Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Fábula da Cigarra Enquanto a Formiga Dormia

Uma vez tentei escrever um poema em prosa contando uma história. Aconteceu-me esta fábula. É um texto singelo, mas gosto dele como se se tratasse de algo precioso… jpv

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Fábula da Cigarra Enquanto a Formiga Dormia

Foi na primavera dos teus braços, enquanto a luz da vida despontava, que encontrei esse bosque de carícias e afagos a retemperar uma alma perdida e ansiosa e capaz de amar. E foi no florir sumptuoso de cores e emoções que bebi a tua água por entre sussurros e palpitações. E os passarinhos cantavam nesta história e ao fundo, num simulacro de efeitos especiais, Julie Andrews cantava a música do meu coração. E houve vivas e saudações, sombras frondosas e naturezas presentes, e houve todo o pólen, toda a magia na fábula da cigarra enquanto a formiga dormia. Adensou-se o bosque. Cresceram as árvores guindando-se aos céus e perderam-se os limites, os teus e os meus. Um lago imenso, calmo e tranquilo, reflete a luz e o caminho. Um trilho de terra com pequeninos malmequeres que não atravesso sozinho. Há um casalinho de…

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Histórias a Preto e Branco – A Arte da Vida

Um texto antigo inspirado num rapaz de Nampula onde estou hoje em trabalho. Foi bom, para mim, revisitar esta história. jpv

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Histórias a Preto e Branco

A Arte da Vida

É um homem alto, tem o carvão na pele. Porque nasceu com África nas veias e porque trabalha nas minas. Vê pouco o céu. E quando o vê, normalmente é de noite. É um tipo atarracado, mas de uma estrutura óssea larga e rija como o ferro. Ganha pouco. Melhor que muitos. O problema não é esse. São os filhos. Ele tem vontades loucas no ventre. Sai da mina, cruza-se com as raparigas nas ruas e quando chega a casa, enterra o desespero em Recebida e faz-lhe filhos. Nem sabe bem quantos tem. Foram nascendo. Deus os trouxe e a alguns os levou. Agora mesmo, enquanto empurra um carro de mão carregado de material, sabe que ela deve estar-se aliviando de uma barriga do tamanho da lua. Os filhos saem de casa cedo. Aí pelos três anos já dançam nas ruas…

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De Rerum Natura – Basta!

bastaDe Rerum Natura – Basta!

É bom que Deus, o Diabo, o Destino e todas as outras forças que gerem esta patranha a que chamamos vida se entendam. Há um limite para o que uma pessoa consegue suportar em relação à agressividade e sinuosidade com que a tal vida a trata. Cada um tem o seu. Limite. Cada um reage com as armas que tem. Há quem vá à bruxa, há quem vá à igreja, há quem faça romarias, há quem se revolte e passe a agredir tudo e todos à sua volta, há quem se interne num hospital psiquiátrico e há os que, em meio da turba de contrariedades, tentam manter o equilíbrio. Sou desses. Tento ser. Percebe-se como… escrevo. Mas, à parte estar de boa saúde, tudo o mais parece ter-se combinado para me chatear os cornos.

Está na hora de dizer basta! Chega! Vade retrum ou, como me sabe melhor, puta que pariu!

É bom que Deus, o Diabo e o Destino e mai-lo rai que parta a todos se ponham de acordo e vão bater noutro ceguinho. Um semestre a levar pancada das forças superiores é muito tempo para o que um reles mortal pode suportar. E há mais: o próximo gajo que, referindo-se ao facto de eu estar emigrado em África, disser a expressão ‘Rica vida’ ou mencionar as belas praias do Índico, ouve uma saraivada de impropérios como não julgou ser possível produzir.

Estou farto da ignorância, da perfídia, da desonestidade descarada, estou farto da chico-espertice, estou farto da dissimulação, estou farto das presunções, estou farto de estar farto e estou farto da impotência e da vulnerabilidade perante a impunidade alheia. Estou farto da Humanidade.

Deus, o Diabo, o Destino, o Karma, que se ponham de acordo e escolham outro. Para mim, BASTA!

jpv


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Vermelho Direto – Crónica Polémica sobre o Colinho!

benfica-bicampeao-34Já está! Doa a quem doer, o Benfica venceu o seu 34º título nacional e é bicampeão nacional.

Esta crónica não será simpática. Não pretende sê-lo. Será o reflexo racional e desapaixonado da forma louca e apaixonada como vivo o meu Benfica.

Mérito
É todo dos jogadores, da equipa técnica e da direção do SLB. O Benfica é, neste momento, o clube mais bem gerido de Portugal. Supostamente ia perder tudo porque vendeu todos os bons jogadores que tinha. E, afinal, quem se lembra deles? Jorge Jesus geriu o plantel com muita sabedoria, foi pragmático, ganhou quando precisou, empatou quando quis e perdeu quando não conseguiu melhor. Expressa-se mal, faz frases sem sentido e diz disparates, mas, que eu saiba, ninguém o contratou para dar aulas de português. Na sua profissão é o melhor de Portugal. O Benfica não jogou sempre bem, mas foi a equipa mais regular e mais competente. Há sempre quem queira provar o contrário, mas esses, normalmente, terminam o campeonato com menos pontos. Jesus não foi mais longe nas competições europeias porque sabia que não podia. Fez uma opção e deixou-se de ilusões. Esse realismo e esse pragmatismo deram ao SLB a vitória no campeonato. Muitos dos que gozaram com o Benfica por não ter ido além da fase de grupos na Champions, não foram a lado nenhum.

Lopatego
O treinador do F. C. Porto é arrogante. Julga-se muito culto e superior a tudo e todos. Julga-se superior aos seus colegas, aos seus jogadores e aos jornalistas. Mas não é. Tinha o melhor plantel do campeonato e perdeu. Aliás, Lopatego foi capaz de perder tudo. Tolapego tinha bons jogadores, mas nunca teve uma equipa equilibrada, pode ser um chefe, mas não é um líder. Palotego destruiu a influência de Quaresma no plantel e quando se apercebeu do erro já era tarde de mais. Aliás, Lotepago nunca admitiu que tinha errado e não foi capaz de dar os parabéns ao Benfica nem a Jesus… uma lástima este basco. Como treinador e como pessoa. Não resta este ano, aos adeptos do FCP, outra solução que não seja invocarem os títulos do passado. Atenção que o passado começa a ficar distante.

O Bruno e o Marco
Os sportinguistas andam a queixar-se das arbitragens. Há décadas. Os únicos anos em que não se queixam das arbitragens e não fazem umas patéticas tabelas classificativas com supostas classificações corrigidas dos erros de arbitragem são aqueles anos, poucos, em que ganham. Nunca reconhecem a vitória dos adversários o que é chato porque quase nunca conseguem ganhar. Aliás, ainda ontem vi uma tabela dessas, mas não estavam lá os dois pontos que foram sonegados ao SLB frente ao Guimarães por golo mal anulado. Não interessa! Tinham um bom treinador. Sim, tinham. Nenhum homem são da cabeça quer conviver com um presidente que abre frentes de batalha todos os dias, incluindo as internas, em que se ocupou a denegrir a imagem de grandes sportinguistas. Bruno de Carvalho geriu mal a época. Ponto. Esse foi o verdadeiro problema do SCP. O problema do SCP é interno! Têm excelentes jogadores, muito jovens, que precisam ser ensinados e não processados quando um jogo corre mal. Ainda não foi desta e não sei quando voltará a ser.

Colinho
O verdadeiro colinho foi correr mais do que os outros, foi ganhar mais do que os outros, foi sofrer em silêncio para gritar agora de exuberante alegria. O verdadeiro colinho foram casas com 60000 espetadores frente a equipas como o Estoril e o Penafiel. O verdadeiro colinho foi uma massa adepta incomparável em número e entusiasmo. Houve jogos em que os árbitros erraram favorecendo o Benfica, mas também os houve em que o prejudicaram, como ontem, por exemplo. E não esquecer, aqueles que acusam o SLB de colinho, que este foi o campeonato dos penaltis não assinalados contra o Porto e dos golos fora de jogo do Sporting. As equipas com maior dimensão são sempre beneficiadas, e não deviam ser, mas os árbitros não definiram este campeonato. Foi a competência da equipa benfiquista que o definiu. E o Glorioso não ganhou o campeonato porque o Porto empatou com o Belenenses. O Benfica ganhou o campeonato porque tem mais pontos ao cabo de 33 jornadas.

E agora?
Agora vamos disputar com brio e respeito pelo adversário a final da Taça da Liga e para o ano cá nos encontramos. Outra vez com mudanças, com alegrias, com tristezas e sempre com a mesma paixão. A paixão benfiquista! Estive mesmo para não escrever esta crónica, mas estou em trabalho em Nampula, no norte de Moçambique e, há pouco, cruzei-me nos corredores do hotel com um senhor muçulmano, com o seu traje típico, aquela ‘túnica’ cujo nome é thoubh ou jalabiyah, por cima do qual envergava uma t-shirt do Benfica com um enorme 34 no centro do emblema. Não me contive. Se neste fim de mundo para a geografia da minha vida, ainda havia filas de carros a buzinar às 23h, 22h de Portugal, então eu também posso amanhar umas linhas de celebração provocatória.

Benfiiiica!

jpv


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A História Que Não Posso Contar

Não possojp-o-homem-do-pau e não quero…

Esta semana foi profícua em histórias. Uma delas, eventualmente ainda não terminada, tem contornos tão fantásticos quanto assustadores e é inenarrável… surpreendente, perversa, complexa e, no entanto, de uma simplicidade arrebatadora.

Ficará para um dia, quando tiver idade para dizer o que me apetece.

Aguardem-me…

Era uma vez…


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Parabéns a Você!

6

 

“Mails para a minha Irmã” faz hoje o seu 6º aniversário.

Caros Amigos e Leitores,

Foi um dia demasiado atribulado para poder concentrar-me neste aniversário, mas a verdade é que 6 anos do vosso carinho, da vossa atenção e da vossa dedicação merecem ser celebrados. E também merecem ser celebrados 6 anos de escrita e publicações.

Pensei em algumas possibilidades diferentes para assinalar a data e acabei por decidir-me por publicar dois poemas inéditos de duas jovens poetizas. Eles aí ficam, com todo o esplendor da juventude. Todas as virtudes e todas as falhas da jactância da adolescência. E vão identificados com autorização das autoras.

Boas leituras, caros amigos e leitores e… voltem sempre! Pelo menos, durante mais um ano.

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Ser Poeta
Gostava de ser poeta,
Mas poeta não sou,
Pois nem jeito tenho
Para a pessoa que sou.

Gostava de ser poeta,
Mas poeta não sou,
Pois para o ser
É preciso ter um dom.

Inês quinta – 15 anos.

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No meio de uma frase
No meio de uma frase,
No meio de um dia.

Quando ninguém esperava,
Quando ninguém queria saber…

Tudo aconteceu,
Nada ficou.

Em um abrir e fechar de olhos,
Aconteceu.

O último minuto
De tantos que levaram a isto.

O último minuto
Em que todas as rosas foram vermelhas.

O último minuto
Em que acredito
Que todos os finais podem ser felizes…

Sulaima Golam – 14 anos.

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Histórias a Preto e Branco – A Lenda de Dona Gita e Senhor Machado

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Histórias a Preto e Branco – A Lenda de Dona Gita e Senhor Machado

Não é uma ilha. É um banco de areia que o mar nunca cobre. Parece milagre. Talvez seja. Não tem mais de trezentos metros de comprido. Não é uma ilha. É um banco de areia ao largo de Vilankulos.

Ninguém sabe ao certo de onde veio o Senhor Machado. Nem nunca ninguém se preocupou em saber o seu nome próprio. Foi sempre o Senhor Machado e isso bastou para que o chamassem, para que o conhecessem, para que se enamorasse dela e foi com esse nome que a desposou. Meio português, meio chinês, o Senhor Machado traz no nome e no olhar rasgado a mistura étnica que o caracteriza. Foi sempre um homem de gestos simples, de palavras cordatas e atitudes gentis. E foi essa gentileza que a cativou. Quem o vê, hoje em dia, sair da missa de domingo ou passear os seus noventa anos pelas ruas de Vilankulos com o cabelo liso e todo pintado de branco como uma imensa nuvem dessas que bordejam a vila, não imagina a força e o negrume que esse cabelo teve noutros tempos.

O Senhor Machado ainda não tinha vinte anos quando chegou a África. Era um rapaz robusto e atarracado com o corpo cheio de energia e a mente repleta de planos. Procurava uma vida. E deu com um mar calmo e sereno a abarrotar de peixe lá dentro e uma sereia nas suas margens. Eram águas mágicas, de azuis infinitos, ora escuros, ora cristalinos, matizados de safira ou quase brancos. E mudavam a cada maré e traçavam linhas. Todos aqueles azuis, aprendeu com o tempo e a experiência, eram um imenso mapa marinho só possível no Índico. Duas coisas súbitas lhe aconteceram à chegada a Vilankulos. Fez-se pescador. E pediu-a em casamento.

 Casa Machado - VilankulosDona Gita, meio indiana, meio moura, chegou aqui em família de comerciantes. Caminhava ao longo da praia contando as conchinhas e respondendo aos corvos marinhos. Era uma jovem de traços definidos, quase pareciam desenhados a lápis, lábios finos, olhos vivos e as mãos esguias no extremo dos braços caídos ao longo do corpo mais esbelto de Vilankulos. Adorava flores, plantas e árvores. Esse universo miraculoso da sementinha que se põe e brota e dá flor que se converte em fruto que se come e tem lá dentro nova sementinha. Coleciona as plantas. Fala com elas, respira com elas. Os seus cuidados com essas criaturas parecem desvelos de mãe. Quando o viu, quis que ele se enamorasse dela. E ele enamorou. E quis que ele se apaixonasse por ela. E ele apaixonou. E quis que a pedisse em casamento. E ele pediu. E quis que a desposasse. E ele desposou. E quis que a levasse consigo para o mar. E ele levou. Uma ocasião, preveniu-a de que se demoraria por lá várias noites. Ela foi com ele. Usou simples, terno e contundente argumento. O argumento que desarma os homens. Preferia ver-se privada dos confortos que tinha nas margens seguras e firmes do continente do que ficar longe dele. E rematou sorrindo:
– Dormiremos ao sabor das ondas.
– Não é preciso. Tem um banco de areia.

O Senhor Machado aparelhou o dhow, as redes, os apetrechos de pesca, as armações para colocar na areia com o peixe a secar e velejou a embarcação de vela triangular com perícia até ao banco de areia ao largo de Vilankulos. Quando chegou, deslizou o barco para a areia, retirou as armações e abriu-as. Formavam uma espécie de mesas longas com as pernas mais altas numa extremidade. Assim, o peixe ficaria exposto ao sol e inclinado para que perdesse a humidade mais rapidamente. O Senhor Machado fazia as suas investidas pelo mar calmo e azul e trazia o peixe que Dona Gita amanhava e escalava e estendia, aberto, ao sol. E atirava as entranhas para perto e ficava a ver o bailado das aves na disputa pelo alimento. Certo dia, o Senhor Machado demorou-se mais. Tinha avisado Dona Gita que iria mais longe e ela esperou-o contando os azuis, cantando às aves e suportando o sol sob o seu lenço colorido. E começou a deambular pelo banco de areia e levou as mãos aos bolsos da saia e aí encontrou sementes esquecidas. Estranhas e raras por estas paragens. Eram sementes de pinheiro que um português lhe havia trazido de longe por lhe conhecer o gosto por todas as plantas, por todas as flores e pelas ervinhas todas. Distanciou-se do mar e quando percebeu que a areia era seca, sempre seca, foi com gestos simples e gentis que abriu sete covas para as sete sementes que tinha no bolso. E depositou-as uma a uma. Não havia nos seus gestos esperança pois que as condições eram adversas. Um banco de areia rodeado de água salgada, terreno árido, infértil e fustigado por ventos e sóis. Havia certeza! A certeza que põem os loucos e os amantes em tudo o que fazem.

Corria a década de quarenta. Noutras paragens, terminava uma guerra sangrenta e aqui nasciam as sementes do amor. Vingaram todas. As sete. E foram crescendo devagarinho. E Dona Gita e o Senhor Machado acompanharam esse crescimento. Fosse por que sortilégio fosse, as árvores do norte da Europa resistiram e cresceram fortes e altivas por entre azuis inimitáveis num banco de areia no meio do mar Índico ao largo de Vilankulos. E cresceram a dar sombra para pescadores e ajudantes de pescadores, tornaram-se num ponto de referência à navegação e, sobretudo, ergueram-se como um símbolo do amor que perdura, das pessoas que não se separam, dos amantes que colhem juntos o fruto dos seus afetos e o do mar também.

Já tinha visitado Vilankulos antes, mas nunca ouvira esta história. Na Páscoa de 2015 regressei e fiquei alojado no lodge “Dona Soraya” e foi a própria Soraya que ma contou. Era um fim de tarde turquesa, sentámo-nos numa mesa com vista sobre o mar e enquanto repetia o gesto quase obsessivo de dobrar um guardanapo pelo vinco, Soraya contou com emoção o conto de fadas verdadeiro que presenciou. Continuemos, que a história ainda não terminou.

O Senhor Machado e a Dona Gita acabaram por abandonar a pesca. Dedicaram-se ao comércio. O Senhor Machado abriu a “Casa Machado” junto ao mercado central a aí trabalhou até ao ano passado. Ao domingo à tarde, após a missa e o almoço, o Senhor Machado e a Dona Gita caminhavam pela praia, erguiam uma mão aberta sobre o olhar e vigiavam os pinheiros do seu amor. Em 2005 fizeram sessenta anos de casados, toda a vila se reuniu numa festa e numa homenagem ao estranho casal que veio de longe para se amar em Vilankulos e plantar pinheiros num banco de areia ao largo da vila. Cresce o amor em estranhos locais e adversas condições. Soraya fez com suas próprias mãos um vestido para Dona Gita celebrar a ocasião. Em suas infinitas diferenças e matizes de vida, as gentes de Vilankulos encontraram espaço para acolher Dona Gita e o Senhor Machado. E para os respeitar e venerar o seu amor. Esse mesmo imorredoiro amor que sustenta os pinheiros no meio do mar. Esse amor que haveria de manifestar-se e mostrar a sua força. Pouco depois do aniversário de casamento, veio instalar-se na área um moderníssimo e reputadíssimo resort turístico. Captou a atenção dos gestores o elegante banco de areia, local ideal para levar turistas em passeio a beber um leite de côco por alva palhinha. Mas que faziam ali pinheiros? A árvore tropical, por excelência, é o coqueiro. E tomaram a intenção de cortar todos os pinheiros e plantar coqueiros adultos com ar exótico e tropical como aparece no postal, debruçados sobre o azul marinho onde outrora o Senhor Machado havia pescado. Mas naquele banco de areia havia mais do que pinheiros do norte. Havia essa força invisível que os tinha sustentado por mais de sessenta anos.

Dona Soraya é uma mulher alta, determinada, de palavra fácil e clara, doa a quem doer. E foi ela quem liderou a vila no complexo processo de demonstrar às autoridades que não podia perpetrar-se aquela intenção. Documentos, relatos, reuniões e até uma embaixada de gente entusiasmada na defesa da sua história, do seu casal incomum. Aqueles pinheiros eram o símbolo vivo de um amor inquebrantável, de um companheirismo sem igual, mas eram algo mais do que isso. Faziam parte da história e da memória coletiva de Vilankulos. Com surpresa de muitos, mas não de Soraya que nunca duvidou do triunfo, foram sustidas as intenções reformadoras e arrasadoras do resort. E quando Dona Gita morreu, há dois anos, deixou para trás sete pinheiros num banco de areia ao largo de Vilankulos. E há quem diga que, todos os dias, antes de iniciar os seus inúmeros afazeres, Dona Soraya se abeira do limiar do esplêndido terraço do seu lodge, ergue os binóculos para o horizonte marinho e conta, vigilante, como quem reza:
– Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete.

jpv
Vilankulos, março de 2015


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Crónicas de África – O Homem do Pau

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Crónicas de África – O Homem do Pau

Maputo, 3 de abril de 2015

Uma das irrevogáveis conclusões de quem se muda para o grande continente vermelho é que ‘África desformata-nos’. Tínhamos acabado de conversar sobre isto e não sabíamos ainda que dentro de momentos a nossa adaptabilidade seria de novo posta à prova.

O facto é que África tem uma força e um poder tremendo sobre as pessoas e obriga-as a tornarem-se mais fortes, mais adaptáveis e menos formatadas. Somos forçados a construir as nossas próprias soluções e sabemos que a única coisa absolutamente previsível é a imprevisibilidade.

Quisemos passar meia dúzia de dias junto ao mar, revisitar Vilankulos pareceu uma solução fantástica, sobretudo porque a escassos 30 minutos de barco fica a ilha de Magaruque e o seu recife de coral com milhares de espécies diferentes de peixes. Nadar ali é como entrar num gigantesco aquário de água quente. Ora, o nosso cão, Poloni, é companhia fundamental e por isso mesmo a escolha do alojamento teria de o incluir. Quando finalmente encontrámos um lodge de que gostávamos, dentro do nosso orçamento, e que anunciava ser ‘Pet friendly’, que é como quem diz, amigo dos animais, desconfiámos. Telefonámos. E do outro lado da linha a senhora confirmou, em tom entusiasmado, que podíamos levar o cãozinho, ela gostava muito e também tinha os seus. Ficámos satisfeitos. Pois, isto é África. Deveríamos ter feito mais perguntas. Entretanto, de entre a vasta oferta de quartos, quartinhos, quartões, casas, cabanas e chalets, reparámos que havia uma cuja descrição parecia muito confortável e até tinha dois chuveiros e uma cozinha. Não demos muita importância ao nome, ‘Payota’, porque nestes casos os nomes são simbólicos. Devíamos ter dado.

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A viagem, como sempre, foi fantástica. Como já aqui se escreveu, a estrada nacional 1, em Moçambique, está prenhe de vida. E, como tal, os 730km e as 11 horas de viagem levam-se bem. A primeira paragem foi em Xai-Xai, é uma cidade à saída de Maputo pois dista somente 200km da Capital. Parámos no ‘Pontinha’ e comemos uns deliciosos pregos no pão às 7 da manhã a conselho da Isa. Excelente conselho. Excelentes pregos. Pelo caminho fomos comprando fruta e quando estávamos a chegar ao destino, já percorridos alguns quilómetros em terra e areia, sim, que o Paraíso é maravilhoso, mas os acessos são tramados, e conversávamos sobre estarmos menos formatados e mais resistentes, a tal da resistência foi de novo invocada! À chegada ao lodge Dona Soraya, propriedade da própria Dona Soraya, uma senhora alta, muitíssimo empreendedora e determinada, indefetível contadora de histórias, com ascendência indiana, inglesa, espanhola e alemã, casada com o dinâmico e empreendedor Pieter, um suíço a viver em Moçambique há quase vinte anos, fomos recebidos por uma matilha de sete cães façanhudos, com ar de poucos amigos, rosnadela fácil e o pêlo a eriçar-se no lombo. Quando ela disse que também tinha CÃES, eu sabia que CÃES era plural, mas estava longe de imaginar tanto plural. Ora, o Poloni tem o seu feitio e não se ensaia nada para dar uma rosnadela feroz, mas estou convicto de que o meu cão não sabe contar, é que, até eu que fui para letras, percebi de imediato que eles eram muitos. E não acharam piada nenhuma ao caráter do novo amiguinho e fizeram-se a ele e vai de o morder até eu os conseguir afastar a todos. Mais tarde, ainda fiz uma nova tentativa de aproximação amigável e diplomática, mas nova saraivada de mordidelas, com o Poloni sempre a ajudar à festa com seu rosnanço grosso, fez com que Dona Soraya me desse uma lição. Uma lição e um pau. A lição foi eu não perder tempo a tentar fazer que eles ficassem amigos porque quando os animais não querem é porque não querem. E o pau foi para eu marcar território e mostrar quem manda. ‘E se for preciso dê-lhes com ele!” Não foi preciso. Assim que os sete façanhudos me viram de pau na mão, nunca mais se aproximaram de mim quando eu estava com o Poloni. Ficavam a olhá-lo de longe e a respeitar a minha autoridade que na verdade não era minha, era do pau. Mas há mais. Quando eu passava por eles sem o Poloni e sem o pau vinham abanar-me a cauda e lamber-me as mãos e até foram comigo à praia e guardaram-me as coisas enquanto fui ao mar. Assim, mais ou menos como se eu fosse um deus na terra. Ora, durante aquela semana, quem me via de pau na mão, via-me com um cão junto a mim e sete ao largo. Quem me via sem pau na mão, via-me a ser venerado por sete façanhudos e eriçados muito dóceis cãezinhos!

Ora, Soraya fala tudo. Português, inglês, francês, alemão e espanhol. Algures entre o português e o espanhol, com algum inglesamento, ela agarrou na palavra ‘palhota’ e converteu-a em ‘payota’. Palhota é uma casa de palha e foi isso que alugámos. Confortável, claro. Com os tais dois chuveiros e a cozinha que mal usámos e uma vista ultrajantemente bela a partir do jardim do lodge. Em todo o caso, é uma casa de palha. Ou seja, o contacto com a Mãe Natureza é mesmo muito próximo. Eu fiz amizade com um lagarto que dormia por cima da minha cama, no teto, e juro que não foi preciso ar condicionado porque o ventinho corria à vontade por entre a palha da palhota. Tudo aquilo foi uma imersão em padrões africanos a exigir adaptabilidade e a proporcionar umas férias genuínas de lume aceso onde eu, o Pieter e o Werner discutíamos política, finança, técnicas de acender o lume e resolvíamos os problemas do mundo enquanto grelhávamos uns bifes e umas salsichas de nome impronunciável. Foram uns dias muito bem passados e eu senti-me particularmente bem, assim como uma espécie de chefe da tribo. Afinal de contas quem tinha o pau era eu!

jpv


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De Rerum Natura

6deed-jp-04O único princípio realmente genuíno nos seres humanos é o egoísmo.
Até mesmo os gestos altruístas são orientados por um profundo egoísmo. Sobretudo esses.
Nós, humanos, somos visceralmente incapazes de ver além do nosso umbigo. E quando o fazemos, a visão é distorcida pela nossa premência egocêntrica.
Todas as formas de partilha, de companheirismo e solidariedade constituem um exercício racional de hipocrisia.

Na generalidade, não aceitamos isto. Lutamos contra isto e tentamos ser superiores à nossa própria condição. Há nobreza nesse ensaio. Mas só isso. A teia, o vórtex umbilical, é mais forte porque a verdade é que a incomensurável dimensão do universo, os biliões de estrelas e galáxias, não interessam para nada sem que sejam validadas pela singular e ínfima existência de cada um. De cada ser. Humano. A velhinha que se ajuda a atravessar a estrada, o dinheiro que se deposita naquela conta com muitos algarismos que se anunciou na televisão e vai para ajudar crianças carenciadas não se sabe bem onde, um saco de arroz e um pacote de bolacha maria à porta do supermercado, uma esmola num semáforo a um senhor de cadeira de rodas, nada disso é solidariedade. Tudo isso é um enorme pano encharcado de limpar consciências. O ser humano quando ajuda, não ajuda os outros. Ajuda a sua consciência a sobreviver. Ajuda-se a si próprio a convencer-se de que merece a vida que tem, despoja-se de culpas e arrependimentos e respira de alívio até que voltem. As culpas. Os arrependimentos. Nada do que é humano nos é estranho, mas nada, sendo humano ou não, nos rouba à indiferença se não entrar na esfera dos nossos interesses pessoais, na esfera de validações do nosso ego. Egoístas nos confessamos e professamos o egoísmo a cada dia que passa aprisionados na nossa umbilical condição. É terrível, isso. E maravilhoso!

jpv