Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Talvez Tourada

Quando a farpa
Entra na carne do touro,
Não é na carne
Que mais lhe dói.
É no êxtase da surpresa,
Na desilusão que corrói.
Quando investes
E te entregas
À volúpia da carícia
E da harmonia imaginada,
Não percebes
A origem da perícia,
Sentes, só,
O gume da espada.
Quando dás
Sem te pedirem,
O corpo à festa
E à multidão,
E sentes os pés fugirem
À gravidade
Que te prende ao chão,
Percebes, finalmente,
A verdade crua e ensanguentada:
Era para ti a mentira,
Era para ti a espada.
Eras tu, besta insana,
A vítima da tourada!

jpv


2 comentários

Amanhece… 

Amanhece.
E com o amanhecer,
Até parece
Que vale a pena viver.
A Natureza,
Em sua pujança matinal,
Renova a luz,
Renova o espírito,
Renova o Universo,
Em cada aurora inaugural.
E cria em mim
Esta turva ilusão
De que cada dia
É um dia novo,
Uma nova canção.

E tudo isto é belo,
E tem seu sentido,
Mas anda um poeta
Pelas noites da alma
Só…
E quase perdido.

Que amanhecer é esse
Em que te não vejo
E te não ouço?
Que poder é esse
Em que tu podes
E eu não posso?

Entardece minha vida.
Aproxima-se a partida.
Neste breve entardecer
Não há manhã
Que me resgate
À fortuna de morrer.
Uma palavra que fosse,
Uma palavra e um gesto sereno…
O tempo esgotou-se.
Para tanto desejo,
Meu desejar é pequeno.

Anoitece.
O céu imenso escurece
E com ele meu peito.
Resta um homem só,
Refugiado
Num corpo imperfeito.

Vem de novo o silêncio,
Esfumam-se os traços do teu rosto,
Tuas expressões já esqueço.
Invade-me o breu
E anoiteço.

jpv