Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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DE RERUM NATURA

EU NÃO SEI

“Eu não sei
Tanto sobre tanta coisa”

David Fonseca
Silence 4

Foi um princípio do pensamento socrático e é hoje uma urgência universal.
Estamos infetados de opinadores, fazedores de supostas opiniões e salvadores da Humanidade.
Uma corja de ignorantes que nunca leram um livro e cuja cultura é suportada por imagens com chavões e lugares-comum em cima, por vídeos instantâneos, por rolos infindáveis de comentários a coisa nenhuma que valem coisa nenhuma, por frases mal citadas, mal atribuídas, retiradas do precioso contexto da obra a que pertencem e apropriadas, não raro, em nome das razões opostas por que foram escritas. Tudo emanado dessa lixeira da Humanidade a que chamamos Internet.

A seu tempo, manifestei-me contra o perigoso crescimento da ignorância. Avisei…
A ignorância venceu.
E aqueles que se atrevem a pensar por si, a estudar e a dizer duas palavras com fundamento e sustento intelectual são banidos por arrogância, discriminação, postura ofensiva.

O conhecimento sério, a sério, está hoje banido. É um crime e leva à morte social.
Quem se atreva a pensar autonomamente, a estudar duas linhas e a proferir uma frase pesada e estruturada, é bom que se esconda.

Hoje não sabemos nada. Na verdade, nunca soubemos ou soubemos sempre muito pouco, mas, se soubermos, o melhor é estar calados e usufruir do prazer de sabermos que sabemos no conforto da penumbra da nossa intimidade. Sem testemunhas. Com um café forte na mão.

Tenho dito!

jpv


2 comentários

Não Quero!

Morre-se de abandono…
As mãos ao longo do corpo abandonadas.
Abandonado o olhar ao ponto longínquo da desistência.
Os argumentos e os contra-argumentos abandonados ao ouvido alheio.

Morre-se de abandono…
O desapego da ignara prepotência.
A desconfiança da religião e da ciência.
A vida escorre lenta e difusa como um sonho no sono.

Morre-se de desumanidade…
Não creio, já, em poetas e profetas.
Não creio na marcha dos líderes nem dos falsos exegetas.
Não creio no Homem nem na Humanidade. Abjuro a Pólis, a Urbe e a Cidade.

Assisto, consciente e incrédulo,
Como se, ao morrer, soubesse que ia de facto morrer,
Sem luz nem esperança, nem a salvação que todos alcança,
Só o pensamento falido e austero de uma alma em desespero,
Ao triunfo sonoro e ruidoso da ignorância e da inércia sobre o estudo e o esmero.

Em tudo sinto saudade de como foi.
Não quero querelas, já, que não valem a pena.
Não quero o Saber construído a pulso e suor de pensar para além do já pensado,
Na mesma cama que a jactante e falaciosa opinião. A mesma que rebola pelo chão vazio de uma ideia.

Fico.
Não parto, sequer.
A partida, é já uma corrida perdida.

jpv