Vim de qualquer parte
de uma Nação que ainda não existe.
Vim e estou aqui!
Crónicas de África – Apontamento Matinal
Não se trata de uma crónica. Tão só um apontamento. Estou sempre a referir a alegria moçambicana e dos moçambicanos, estou sempre a dizer que são afáveis e isto é algo que se sente e intui mas não muito palpável. Pois hoje tenho um exemplo bem interessante desse espírito. Dois.
Eram oito e meia da manhã e eu atravessava a avenida 24 de julho com a Paula, de carro. Parei num semáforo e ao meu lado parou um carro ligeiro com dois homens lá dentro. O condutor, um pouco mais velho que o outro, estendeu-me o polegar em sinal de ok. Eu abri a janela e comecei o seguinte diálogo:
Já antes de sair de casa, por volta das oito, tinha tido um contacto estranho com a felicidade moçambicana. Quando a empregada, que se chama A, chegou, eu estava de volta da máquina de lavar roupa a tentar colocá-la no sítio. Ela chegou, olhou e começou-se a rir.
Eu a Paula olhámos um para o outro e começámos a rir também até que eu lhe disse, Se não estivesses feliz, devias ser a única moçambicana nesse estado. Ela riu-se ainda mais.
Este estado de alegria, felicidade e conformação constante não nasce de nada externo ao comportamento dos moçambicanos porque lhes é intrínseco. É uma marca cultural, um traço do seu código genético coletivo… Sejam quais forem as dificuldades e as agruras, eles sabem encontrar a luz, sabem ver o caminho da boa disposição e percorrem-no com alegria!
Crónicas de África – O Boss Africano Reencontra o D
Maputo, 3 de novembro de 2012
Alguns dias depois do primeiro encontro, o então batizado de Boss Africano reencontrou o Grande D. E o negócio fez-se. O namoro via sms continuou com propostas e contra-propostas, avanços, recuos e cedências. A determinada altura marcou-se novo encontro, apuraram-se os valores e a qualidade da mercadoria. O D recebeu o Boss Africano e sua dama e levou-os a conhecer os carpinteiros artesãos que produzem as peças, camas, cadeiras, cómodas, cristaleiras, oferta para todos os gostos. Atravessámos o mercado de Malanga, enveredámos por ruas estreitas de terra batida, casas de bloco sobre bloco, construções em chapa de zinco, crianças brincando no emaranhado de ruas estreitinhas, uma casa bem acabada no meio do caos. Até tinha um breve relvado, mais ruas, até chegarmos a um largo de dimensões generosas no meio do casario. E aí estavam madeiras por todo o lado, ferramentas e homens trabalhando a matéria prima.
Mais tarde veio entregar a mercadoria. Atrasou-se. Nem seria moçambicano… mas vinha tudo certinho. Enquanto os outros montavam a cama, ele viu uma bíblia no quarto e perguntou, Boss, posso rezar em tua casa? Podes. E começou a rezar o que sabia e como sabia enquanto os colegas trabalhavam.
Crónicas de África – O Boss Africano
Maputo, 2 de novembro de 2012
Eu gosto desta terra e gosto destas gentes. Mesmo levando em consideração que ainda vivo dias abençoados pela aura da novidade e da descoberta, mesmo sabendo que dias virão em que as coisas correrão menos bem, a essência destas pessoas, as linhas com que se urde o quotidiano desta terra, agradam-me imenso. É por isso que a história que hoje vos trago se reporta a acontecimentos que comportaram riscos, mas que, só os vivendo, saberiam que não havia risco nenhum. Só pessoas. Só negócio. É a história do Boss Africano.
Como sempre, tudo começa com uma necessidade. Neste caso, uma necessidade de relativa importância. Ainda assim, como a estética e o conforto são alimentos da alma e do corpo como se de pão e água se tratasse, lá tentámos satisfazer a necessidade. Era preciso comprar uma cabeceira de uma cama. Sim, só a cabeceira. Metemo-nos no carro e fomos pela avenida 24 de julho abaixo e lá ao fundo, mesmo quase a terminar a avenida, tem-se à direita o mercado Malanga e à esquerda uma série de vendedores de mobílias em madeira maciça de diversas qualidades. A Paula ficou no carro e, assim que saí, abordaram-me dois tipos altos e espadaúdos:
-Como é que é boss?
-‘Tá-se bem. Dá cá mais cinco.
E estendi-lhe a mão na posição “braço de ferro” para um cumprimento bem à macho. Ele, primeiro estranhou, mas de imediato mandou às malvas a cara séria, abriu um sorriso, apertou-me a mão e disse, Este boss é nice! O que é que precisas boss?
Resolvi aproveitar a simpatia, a boa onda, e abrir o jogo. Assim, em vez de fingir que queria armários para só depois avançar para as camas, ataquei logo:
-Como te chamas?
-D.
-Ok, D, preciso de uma cabeceira de cama para oferecer à minha dama.
-O boss é romântico.
-Sempre.
-Ó boss, e qual é a cama que te agrada mais?
-Não quero uma cama, quero só a cabeceira.
-Eh boss, então como é isso? Vais estragar uma cama para aproveitar só a cabeceira?
-Não. Vais-me fazer só a cabeceira.
E vai daí começou a mostrar-me cabeceiras e mais cabeceiras e às tantas perguntei-lhe o preço e ele disse uma exorbitância de preço que dava para comprar dez cabeceiras de cama e foi então que decidi testá-lo:
-Olha lá, então mas tu achas que eu não sei quanto custa a madeira e quantas horas de trabalho aí tens? Para negociarmos, não podes falar nem em metade, senão vou-me já embora, olha, dou-te…
E disse-lhe um quinto do valor que ele tinha pedido.
-Eh boss, é duro negociar contigo!
E eu voltei à carga:
-Olha, estás a ver o meu braço? É branco por fora mas por dentro é tão preto como o teu… Tu não vês que eu sou africano. Quando olhas para mim, em vez de veres uma carteira com notas, tens de ver um irmão africano..
-Eh Zacarias, anda cá que este boss é africano… e largou-se a rir. Depois deu-me outro aperto de mão e disse que me ia mostrar mais coisas e começou a entrar por casas e casinhas e casotas e casebres e já ia ele e eu e mais uns oito ou nove atrás de mim. Vi dúzias de camas, armários, cadeiras trabalhadas lindíssimas sempre tu cá tu lá com o meu amigo D e sem nunca ver a luz do dia de casa em casa. Quando reparei, estava de tal forma embrenhado no bairro que não sabia bem onde estava ainda que soubesse o caminho de volta. Parei, olhei para o cortejo que nos seguia e disse-lhe:
-Ouve lá, o que é que querem estes tipos todos? Não me digas que cada um deles me vai pagar uma 2M?
Desta vez a gargalhada foi geral. Lá vim com ele até à rua.
-Então boss, vais levar?
-Vou buscar a dama. Sabes, a minha dama é como a tua.
-Como assim?
-É ela que manda lá em casa!
Ele não se riu ao princípio mas os outros desataram a rir na cara dele e começaram todos a falar em changana.
-Eh boss, tu és duro. Traz lá a tua dama.
-E posso deixar ali o carro? Não mo desmontam todo?
-Eh boss aqui é tudo gente boa. O carro está controlado.
-Fixe!
E lá fomos os três com a romaria toda atrás. Demos uma voltinha mais pequena, mas suficiente para a Paula perceber por onde eu tinha andado. Foram sempre muito simpáticos e afáveis e tivemos sempre uma conversa muito aberta, muito nivelada e, sobretudo, muito bem disposta. Às tantas o D disse:
-Hei boss vou-te reiterar…
-Alto e para o baile, assim é que é falar. Olha que eu sou professor e tenho alunos que não demonstram essa propriedade vocabular…
-Sabes como é que é, boss, quem está no negócio tem de ter nível.
No fim, acabámos por não fazer negócio, mas isso não azedou a conversa nem um bocadinho. Terminámos por ali as conversações mas resolvemos trocar números de telefone e quando lhe dei o meu número, o D, enquanto o gravava disse com um sorriso a iluminar-lhe a cara, Vou escrever aqui boss africano!
À hora a que vos escrevo, ainda não fechámos negócio, mas também ainda não terminou o namoro. Temos andado a medir forças via sms e o preço está neste momento num plano em que, penso, as duas partes podem aceitar… a ver vamos se se encontra o ponto de equilíbrio entre o D e o boss africano. A visita pelos armazéns e oficinas e casas foi interessante. Para já, porque, claramente notei que os “boss” não costumam ir tão longe, depois, porque admirei o facto de isso lhes ter agradado. Eu não fui um intruso, fui uma pessoa que se interessou pelas coisas deles. E, claro, fui sempre um potencial comprador. Riscos? Talvez. Admito que sim. Mas nunca os senti. Pelo contrário, estive sempre muito tranquilo e à vontade. Acho mesmo que esse é o segredo que abre as portas… da alegria e da simpatia intrinsecamente moçambicana.
Pescaria
Pescaria
Empurravas esses paus
Unidos de vontade,
E tinhas por bons,
Os ventos maus
Da tua liberdade.
Eras franzino.
Um fraco rapazinho
Com um homem no peito,
Enfrentado o Índico sozinho
Numa barca sem jeito.
Ganha onda,
Perde ondas,
Ganha metro,
Perde metros.
Acometes o mar pujante,
Saltas-lhe às cavalitas,
E num instante
O teu olhar se ergue
E és pescador!
Há em ti uma força maior
E um desejo sem medida.
O mar luta só pelo mar,
Tu,
Lutas pela vida.
E quando sais
E trazes o fruto fresco
Da tua labuta,
Desenhas um sorriso
E já não é diminuta
A embarcação.
É um palco de sonhos
Onde se mostra teu coração.
E vê-se nos teus olhos
O orgulho do homem.
E, olhando com jeitinho,
Ainda se vislumbra,
O medo do menino!
jpv
Crónicas de África – Visita à Macaneta
Visita à Macaneta
Maputo, 31 de outubro de 2012
Crónicas de África – Mercados em Maputo
Maputo, 30 de outubro de 2012
Exatamente na mesma linha, ou seja, em torno do artesanato, há o Mercado da Praça dos Continuadores. Fica junto à Avenida Mao Tse Tung, a quantidade da oferta é muito superior à do mercado do pau e embora se perca um pouco aquele frenesim próprio dos mercados, ganha-se em tranquilidade na medida em que o mercado é feito numa enorme área ajardinada e até se pode beber um café ou comer uma refeição ligeira uma vez que estão aí a ser explorados alguns bares. Aqui, além do artesanato em madeira, há também uma imensa oferta de peças em batik (imagem ao lado. Clique para aumentar). São uns panos desenhados com tintas naturais e acabados com cera. Alguns são de extrema beleza.Crónicas de África – Coisas que Não Há em Maputo
Coisas que Não Há em Maputo
Maputo, 30 de outubro de 2012
Não Há Prisão de Ventre
Não Há Pressa em Maputo
Não Há Falta de Casamentos em Maputo
Não Há Divórcios em Maputo
Não Há Bancos Sem Fila em Maputo
Não Há Um Único Lugar de Estacionamento Não Vigiado em Maputo
Pedido de Desculpas
Contra o que é habitual, a crónica que publiquei ontem, independentemente do valor que possa ter, tinha demasiadas gralhas. E é por isso que venho pedir-vos desculpa.
A verdade é que sei a apetência que os leitores têm demonstrado por estas crónicas e sabia também que, por motivos de trabalho, já há alguns dias que não publicava nada. Logo, em vez das três revisões habituais, só fiz uma, para além de que fiz a publicação já muito tarde e depois de um dia muito intenso no trabalho. Ora, o resultado foi o que se viu.
Entretanto está tudo corrigido, claro.
Crónicas de África – Outras Coisas do Quotidiano
Maputo, 27 de outubro de 2012
É natural que, quando chegamos a um local desconhecido, seja de visita, seja em trabalho, tenhamos um olhar mais luminoso e complacente por não termos experimentado as rotinas e as agruras do mesmo. Eu penso que tenho, nos dias que correm, esse olhar em relação a Maputo. Parece-me, contudo, que não é uma perspetiva menos válida. É a perspetiva do momento e, por isso mesmo, para que se rememore mais adiante na linha dos dias passados, importa registá-la aqui.
Miúdos na Rua
O Chão
Armas na Cidade
Modernices
IDE
Hoje foi o dia do IDE. Trata-se de uma festa religiosa muçulmana que assinala, salvo erro, o fim da peregrinação a Meca. É um momento de alegria e agradecimento. O interessante é que o IDE é universal, ou seja, é celebrado por muçulmanos em todo o mundo. Em Portugal, naturalmente, quase não dou por esta celebração, mas estas são terras com cheiro a Oriente e com uma forte multiculturalidade. Tão forte, que foi decretada, pelo Governo, tolerância de ponto para os trabalhadores muçulmanos. E, também na escola, se sentiu a ausência de uma parte da nossa comunidade de aprendentes, os alunos que estavam celebrando o IDE.
O quotidiano, em Maputo, é diferente, mas não é diferente por uma grande razão, é diferente por todas estas que se juntam e fazem da vida aqui um passar do tempo bailado ao som das brincadeiras dos miúdos.


