Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Vermelho Direto – Benfica-Sporting

Vermelho Direto – Benfica-Sporting

O Vermelho Direto de hoje chama-se “Benfica-Sporting” por causa do eletrizante jogo de futebol de onze para a Taça de Portugal, mas não só. Foi um fim de semana repleto de dérbis.

O jogo para a Taça foi memorável. Daqueles que nunca mais esquecem. Tal como a vitória do Benfica por 3-6 em Alvalade ou a vitória do Sporting por 5-3 também em Alvalade. São jogos que têm sempre quatro ingredientes. Muita emoção, muito bom futebol, muitos golos, e as queixinhas dos adeptos do Sporting. Os adeptos do Sporting não perceberam ainda que têm de crescer, que a sua equipa não será verdadeiramente grande enquanto também eles não forem crescidos e se deixarem de queixinhas. Em qualquer jogo Benfica-Sporting, na ótica dos adeptos leoninos, ficam sempre sete penáltis por marcar contra o Benfica e o Maxi Pereira devia sempre ter sido expulso. Mesmo que não jogue! Aliás, no passado sábado, foi esse um dos erros do árbitro: não ter expulsado o Maxi da bancada! O jogo foi fantástico, teve duas partes distintas. A primeira em que o Benfica e a pontaria de Cardozo dominaram e a segunda em que o Sporting dominou. No prolongamento dominou, infelizmente, a azelhice de um guarda-redes mediano que não se percebe porque é que joga no Sporting e, muito menos, na Seleção. É um bom rapaz, faz algumas defesas interessantes, mas falha emocionalmente quando se lhe exigia frieza. Foi assim no último jogo de Portugal e foi assim no sábado. O Patrício que me perdoe, mas ele não é um grande guarda-redes. Grande guarda-redes era o Damas ou o Preud’Homme.

O Árbitro errou. O Cardozo estava fora de jogo. Tão fora de jogo quanto estava o Montero no golo que marcou contra o Benfica para o campeonato e em mais dois jogos. Ou seja, os árbitros erram, mas ao contrário do que dizem os meus amigos sportinguistas, não é sempre para o mesmo lado. Este ano o Sporting esteve três jogos consecutivos a marcar golos precedidos de fora de jogo! E não me lembro do senhor Bruno de Carvalho vir falar de alianças na altura!  E errou, ainda, num penálti que poderia ter marcado, o do Luisão sobre não sei quem, embora, claro, também haja ali todo um teatro que convém esquecer. Jogo jogado, as equipas equivaleram-se e só o Rui Patrício fez a diferença, caso contrário, a coisa ia a penáltis.

No Futsal a história foi diferente. Mas muito parecida! Jogo intenso, em Alvalade, com o Benfica a chegar aos 3-8 mas a ganhar somente pela diferença mínima, 7-8, o suficiente para alcançar o Sporting na classificação e ganhar em casa do adversário o que, confesso, tem sempre um saborzinho especial.

Por fim, a abada do fim de semana vem do Râguebi. O resultado parece de solteiros e casados ou da Nova Zelândia contra Portugal. Benfica 34 – 10 Sporting. A diferença da aposta do Benfica nas ditas “modalidades menores” que, de menores, não têm nada, começa a dar frutos e estes foram dois dias em que esmagámos o adversário da segunda circular em vários campos como, de resto, já tem acontecido ao contrário. É o carrossel da vida. Agora resta saborear, mais queixinha, menos queixinha.

Tenho dito!
jpv


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Crónicas de Maledicência – Natal é Quando o Maduro Quer!

Crónicas de Maledicência – Natal é Quando o Maduro Quer! 
A Frase “Não há nada como um cântico de Natal” pode ser imaginada em muitos contextos, alguns deles até bem esquisitos por via da intimidade que podem sugerir, contudo, o que não parecia viável, nem mesmo verosímil, aconteceu: o Presidente da Venezuela proferiu esta frase num inflamado discurso à Nação referindo o poder de um cântico de Natal para superar a crise e alegrar os venezuelanos. Vai daí, sem mais delongas e pela autoridade nele investida, e deve ter sido uma grande investida, Maduro, que de verde não tem nada, relembre-se que o seu mentor é o beatificado(!) Hugo Chávez, antecipou o Natal venezuelano para novembro.
Assim, feitas as contas às consequências, desde o ano 354, ou lá o que é, nem sequer importa muito, que Cristo nasce em dezembro, data convencionada, é certo. Não deixa de ser interessante que este ano Cristo nasça em dezembro no mundo inteiro, menos na Venezuela, onde, por essa altura, já leva uma semana de amamentação ao peito de Maria.
Se Maduro pode? Claro que pode! Tanto que pode, que fez! De resto, Maduro, ainda há dias mostrou aos venezuelanos uma imagem de uma aparição de Hugo Chávez a partir do Além. E não. Mais uma vez, não estou a brincar! Maduro veio à televisão discursar aos venezuelanos e mostrou a imagem que captou da aparição de El Comandante!
Eu penso que ninguém tem nada a ver com quando é o Natal na Venezuela! Na Venezuela o Natal é quando o Maduro quer e, diga-se de passagem, é uma postura bem mais clara e assumida do que a nossa, a dos portugueses, que têm a mania de que “Natal é quando um homem quiser”. Porquê um homem e não uma mulher? Qual homem? Qual a intenção? E quando é que o tal misterioso homem vai querer? Eu sempre disse que isto dos cantores de intervenção só serve é para baralhar as pessoas ou pô-las a pensar ou lá que raio é que eles fazem que estraga a democracia toda! Para mim, por mais alucinado que pareça o caso venezuelano, a verdade é que se sabe quem quer, quando quer e como quer o Natal. Também, o que é estavam à espera de um presidente que passa revista às tropas em fato de treino?!
Como MPMI também faz serviço público, desde já alertamos para o facto de só faltarem quinze dias para abrir os presentinhos, logo, toca a correr às lojas e a esvaziar essas pródigas carteiras!
Alegrem-se! Lembrem-se do que diz a voz na terra de Hugo Chávez: “Não há nada como um cântico de Natal”

Tenho dito
jpv

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A Mana Deste Blogue Faz Anos Hoje

04/11/2013

Olá Mana!

Quando fazes anos, às vezes escrevo-te. Mas depois acontece o problema de já quase tudo ter sido dito. E foi por isso que hoje pensei que não ia escrever. Para não estar sempre a dizer as mesmas coisas. Só que, num segundo pensamento, veio-me à cabeça que, se as mesmas coisas são este amor e esta cumplicidade que nos une, então o melhor mesmo era escrevê-las porque há muita falta disso no Universo.

E ainda bem que decidi escrever-te. É que fazes hoje um estranho ciclo de anos que se completa e fecha. Fazes a idade que o nosso pai tinha quando foi forçado a abandonar África. Esta mesma de que te escrevo agora.


É engraçada, a nossa relação à luz de como os outros nos olham e eu nos vejo. As pessoas, com facilidade, porque me exponho, me acham mais expansivo e te dizem mais retraída quando, a verdade, verdadinha, é que eu aprendi a coragem contigo. Criança destemida e resoluta a desafiar os limites. Sempre fui um miúdo retraído. Até tu nasceres. Foste tu quem veio agitar e impregnar de vida a minha vida.

Não raro, já homem crescido e presumivelmente responsável, me apanho a pensar as minhas decisões à luz do que tu aprovarias ou não. E isso não tem um caráter inspetivo. É, antes, o meu medo de desiludir-te. É isso, Mana, eu sei que te amo sem medida quando a medida do meu amor é eu viver sem te dececionar. Tarefa impossível, mas que tenho de tentar.

Agora, há esta distância. E quando vejo aqui algo interessante, um evento, um fenómeno natural, um comportamento humano, lá estou eu a pensar como seria essa realidade se ta pudesse mostrar.

Olha, e sabes que mais: Parabéns, muitos e muitos parabéns! E… até breve, para que possamos estreitar este abraço que sempre me anda na mente. 

Ah, já agora. Há uma coisa que nunca te disse nestes textos que te venho escrevendo nos teus aniversários ou outras ocasiões celebráveis: é que tu és muito bonita, Mana! Sabes, tenho sempre esta tendência para falar mais do que sinto e menos do que vejo. Mas, hoje, pousei o olhar em várias fotos tuas até escolher essa que aí fica e a única coisa que me vinha à mente era que a minha Mana é mesmo muito bonita. E és. Tens o sol na pele, o brilho no olhar, a malandrice no sorriso e, pudessem todos ouvir-te, concordariam comigo em como tens a esperança na voz.

Beijo,
Mano
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Para quem tem feicebuques, a Mana deste Blogue mora aqui:


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Cenas Esquisitas – A Noia das Listas

Cenas Esquisitas – A Noia das Listas

Como muitas pessoas, eu gosto de fazer listas. Não tanto listas de supermercado com coisas para comprar. Mais listas de tarefas. Faço listas de objetivos anuais e faço listas de deveres ou atividades mensais e faço listas de tarefas semanais.

Se eu gosto de fazer listas? Nem por isso. Mas adoro riscar itens nas listas. Há lá prazer comparável ao da realização de uma tarefa para poder riscar um item de uma lista? Naaaa… Aposto que o próprio Criador tinha listas. Assim uma coisa do género:

Fazer as ávores.
Criar os rios.
Encher os oceanos de água.
Não esquecer a camada de ozono.
Muito Importante: dar o livre arbítrio para não me culparem de tudo.

E é esta a Cena esquisita que tenho para vos revelar? Não. O esquisito vem já a seguir. É que por vezes esqueço-me de adicionar uma tarefa à lista, mas não me esqueço de a realizar, vá-se lá saber como! E depois, à socapa de mim mesmo, vou à lista, acrescento a tarefa e faço-lhe um risco por cima!

Ok, pronto, internem-me!

jpv


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Crónicas de Maledicência – A Contas com a Lei

Crónicas de Maledicência – A Contas com a Lei

Antes que sejam apanhados de surpresa, é preciso que os meus familiares, amigos, leitores, colegas de trabalho, enfim, todos aqueles que possam ter alguma espécie de relacionamento comigo, saibam que estou a contas com a Lei. E, como é sabido, com a Lei não se brinca.

E o mais grave é que eu não transgredi a Lei uma vez só. Fui transgredindo ao longo dos anos e vai daí devo ter um acumulado de coimas acima das minhas possibilidades. Além disso, por despudor, que assumo, transgredi a Lei publicamente exibindo e ostentando orgulho naquilo que fazia. 

Como sabem, estou em Moçambique e venho revelar-vos que não sei se alguma vez mais voltarei a Portugal, porquanto a gravidade das sucessivas infrações deve ter como pena, além das coimas e do tempo de cadeia, alguma espécie de exílio para que fique impedido de reincidir como vem sendo meu nefasto hábito.

Peço desculpa àqueles que acreditaram em mim e se associaram comigo e me deram a honra de ser meus amigos. Peço desculpa se os envergonho. E peço desculpa a Portugal por tão séria e continuada prevaricação.

A verdade é que eu tenho três, não um, nem dois, mas três cães! Não satisfeito, resolvi regozijar-me com a posse de uma pónei, quatro cabrinhas anãs e três tanques carregados de peixes, assim, horror dos horrores, a perder a conta. Os cães estão distribuídos da seguinte forma. Dois ficam na cama do meu filho que dorme no tapete. Eu sei, é a desgraça total! Mas o rapaz não gosta de dormir na cama. Diz que lhe doem as costas. Um dorme aos pés da minha cama, numa alcofa de esponja forrada a veludo. Eu sei, não deveria tratá-lo com semelhante crueldade e ele, coitadinho, com medo de mim, dorme toda a noite enroscado. E sim, assumo, já fui visto a passear o cão! Shame on me! Mas há mais. A pónei vive na banheira da casa de banho e quando queremos tomar banho, o que felizmente acontece pouco porque somos pessoas asseadinhas e lavamos-se raramente, ela espera no sofá da sala. Se eu puser uma cassete com desenhos animados, ela aguenta bem o tempo de uma chuveirada. Tenho duas cabrinhas na cozinha a fazer uma espécie de compostagem. Eu deito os restos num balde e elas morfam. As outras duas estão no quarto de hóspedes porque já não havia mais lugar na casa. E, como devem calcular, tenho imensos problemas com os vizinhos. Eles não se importam nada com os animais, mas não me toleram. Ou é porque grito muito alto os golos do Benfica, ou é porque ponho os Cêdês do Tony Carreira no máximo do volume, quer dizer, também não é bem no máximo, é ali mesmo antes do som começar a destrocer! Ou é porque estou até altas horas a ver combates de boxe e sempre vou gritando dá-lhe, dá-lhe, toma, toma! Eu desfazer-me deles, queria ver se não, mas também não me apetece ir morar pró canil como sugeriu o vizinho do 5º esquerdo. Esse sim, um verdadeiro animal, uma autêntica cavalgadura, que eu bem o oiço zurrar todos os domingos de manhã ali entre as 10h e as 10:15. Aqui para nós aquilo no 5º esquerdo deve ser só alimárias de pasto. É que a essa hora está a senhora dele a relinchar se Deus a deixa. Mas, enfim, eles fazem o barulho e eu é que levo com a ordem de despejo. Acho que deve ser isso porque chegou uma carta da Cambra a mandar despejar as bostas dos animais no contentor mais próximo. 

E prontus, agora tenho de ir porque as cabrinhas estão a chamar por mim. Deve ser para as ir deitar, coitadinhas…

jpv

Material Incriminatório


Ó pró ar criminoso dele, até estou a pensar colocar um catrimpázio na porta a dizer:

“Cuidado com o Cão! Não o Pise!
Não sei se sabem quem é a Drª Mónica? É a vetrinária desta fera. Cada vez que o vê entrar pela porta adentro, foge a sete pés, a Drª e o cetafe todo!
Eu sei que não parece, mas ele nesta foto está com pensamentos malévolos, assim coisas do tipo, estou a aqui, estou-ma ir a ti!


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Sermão de São Paulo às Acácias


Sermão de São Paulo às Acácias

Exórdio

Sabei, Acácias minhas vizinhas, que muito do mal que vem ao mundo vem por vós. Os homens pretendem pouco da vida e veio isto a ser assim por mister do Criador e duas outras ordens de razões. Uma é que sendo ignorantes, não sabem para mais e a outra, mais rebuscada razão, é que não sabem querer o que desejam. Iludem-se os ramos de vossos troncos e as folhas de vossos ramos e as flores de vossas folhas pensando que os homens são ambiciosos e lutam por ambição. Ambição seria querer estender esta vida para a outra, ambição seria querer conquistar o tempo eterno no pouco que lhes é dado nesta passagem. O que os homens são tem um nome desde os tempos mais antigos: gananciosos. A ganância de reter o tempo no aspeto do corpo que forçosamente irá a apodrecer, a ganância de conquistar a matéria que dentro de poucos sóis deixarão para trás, a ganância de se mostrarem superiores uns aos outros quando a mais crua das verdades é que nascem todos, independentemente de origens, etnias, credos ou posições, da mesma forma, vivem padecendo das mesmas enfermidades e morrem apodrecendo das mesmas maleitas. E nada levam consigo para o Além. Ou melhor, levam uma única e singular coisa: as ações que praticaram nesta passagem. 

Argumentação

E perguntais, de frente para a minha janela, que tendes vós a ver com isto, genericamente e, mais grave, como podeis ser causadoras de tal enfermidade? É simples e, contudo, não o vedes. Não o vedes porque almejais o Céu, cresceis bordejando os andares dos edifícios e olhais unicamente para cima e para cima projetais vossa florida copa. E o que deixais para baixo, Acácias minhas vizinhas? Deixais a sombra. A doce sombra, proteção dos calores e das ardências que emanam do grande astro amarelo. Cresceis para o Céu e deixais para trás a semente do ócio, a raiz do conforto, o bálsamo para o sofrimento, quando é consabido que, o que o Homem mais precisa é de sofrer. Sofrer para aprender, sofrer para macerar o ânimo intempestivo e belicista, sofrer para aprender a resistir. O Homem precisa de Sol no lombo. Para sentir a agressividade e perceber que o seu semelhante a sofre também. Para que se não contente com a vossa sombra e a ofereça a um irmão, para que, quem sabe, venha a acolhê-lo na sua sombra ou a lutar por ele e com ele no direito por uma sombra igual. Escolhamos uma profissão ao acaso. Um homem anónimo. Desempenha-a o melhor que pode e sabe e tem a ambição de servir bem ou a ganância de prosperar sozinho e secar, à sua volta, todo o crescimento para sobressair, não entre árvores crescidas e frondosas, como é o vosso caso, mas entre um mato seco e rasteiro? É fácil perceber se o orienta a saudável ambição ou a nefasta ganância. Ponde a seu lado um outro homem. Um que ele não conhecesse, com quem não privasse e observai como o recebe, como reage à presença de um seu semelhante. É acolhedor ou hostil? Apoia-o ou mina-lhe o caminho? Saúda-o ou ignora-o? Auxilia-o ou larga-o à sua sorte? Incorpora-o ou expurga-o? E aqui entrais vós, Acácias minhas vizinhas, e vossa nefasta sombra. Se não tivessem o fresco da vossa sombra e da brisa que circula sob as vossas copas, estes homens estariam procurando abrigo juntos, uniriam forças, ver-se-iam forçados a um sofrimento comum em prol de um bem comungável. Acontece que a existência de sombra, por si só, sempre fará com que um deles a queira só para si com medo de perder o conforto e o outro venha procurar abrigar-se nela em busca do mesmo. O problema não é haver sombra, Acácias minhas vizinhas, o problema é a sombra pré-existir aos homens. O problema é ter de partilhar e gerir algo que já existia sem ser forçado a criá-lo desde a sua radicular fundação. O problema é agarrarem-se os homens às sombras como se as fossem levar consigo para o Além sendo irónico, Acácias minhas vizinhas, que os seus corpos partirão para uma sombra eterna e as suas almas, a merecerem-no, estarão em jardins onde delas não haverá falta.

   


Peroração

Abri os braços, Acácias minhas vizinhas, e deixai passar lancinantes e incomodativos raios dessa luz que nos alimenta e consome e tereis homens provando a insuficiente sombra e, na incapacidade de alargá-la sozinho, cada um por si, esforços hão de unir por abrigo comum. Não deis tudo, tão só mostrai. E aqueles que em conjunto sofrerem, será em conjunto que hão de conquistar e superar e encontrar a sombra que os proteja e a brisa que os acaricie. Vede quão fácil se assemelha a tarefa que tendes pela frente. Deixar passar a luz. A que permite ver e a que incomoda. Dizei a vossos troncos que subam, as vossas folhas que se dispersem, a vossas flores que sigam as folhas e não olheis para cima, antes para baixo, orientando a luz e a sombra de modo a que sempre haja desta mas nunca seja suficiente. É inquieto, o espírito dos homens, Acácias minhas vizinhas, porquanto não tendes outra solução que deixá-lo ocupar-se das suas buscas. Pois que busquem onde não há porque, em havendo, deixarão de buscar e concentrarão iníquos esforços na preservação do que lhes não pertence e do que não poderão conservar além de sua efémera existência. E fazei isto para todo o sempre pois que a humana natureza não é permeável à mudança.


In “Livro dos Homens Podres”
jpv


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Conversas Vadias – Skype Moment

Conversas Vadias – Skype Moment

– Tudo bem?
– Tudo. Eh pá, tens lá em casa enxames de peixes nos tanques!
– Olha, cuidado porque ao pé da escada em caracol costuma estar um cardume de abelhas!

jpv
Extraído de conversa no Skype


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As Cores da Capulana – Nkombela, Por Favor!

Nkombela, Por Favor!

Uma bandeira branca,
Uma mão no ar,
Uma marcha que arranca
Uma só voz a cantar.
E uma gente que pede,
Nkombela, por favor,
Milhares de almas gritam
Um povo farto de dor.
E vês passar, na televisão,
E parece longe e distante,
Súbito te agarram pelo coração
E entras na turba gritante.

Não é de guerra
A gente que trabalha.
Não é de morte
A gente que sacrifica.
Não é de ódio
A gente que sorri.
Não merecia dor,
Por um dia que fosse,
A gente que te acolhe
Com um olhar terno e doce.

Não sei as palavras complicadas,
Não tenho as soluções complexas,
Nem as influências acertadas.
Tenho só a humildade da palavra
Que também leva vontade e fulgor:
Libertai a Paz em Moçambique,
Nkombela, por favor!

jpv


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Cansaço

Cansaço

Estou cansado
Das pessoas.
São demasiado más
As coisas menos boas.
Estou cansado
Das palavras.
São demasiado amaras
As menos doces.
Estou cansado
Dos gestos.
São demasiado agressivos
Os mais brandos.
Estou cansado
Desta mesquinhice
Sempre alerta,
A espada da língua
Sempre desperta.
Não há originalidade possível,
Não há limpeza viável,
A virgindade morreu virgem
E putrefacta,
Devassada por homens educados
E mulheres dignas.

Não gosto de ti, nem de ti,
Nem de ti,
E de ti também não.
Para cada pronome
Há um nome,
Uma figura
E uma configuração.

Jorro o fel
Para me não sufocar nele.
O único mel
Tem agora uma fina camada de bolor.
Essa crosta da ferida,
Depois do sangue
E da dor.

Já desisti das tentativas todas.
Já não quero a hipocrisia das festas e das bodas,
Já rejeito todas as palavras suaves,
Amo as duras e graves,
E tomo por certa a hostilidade.
Já morreu o meu crer,
Morreu de cancro e excesso de idade!

Era uma vez um menino…
Fez-se homem,
Desiludiu-se
E morreu.
E, mais tarde, quando veio a falecer
Já nada tinha de seu.
Desse âmago verdadeiro e inexplorado,
Desse solo fértil de esperança,
Resta um mato escasso e queimado
E reina miséria
Onde houve abastança.

Chega já a noite doce e funesta
Cantam e silvam em rituais de festa
Os seres do além.
Uma alma mais se aproxima,
Vazia e fustigada.
Ouvi, anjos e demónios,
Finalmente morreu Ninguém!

jpv