Não sei como é que não caem porque, sempre que se abre ou fecha o portão e o motor trabalha, há uma trepidação forte no mesmo. Enfim, lá deixarei os inquilinos na sua paz sempre à espreita de os ver sair e tentar fazer uma foto… Por enquanto, decidi não cobrar renda!
"Com Amor," – Documento 33
Caro Eduardo,
Há pouco tempo atrás, há meses, talvez até há semanas, tê-lo-ia repelido. Teria sido seca, amarga, ou pior do que tudo isso: indiferente. Acontece que ando a reconciliar-me com a vida, ou ela comigo, e ando mais desperta para as surpresas e imprevistos que possam suceder-me. Por vezes basta cruzarmo-nos com alguém que nos altere a perspectiva, que nos faça, com poucas e sensíveis palavras, olhar as pessoas e as situações de outra forma e todo o curso da nossa existência se altera. O Eduardo encontrou-me exactamente na fase em que estou reolhando a vida e os homens nela.
Viu elegância em mim, confessa. E sabe que vi em si? Delicadeza. Uma intensa e genuína delicadeza que já não é deste tempo. Nas palavras. Nos gestos. E no olhar. Havia delicadeza até na forma como se movimentava. Agradeço-lhe por isso. Quanto ao seu inusitado gesto, à sua ousadia, até o facto de o considerar inusitado é pouco comum. Muitos homens não medem as distâncias e fazem abordagens incorrectas e indelicadas. O Eduardo foi ousado, sim, mas nunca desrespeitoso. E isso marcou a diferença. Gostei de o conhecer, sabia?
Claro que nos escreveremos. Não o estamos fazendo já?
Até já!
Verónica.
Ps: pagou o café!
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Publicidade – Homem que é Homem
"Com Amor," – Documento 32
Cara Senhora,
Permita-me que a trate pelo seu nome próprio. Gesto invulgar, por certo, não mais invulgar do que a forma como nos conhecemos.
Perdoe-me o atrevimento. Sou um homem respeitador. O gesto que tive para consigo é, a todos os títulos, inusitado. Há uma verdade, um reduto último de defesa pessoal, de justificação para a minha ousadia: não resisti à sua elegância. E perdoe-me, de novo, se lhe não falo de beleza. Não questiono. Contudo, a beleza insere-se na esfera da arbitrariedade do gosto. A elegância não. Ou se tem, ou não se tem. E a Verónica tem elegância, uma fina elegância no porte, uma presença distinta.
Quando a vi no café, julguei estar enganado, julguei não ser possível, uma mulher com o seu porte e a sua presença estar desacompanhada e veio-me aquele impulso de sorrir-lhe, de cumprimentá-la de conversar consigo… já não sei se lhe paguei o café… espero que sim… Verónica… penso que podemos conversar… gostaria imenso de corresponder-me consigo e agora com estas tecnologias fica tudo mais acessível e rápido.
Com deferência,
Eduardo Luís dos Santos
A Quarta Folha do Trevo
A Quarta Folha do Trevo
Joguei a minha vida
Às sortes,
Entreguei-a ao capricho
Da Fortuna.
E por entre vivas de esperança
E traços de morte,
Descobri a miraculosa lacuna.
Tem o trevo
Três folhas
Que representam
As acertadas escolhas.
E tem aquele que me deste
Uma folha mais,
Uma falha da Natureza
Que sendo espúria e indesejada,
Pela brisa da Fortuna
Veio a ser bafejada.
É o quebrar da linha
E o infinito para além do horizonte.
É o sol nascendo
Por trás do elevado monte.
É a chuva regando
Em tempo e medida certa,
É a água jorrando na fonte
Quando o calor aperta.
E é o amor.
O encontrar-te na turba,
O desenhar da tua figura
Na multidão.
Em manhã clara
E em noite escura.
E é o sorriso de uma mulher que ama,
De um homem que é amado.
E é o canto do pássaro
Na frescura da tarde,
A criança que nasce,
O fogo que arde.
É o que faltava
E o que vem trazer sentido à ordem.
É o amanhecer da vida
Na neblina púrpura da alvorada.
É a perfeição contida
Na quarta folha do trevo,
Enjeitada.
jpv
O Clã do Comboio – Jesus Esteve no Interregional das 18:18h
Jesus Esteve no Interregional das 18:18h
Histórias do Autocarro 28 – Civismo

Civismo
Há muito tempo que não presenciava uma história no autocarro 28. Sobretudo, uma suculenta, com muitos pormenores e que valesse a pena ser contada detalhadamente.
Hoje foi o dia. A coisa tem requintes de peripécia urbana do quotidiano agitado da grande urbe, com traços de discussão cívica, pinceladas de multiculturalidade e disputa de interesses democraticamente reclamados.
Apanhei o 28 na Infante Santo pouco depois das 18h. Duas paragens depois, na Conde Barão, o motorista abriu as portas da frente para as pessoas entrarem e as portas de trás para as pessoas saírem. Importa referir que as portas estão bem assinaladas e têm funções exclusivas. As da frente só servem para entrar. As de trás só servem para sair.
Quando o 28 parou na Conde Barão e enquanto a fila de pessoas que havia esperado entrava calmamente, seis homens entraram pela porta de trás. Dois brancos de fato, um branco de roupas práticas e três negros de roupas práticas. Quem viajava naquela zona da viatura reparou na infracção, mas é daquelas coisas que depende do civismo de cada um e já ninguém está para se incomodar com isso. As pessoas podem não concordar, podem achar condenável, mas deixam passar em branco, na impunidade dos dias cansados.
Ora, desta vez, quiseram o Destino e o motorista do autocarro 28 que a nossa tarde saísse do anonimato cinzento de todas as outras. Uma coisa qualquer aconteceu na cabeça dele e ele resolveu não deixar passar em branco:
– Os senhores que entraram pela porta de trás, é favor saírem.
Como ninguém se mexeu, ele esclareceu:
– Enquanto os senhores que entraram pela porta de trás não saírem, o autocarro não avança.
E aqui, eu pensei que, ou eles saíam, ou não estava bem a ver como é que o motorista ia cumprir a promessa. Os dois brancos de fato e um dos negros de roupa prática saíram. Só já faltavam três. Nesta fase, as pessoas começaram a reclamar em coro para eles saírem porque se estavam a atrasar para outros transportes, mas eles nada. Até este momento a coisa já estava suficientemente complicada e a ficar quentinha. Não precisava de mais ninguém a intervir. Acontece que a vida é como é e não como a queremos e, por isso mesmo, contra todas as expectativas, um rapaz negro que ia sentado levantou a sua voz em tom bem audível e sonoroso enchendo todo o autocarro com a sua opinião:
– Você não tem nada que se meter nisto. Você é motorista é para conduzir o autocarro, não é para vigiar as pessoas.
– Tenho sim senhor e a responsabilidade é minha e o senhor cale-se.
– Não calo nada. Isto é um país livre e democrático.
– Livre mas não libertino.
E pronto. O 28 explodiu em conversas, opiniões, contra opiniões, argumentos, a favor e contra. Havia quem defendesse que o rapaz tinha razão e havia quem o mandasse calar e havia quem pedisse aos três teimosos para saírem e havia quem pedisse ao motorista para avançar e outros não lhe pediam, gritavam-lhe essa vontade e havia pessoas que gritavam com o rapaz atacando-o por estar a defender os desordeiros ele dizia que só não queria estar parado porque se estava a atrasar e não podia ser prejudicado pela irresponsabilidade dos outros, mas também havia quem dissesse que o motorista, não sendo responsável pelos bilhetes, era responsável pela manipulação da viatura e que as pessoas que tinham esperado para entrar pela frente deviam ter o direito de ser respeitadas e poderem entrar. E houve quem citasse leis, eu próprio dei uma opinião em pleno 28. E, às tantas, alguém, fugindo a quem tinha razão ou não e fugindo às leis, invocou que era tudo uma questão de civismo. E foi aqui que o ruído, já ensurdecedor, aumentou ainda mais. Uns riram-se, outros comentaram, mas ninguém acreditava que a coisa se resolvesse só com recurso ao civismo. As reclamações eram tantas que o motorista arrancou. E houve quem reclamasse por tê-lo feito. Afinal de contas, três dos prevaricadores ainda lá iam. O rapaz continuou a defender bem alto o seu ponto de vista só com o apoio de uma ou duas pessoas. E aqui aconteceu mais um inesperado. O motorista parou o autocarro de novo e veio até meio do corredor para dizer ao outro:
– Isto é uma falta de respeito. Se diz mais uma palavra, chamo a polícia.
Então, o outro usou um trunfo, mas a jogada correu-lhe mal:
– Pronto, eu calo-me. Já percebi que não posso dizer nada porque sou negro.
O 28 voltou a explodir. Desta vez contra o rapaz e a sua argumentação. De facto, ele tinha estado a expressar livremente a sua opinião, em termos até um pouco exagerados, e ninguém o discriminou ou impediu ou cerceou na sua liberdade por razão nenhuma incluindo a rácica. Alguém disse ao motorista para se acalmar e prosseguir e ele lá foi resmungando entre dentes a palavra respeito enquanto o rapaz ia dizendo, Eu calo-me, eu calo-me.
Entretanto fui conversando com uma simpática passageira e concluímos aspectos diversos. Um, foi que nos atrasámos. Eu devo ter perdido dois comboios à custa do incidente. Outro, foi que o civismo é algo de muito escorregadio, difícil de medir e implementar. O último e o mais irónico dos aspectos que concluímos, foi que os três tipos que entraram à socapa pela porta de trás e não saíram se calaram muito caladinhos, deixaram o resto da malta em polvorosa e seguiram viagem sem nunca saírem, nem se envolverem, nem nada… é o tal civismo!
jpv
Momento Divino
"Com Amor," – Documento 31
Meu Homem Rui,
Trago ainda o teu cheiro de homem no meu corpo, o teu perfume na minha pele, e trago o teu toque em mim, como se a cada momento do dia me segurasses com doçura e firmeza, me estreitasses nos teus braços.
E foi enlevada por este amor na memória ainda fresca das carícias no corpo e na alma que fui reler-nos. Reli todas as tuas palavras, Rui, e soaram-me a actos. Reli todas as minhas palavras. Voaram para ti ao ritmo do compasso apaixonado do meu peito. Reli as minhas palavras e não eram já minhas… saíam aladas do meu controlo e procuravam-te na tua existência digital e humana.
Soas-me tão homem, Rui. A tua virilidade emerge das palavras como dos gestos quando amas com firmeza e ternura.
REVELAÇÃO: Reconheço-te, Rui. Reconheço a tua presença em mim. Na minha vida. E surpreendi-me reconhecendo de novo os homens na minha dimensão! Andas a reconciliar-me com o Universo. Em particular, o universo da masculinidade.
Com Amor,
Verónica.








