Como uma rajada, Violenta e inesperada, Entra o gume da faca Na carne da alma. A impotência do moribundo À vista da ave Que corre mundo E nem sabe porquê. O Homem é mais Do que aquilo que vê. A decisão retida. A palavra contida Em nome de uma paz Que é morte anunciada. Porque permanece o nauta De olhar no horizonte Debruçado n’ amurada Se não há, já, porto Para a nau triste, Perdida e naufragada? Há uma morte fingida, Uma morte que não mata Nem é saída. E, contudo, trágica, Também já não é vida.
À falta de melhor teoria e conclusão, depois de aturadas leituras e demoradas pesquisas, naturalmente, com recurso ao comprovadíssimo e exatíssimo método científico, continuo a achar que nascemos sem acessórios. E, é também um facto, conseguimos ser felizes e crescer saudavelmente sem eles. Nada mais neste texto será tão acertado e exato. A partir da próxima frase, entraremos no delicioso universo das conjeturas, das suposições e das indesejáveis desejadas generalizações.
Chega o momento em que, aparentemente, a perfeição e o milagre que o nosso corpo constitui não nos satisfaz. E começamos a acessorizar. Pulseiras, colares, brincos, um ocasional e muito disputado piercing ou tatuagem. Esta parafernália excêntrica e acessorizante não marca um status. Marca só, e já não é pouco, um processo de crescimento. Depois, quando julgamos que já crescemos, se é que alguma vez chegamos a crescer, espero ardentemente que não, despojamo-nos da nossa juvenilidade com um ímpeto nihilista que nos faz agarrar nos acessórios que tanto amámos e jogá-los no caixote do lixo como proclamação suprema da nossa simplicidade e aversão ao materialismo que corrompe a limpeza do espírito.
Surgem, depois, acessórios tímidos, disfarçados, com justificações que tomamos por plausíveis, até porque, em boa verdade, não parecem acessórios. Uma carta de condução, um cartão bancário, um diploma, a Cruz de Cristo reluzindo dourada sobre o peito, sob a camisa entreaberta, estrategicamente visível-invisível.
Depois, tomamos conta do Universo e os acessórios vestem-se, já não de plausibilidades, mas das roupas sagradas da imprescindibilidade. Tornam-se imprescindíveis para nós e para os que nos rodeiam. Aquela agenda de pele com o calendário página a página grafado, o relógio de precisão inquestionável, o telemóvel onde habita a multidão que faz parte das nossas vidas, quer amemos essas pessoas, as odiemos, ou, simplesmente, precisemos delas. Quando estes acessórios se revelam eficazes e produtivos, passamos a outros, esses sim, e finalmente, marcos indeléveis do status conquistado. O carro da marca tal, o portátil com não sei quantos gigas de disco e o processador mais rápido do mundo conhecido, a camisa com a marca bordada, a gravata, a televisão flat screen, a casa espaçosa ou o apartamento supinamente localizado quando não se consegue ter ambos. Este é o ponto alto e, não sendo um ponto de retrocesso, é um ponto de viragem. Daqui para a frente não desacessorizamos, mas o teor dos acessórios muda um pouco. Digamos que a realidade genuína e crua nos bate à porta e introduz na nossa vida acessórios que não escolhemos. Os óculos. A corrente para pendurar os óculos. O cartão de utente do hospital ou da clínica. O raio-x na gaveta da cómoda a ser repescado de quando em vez. A caixinha de madeira de sândalo ou prata ou plástico do chinês para guardar os comprimidos que, eles próprios, agora acessorizam as nossas vidas. Um eventual aparelho para o ouvido e múltiplos mecanismos para avivar a memória, desde o íman na porta do frigorífico sob o qual pende a lista de compras e o horário da escola dos miúdos dos miúdos, até ao ecrã piscante de um telemóvel que nos lembra de não esquecermos das coisas básicas do quotidiano. A reunião. A hora de ir buscar o neto à escola. O comprimido para o reumático. O papel higiénico no supermercado. O pão. Que é nosso. E é de cada dia. Mas será esquecido se não for lembrado.
Já conversámos sobre conquistar o Mundo. Depois, sobre garantir a Paz no Mundo. Depois, sobre preservar o ambiente no Mundo. Depois, dos filhos no Mundo. Dos netos. E, finalmente, quando conversamos entre amigos, parecemos uma consulta de clínica geral com diversas especialidades e prescrições. Se tudo correr bem, ainda teremos tempo para acessorizar as nossas vidas com uma bengala, uma eventual fralda, colocada e retirada por terceiros, cuja dignidade e autonomia parecem verdadeiras. Chegados aqui, vamos, por certo, desmaterializar e desacessorizar por completo e o único gesto são e verdadeiramente íntegro de que seremos capazes será olhar para dentro e para trás e contemplar um caminho e uma paisagem de que nos orgulhamos sem arrependimentos.
Não há outra medida de vida. Não há outro acessório que conte, no curso dos dias, que não seja o da limpeza da nossa consciência em cada ato, em cada opção e em cada interação. O único, verdadeiro, perene e indestrutível acessório que podemos exibir em cada dia que passa é a nossa integridade. A verdade de sermos quem somos. Sem máscara, nem preço.
Se a minha morte Fosse a tua vida, Não seria uma vida perdida, Mas um singelo golpe de sorte.
Se a minha sorte Fosse o teu sopro, Morreria por gosto E entregaria o corpo Ao pó e ao abandono. Se fosse o meu profundo sono A luz dos olhos, Enfrentaria criaturas medonhas, Superaria barreiras e escolhos, Só para morrer por ti. O que tu és Não tem fim. O que tu és, Seguimento de mim, Na morte e na vida. Palavra vivida, Passada crente e firme, Luz azul no sorriso, Diáfana imagem Antes de ir-me.
Um pensamento a que não consigo furtar-me na sequência do que se passou nos últimos dias, em particular, a morte da nossa mãe, é o de que agora estamos sós no mundo. Tu e eu. Restamos tu e eu como herança e responsabilidade das duas pessoas que mais nos amaram no mundo, que mais amámos no mundo. Nós temos família. E amigos. Mas éramos também um precioso e insubstituível núcleo familiar que agora desapareceu por completo. E não me sobrevem uma única mágoa, nem a mais leve sensação de tristeza. Tivemos um pai íntegro, honesto, trabalhador, com um incorruptível código de valores que foi o fundamento do nosso ser, da nossa existência, da nossa interação social. Foi ele que nos passou o respeito pelo outro, a retidão, o sentido de compromisso, a não cedência às tentações que corrompem. Lutou por nós, viveu por nós, e só morreu quando nos julgou a salvo de percalços maiores que a vida pudesse trazer. Já agradeci muito por não nos ter deixado qualquer herança material. Por não nos ter deixado nada que interferisse com esta herança essencial de valores. Algo que pudesse brilhar e com esse brilho ofuscar o bem maior e mais precioso que nos deixou. E tivemos uma mãe que nos amou incondicionalmente, que nos protegeu, que nos motivou e que fez por nós o que mais ninguém faria, mesmo quando isso teve de ser retirar-se e dar-nos espaço ou agarrar-nos por um braço e mostrar-nos o caminho. Era o entusiasmo em pessoa, a alegria e o dinamismo, o ímpeto repentista e o carinho de nos pentear o cabelo. Viveram plenamente, em liberdade plena, em plena harmonia, em dedicação plena. Viveram por si e viveram por nós. Para nós. E tinham imperfeições e eram essas imperfeições que realçavam a maravilha da harmonia que eram para nós. Seus filhos. Seus tesouros de amar. De Amor.
Não há distância no seu desaparecimento físico e não pode haver tristeza. Só saudade. E tem de haver orgulho, tem de haver a responsabilidade e a determinação de continuar o seu legado, tem de haver espaço para o sonho, tem de haver amor, tem de haver verdade. E tem de haver a coragem de procurar e perseguir tudo isso, mesmo em tempos de adversidade. Sobretudo em tempos de adversidade. Temos muitas diferenças. Somos muito diferentes e temos também muito em comum. E o mais importante que temos em comum é o sentido que os nossos pais deram à vida.
Não sintas, NUNCA, culpa e, menos ainda, remorso. Os nossos pais definiram sempre os seus caminhos e fizeram as suas opções com base no seu código de valores e no amor que nos tinham e com que nos criaram. E, naquela tarde, tu conduziste o carro também por opção da mãe que to confiava. E não tens culpa do golpe de sol pela frente, da curva apertada, do cascalho no chão, do carro velho e pouco seguro. Não tens culpa das circunstâncias porque as circunstâncias foram isso mesmo: circunstâncias. Mas seremos sempre culpados, tu e eu, de não honrarmos e de não difundirmos o seu legado de amor, verdade e integridade, se nos desviarmos dele.
Estamos sós, Mana, e é sós que temos de assumir a responsabilidade de não deixar morrer esse legado, de não permitir que a morte última e verdadeira, a do esquecimento, se abata sobre o nosso paizinho e a nossa mãezinha. É neste propósito que tem de fundamentar-se a nossa união e é este propósito que tem de ser o guia das nossas opções e dos nossos gestos daqui em diante.
A vida não é um acidente, Mana. É uma sucessão de opções e nós herdámos o melhor dos guiões para optar.
No meu caso, a vida depois do Pantoprazol começou de noite. Anunciou-se de mansinho, assim como uma indisposição ligeira, insinuou-se mais séria depois, sensação de empanturramento, digestão mal feita ou coisa que o valha. A meio da noite, quando era suposto dormir-se o justo sono dos justos, incendiou-se um fogo incontrolável no estômago, como se toda a Serra d’Aire e Candeeiros estivesse em labaredas no meu abdómen. Homem fiel aos masculinos propósitos e princípios de vida, pensei que ia ter um enfarte, que era melhor chamar uma ambulância, acordar os vizinhos, rezar a Deus, enfim, nada de mais, portanto. As passeatas a pé, no quarto, da janela da varanda para a casa de banho e regresso, incomodaram quem coabita comigo e, como se não fosse nada grave, olhai lá a desfaçatez, um gajo quase a morrer e ela nem os olhos abriu, estendeu-me um frasco redondo cheio de uns comprimidos de cor ocre, muito pequeninos, e disse, Toma um destes, vai fazer-te bem, isso foram as chamuças. É que é preciso lata! Nem abre os olhos, ignora o sofrimento atroz de um tipo, uma coisa de morrer, e ainda consegue fazer o diagnóstico e a prescrição! Mereceu, no mínimo, a dúvida:
– O que é isto?
– Pantoprazol.
– Pantó quê?
– Pantoprazol. É para a digestão.
– E como sabes que é da digestão?
– Foram as chamuças. Abusas, depois olha…
E fiquei, ali, desconfiado, a olhar aqueles comprimidinhos minúsculos. Quem padece de um fogo avassalador no estômago tem direito, pelo menos, a comprimidos para homem macho, coisa grande que se veja e custe a engolir, ou então uma injeção qualquer para um gajo sobreviver.
– Isto chega?
– Não tomes o frasco todo! Isso é só um!
Tomei. Poucos minutos volvidos, já não estava para ter um enfarte nem ia morrer tão cedo. Aquilo aliviou com eficácia. O nome é que é o caraças para um gajo se lembrar dele! Prantó quê? Também, para que é que havia de saber o nome daquilo? É o tipo de coisa que um gajo toma uma vez na vida.
Fosse por sugestão, por vingança dos comprimidos por não me lembrar do nome deles, ou fosse lá pelo que fosse, duas noites volvidas, deu-se o diálogo que agora recordo e me fez não mais esquecer o nome dos comprimidinhos minúsculos de cor ocre:
– Olha lá, tens aí aquele frasquinho com o…
– Pantoprazol.
– Como é que sabes que era disso que estava à procura?
– Comeste demasiado ao jantar, amorzinho.
– Tu é que puseste no prato!
– Mas não quer dizer que comas tudo. Toma. É Pantoprazol.
– Eh pá, será que tenho alguma coisa? Eu nem conhecia isto e agora… duas vezes na mesma semana?!
– Tens!
– Tenho?! Tenho o quê?
– Cinquenta anos!
A vida depois do Pantoprazol ensina-nos muitas coisas. Uma delas é não ignorar a idade que se tem, sobretudo, se essa idade já chegou aos cinquenta. Outra, é a jogar na antecipação. A malta aprende que o comprimidinho minúsculo e ocre pode tomar-se antes da bronca, como quem evita em vez de remediar. A vida depois do Pantoprazol inclui análises cíclicas ao sangue, à urina, às fezes, e mais uns quantos diagnósticos preventivos mais ou menos incómodos. O Pantoprazol tem efeitos psíquicos. Ajuda-nos a olhar o Tempo e as oportunidades com mais valor e ensina-nos a não desperdiçar nenhum deles. Não sou médico e ainda não tive possibilidade de questionar um, mas ia jurar que o comprimidinho minúsculo de cor ocre tem efeitos secundários severos. Por exemplo, desde que o tomo comecei a ver menos, tive de ir ao oftalmologista e agora uso óculos para ver ao perto. Também tive de ir ao otorrino e descobri que tenho tinnitus devido a perda de audição. Custa-me mais a levantar porque as costas “prendem” e demoram seu tempo a “desprender”. Tenho de regular a tensão arterial, a barba ficou branca e o cabelo desapareceu por completo. Tudo isto, muito resumido para não aborrecer, são presentes da vida depois do Pantoprazol.
Animem-se, amigos! Não são tudo más notícias. A vida depois do Pantoprazol tem-se revelado deliciosa em muitos aspetos. Passo a revelar. Com tanta contrariedade, com a obrigação de tomar o comprimidinho minúsculo e ocre sempre que se anuncia uma simples e deliciosa sopa de peixe, com todas as maleitas adjacentes, o espírito começou a soçobrar, o ânimo começou a fraquejar, até que chegaram os efeitos secundários positivos. Ah, pois é. Surpreendentemente, ainda não me dei ao trabalho de perceber as causas de tão distraído que ando com as consequências, a vida depois do Pantoprazol traz consigo o interesse das mulheres. Num alcance etário e comportamental sem precedentes: das mais novas às mais velhas, das menos interessantes às mais interessantes, e também, pasmem, das menos interessadas às mais interessadas. De repente, passamos a existir! Falam connosco de doenças, de comprimidos, de consultas, de especialistas, encontramos pontos em comum na dor, manifestam admiração pela nossa experiência e sabedoria, reparam no que vestimos, e, qual cerejinha em cima do bolo, deixamos de ser bonitos ou jeitosos ou “bons” e passamos à muito melhor categoria de “charmosos”. Isto do charmoso é muito fixe e só acontece depois dos primeiros pantoprazóis. É como se um tipo fosse elegível nos critérios delas, mas podendo ter barriga e cabelos brancos e rugas na cara. Na verdade, estando muito menos atraentes, somos tratados como se estivéssemos muito mais. Surpreendeu-me, sobretudo, o encantamento das mulheres mais jovens. Claro que, neste caso, mais jovens também é uma categoria que já configura trintas e quarentas, mas o certo é que antes do Pantoprazol elas nem me viam e agora sou um tipo rodeado de amizades sinceras para a vida e uma carrada de “Gostos” no Feicebuque. Consequência: fui à farmácia e trouxe três caixas de Pantoprazol. Nunca fiando…
A vida depois do Pantoprazol traz deceções e tristezas profundas. Morrem familiares distantes, morrem familiares próximos e morrem amigos de sempre, do tempo do Liceu, dos primeiros anos de trabalho, morrem companheiros e companheiras de jornadas e lutas difíceis e, como se tudo isto não fosse já suficientemente doloroso e assustador, os mais jovens, aqueles que ainda não sabem de cor o nome do Pantoprazol, pensam que somos uns privilegiados, uns bafejados pela Sorte do Destino. Esquecem esta coisa dolorosa e dilacerante que é ver as pessoas das gerações imediatamente acima da nossa morrerem todas e também algumas da nossa idade e começarmos a pensar que a morte está no nosso horizonte. Se a vida fosse um caminho estreito por onde seguimos em fila indiana direitos a um precipício, os lá de trás, que ainda não veem o precipício, invejam-nos o modo de vida e as condições conquistadas, e nós estamos preocupados com os amigos e os familiares que tombam a uma velocidade alucinante no fim de um caminho que já vislumbramos.
Enquanto o fim da linha não chega, quero ainda falar-vos de um outro aspeto interessante da vida depois do Pantoprazol. Os filhos saem de casa, normalmente, sozinhos, e vão à vida deles, viver as suas aventuras, ter as suas responsabilidades, as suas vitórias e deceções. E um dia voltam, normalmente, acompanhados, e fazem planos e crescem e já nós vamos a meio do quinto frasco de Pantoprazol e eles chegam e dizem, Vais ser avô! Nunca, na puta da vida, tinha pensado que um simples comprimido para a digestão me pudesse encher de tamanha alegria e júbilo. É como renascer. É como sentir que a vida vai começar de novo. Não é um milagre, é uma miríade de milagres. E lá vamos nós fazer mais uns exames preventivos a ver se garantimos mais uns tempos a Pantoprazol para ver o miúdo crescer.
No dia em que fiz cinquenta anos, caí num recife de coral e esfacelei uma perna toda. Esse ano terá sido o mais difícil da minha vida. Não houve nada que não me acontecesse, não houve maleita que não me batesse à porta. Foi nesse ano que fiz do Pantoprazol um amigo frequente e, curiosamente, foi nesse ano, também, que recomecei a viver. A vida não é igual depois do Pantoprazol, mas continua a revelar-se prenhe de entusiasmos e deceções, de alegrias e tristezas, de vitórias e derrotas, de gente boa e menos boa que se cruza connosco. A grande diferença é que na vida depois do Pantoprazol tudo isso é reperspetivado e redimensionado à luz do usufruto do tempo que já não temos e não do tempo que ainda temos. E isso faz toda a diferença. Os planos adquirem novos prazos, bem mais ao alcance do desejo, ficamos mais seletivos, ficamos mais seguros, mais tranquilos, fazemos escolhas com mais critério e mais rigor e focamo-nos naquilo que realmente interessa. Hoje, o almoço vai ser bacalhau assado na brasa com batatas a murro. Adivinhem o que tenho aqui na mão… sem medos… tenho uma mão cheia de vida, cheia de esperança, temperadas com o bom senso e a sabedoria que só a idade do Pantoprazol nos pode dar. O resto? O resto é uma aventura!
Amanhece.
E com o amanhecer,
Até parece
Que vale a pena viver.
A Natureza,
Em sua pujança matinal,
Renova a luz,
Renova o espírito,
Renova o Universo,
Em cada aurora inaugural.
E cria em mim
Esta turva ilusão
De que cada dia
É um dia novo,
Uma nova canção.
E tudo isto é belo,
E tem seu sentido,
Mas anda um poeta
Pelas noites da alma
Só…
E quase perdido.
Que amanhecer é esse
Em que te não vejo
E te não ouço?
Que poder é esse
Em que tu podes
E eu não posso?
Entardece minha vida.
Aproxima-se a partida.
Neste breve entardecer
Não há manhã
Que me resgate
À fortuna de morrer.
Uma palavra que fosse,
Uma palavra e um gesto sereno…
O tempo esgotou-se.
Para tanto desejo,
Meu desejar é pequeno.
Anoitece.
O céu imenso escurece
E com ele meu peito.
Resta um homem só,
Refugiado
Num corpo imperfeito.
Vem de novo o silêncio,
Esfumam-se os traços do teu rosto,
Tuas expressões já esqueço.
Invade-me o breu
E anoiteço.
Muda o tempo,
Muda a gente,
Muda a palavra
E a promessa,
Muda o encanto,
Muda o olhar
E o mudar não cessa.
Muda a luz,
Muda a paisagem,
Muda o piloto
E o destino da viagem.
Muda a intenção,
Muda o imutável,
Muda a geração
E o destino favorável.
Muda o amor,
Muda o corpo
E a sensação.
Muda o sexo,
Muda a cama
E o frio do chão.
Muda o desespero,
Muda a fome
E muda a solidão.
Muda o suor,
Muda o sol
E muda o vento.
Só não muda
Esta revolta cá dentro.
Tens a liberdade que foi minha,
Tens a canção e o gesto acertado,
Tens o tempo e a opção.
Vives cada passada
Como quem caminha
Em estrada de ilusão.
E sorris ao perigo
E ao desafio.
Tentas sem risco
Nem cálculo,
E corres desenfreado como o rio
Que sabe onde fica o mar.
E tens o amor
Em passadeira estendido.
Tens essa ousadia,
E esse fulgor
De quem não vive arrependido.
Não contas os dias,
Não precisas do tempo,
Não queres o exemplo,
Com que me desafias…
E vives.
E desvives-me os conceitos
E as emoções.
Despregas-me as mãos da Cruz
E lambes-me os rasgões
Na carne
Como se pudesses…
Como se nada mais fizesses…
É já o Sol a por-se.
É já o declínio do dia,
Uma luz amarga e fugidia
Pinta as tardes.
E esse fogo que ardes
E foi em tempos meu
Deixou-me e morreu.
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