Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Not Sex

Not Sex

Quando eu te preencho e tu me ganhas
Não há nessa entrega
Qualquer centelha de invasão,
É um dar que preenche
É um receber em explosão.
E tudo o que se passa está
Para além das palavras que há,
Vive no teu corpo,
Habita meu coração,
E sai de mim
Porque vai para ti,
E há nisto um caminho
E um rosário
Como se o sentido da vida
Andasse ao contrário.
Recebes tu, dou eu.
Recebo eu, dás tu.
E há nesses gestos fantasia,
E atravessa o ar um sorriso de harmonia
Quando eu te preencho e tu me ganhas.

jpv


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Lady Von Trapp

Lady Von Trapp

Estas são algumas das minhas coisas favoritas.

Os teus dedos no meu corpo.
Os teus lábios sabendo a mel.
O teu calor na minha pele.
Estas são algumas das minhas coisas favoritas.
A tua voz ecoando uma canção.
As tuas mãos navegando pela comida.
O calor da tua voz entoando uma canção em francês.
As tuas mãos fechando um frasco de cada vez.

Estas são algumas das minhas coisas favoritas.
O teu olhar sorrindo a vida.
O teu cabelo desalinhado como um sol.
Os teus seios espetados.
As tuas tangerinas pequeninas.
A tua manteiga e o teu pão mole.

Estas são algumas das minhas coisas favoritas.
O teu andar miudinho.
O teu vaguear inquieto pela casa.
A tua dispersão no dar e no receber.
O teu querer fazer-me feliz.
O teu movimento gracioso e sem nexo.
A forma como me ofereces o teu sexo.

Estas são algumas das minhas coisas favoritas.

jpv


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De Negro Vestida – LII

 

De Negro Vestida – XVI

As mulheres gostam de ser mulheres.
Os homens gostam de ser homens.
A vida lá terá as suas variações, contradições e naturais excepções, mas o facto é que costumamos vestir bem a pele que o Senhor nos deu. E há aspectos que admiramos mutuamente no sexo complementar que oposto não é. E há até algumas circunstâncias que são particularmente cativantes de acordo com os tempos usos e costumes. São modas. Hoje em dia, por exemplo, as mulheres, que apreciam um físico masculino em boa forma, deixam-se cativar mais facilmente por um homem que passeie um cão pelas ruas ou que se faça acompanhar de uma criança prestando-lhe cuidados e atenção.

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O Romance “De Negro Vestida” foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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Sete Pecados

Sete Pecados

Deixai-nos, Senhor, pecar com inocência,
Que faz falta à vida
O risco do pecado
Em consciência.
Perdoai-nos, Senhor,
Pela Gula constante do Amor.
Perdoai-nos, Senhor,
Pela Avareza constante da paixão.
Perdoai-nos, Senhor,
Pela constante Inveja de quem ama em paz.
Perdoai-nos, Senhor,
Pela Ira desse amor não ser capaz.
Perdoai-nos, Senhor,
Pela Soberba deste soberbo amor.
Perdoai-nos, Senhor,
Pela Luxúria de acarinhar os necessitados.
Perdoai-nos, Senhor,
Pela Preguiça de não cometer todos os dias estes sete pecados.

jpv


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O Clã do Comboio – Trim, triiim, triiiiiiiiiim…

Trim, triiim, triiiiiiiiiim…
Há dias que nascem agitados até mesmo no seio de um clã semi-adormecido e com os rituais muito incorporados.
Um dia destes, parecia que andava o diabo à solta no interregional das 7:18h. Mas não um diabo qualquer. Era o diabo dos ruídos incomodativos.
Já na estação me pareceu que havia certo alvoroço no ar, pouco costumeiro. Pensei, Assim que o comboio arrancar, começa tudo a dormir e é um descanso. É o começas. Vamos por partes.
Primeiro sentou-se um moço à minha frente com música nos ouvidos. Acontece que tinha um daqueles auriculares que, além de empurrarem a música para dentro, também a explodem para fora em forma de ruído impreciso. Acresce ainda que se tratava de um moço generoso que não queria a sua frenética batida só para si. Vai daí, coloca a coisa no máximo do volume e, que eu reparasse, nove pessoas deitaram-lhe olhares acusadores. E o moço nada! Até que alguém lhe tocou no ombro e disse:
– Olha, importas-te de baixar o som?
O tipo não ouviu. O outro falou mais alto e alterou ligeiramente a frase:
– Baixa o som!
Pensámos que a coisa ia tranquilizar. Não tranquilizou.
Duas filas mais atrás, toca um telefone. Triim, triiiim… Que eu contasse, tocou aí umas cinco vezes. A dona dele atendeu e falou baixinho. Nisto, o tipo que tinha mandado baixar o som ao outro começou a emitir um ruído polifónico do bolso do casaco:
– Estou?!
Falou baixinho mas não se livrou da vergonhaça. Ainda agora tinha mandado calar o outro e já não deixava ninguém dormir. Depois, tocaram mais três telemóveis e quando chegámos a Vila Franca de Xira, o ambiente acalmou e o pessoal pensou que embora só faltasse um terço da viagem, poderíamos finalmente descansar um pouco. E foi aí que se deu o episódio que acabou por motivar este texto. Ao fundo da carruagem viajava uma alma que dormia profundamente com música nos ouvidos e por essas duas razões não ouvia nada. Ora, por cima dela, tinha colocado uma mochila que, entre outras coisas, levava um telemóvel estridente no máximo do volume. O desgraçado tocou, tocou, tocou… E a senhora adormecida com a música nos ouvidos nem pestanejava. Quando alguém conseguiu perceber o esquema, ou seja, de onde vinha o som, de quem seria mochila, acordou a mulher que atendeu o telefone. Guardou-o no bolso do casaco e recolocou a mochila na prateleira por cima da cabeça. A malta das 7:18 pensou que ia descansar uns minutinhos. Enganou-se. Um som igualmente estridente mas diferente do anterior ecoou na carruagem e ninguém parecia querer atender aquele também. O pessoal olhava, olhava, o som parecia vir do mesmo sítio mas a senhora já tinha de lá tirado o telemóvel e ainda por cima aquele não era o toque dela. Quando já ninguém conseguia disfarçar a má disposição, ela olhou em volta, viu as caras zangadas dos companheiros de viagem, tirou a música dos ouvidos, apercebeu-se do som, foi à mochila, tirou de lá outro telemóvel, atendeu e foi a conversar até Lisboa numa voz audível em toda a carruagem. Deu instruções para o almoço, para o jantar, disse o que ia fazer a Lisboa, combinou quem ia buscar as crianças e falou muito do seu trabalho e do seu marido. Se bem me lembro, comentários pouco simpáticos.
Quando chegámos a Lisboa, as olheiras eram mais que muitas e os passageiros regulares do interregional das 7:18h. não sabiam bem se haviam de rir ou chorar. Para catarse colectiva, houve um que, ao sair, ainda exclamou:
– Este pessoal deixa os telemóveis ligados e não os atende. É uma falta de respeito.
Era o tipo que tinha mandado baixar o som ao outro quando julgávamos que esse era o maior dos nossos problemas.


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O Clã do Comboio – A Mulher Vampiro Ataca de Novo

A Mulher Vampiro Ataca de Novo.

A mulher vampiro hoje sorriu-me! Tem um sorriso bonito.

Mas, antes de sabermos como e porquê, vamos lá a perceber porque é que este texto tem no título a expressão “Ataca de Novo”. Ela não ataca nada. Só quer que a deixem dormir a viagem. Mas como quem faz os títulos das crónicas sou eu e como ia escrever de novo sobre ela, escolhi este porque me apeteceu.
A verdade é que tenho mais pormenores dela. Faltou à minha descrição anterior dizer que também as suas mãos são alvíssimas e que tem as unhas impecavelmente pintadas de negro. Faltou dizer que ouve música toda a viagem com uns phones brancos que contrastam com o negro da indumentária. E faltou dizer que dorme toda a viagem, que viaja sempre no mesmo banco. Não me perguntem como é que consegue apanhá-lo vago, mas o certo é que consegue. Acorda sempre no mesmo local, levanta-se, compõe-se e vai à sua vida.
Esta semana, contudo, foi semana de mudanças profundas. Abandonou o negro. Veste toda de cinzento. Quer dizer, quase toda. Calças de fazenda cinzentas e um enorme casaco de fazenda num xadrez miudinho castanho-escuro e branco. Um lenço farto a sair-lhe do casaco num tom castanho-clarinho seco muito suave e o calçado, botas, no mesmo tom. Esta roupa não é tão monocromática como a anterior mas cria a sensação de estar toda de cinza. E depois, claro, emerge aquela labareda laranja que é o seu cabelo. Continua a qualificar para vampiro do século XXI.
Hoje, três tipos simpáticos que costumam ir a meio da carruagem a discutir como é que lavam os carros ao fim-de-semana e despejam o lixo à noite, foram lá para trás. Ficaram ao pé dela. E conversavam abundantemente com o seu usual entusiasmo de tipos que passeiam o cão. E é precisamente essa conversa que não a deixa dormir. Ela forçou. Fechou os olhos e tentou, mas eles agora iam a falar de marcas de pneus e não dava mesmo para ela dormir. Eu estava a olhar para ela, tirava-lhe a pinta à nova roupa para escrever este texto, quando ela abriu os olhos com cara de poucos amigos, olhou para eles, encolheu os ombros como quem diz, Nada a fazer, e depois olhou na minha direcção e sorriu. Um sorriso “Já me topaste”. Eu sorri de volta encolhendo os ombros a dizer-lhe sem palavras, Hoje não se dorme. Ela confirmou com o olhar, sacou de uma revista e foi ler. Eu vim escrever. E os três amigos continuaram a salvar o mundo. Alto e bom som.


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O Clã do Comboio – Curta e Grossa

Curta e Grossa
Nunca me tinha acontecido. Foi desta. Alguma havia de ser a primeira.
Dia intenso e cansativo. Comboio de regresso tardio. Frio na rua. O ar condicionado lá dentro aqueceu o corpo e a alma. Adormeci.
–
Quando acordei, o painel do comboio anunciava “Próxima estação: Lamarosa”.
Como a Lamarosa é depois do Entroncamento onde é suposto eu sair, pensei, “Esta treta destes comboios andam todos desregulados.”
Reparei entretanto que o comboio tinha muito pouca gente. Perguntei a uma senhora, “Já passámos o Entroncamento?”. Ela não gostou de ser interrompida no seu meio sono e respondeu curta e grossa:
——– Já!


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Esclarecimento

Antes de mais, muito obrigado a todos os leitores pela atenção que dispensam a este cantinho. A nossa família continua a crescer.

Uma avaria no meu portátil, impediu que mantivesse o ritmo de publicações nos últimos dois dias. Mas fiquem descansados. Há muitas histórias do “Clã do Comboio” e já há mais 20 capítulos de “De Negro Vestida”.

Continuarão as citações, tão apreciadas que estão a ser e, claro, uma musiquinha para distrair…

Abraço Grande,

JP


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Citação

“Ser autor é trazer-nos inédito aquilo que ainda era do conhecimento geral.”
Estação do Metro do Saldanha


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Histórias do Autocarro 28 – Elegância Enlatada

Elegância Enlatada

Sabem aquelas imagens onde está tudo certinho mas há qualquer coisa de errado e não sabemos bem o que é? Pois bem, vinha-me acontecendo um fenómeno semelhante no autocarro 28. Em meio de toda aquela normalidade laboral de pessoas vestidas para o trabalho com as faces da manhã que começa e do ponto que espera ser picado, no meio de todo este cinzento comum na vida da grande urbe, havia uma nota de cor.
–
É magra. Alta. Tem a face fina e alongada. Os olhos brilham cor de amêndoa. O cabelo é loiro e liso. Normalmente trá-lo sobre os ombros. Por vezes apanha-o e fica com um ar mais “executivo”. Coloca sempre batôm e uma base na cara que lhe dá um aspecto cuidado e distinto. Passa uma sombra discreta nos olhos e arranja as sobrancelhas. Pinta as unhas. Veste calças vincadas e sapatos de verniz e um casaco comprido, preto, de onde emerge uma écharpe que traz ao pescoço. E coloca-se na fila do 28, entra com os outros todos e procura um assento nos primeiros bancos. Quando não o encontra vago, a sua elegância segue de pé, enlatada como todas as outras, presa ao varão com uma mão e do braço esticado pende uma mala a dar com os sapatos. E nada disto parece perturbá-la. Incorporou este ritual na sua elegância ou, se quiserem ver ao contrário, trouxe a sua elegância para os rituais de todos nós.
–
É fresco vê-la. É agradável. Normalmente fica-se com a sensação de que a normalidade também pode ser colorida com a paleta da elegância e do bom gosto. E assim, o 28 fica mais completo, mais universal na sua passerelle de trabalhadores matinais em trânsito.

jpv