Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Via Crucis – Oitava Estação

VIII- Oitava Estação

Jesus encontra as Mulheres de Jerusalém

Estas mulheres que me cercam
E rodeiam
Não conhecem as razões
Que me incendeiam.
Cada uma sabe de mim
Só o homem que experimentou.
Nenhuma conhece
O homem inteiro que sou.
Da minha vida e da minha alma,
Não são mais do que breves estilhaços,
Mas são elas que dão sentido
Ao disperso dos meus traços.

E sofrem,
E choram por mim.
As mulheres que me acompanharam na vida
Vêm confortar-me no fim.

E sei-as!
Percorro, com facilidade,
Os caminhos da sua dor.
Reconheço-as na fraqueza
Como as conheci no fulgor.

E sofrem,
E choram em pranto.
Não era preciso tanto.
Não era preciso
Esse choro emprestado.
Aos invés de chorarem por mim,
Deveriam carpir o sangue,
Por seus filhos,
Derramado.

Erguei-vos, mulheres de Jerusalém,
Mulheres do mundo inteiro.
Secai essas lágrimas de dor
E má fortuna
E contemplai o corpo
Do homem completo.
Limpai-o e tratai-o,
Que, amanhã,
Sereis testemunhas
Do Cristo ressurreto!

jpv – Via Crucis – VIII


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Via Crucis – Sétima Estação

VII- Sétima Estação

Jesus cai pela Segunda vez

Senti o chão fugir
E caí pela segunda vez
Sabendo que voltaria a cair.

Não interessa a correção,
Nem a melhoria.
Não interessa a insistência,
Nasce sempre o dia
Em que cair se torna reincidência.

Cair e erguer.
Eis o cíclico percurso
Até morrer.
A única forma
De ver a luz pela queda
É aproveitar o tombo
Para aprender.

Caí, já.
E já me levanto.
Fi-lo em pouco tempo.
Não seja para vós motivo de espanto,
Antes sirva de exemplo.

jpv – Via Crucis – VII


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Sem Problemas de Escolha

Outra pequena conversa de interesse relativo que presenciei no supermercado. Trabalho longe de casa, logo, o fim-de-semana é a minha única hipótese de visitar o zoológico das compras.
Um casal jovem. Com menos de trinta. Junto à prateleira dos vinhos. A primeira fala é dela:

– Qual é que levamos?
– Este é bom.
– Olha, este aqui também.
– Olha, e porque é que não levamos este. É o que a minha mãe bebe.
– E este? Este é muito bom. O meu pai bebe este.
– Não levamos nenhum desses. Levamos este. Este é que é bom.
– Deixa-te de coisas. Levamos aquele que tem a fotografia das raparigas…
– Olha, já baralhaste tudo. Vamos levar uma de cada.
– Está bem. Assim como assim bebe-se todo!

E pronto. Sem problemas de escolha. Hoje devem estar a Guronzan e águinha com gás!


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A Tristeza que Fica


Não, amigos, não vou cair no elogio fácil.
Um homem como Gabriel Garcia Marquez já tem os elogios todos e o mérito deles.
É uma alma superior, um escritor de eleição.
Os seus livros marcaram o meu crescimento como homem e muitas das suas passagens constituem para mim exemplos de vida e escrita.
Ainda recordo as suas palavras acerca da importância do primeiro parágrafo de um livro na captação da atenção do leitor. Lembro a magia das palavras, o Ser Humano revelado,  a sensibilidade, o amor, a vida, a morte e a transcendência dela.

Hoje é um dia triste. O homem vive. O escritor já não. Pouco há a dizer. O mais relevante é que as suas obras serão Património da Humanidade para sempre. E a tristeza… a tristeza fica nos corações daqueles que se entusiasmaram, que se entusiasmam e que para sempre se entusiasmarão olhando o mundo e a Humanidade através das palavras do mestre.

Obrigado, Gabriel!
jpv


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Via Crucis – Sexta Estação

VI- Sexta Estação

Verónica limpa o Rosto de Jesus

Terá o teu nome, esse pano,
E correrá do Mundo
As sete partidas.
Dia após dia,
Ano após ano,
Todas as fronteiras serão vencidas.
E vingará teu gesto
Na sua simplicidade,
Será a bandeira
Da caridade.

Que rosto me limpas, Verónica?
Que manchas vês?
Já não tenho rosto!
Dei-o por meu Pai,
E depois entreguei as mãos,
E agora o fôlego deste corpo que cai.
Não te importuna meu sangue impuro.
Não te aflige meu suor.
Limpas a face deste homem sem futuro
Que morre por um tempo melhor.
Mas não virá!
Terei de morrer
Outras vezes ainda,
Que o pecado dos homens
Não finda.
Tu mesma pecarás, Verónica,
E este teu gesto
Que me limpa
Não te lavará a alma.
Por isso terei de voltar
E morrer de novo.
Também por ti!

Pelo que vi e senti
Neste Mundo infetado,
Tem raízes fortes e fundas
O pecado.
Precisava de uma mão como a tua
Que fosse de porta em porta,
De rua em rua,
Limpar o pecado do mundo
Com pano prenhe e fecundo
De caridade.

E é por isso que reclamo e protesto:
Humanos, pecadores e impuros,
Repeti, de Verónica,
O gesto!

jpv – Via Crucis – VI


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Gestão do Tempo

No supermercado, enquanto andava a escolher vegetais, estava um homem, também ele, de volta dos pepinos, dos tomates, das alfaces, dos alhos franceses e eis que toca o telemóvel dele.
Ele prendeu o telemóvel entre o queixo e o ombro e enquanto escolhia os vegetais, teve esta conversa:

– Sim, amor…
– (…)
– Estou quase.
– (…)
– Mesmo quase, já estou na fila da caixa e só tenho uma pessoa à minha frente.
– (…)
– Não demoro nada. Dentro de dois minutos estou na rua.

Desligou e, tal como eu, continuou a escolher vegetais!


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Via Crucis – Quinta Estação

V- Quinta Estação

Simão Cirineu ajuda Jesus

A dor no horizonte…
Mais a da alma
Que a dos espinhos na fronte
Cravados.
Suportam-se melhor
Que os pecados.

A dúvida nascendo
E a convicção cambaleando,
Emerge uma rocha
No caminho,
Baila um corpo tombando.
O meu.

E estendes-me a tua mão
Aberta, oferecendo ajuda.
Hesito, antes que me iluda
E dê novo trambolhão.
Mas insistes
E penso na pura atitude e certa
Que é aceitar, humilde,
Tão generosa oferta.
E encontro a grandeza
Que nasce nessa humildade,
Um homem cresce
Para além da idade.

E tens, amigo Simão, a mão estendida.
E pequei porque duvidei
Da tua dádiva de vida.
Amparas-me.
E há nesse gesto, a beleza
De ver-te amparado
À minha própria fraqueza.

É mais doce o caminho
Quando não é feito sozinho.
Palpita na tua mão
A força que a amizade conduz
Hoje, ensinaste-me, Simão,
Com um amigo,
É mais fácil carregar a cruz!

jpv – Via Crucis – V


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Via Crucis – Quarta Estação

IV- Quarta Estação

Jesus encontra sua Mãe

Porque me olhas, Mãe?
Porque te não escondes na multidão?
Porque me olhas e confortas,
Se meu Pai nos votou à perdição?
Tu, mãe sem marido,
Eu, filho sem pai,
Sabes, só, ter parido
A mentira dos outros,
A tua verdade.

Não temos tempo, Mãe!
O tempo arde
Enquanto assumes a coragem
Que pertence a meu Pai covarde.
Porque te não envergonhas
Das minhas passadas?
Porque me ajudas e confortas?
Estão fechadas para ti
Todas as portas.
Há mistério
No mistério de ser mãe.
Pareces levar a sério
O que mais ninguém
Escuta
Ou acredita.
Minha errante caminhada,
Minha solitária desdita.

Tens o tempo
Esculpido na pele,
Mas permaneces suave
E acolhedora,
E vive em ti a força que me impele
A caminhar para a sepultura.

És o conforto.
És o tempo que não passa.
Avé Maria, minha Mãe,
Sempre cheia de Graça!

Não és menos
Por não seres divina.
Ainda hoje subirás esta colina.
E, faças o que depois fizeres,
Teu lugar é perene
No coração de todas as mulheres.

Deixa-me ir, Maria,
Pode ser que o meu calvário
Neste funesto e rigoroso dia
Ao menos te salve a ti .
Ao menos a ti…

Seja feita a Sua vontade!
Seja ela qual for.
Viva Ele na impunidade,
Morramos nós no Amor.
E essa,
Será nossa vontade realizada.
Hoje, filho de um Deus órfão.
Amanhã, em teu colo aconchegado.

Restará somente uma verdade:
O que n’Ele for violência
Em Ti será Piedade.

jpv – Via Crucis – IV


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Via Crucis – Terceira Estação

III – Terceira Estação

Jesus cai pela Primeira vez

Senti o chão fugir
E caí pela primeira vez
Sabendo que voltaria a cair.
É este o meu fado,
É esta a minha sina,
Cair e levantar-me
Até subir a derradeira colina.

Quantas vezes cai um homem?
E quantas se levanta?
Quantas vezes se ilude?
E quantas se desencanta?

Tinha forças para caminhar,
O passo firme e certo.
Com essas forças vim a tombar
E o destino não está perto.

Dá-me coragem, Pai!
De todas as tarefas que me Deste,
De todas as exigências que Fizeste,
Morrer é a mais fácil.
Difícil é levantar-me.
Sou um homem prostrado
E, uma vez levantado,
O meu Destino é cair de novo.
Não sei onde me agarre.
Não conheço quem me ampare.
Sei que preciso erguer-me
E caminhar.
Como te percebo, Lázaro!
Dormias o sono tranquilo
Da eternidade
E ordenaram que te reerguesses
Para esta vida de tombos.

Mas há este sentido,
Esta força indómita
E invisível,
Que torna possível
O esforço maior.

Reergo-me, Pai, e ando.
E aguardo, paciente,
O pior!

jpv – Via Crucis – III


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Via Crucis – Segunda Estação

II – Segunda Estação

Jesus carrega a Cruz às costas

Sem direito a opinião,
Sem reconhecimento nem louvor,
Carrego a nossa cruz
Como se Te fizesse um favor.
O que mais me dói,
O que me perturba mais,
É não perceber a razão
Desta dádiva
De violência
Nascida em Ti,
Morta na minha Paixão.

Porque me castigas, Pai?
Carrego a cruz da dor
Em nome do Amor,
E carrego, fustigada e desiludida,
A cruz da minha vida.
Pobre madeiro cruzado!
É leve,
Ainda que pareça pesado.
Não exige mais do que a carne
E o sangue
E o suor.
Já a vida,
Pede coisa maior.
É preciso,
Como pediste,
Entregar-lhe o Amor,
A Esperança e a Fé!
E permanecer,
Na tempestade,
Digno e de pé!

Como não cair, Pai?
Como não ceder à tentação?
Como merecer tudo
E depois morrer pela Paixão?

Feitas estão as coisas…
Determinadas e irreversíveis.
E, de entre as promessas possíveis,
Ofereceste-nos a Vida Eterna.
Se ao menos fosse terna,
Agradável e doce,
Ainda que efémera fosse…

Não prometas, Pai!
Não prometas o palácio
Se só podes oferecer os escombros.
Sabes, Pai,
Somos nós que levamos a cruz aos ombros!

jpv – Via Crucis – II