Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Poloni – In Memoriam

Teve uma vida repleta e intensa.
Não morreu novo, mas poderia ter vivido mais.
O Poloni gostava, sobretudo, da companhia das pessoas.
E amava o mar. Enfrentava ondas enormes, vinha de lá enrolado em água e cheio de areia, sacudia-se e voltava a investir. Nunca teve medo do mar.
Adorava caçar caranguejos nas areias da praia de Chongoene.
Rosnava a quem não lhe agradava e detestava ser encurralado em espaços exíguos.
Enroscava-se na sua cama ao fundo do quarto e tudo estava bem desde que sentisse pessoas. Por vezes, a meio da noite, desatava a ladrar que nem um louco como se lhe tivesse sido confiada a missão de acordar todo o mundo adormecido. Era um bom guarda.
Gostava de comer sem ser incomodado e roubava sempre um lugar no sofá ou mesmo um sofá inteiro.
Onde quer que esteja, está no melhor dos locais e, por certo, anda a enfrentar ondas marinhas.
Foi feliz e gerou felicidade à sua volta.

jpv


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Anonymous with a K

Um ritual.
Um ícone.
Uma moldura.
A luz exterior
Recortada
Por tua figura.
Não se trata
De brônzea estátua,
Nem poema com rimas
E melodia a condizer.
Não são versos
Cinzelados em mármore
À espera de morrer.
Não é placa comemorativa,
Nem registo oficial
A gravar na História.
És só tu,
Desenhada na minha memória.
Heroína do trabalho
A cada dia que passa,
Braço estendido
Na intenção do livro
Revelando teu corpo
Colado na vidraça.
E há dor,
E há prazer,
No teu gesto
E na tua dedicação.
Há miúdos a crescer…
Há poesia nisto tudo,
E em tudo isto
Não há poesia nenhuma
Porque em teu hábito
Se consuma
A glória
E o anonimato
Do que fazes
E não se vê.
Vives nestas paredes
E nelas morres.
E há nisso
Um não sei quê
De perene
E efémero sentimento.
Tu és a eternidade
Captada
Em singelo
E breve momento.

jpv


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Pré-História

c1c93-sexo

Pré-História

Mora, intacto, em mim,
O teu corpo.
Em tangências de luz e perfeição,
Ainda sinto a suavidade dos teus seios
Preenchendo-me a mão.
Ainda te arqueias e ofereces
Em movimentos lentos e sedutores,
Ainda me lembro das preces
Gemidas sem fronteiras nem pudores.
Ainda sorris convidando,
Ainda chamas empurrando,
Ainda te sacias em mim
Como num altar de promessas.
Ainda te encostas e te entregas,
Sem máscaras nem pressas.
Ainda é vívida a memória
Desses corpos abandonados
À luz da noite,
No tempo antes da história!

jpv


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Um País

Portugal Ilha de MoçambiqueUm País

Um marco na estrada,
Um gesto que se faz.
Uma palavra que se diz
E ergue-se o meu país.
É um barco no mar,
Uma varina a chorar.
É uma sopa e o conduto
E uma velhinha vestida de luto.
É um homem que parte.
É a vertigem da arte.
É um pão sobre a mesa,
É mais dúvida que certeza.
É uma capela e um sino,
Uma bandeira e um hino.

E é a saudade!

É uma guitarra a chorar um fado,
Um povo trabalhador e honrado.
E é a distância.
O passo certo da errância
E da solidão.

O meu país é uma canção.

Nascem na pena de um poeta
Versos de esperança e futuro.
Mas o horizonte e a meta
Estão para lá do muro.
A semente secou e morreu
Num ventre prenhe de vida.
O meu país pereceu
Às mãos de uma arma fingida.

Houve homens altos
Que ergueram uma capela no Índico
E uma fortaleza perdida.
Houve homens que foram lá longe
Onde começa o mundo,
No outro extremo desse poço sem fundo
De palavras e dizeres.
Houve homens que levantaram âncoras
De morte e suor.
E também houve feitos épicos
E vorazes epopeias.

O meu país é um deserto de ideias!

Passa uma criança com fome
E um doente abandonado,
Passa um velho triste
E um político num fato engomado.
Passa um avião
Rasando as casas da cidade,
Lá dentro vai a desilusão
Num corpo sem idade.
Passa um povo traído
E não há quem o console,
Vive entregue ao capricho sinuoso
De uma bola de futebol.
Vai desfilando angústia e desespero
Na passadeira da história.

Meu país é um povo sem memória!

E de manhã, ao acordar,
Sente-se um perfume no ar,
Um vento de insuspeita mudança,
Um grasnar na praia,
Um rumor de sentença,
Uma música na rádio,
Uma correria de rua,
Uma bandeira desfraldada,
Uma mulher semi-nua.
Um gritar entusiasmado,
Uma cidade em alvoroço,
Um refrão mal rimado
Em verbo curto e grosso.
Um punho no ar,
Um cartaz na mão.

Portugal é um país
Em constante revolução!

jpv