do ronronar habitual, limpeza contínua e sem mácula, e, claro, patrulhava tranquilamente a longa marginal usufruindo do tempo e do calor húmido com odor de mar e aventuras. Por vezes, quando acontecia que o destino quisesse colocar-lhe uma pendura bonita no banco de trás ele impressionava-a com o ronco forte da moto e enquanto deslizava encostava-se para trás e dizia:
– Estás a ouvir este som?
– Estou.
– É poesia!
– Poesia?
– Sim. Poesia em duas rodas!

Gostava de convidá-las de forma inesperada e inusitada, como desafiando uma negação, gostava de conversar com elas, de levá-las a passear na Harley, de explorar-lhes o atrevimento e a intimidade, de amá-las. Quando as deixava em casa, após vê-las entrar porta dentro, seguras e satisfeitas, acendia um cigarro que fumava sentado na moto. Depois, imitava o Bogart, atirava o cigarro projetando-o com a força do dedo do meio disparado do apoio no polegar, soltava a última baforada, puxava pelo ronco da moto e deambulava pela cidade como se estivesse no paraíso.

Ela está de branco. Um vestidinho cintado, por cima do joelho, o cabelo apanhado num imenso novelo e uns óculos como os da Jacqueline Kennedy antes de acrescentar um nome. Ele olha-a embevecido, imaginando as palavras que vai dizer-lhe ao longo do jantar, o que ela vai responder, como a emoção vai crescer, onde a levará a passear. Veste umas calças de fazenda pretas, com pregas, uma camisa branca e um casaco do mesmo tecido das calças. Sem gravata. Elegante. Não demasiado formal.

Não houve qualquer espécie de empatia. Ele olhava-a, tentava chamá-la com o poder dos seus olhos brilhantes, iniciou diversas conversas, mudou de assunto, e recebeu em troca uns Sim, sim, Pois, pois, Hum, hum… Na tela, o Tyrone Power e o Errol Flynn pareciam conquistar-lhe todas as atenções. Desta vez, o cinema passara de pretexto a texto. O homem ultrapassado pelo espectro do homem, a magia da Harley esquecida pela luminescência movimentada da fita.
-Dás-me um minuto?
-Hum, hum…
-Volto já, com licença…

E saiu! Rolou rápido junto ao mar e tentou esquadrinhar o porquê daquela desatenção, daquela desfeita, nem um olhar, duas palavras atentas, uma mulher tão bonita que, quando convidada, parecera realmente entusiasmada com ele. Residia aí o engano. O entusiasmo era com o glamour do restaurante e da gigantesca tela espelhando “E o Sol Também Brilha”. Era preciso fazer qualquer coisa, regressaria e pensaria em algo.

Ao reentrar no recinto passou pela bilheteira e reparou que já ninguém vendia bilhetes. A única pessoa que aí estava, arrumava os materiais. Contemplou-a. Uma mulata curvilínea de saia travada e casaco da mesma cor adamascada, um chapelinho na cabeça e um olhar terno e perdido. Foi lá.
-Boa noite.
-Boa noite. Bilhetes para hoje já não há…
-Eu já tenho um, obrigado. Na verdade tenho dois. Não que valha de muito…
-O quê? consigo também?
-Comigo também o quê?
-Foi trocado pelo Tyrone Power.
-Ou pelo outro.
-Acontece.
-Pois, pelos vistos. Eu sou mais conversa, uma cerveja, uns camarões…
-Pois, mas olhe que a concorrência é feroz!
-Já percebi. Só não percebo o que têm as pessoas na tela que não tenham na vida real…
-Têm sonhos!
-E não pode sonhar-se nos lábios de uma pessoa? Não pode sonhar-se no assento de uma Harley?
-Uiii… duas escolhas que eu preferiria…
-Tem bilhetes para amanhã?
-Eh, homem de fé… se acha que quer combater as sombras na tela…
-Naaa… mas posso sonhar à minha maneira.
-Tenho sim.
-Reserve-me uma mesa para duas pessoas, por favor, e venda-me dois bilhetes para o filme.
-Olhe que é o mesmo!
-Isso importa pouco. Empresta-me um envelope desses aí…
-Claro…

William Brody pagou, guardou o bilhete da reserva de mesa e um dos bilhetes de cinema no bolso do casaco, colocou o outro no envelope depois de rabiscar qualquer coisa nele, estendeu-o à mulata curvilínea que lho vendera e disse-lhe:
-Tome este envelope. É para si. Não o abra já, não precisa dizer-me nada agora. Abra-o amanhã e faça o que quiser. Boa noite e obrigado.
-Boa noite, sonhador.

O Tyrone Power e a Ava Gardner disputam a tela com Errol Flynn, uma garrafa de champanhe está na eminência de esvaziar-se, William Brody não tira os olhos da mulher que hoje o acompanha e lhe dá toda a atenção do mundo. As conversas desfiam-se, concordam, discordam, há música nas frases e luz no olhar, há uma mulata bonita e curvilínea exibindo as formas no vestido negro justo ao corpo de deusa e há um sonhador de fato de fazenda preta e pregas nas calças, sem gravata, e o mundo à volta é só uma moldura enevoada e imprecisa para os sentidos de ambos que se esgotam em ambos. Terminam o champanhe, decidem ir passear de moto na areia com o mar a salpicar as pernas, abandonam a tela, deixam as estrelas a falar sozinhas, levantam-se e saem para a sedução da vida.

Para trás uma mesa deserta com três bilhetes em cima. O da reserva e dois para o cinema. A mulher da noite anterior, enfastiada com o seu companheiro que não tirava os olhos da Ava Gardner, reparou naquele namoro, no cintilar daqueles olhos, no bailar daqueles lábios de promessas e quando os viu sair, a curiosidade inquietou-a. Levantou-se discretamente da sua mesa, recolheu os bilhetes da outra e voltou a sentar-se. Nada num, nada no outro e, por fim, algo escrito no último deles. Guardou-o, arrependida, na sua carteira, levou-o para casa, colou-o na folha do seu diário que marcava aquele dia quente e húmido de verão perdido no início da década de sessenta. O diário ainda existe, o bilhete ainda lá está colado, e tem escrito, com uma caligrafia irrepreensível e belíssima, a expressão “Não falte que se arrepende!” e, por baixo, a assinatura: Sonhador.

jpv

À grata e saudosa memória de meu pai,
Jaime Videira, também ele sonhador, à sua medida.


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Tento na TV – É com Cê de Cão

Tento na TV – É com Cê de Cão

Desta feita, em vez de uma transcrição, optámos por colocar uma imagem para ilustrar o tratamento que a televisão vai dando à Língua Portuguesa. Por baixo, o inevitável comentário.

(Clique para Aumentar)

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Fim de semana passado
Serviço Informativo da TVI
Imagem gentilmente cedida pela CM.

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É com cê de cão, não é com quê de quá quá!
Os escritores dos títulos em rodapé, os editores dos blocos informativos, os jornalistas em geral, são, também, a face da proficiência que temos no uso da Língua Portuguesa. Outro rigor, exige-se!
E não! Não é uma gralha! É calinada da grossa!

jpv


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Vermelho Direto – Dérbi Intenso


Vermelho Direto – Dérbi Intenso

Jogou-se, hoje, mais um dérbi, Sporting-Benfica, que só terminou empatado a uma bola porque o árbitro influenciou diretamente o resultado do jogo ao validar o golo do Sporting que foi precedido de fora-de-jogo nítido. Por acaso, penso que o resultado é o mais adequado tendo em conta as incidências do jogo, mas gostava de ver os sportinguistas que o ano passado se queixaram de terem sido prejudicados pela arbitragem porque não foram assinalados 27 penaltis contra o Benfica, terem agora a hombridade de assumir que empataram o jogo com um golo falso. De facto, o único tento limpinho foi a obra de arte que Lazar Markovic construiu ao fintar quatro adversários para depois passar a bola entre as pernas do impotente guarda-redes do Sporting.

Na primeira meia hora o Sporting jogou muito melhor do que o Benfica, foi mais dominador e mostrou um futebol bonito e envolvente. Foi pena não ter conseguido marcar um golo limpo. Nos últimos quinze minutos da primeira parte, o Benfica equilibrou e Deus fez o que Jesus não foi capaz. O treinador do Benfica não estava a mexer na equipa e assistia sereno à sua própria derrota quando Deus se lembrou de lesionar dois jogadores do Benfica e obrigar Jesus a fazer as duas substituições que viriam a alterar a face do jogo.

Na primeira meia hora da segunda parte o Benfica foi melhor. Foi mais pressionante, encostou a rapaziada do Sporting às cordas e foi nesse momento que Markovic se lembrou de levar meia equipa adversária atrás e a fazer, eventualmente, o melhor golo do campeonato. Nos últimos quinze minutos de jogo o Sporting equilibrou por via de melhor forma física.

Pelo meio, o senhor árbitro, que fez uma arbitragem sofrível, cometeu dois erros graves, na minha opinião. Não expulsou Maxi Pereira do SLB e devia tê-lo feito por entrada violenta sobre um adversário, e não marcou um pénalti claro contra o Sporting por falta infantil sobre Cardozo dentro da área sportinguista.

Um dérbi emocionante, com golos, casos e um elevadíssimo ritmo de jogo a mostrar um Benfica menos bom que o ano passado e um Sporting muito melhor que o ano passado o que também não era difícil. Convém não esquecer que, feitas as contas, quem ganha com isto é o FCP! Ah pois é, à terceira jornada, o Porto vai isolar-se na tabela classificativa porque amanhã derrotará, sem margem para dúvida, um clube amigo que não vai dificultar a vida, até porque, como aqui se mostrou em tempo útil, ainda recentemente o fez. Ou seja, o FCP vai previsivelmente à frente e já o é, mesmo antes de o ter sido!

jpv


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Crónicas de Maledicência – Uma Questão de Oportunidade

Crónicas de Maledicência – Uma Questão de Oportunidade

Veio hoje a público que o Bloco de Esquerda, em particular, duas militantes daquele respeitável partido, pretendia discutir o fim do piropo nas ruas de Portugal. O mais engraçado é que não sabem ainda como pôr em prática tal proibição. Nem elas, nem eu. Vejamos, algo de extremamente pertinente se me aflora de imediato à mente: trata-se de qualquer tipo de piropo? Há piropos aceitáveis? E como é que os piropeiros vão saber quais são os que podem proferir-se e quais os que não podem? Afixa-se uma listagem de piropos proibidos na junta de freguesia? À porta das obras? Já não há obras em Portugal. A crise, que o BE tanto combate, ainda bem, é ela, em si, um inseticida de piropos uma vez que acaba com a construção e não havendo obras, a grande maioria dos piropeiros fica desempregada e sem vontade de piropar. Eu bem sei que a prática do piropanço pode ser conotada com marialvismo, machismo, assédio, etecetera e tal, mas, também sei que há diferentes níveis de piropeira. Por exemplo, se uma moçoila, ao passar na rua, ouvir a frase, Chega-te à sombra que o sol derrete os bombons, não vejo como possa sentir-se agredida e assediada. Há até um certo cuidado com a saúde da moça, pois todos sabemos os nefastos efeitos do sol, nomeadamente, derivado à pele! 

Todas estas reflexões, por ricas e interessantes que sejam, me parecem, contudo, um certo desperdício de energias políticas porquanto, ou me engano muito, ou há coisitas a necessitar mais da nossa atenção. Assim de repente, ocorrem-me poucas. Por exemplo, no plano internacional, é capaz de ser exagero meu, mas vejo no horizonte a possibilidade de um conflito bélico entre aliados e sírios com fantasmas recentes a pairarem sobre uma tal iniciativa e muitos inocentes a serem peões menores em confrontos de gigantes. Dentro de fronteiras, temos mais um braço de ferro entre o Governo e o Tribunal Constitucional onde se jogam os empregos de milhares de trabalhadores, temos a calamidade dos fogos que ardem, ceifam vidas atrás de vidas, algumas bem jovens, havendo questionáveis e discutíveis opções no âmbito da gestão dos recursos para fazer face a estas calamidades, há o desemprego, há a falência das famílias, há a emigração forçada de milhares de jovens e qualificados portugueses e Elsa Almeida e Adriana Lopera não conseguem lembrar-se de nada mais premente para discutir do que a abolição do piropo?

Não me parece só uma questão de falta de oportunidade, embora o seja também. É mesmo uma questão de vazio político que, mais do que as próprias ou o BE, envergonha o país.

Tenho dito!
jpv