Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Curtas do Metro – 3 em 1

3 em 1

Quem usa o Metro de Lisboa sabe que a verificação de título válido para o transporte, bilhete, passe ou outro é feita através de uns controladores automáticos. A coisa funciona de forma simples e célere. Aproximamo-nos do controlador, colocamos o título sobre o leitor, as portas automáticas abrem-se, nós passamos e elas fecham-se imediatamente nas nossas costas. Por razões de segurança e rapidez, o processo de abertura e fechamento das portas é muito rápido e dá para que passe somente uma pessoa. Por vezes, vê-se um segundo ir à boleia. Coloca-se atrás de um estranho, o dito estranho abre a porta com o seu título e o “pendura” passa juntinho a ele.
O que vi hoje foi um bocadinho mais engenhoso. Três pessoas colocaram-se de frente para a porta automática, o mais encostadas possível a ela e uns aos outros. O último dos três colocou o título no suporte magnético, as portas abriram-se e eles empurraram-se e passaram os três com um só título. Em tempos de crise, é o que se chama uma poupança 3 em 1!

jpv


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A papa é dos três

Os leitores que acompanham “Mails para a minha Irmã” sabem que tenho um gosto particular por publicidade e, quando encontro coisas portuguesas, do nosso quotidiano, que se destacam pelo texto, pela imagem ou pela ideia, não hesito em divulgar.
É o que acontece com este anúncio. As imagens são fantásticas e os textos muito espirituosos. A ideia sobrevive por ser comum e original, saída do anonimato das nossas casas para as ruas das nossas cidades. E claro, as carinhas larocas dos cachopos e das cachopas enternecem qualquer um.


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Curtas do Metro – A Chegada dos Veraneantes

A Chegada dos Veraneantes

Final de tarde de um dos primeiros dias de Primavera a sério. O sol brilhou todo o dia e ainda está intenso. Pela primeira vez este ano, os termómetros marcaram mais de 25º. Apesar disso, a temperatura geral ainda não subiu muito. Acontece que vivemos num país mediterrânico e estamos talhados para receber o sol. Assim que desponta, mudam-se atitudes, comportamentos e roupas. É todo um folclore.

Ao chegar à estação de Baixa/Chiado vindo do Cais do Sodré, mudo de plataforma para a direcção Santa Apolónia. Enquanto desço as escadas, sinto alguém atrás de mim pelo meu lado direito. Espreito pelo canto do olho e espanto-me ao ver umas pernas de homem nuas. E pareceram-me uns calções de banho, mas desconfiei. Afinal de contas, estávamos numa estação do Metro. Atrasei um bocadinho o passo. O rapaz passou por mim. Chinelos de enfiar no dedo, amarelos. Calções de banho, tipo bermudas, em azul e rosa bebé. Uma T-shirt cinzenta e, ao ombro, uma toalha de banho. Quando chegou à plataforma depois de descer as escadas, dirigiu-se para o longo banco de pedra, estendeu a toalha nele e deitou-se ao comprido como se estivesse a apanhar banhos de sol. A única diferença é que estava no túnel do metro!

Eu sei que a chegada da Primavera muda comportamentos, mas isto foi mais do que um comportamento a mudar, foi o sol primaveril a fritar cérebros, foi o anúncio oficial da chegada dos veraneantes!

jpv


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Histórias do Autocarro 28 – Pitty

Pitty

8:55h. O 28 está cheio. Não cabe mais ninguém. Aparece o eléctrico 15. As pessoas vão entrando umas atrás das outras e depressa o espaço fica preenchido. No meio da turba entra uma moça jovem, cabelo escuro encaracolado, uma trela pela mão e na ponta dela um cão rafeiro de pêlo longo branco e preto. Ela ficou de pé. Ele teve o cuidado de ir deitar-se praticamente debaixo de um banco. Assentou o queixo no chão entre as patas e olhava para cima como quem não percebe o que está a passar-se, mas tem paciência para esperar porque a sua dona está ali. E confia.

Na paragem seguinte entra mais gente, com o pé, ela empurra-o ligeiramente e ele enfia-se todo debaixo do banco e continua, paciente, à espera. Tudo aquilo deve parecer-lhe agressivo. Um carro de gente muito alta, sons e ruídos inúmeros e ele junto ao chão, o espaço a fugir-lhe e ele paciente à espera, confiando o seu destino no meio da selva de pernas àquela que o guia. E não quer nada de volta. Enfim, talvez uma festa.

E fiquei contemplando aquela paz e aquela paciência e aquela confiança de estar, de se entregar nas mãos de outrem. E perguntei:
– Como se chama?
– Maria.
– Não, ele…
– Pitty.
– Como se escreve?
– P-i-t-t-y.
– Obrigado.

jpv


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Futebol de Causas

Aqui se divulga uma iniciativa que nos parece a todos os títulos louvável e interessante como, de resto, o Cineclube de Santarém já nos habituou.

Local: Teatro Sá da Bandeira Data: 06/04/2011, quarta-feira, 21h30m Bilhete: 4€ (2€ sócios Cineclube de Santarém)

Mais informação no blogue do CineClube de Santarém: http://cineclubesantarem.wordpress.com/

SINOPSE: O regime ditatorial vigente em Portugal, estendeu-se durante grande parte do século XX. Coimbra, como grande pólo universitário, viveu momentos de grande tensão e inconformismo, nos quais o seu movimento académico de grande mobilização e agitação, acabaram por desencadear e espoletar socialmente o espírito da necessidade colectiva de fazer cair o regime. Um dos principais meios de divulgação e propaganda dos estudantes e dos ideais revolucionários e reivindicativos académicos residiu na sua equipa de futebol, a Associação Académica de Coimbra, como forma de fazer chegar a mensagem e consciencializar o maior número de pessoas. A Académica transformou-se numa bandeira viva da luta estudantil e deu voz ao acordar de um povo, sendo o seu ‘toque a reunir’. Foi de resto com o luto académico, em plena ‘crise de 69’, que se viveu o ponto mais alto da posição de força estudantil com a presença da Académica na final da Taça de Portugal, na qual os jogadores, também eles estudantes e parte activa na militância da causa estudantil, aderiram ao projecto, tornando aquela final no Estádio Nacional no maior comício de sempre contra o regime. Este documentário pretende mostrar o movimento estudantil e crises académicas pelo ponto de vista dos jogadores da Académica e a forma como estes contribuíram e se envolveram na luta enquanto estudantes e Homens. As figuras centrais do documentário serão concomitantemente os dirigentes estudantis e os jogadores da década de 60, directamente envolvidos no processo.


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De Negro Vestida – LXXIV

 

Abandonar o Negro – XI

– Sabe, qualquer coisa na atitude da minha mãe a havia já denunciado. O cantarolar pela manhã, os jantares cada vez mais frequentes “com as amigas”, se é que me entende..
– Carolina, a mãe queria ter falado contigo, mas não tinha a certeza, quer dizer, não sabia ao certo no que isto ia dar…
– Mãezinha, não precisas dar-me satisfações, és tu a mãe, lembras-te?

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O Romance “De Negro Vestida” foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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Sons do meu Tempo

É no que dá ouvir rádios regionais, sem respeito nem pudor pelo adormecimento das memórias que nos lembram que já fomos inconscientes e loucos, que já houve juventude também no corpo que a da mente, essa, reclamo-a sempre, que houve dias em que os cabelos compridos, as músicas suaves e as letras lamechas nos acordavam os sentimentos, faziam o coração bater mais forte e não interessava para nada o corte de cabelo piroso do cantor. Depois, outra coisa acontecia, as nossas mentes e as nossas emoções não estavam reféns do linguajar anglo-saxónico. Em italiano era romântico, em espanhol era pujante e em francês era doce e suave como se exigia a uma canção para dançarmos agarradinhos. As discotecas abriam às 21h e fechavam à hora que agora abrem. E havia os 30 minutos dos slows… lembram-se dos slows?! As calças de ganga eram justas, os gestos largos e a música soava assim… é no que dá ouvir rádios regionais.
Art Sullivan
Joe Dassin

Jean-François Maurice


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Bucólica Viagem

Suspensa está a Natureza
dos raios de Sol exuberantes,
porque só um véu de cinza
cobre os céus circundantes.
Ouvem-se, porém, suaves
chilreios e sopros de frescura
e eu viajo até às águas
dos ribeiros, sua brandura…
Saltitantes, ondeantes,
nas montanhas, nos pinhais!
Mas sem a alegria do Sol
até eu me sinto mole,
sem vontade, sem reacção,
ouvindo esta doce canção
da rola, do cuco, tão musicais,
e ainda muitas mais notas
dos passarinhos às voltas,
nas suas verdes catedrais.
É tão suave o ar que se espraia
e dilata por toda a paisagem
que trocava, para ir à praia,
meus afazeres pela viagem!

CS


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Tu Destruíste-me a Vida

Tu Destruíste-me a Vida

A acusação soou
E trouxe no eco da sua entoação
Um grito de desespero
Um prenúncio de destruição.
Fugiram-me as ideias para longe
Para o tempo de não ouvir-te dizer isto,
Mas perdi-me no caminho do reverso.
Assalta-me a questão fatal,
O anúncio do final:
Será capaz de olhar em frente
Quem não vê o fim do passado?
Quem não tem memória que valha ser lembrada,
Ainda tem pernas para a caminhada?
Há coisas que se não pensam,
E há coisas que se não dizem,
Porque ditas,
Ou pior, pensadas,
São barreiras levantadas,
Fendas abertas nas estradas,
Cortes que não ardem nem sangram.
Apenas doem e secam.

Tu destruíste-me a vida!
Não há homem, nem mulher,
Capaz de viver
Com o peso desta acusação!
É demasiada a força,
É demasiado o peso,
Da destruição.

jpv