Por causa dA Dívida – IV
Frases que, ditas fora de contexto, podem tramar quem as disse.
O Clã do Comboio – Este País Não É Para Jovens
Este País Não É Para Jovens
O texto que hoje vos trago sobre o Clã do Comboio não é bem um texto meu. Resume-se, quase integralmente, a uma conversa telefónica que só ouvi metade na medida em que, naturalmente, não conseguia ouvir quem falava do outro lado. Mais uma vez, não farei juízos de valor. Deixo a história e os leitores ficam, assim, com a liberdade total para os fazerem sem estarem influenciados pela minha visão dos acontecimentos.
Era uma rapariga nova. Teria vinte e quatro ou vinte cinco anos. Não mais. Morena, com o olhar cansado, uma blusa com um decote redondo e discreto, um blusão de ganga e umas calças do mesmo material. Vestia de forma prática e ia a dormitar com a cabeça encostada à parede do comboio. Como também gosto de ir junto à janela porque posso colocar o telefone e o passe no rebordo dela, sentei-me de frente para a rapariga. Pouco depois de iniciarmos a marcha, o telefone dela tocou e a conversa aconteceu mais ou menos nestes termos:
– Olá, tudo bem? Tudo bem… vai-se indo como se pode e vocês? Ainda bem… como? Não. Desta vez não faço. Um dia de greve custa-me uns vinte cinco a trinta euros e ainda este mês tive outro corte… desta vez foi no subsídio de alimentação. Vi que faltava outra vez dinheiro e fui ver o recibo… já é o terceiro corte em muito pouco tempo… sim… sim… eu sei, mas como sabes o meu marido está desempregado… ele bem se esforça… não posso dizer que não tenta, entrega currículos por tudo o que é sítio… um dia destes disseram-lhe, Tomara eu sustentar os que cá tenho sem despedir ninguém, quanto mais meter mais gente… isto está muito mau. Somos um país de desempregados e infelizmente o azar já bateu à nossa porta… pois… pois… olha o menino agora precisa de uma pala para andar com um olho fechado e depois vai precisar de óculos… não, não tenho, mas a minha avó vai-me emprestar, aliás se não fosse a minha avó e a minha sogra nós não aguentávamos o mês… sim, ainda… num fim de semana vou ficar à minha sogra, no outro vou ficar à minha avó. Tem de ser assim, senão não conseguíamos… fazes bem… temos de aproveitar as pequenas coisas, caso contrário vivemos uma vida parva… sim… sim… eu sei… este país não é para jovens. Um dia destes… sim… beijinho. Tchau tchau.
jpv
O Clã do Comboio – Diversidade Subúrbio-Regional

Diversidade Subúrbio-Regional
Um dia destes, com algum propósito, o tipo careca a que chamamos Álvaro fez notar que as diferenças que vou registando entre o interregional em que andava e o regional em que ando poderiam ter a ver com o facto de, parte do percurso, ser suburbano. Não podia ter mais razão, o tipo careca a que chamamos Álvaro. Por diversas razões, sendo a principal delas a composição da fauna. Outra, não menos interessante, é o ritmo da viagem num comboio em que dois terços dos passageiros fazem um percurso curto, não superior a trinta minutos. Chamo-lhe Subúrbio-Regional porque, servindo os subúrbios, não deixa de ser um serviço regional. Entre Santa Apolónia e Azambuja, o comboio é claramente suburbano. Depois de Azambuja é tal e qual como se fôssemos no interregional. Muda o aspeto das pessoas, muda o ritmo delas, a forma como se comportam e a própria composição da carruagem.
No trajeto suburbano impera a multiculturalidade, a diversidade étnica, social, financeira, da moda e dos hábitos e rituais. Há muitos executivos de fato e gravata com pastas e tablets a sair de lá de dentro. Há muitas executivas de saia travada e casaco de fazenda, há mulheres cosmopolitas, de aspeto eminentemente urbano, e há as senhoras que vêm fazer limpezas a Lisboa numa companhia com bata e emblema, e há os operários que se juntam em magotes de seis e falam de mulheres e futebol, há os jovens a abanar a cabeça ao ritmo do que vai a estrondear nos phones, vindos da escola de mochila às costas. E todos eles se sentam com rapidez nos gestos e os que ficam de pé, ficam só de pé, como se fosse um autocarro ou o Metro. E, como entram em revoadas, em revoadas buliçosas saem e deixam o comboio semi-deserto.
E, depois de Azambuja, volta a calma das pessoas que dormem encostadas à parede lateral do comboio, das que leem à vinda o romance da ida, dos pequenos grupos unidos por entrarem ou saírem na mesma paragem, no fundo, daqueles para quem a viagem de comboio não é um pequeno e fugaz trajeto, mas uma viagem a requerer paciência.
É como se no regional houvesse dois clãs. O fugaz suburbano e o paciente subregional. A mim, o que me agrada em tudo isto, é algo que sei muito bem o que é, mas quase impercetível, quase impossível de detetar: a diversidade subúrbio-regional.
jpv
Sensual Idade

Sensual Idade
Tu, onda bramindo no mar do meu peito,
Tu, encapelada pelo desejo eleito,
Tu, de olhar errante e alma perdida…
Tu…
Estás sempre na minha vida!
Às vezes memória distante,
Às vezes gaivota suave deslizando no céu,
Às vezes mar bravio,
Às vezes sedução,
Às vezes paixão,
Às vezes amizade,
Às vezes cumplicidade,
Às vezes entrega,
E às vezes zanga,
Sempre e só, o teu amor,
Sem ordem nem regra.
O tempo passou.
Os dias, os meses, os anos…
Ficou só a linha sensual do teu corpo
Desenhando enganos
No meu desejo.
Um afago,
Uma carícia,
Um beijo…
Os teus olhos nos meus,
O meu corpo no teu,
Em posse ritmada
De fantasia e verdade.
Eu e tu,
Vivendo a sensual idade!
jpv
Ao menos uma vez
Primavera
O Clã do Comboio – Mix Cultural

Mix Cultural
O que os une
Esta não é uma história exclusiva do Clã do Comboio. O que ela tem de engraçado é que todos os eventos aconteceram no mesmo dia. A razão por que a publico na secção do Clã do Comboio prende-se com o facto do primeiro e último episódios terem acontecido a bordo do comboio. O certo, contudo, é que tem apontamentos de todos os meios de transporte públicos que uso durante o dia. Chamei-lhe Mix Cultural, mas poderia ter sido Mix Educacional. O que une estes apontamentos são questões culturais e educacionais. São traços da sociedade que vamos construindo. Não têm de ser alvo de acordo ou desacordo, de aprovação ou desaprovação. Têm, só, e a meu ver, de ser alvo de reflexão.
Restos da noite
Quando o regional das 7:47 em Riachos chegou a Vila Franca de Xira, eram quase 9 horas da manhã. Entraram as quatro em alvoroço, falando alto umas com as outras e com as pessoas que tentavam entrar com elas. Falavam e gritavam com essas pessoas, visivelmente embriagadas, com roupas de noite, já sem brilho e restos de maquilhagem do dia anterior, e quando um homem parou no meio do corredor, à espera que as pessoas à frente dele avançassem, uma delas disse, Ó senhor, tire daí o rabo. E correram todas na direção oposta, à procura da casa-de-banho num alarido gritado e muito pouco comum. E quando alguém, uma senhora de idade, com idade suficiente para perguntar o que lhe apetece e ter direito a resposta, perguntou donde vinham, e uma delas não hesitou:
– Estamos a chegar da discoteca.
É “mêmo velho”
O 28 estava à pinha. Estávamos todos apertados, encostados uns aos outros. Nos lugares reservados a idosos, grávidas e deficientes iam dois jovens a rondar os quinze, dezasseis anos. Junto a eles um idoso sentado e de pé uma senhora velhinha e dobrada pelo tempo. O idoso falou para o ar, como que para ser ouvido por alguém que se interessasse:
– Se fosse um filho meu, eu obrigava-o a dar o lugar à senhora.
Ninguém reagiu. A impessoalidade leva-nos a isto. Mas o idoso também não deu muito tempo. Virou-se para um dos jovens e disse-lhe:
– Esses lugares são para idosos, ouviu?
– Ouvi, ouvi.
– Então dê o lugar à senhora.
– Está bem, está bem.
Levantou-se. Não falou para a senhora, nem olhou para ela. Ela sentou-se e o velhote repreendeu:
– Esses lugares são para idosos.
– Eu já tinha dado o lugar, não já?
– Deu depois de eu falar…
– Já dei, não dei? Vê lá se te calas, ó velho.
O idoso encolheu-se assustado com o olhar ameaçador do miúdo que, antes de eu sair, ainda disse:
– Eu já tinha dado, ó velho. Óvistes velho? É mêmo velho!
A mim!
Entrámos no metro, ao final da tarde, no Cais do Sodré com destino a Baixa/Chiado, e a carruagem não podia estar mais cheia. Os alarmes das portas já tinham soado, mas havia pessoas que continuavam a forçar a entrada e a conseguir entrar. Uma senhora jovem encostou-se às costas dos bancos para se amparar, cada um se agarrou onde podia e um senhor de meia idade ficou entalado entre as pessoas sem ter onde se agarrar e foi por isso que desabafou:
– Não tenho onde me agarrar!
Ela olhou, sorriu e respondeu:
– Agarre-se a mim!
Mais curta do que curta
De regresso a casa, no comboio, sentei-me e fiquei a ver quem entrava e onde se sentava. Ela tinha trinta e poucos anos, era alta e possuía uma ossatura larga. Casaco de cabedal, meias de lycra castanho escuro, mas transparente, e uma saia curta, tão curta que era quase impossível classificar como saia. Era assim mais da categoria dos cintos. Quando uma saia é curta, mas, ainda assim, é uma saia, as senhoras sentam-se e conseguem tapar o básico. Esta não conseguia! E lá foi ela, com o básico à mostra e os homens encabulados a olhar e fingir que não olhavam…
Stôra
Este foi o momento enternecedor do dia. Aquele que me fez acreditar de novo nas pessoas. Entraram juntas, a aluna e a professora, e ambas podiam e deviam ter deixado o trabalho no trabalho. Mas não deixaram. Continuaram no comboio como se estivessem na sala de aula. A aluna era surda, mas falava de forma perfeitamente percetível. Tinha um semblante feliz e pleno de esperança. A professora já tinha passado os quarenta, mas continuava a brilhar no seu olhar o prazer de ensinar. E foi no comboio que a ensinou a estruturar um trabalho, uma apresentação. Explicou-lhe o que era preciso fazer e como era preciso fazer. Puxou de um papel e foi explicando e exemplificando. Quando terminaram, a miúda atirou-se a uma calculadora gráfica:
– Tens trabalhos de casa?
– Não. É só para lembrar a cabeça.
– Por isso é que tens sempre 18.
E depois saíram e deixaram para trás um clima de entrega e dádiva.
Juízos de valor
Já não faço juízos de valor. Ando cansado da Humanidade. Deixo-os para que possa o leitor fazê-los, mas foi bom regressar a casa com a Stôra e a aluna cúmplices e distraídas no trabalho e pelo trabalho num dia de tanta agressividade.
jpv
19

19
Já gastei as palavras todas!
Já te disse as emoções redobradas.
Já reinventei as vírgulas,
As preces,
Já relembrei os dias
E as noites passadas
Na companhia da tua paternidade.
Já rezei.
Já fingi que falava contigo.
Já falei contigo.
Já te fiz os elogios todos
E refi-los depois.
Já te celebrei o dia.
Já nos cantei
Aos dois!
Já te vi pelos olhos da mãe,
E pelos da mana também.
Já te disse como tu
Nunca encontrei ninguém.
Mas não chega, Pai.
Nada suprime
Esta ausência surda
Esta lâmina longa de desespero
Entrando-me na alma.
Há coisas pequenas, sabes,
O toque da tua pele,
O cheiro do teu corpo,
Os teus cabelos encaracolados no peito
Fazendo de mim criança e menino,
O tom da tua voz,
Os olhos rindo no silêncio das palavras.
O poder das tuas mãos,
A bonomia com a mana
A proteção com a mãe
E a esperança em mim,
Teu infinito rapaz
De realizar-te os sonhos.
Faz-me falta, Pai,
Um homem que acredite em mim!
Faz-me falta que me façam sentir
Assim.
E não há dia 19,
E não há aniversário
Nem celebração
Que comprove
Estar na tua,
A minha mão.
Não chega, Pai.
Só tu te bastas.
Só tu me bastarias
Na passagem confusa
Dos dias
A emergir com vigor
E com força
Da Humanidade perdida e difusa
Prenhe de convicção e Amor.
Não me venham com merdas,
Com outros mundos e outros céus,
Com divindades plenas e com véus
De ilusão
Que dizem ser as perdas
De hoje
Recuperadas amanhã.
Não há vida, amanhã, Pai.
A que havia ontem
Não sei já onde vai.
Desde que te foste e me perdi
Não há vida, Pai,
Num Universo onde a vida seja sem ti!
jpv





