Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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A Barca


É uma embarcação formosa.
Leva no cesto da gávea
Uma mulher quase real,
Quase divina,
Com uma mão sobre a vista
Prescrutando o horizonte.
É cega.
Na bruma da hora
Da partida,
A embarcação desliza
Comprometida
Com o Destino.
E quem lá vai dentro
Olha a costa
E chora.
Já não há portos seguros.
Neste preciso momento,
Intensifica-se o olhar da deusa
Quase mulher
Que acena
Um longo
E arrependido adeus.
Já mal se vê,
A embarcação,
Já nem se percebe
Que é formosa
Ou mesmo embarcação.
Nunca se soube
Quem ia dentro
Da barca misteriosa.
Eram saudades…
Nostalgia.
Dissipou-se a neblina,
Abriu-se o dia.
O astro brilhou
E uma bátega de água,
Violenta e impiedosa,
Jorrou dos céus.
Era salgada, a água.
E agora,
As ondas vêm de mansinho
Beijar a praia
E trazer rumores
Daquele olhar.
Um momento de contemplação
E outra barca a naufragar.

jpv


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(Des) Concerto

O que tu sentes
E o que eu anseio
São duas coisas diferentes
Com uma igual pelo meio.
O que tu queres
E o que eu desejo
São duas versões
Do mesmo beijo.
O que tu me pedes
E o que eu te dou
São duas asas
Do mesmo voo.
E há neste concerto,
Imperfeito e inusitado,
Tanto de acerto
Como de deliciosamente errado.

jpv