Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Citação d’Aqui


Vim de qualquer parte
de uma Nação que ainda não existe.
Vim e estou aqui!


José Craveirinha


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Crónicas de África – Apontamento Matinal

Apontamento Matinal

Maputo, 4 de novembro de 2012

Não se trata de uma crónica. Tão só um apontamento. Estou sempre a referir a alegria moçambicana e dos moçambicanos, estou sempre a dizer que são afáveis e isto é algo que se sente e intui mas não muito palpável. Pois hoje tenho um exemplo bem interessante desse espírito. Dois.

Eram oito e meia da manhã e eu atravessava a avenida 24 de julho com a Paula, de carro. Parei num semáforo e ao meu lado parou um carro ligeiro com dois homens lá dentro. O condutor, um pouco mais velho que o outro, estendeu-me o polegar em sinal de ok. Eu abri a janela e comecei o seguinte diálogo:
– Bom dia!
– Bom dia! Como estão vocês?
– Estamos bem, obrigado. E vocês?
– Tudo em cima, tudo bom e já agora permita-me desejar-lhes um bom fim de semana com muitas felicidades.
– Muito obrigado, igualmente.
– E já sabes, poucas bebedeiras… só um copo de vinho ao almoço…
E largou-se a rir enquanto me dizia adeus… E em vez da indiferença matinal, houve um estranho que foi muitíssimo simpático e afável porque… só porque sim…

Já antes de sair de casa, por volta das oito, tinha tido um contacto estranho com a felicidade moçambicana. Quando a empregada, que se chama A, chegou, eu estava de volta da máquina de lavar roupa a tentar colocá-la no sítio. Ela chegou, olhou e começou-se a rir.
– Estás a rir-te de quê?
– De nada.
– De nada? Ninguém se ri de nada. Toda a gente tem uma razão.
– Ora, estou feliiiz!

Eu a Paula olhámos um para o outro e começámos a rir também até que eu lhe disse, Se não estivesses feliz, devias ser a única moçambicana nesse estado. Ela riu-se ainda mais.

Este estado de alegria, felicidade e conformação constante não nasce de nada externo ao comportamento dos moçambicanos porque lhes é intrínseco. É uma marca cultural, um traço do seu código genético coletivo… Sejam quais forem as dificuldades e as agruras, eles sabem encontrar a luz, sabem ver o caminho da boa disposição e percorrem-no com alegria!
jpv


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Crónicas de África – O Boss Africano Reencontra o D

O Boss Africano Reencontra o D

Maputo, 3 de novembro de 2012

Alguns dias depois do primeiro encontro, o então batizado de Boss Africano reencontrou o Grande D. E o negócio fez-se. O namoro via sms continuou com propostas e contra-propostas, avanços, recuos e cedências. A determinada altura marcou-se novo encontro, apuraram-se os valores e a qualidade da mercadoria. O D recebeu o Boss Africano e sua dama e levou-os a conhecer os carpinteiros artesãos que produzem as peças, camas, cadeiras, cómodas, cristaleiras, oferta para todos os gostos. Atravessámos o mercado de Malanga, enveredámos por ruas estreitas de terra batida, casas de bloco sobre bloco, construções em chapa de zinco, crianças brincando no emaranhado de ruas estreitinhas, uma casa bem acabada no meio do caos. Até tinha um breve relvado, mais ruas, até chegarmos a um largo de dimensões generosas no meio do casario. E aí estavam madeiras por todo o lado, ferramentas e homens trabalhando a matéria prima. 

Conhecemos um dos carpinteiros, amigo do D, que se comprometeu com uma data para entrega. Acertou-se um valor de sinal e em meio disto tudo, o D e o Boss Africano foram conversando. Da arte de trabalhar a madeira, do preço das coisas, de como o boss veio a ser africano e, a certa altura, o D disse:
-Boss, devíamos ser amigos…
Fui prudente. Muito prudente, mas percebi a sinceridade da proposta. E estava a pensar nela quando ele acrescentou:
-Quem sabe se vieste ao mundo para me salvar…
Depois pediu desculpa por não tirar os óculos escuros, mas a noite tinha sido severa nos vapores etílicos e na farra e ele estava com vergonha de mostrar a vista encarnada.

Mais tarde veio entregar a mercadoria. Atrasou-se. Nem seria moçambicano… mas vinha tudo certinho. Enquanto os outros montavam a cama, ele viu uma bíblia no quarto e perguntou, Boss, posso rezar em tua casa? Podes. E começou a rezar o que sabia e como sabia enquanto os colegas trabalhavam.

No fim, repetiram-se palavras de entusiasmo, acertaram-se contas e o D foi à sua vida. Cruzar-se-á com a minha em breve. Tenho a certeza. Por uma razão ou por outra. 
jpv


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Crónicas de África – O Boss Africano

O Boss Africano

Maputo, 2 de novembro de 2012

Eu gosto desta terra e gosto destas gentes. Mesmo levando em consideração que ainda vivo dias abençoados pela aura da novidade e da descoberta, mesmo sabendo que dias virão em que as coisas correrão menos bem, a essência destas pessoas, as linhas com que se urde o quotidiano desta terra, agradam-me imenso. É por isso que a história que hoje vos trago se reporta a acontecimentos que comportaram riscos, mas que, só os vivendo, saberiam que não havia risco nenhum. Só pessoas. Só negócio. É a história do Boss Africano.


Como sempre, tudo começa com uma necessidade. Neste caso, uma necessidade de relativa importância. Ainda assim, como a estética e o conforto são alimentos da alma e do corpo como se de pão e água se tratasse, lá tentámos satisfazer a necessidade. Era preciso comprar uma cabeceira de uma cama. Sim, só a cabeceira. Metemo-nos no carro e fomos pela avenida 24 de julho abaixo e lá ao fundo, mesmo quase a terminar a avenida, tem-se à direita o mercado Malanga e à esquerda uma série de vendedores de mobílias em madeira maciça de diversas qualidades. A Paula ficou no carro e, assim que saí, abordaram-me dois tipos altos e espadaúdos:
-Como é que é boss?
-‘Tá-se bem. Dá cá mais cinco.
E estendi-lhe a mão na posição “braço de ferro” para um cumprimento bem à macho. Ele, primeiro estranhou, mas de imediato mandou às malvas a cara séria, abriu um sorriso, apertou-me a mão e disse, Este boss é nice! O que é que precisas boss?
Resolvi aproveitar a simpatia, a boa onda, e abrir o jogo. Assim, em vez de fingir que queria armários para só depois avançar para as camas, ataquei logo:
-Como te chamas?
-D.
-Ok, D, preciso de uma cabeceira de cama para oferecer à minha dama.
-O boss é romântico.
-Sempre.
-Ó boss, e qual é a cama que te agrada mais?
-Não quero uma cama, quero só a cabeceira.
-Eh boss, então como é isso? Vais estragar uma cama para aproveitar só a cabeceira?
-Não. Vais-me fazer só a cabeceira.
E vai daí começou a mostrar-me cabeceiras e mais cabeceiras e às tantas perguntei-lhe o preço e ele disse uma exorbitância de preço que dava para comprar dez cabeceiras de cama e foi então que decidi testá-lo:
-Olha lá, então mas tu achas que eu não sei quanto custa a madeira e quantas horas de trabalho aí tens? Para negociarmos, não podes falar nem em metade, senão vou-me já embora, olha, dou-te…
E disse-lhe um quinto do valor que ele tinha pedido.
-Eh boss, é duro negociar contigo!
E eu voltei à carga:
-Olha, estás a ver o meu braço? É branco por fora mas por dentro é tão preto como o teu… Tu não vês que eu sou africano. Quando olhas para mim, em vez de veres uma carteira com notas, tens de ver um irmão africano..
-Eh Zacarias, anda cá que este boss é africano… e largou-se a rir. Depois deu-me outro aperto de mão e disse que me ia mostrar mais coisas e começou a entrar por casas e casinhas e casotas e casebres e já ia ele e eu e mais uns oito ou nove atrás de mim. Vi dúzias de camas, armários, cadeiras trabalhadas lindíssimas sempre tu cá tu lá com o meu amigo D e sem nunca ver a luz do dia de casa em casa. Quando reparei, estava de tal forma embrenhado no bairro que não sabia bem onde estava ainda que soubesse o caminho de volta. Parei, olhei para o cortejo que nos seguia e disse-lhe:
-Ouve lá, o que é que querem estes tipos todos? Não me digas que cada um deles me vai pagar uma 2M?
Desta vez a gargalhada foi geral. Lá vim com ele até à rua.
-Então boss, vais levar?
-Vou buscar a dama. Sabes, a minha dama é como a tua.
-Como assim?
-É ela que manda lá em casa!
Ele não se riu ao princípio mas os outros desataram a rir na cara dele e começaram todos a falar em changana.
-Eh boss, tu és duro. Traz lá a tua dama.
-E posso deixar ali o carro? Não mo desmontam todo?
-Eh boss aqui é tudo gente boa. O carro está controlado.
-Fixe!
E lá fomos os três com a romaria toda atrás. Demos uma voltinha mais pequena, mas suficiente para a Paula perceber por onde eu tinha andado. Foram sempre muito simpáticos e afáveis e tivemos sempre uma conversa muito aberta, muito nivelada e, sobretudo, muito bem disposta. Às tantas o D disse:
-Hei boss vou-te reiterar…
-Alto e para o baile, assim é que é falar. Olha que eu sou professor e tenho alunos que não demonstram essa propriedade vocabular…
-Sabes como é que é, boss, quem está no negócio tem de ter nível.
No fim, acabámos por não fazer negócio, mas isso não azedou a conversa nem um bocadinho. Terminámos por ali as conversações mas resolvemos trocar números de telefone e quando lhe dei o meu número, o D, enquanto o gravava disse com um sorriso a iluminar-lhe a cara, Vou escrever aqui boss africano!

À hora a que vos escrevo, ainda não fechámos negócio, mas também ainda não terminou o namoro. Temos andado a medir forças via sms e o preço está neste momento num plano em que, penso, as duas partes podem aceitar… a ver vamos se se encontra o ponto de equilíbrio entre o D e o boss africano. A visita pelos armazéns e oficinas e casas foi interessante. Para já, porque, claramente notei que os “boss” não costumam ir tão longe, depois, porque admirei o facto de isso lhes ter agradado. Eu não fui um intruso, fui uma pessoa que se interessou pelas coisas deles. E, claro, fui sempre um potencial comprador. Riscos? Talvez. Admito que sim. Mas nunca os senti. Pelo contrário, estive sempre muito tranquilo e à vontade. Acho mesmo que esse é o segredo que abre as portas… da alegria e da simpatia intrinsecamente moçambicana.

jpv


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Pescaria

Pescaria

Empurravas esses paus
Unidos de vontade,
E tinhas por bons,
Os ventos maus
Da tua liberdade.
Eras franzino.
Um fraco rapazinho
Com um homem no peito,
Enfrentado o Índico sozinho
Numa barca sem jeito.
Ganha onda,
Perde ondas,
Ganha metro,
Perde metros.
Acometes o mar pujante,
Saltas-lhe às cavalitas,
E num instante
O teu olhar se ergue
E és pescador!
Há em ti uma força maior
E um desejo sem medida.
O mar luta só pelo mar,
Tu,
Lutas pela vida.
E quando sais
E trazes o fruto fresco
Da tua labuta,
Desenhas um sorriso
E já não é diminuta
A embarcação.
É um palco de sonhos
Onde se mostra teu coração.
E vê-se nos teus olhos
O orgulho do homem.
E, olhando com jeitinho,
Ainda se vislumbra,
O medo do menino!

jpv


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Crónicas de África – Visita à Macaneta

Visita à Macaneta

Maputo, 31 de outubro de 2012

Num destes domingos, decidimos visitar a Macaneta. Digamos que é a praia mais próxima de Maputo onde, efetivamente, há condições para se desfrutar de um dia de praia. E o investimento foi bom. Sobretudo porque se revelou uma visita muito interessante em diversos aspetos, desde logo, a viagem em si. O tempo estava indeciso, mas isso não nos assustou. A Macaneta é uma língua de terra que, dum lado tem o rio Incomati e do outro o oceano Índico. Não se acede de carro. É preciso ir até Marracuene e atravessar o rio num ferry. Pelo menos, disseram-nos que era um ferry. Quando lá chegámos, não era. Mas isso pode esperar! A primeira decisão foi escolher a estrada. Ir pelo asfalto e demorar cerca de 15 minutos a chegar a Marracuene, ou ir pela estrada de terra e demorar… o que demorasse! Demorou cerca de duas horas a fazer 30Km. A viagem foi interessantíssima. Assistimos gradualmente à substituição do urbanismo pela ruralidade. A estrada é larga. Tão larga quanto os enormes “lagos” de lama que a atravessam totalmente e que é preciso passar, tão larga quanto as lombas que é necessário subir e descer. Ou nuns, ou noutras, ficou a nossa chapa de matrícula da frente! Pelo caminho, as mesmas assimetrias da cidade. Casas enormes e muito bem acabadas e outras muito pequeninas e humildes. Vendas de beira de estrada, cafés, pontos de venda de crédito para telemóvel, cabeleireiros e até um cibercafé. Mangueiras enormes carregadas de fruto, miúdos correndo pela estrada, pessoas dirigindo-se a um casamento que acontecia nesse dia, e, sobretudo, muita gente nos saudando só pela alegria de o fazer, Bom diiiia!, Bom diiiia! Demos boleia a uma senhora idosa que ia para a missa. Sou católica, disse ela como se fosse uma carta de apresentação. Agradeceu os quilómetros que poupou às pernas.

Marracuene é uma terra muito pequena, mas muito agradável. Tem um jardim bem simpático com uma vista fabulosa sobre o rio donde se podem ver os dois cais do ferry de ambos os lados do rio. Olhámos e não vimos o barco. Olha lá, tens a certeza que era nesta terra? É que se veem lá em baixo os cais, pessoas à espera do barco, movimento, mas não se vê o barco o que é esquisito porque a travessia deve ser aquela. Olha e se fôssemos lá ver? Vamos. E fomos. E não estava lá o barco, mas estava lá uma simples jangada a motor que, vista lá de cima, parecia a continuação do cais. Leva 6 carros de cada vez se dois deles forem com a frente de fora dos limites da embarcação. Nada de mais. Sigamos. E seguimos.

O primeiro impacto que sofremos na Macaneta foi o contacto com enormes manadas de vacas e uma fantástica diversidade de aves. Há pássaros exóticos para todos os gostos. Sobretudo na zona pantanosa junto ao rio. Uns pequeninos, muito amarelos e muito mexidos, uns pretos com o começo das asas em castanho fulvo, outros cinzentos, com as patas amarelas e muito altas, uns patos parecidos com mandarins mas muito mais escuros, garças brancas, cinzentas, corvos de gola e mais uma série de surpresas com penas. Pelo caminho, magotes de miúdos dançavam à beira da estrada à espera de uma moeda e uma vez no extremo da língua de terra, é possível fazer uma caminhada pela areia com o rio de um lado e o mar do outro. Aproximou-se um homem de mim. Trazia uma lagosta na mão e ofereceu-ma por 100 meticais (mais ou menos 2,70€). Eu recusei porque não tinha onde a por, mas a Paula gozou tanto comigo por ter recusado um negócio tão vantajoso que comprei a próxima que me ofereceram. Os homens e os rapazes usam umas embarcações estreitas, de varas atadas, levam pequenas redes e pescam poucas peças de cada vez. Saem do mar e vêm vendê-las na praia.
Depois, visitámos a ponta oposta da Macaneta e reparámos que estava repleta de lodges que exploram a tranquilidade, a beleza da paisagem e, claro, a presença do mar. Passámos por uma aldeia completamente erigida em casas de palha. As mulheres estavam trabalhando e os homens deitados pelo chão. Um deles viu-me com a camisola do Benfica e disse-me, Para aí para eu tirar uma foto. Ok, estás à vontade. Ele não está com meias medidas, saca de um iPad última geração, tira a foto e grita, Benfiiica! E pronto, é assim, esta terra, a cada esquina, um contraste.
No regresso, a jangada estava avariada. Parece que é comum. Era preciso um tubo qualquer e o “comandante” estava à espera que alguém lho trouxesse. Quando perguntei quem é que traria o tubo, ele foi muito claro, Ora, o primeiro que aparecer e trouxer um pedaço de tubo! Até me arrepiei, mas o certo é que dez minutos depois apareceu um sul africano com uma pick up e por acaso tinha um pedaço de tubo daquela largura. Serrou-se à medida e já está. Viemos pelo asfalto e almoçámos num local que é uma espécie de jardim interior de uma casa onde há umas cabanas e cada uma delas tem uma mesa onde se pode almoçar. Tirando a demora, acho que foram caçar o frango para o matar e para o assar depois, correu tudo bem…
A Macaneta vale a pena, sobretudo pelas aves e pela zona onde se pode caminhar com água doce de um lado e o mar a bater do outro. Mais um contraste, na terra deles…
jpv


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Crónicas de África – Mercados em Maputo

Mercados em Maputo

Maputo, 30 de outubro de 2012

Um dos atrativos desta cidade são os diversos mercados. Num sábado recente visitámos alguns destes locais. O Mercado do Pau, um dos mais famosos de Maputo, realiza-se ao sábado na zona baixa da cidade, mesmo quase junto ao mar. Trata-se de um mercado de artesanato onde se vende de quase tudo, mas onde, sem dúvida, a madeira esculpida é a oferta central e a mais interessante, nomeadamente, as peças em pau preto. Os preços são muito elevados, mesmo tendo em conta que são negociáveis. A fama que o Mercado do Pau atingiu começa a fazer elevar o que se pede pelas peças. É preciso saber negociar. Comprei uma peça por 400 meticais, e atenção que, se o vendedor vendeu, quer dizer que não perdeu, cujo valor inicialmente pedido foi de 1800 meticais. A dois passos dali, pode visitar-se o imponente largo da Estação dos Caminhos de Ferro. É um largo onde apetece ir só porque sim. Tem uma amplitude e uma beleza que merecem revisitações constantes.
Exatamente na mesma linha, ou seja, em torno do artesanato, há o Mercado da Praça dos Continuadores. Fica junto à Avenida Mao Tse Tung, a quantidade da oferta é muito superior à do mercado do pau e embora se perca um pouco aquele frenesim próprio dos mercados, ganha-se em tranquilidade na medida em que o mercado é feito numa enorme área ajardinada e até se pode beber um café ou comer uma refeição ligeira uma vez que estão aí a ser explorados alguns bares. Aqui, além do artesanato em madeira, há também uma imensa oferta de peças em batik (imagem ao lado. Clique para aumentar). São uns panos desenhados com tintas naturais e acabados com cera. Alguns são de extrema beleza.
Por volta das quatro da tarde começam as chegar as embarcações de pesca e ganha vida o Mercado do Peixe junto à Fotaleza. Aqui, é possível comprar camarão, lagosta, lulas e peixe variado a preços muito interessantes. Contudo, é preciso algum cuidado com a pesagem. No outro dia, comprámos 1 kg de camarão. Eu disse à vendedora que aquilo não tinha 1kg e ela respondeu, Tem sim, papá, olha aqui. E mostrou-me a balança onde estavam marcados 1,200kg. Cheguei a casa, pesei e o camarão tinha 800gr. É por isso que muita gente anda com pequenas balanças portáteis. Assim, confere as pesagens no local da venda. O camarão era muito bom e mesmo com menos 200gr não se pode dizer que fosse caro. Não pode mesmo.
Ainda assim, aquele que mais me atrai é o Mercado Central. O mercado tem de tudo e a oferta começa mesmo antes de se entrar. De resto, Maputo é um imenso mercado espalhado pelas suas ruas. Lá dentro, os corredores são muito estreitos, não chegam a ter um metro de largo. Quando duas pessoas passam uma pela outra têm de se tocar, mais precisamente, roçar uma na outra. Cruzámo-nos com uma senhora volumosa, muito volumosa que, à medida que avançava, ia arrastando toda a gente consigo e dizia, Eu não tenho culpa de ter nascido assim… Vende-se todo o tipo de legumes, frutas, especiarias, castanha de caju com os mais diversos condimentos, bebidas licorosas, piri-piri, artesanato, produtos de higiene e beleza, carne, drogarias, numa oferta imensa, metro a metro e a preços bem interessantes. Visitar este mercado é uma aventura e faz-se com entusiasmo, mas são necessários alguns cuidados. Como, de resto, em qualquer grande urbe. O básico é evitar a ostentação, trazer cópias da documentação em vez dos originais e andar só com o dinheiro necessário para a mercância. As pessoas são muito afáveis e calorosas e, tirando os truques de quem é negociante e vive disso, são absolutamente fiáveis.
Há na cidade outros mercados a aguardar visita, mas ainda não foi desta. A seu tempo…

jpv


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Crónicas de África – Coisas que Não Há em Maputo

Coisas que Não Há em Maputo

Maputo, 30 de outubro de 2012

São 7 horas da manhã. Levantei-me às 5:30 e estive a preparar aulas. Tenho agora um bocadinho para escrever-vos umas linhas que me andam atando um nó no cérebro até que saiam. Há coisas que, simplesmente, não há em Maputo.

Não Há Prisão de Ventre
Seja por via do peixinho comprado junto à fortaleza, das carnes adquiridas no Terra e Mar, da alface do Mercado Central, da água de lavar os dentes, da fruta nas vendas da rua, em Maputo, sobretudo se és europeu e acabado de chegar, não há prisão de ventre! Nem para os mais teimosos!

Não Há Pressa em Maputo
Bem podes procurar! Talvez um ou outro português te arranje um bocadinho de pressa, mas, na generalidade, Maputo, sendo uma grande urbe, é também uma pacata aldeia com filas de trânsito. E sem pressa!

Não Há Stress em Maputo
É uma clara consequência do item anterior. Esperar, num restaurante, uma hora ou mesmo hora e meia para ser servido, não é mau serviço, é um ritual encarado até como muito interessante para se por a conversa em dia. Claro que há um ou outro que exaspera. Deve ser o tal português que ainda tem pressa!

Não Há Falta de Casamentos em Maputo
Nos últimos tempos, em Portugal, encontrar um casamento é algo assinalável!  Quem é que tem a ousadia de se meter nisso?! Logo, a indústria casamenteira, como todo o país, está em crise. Em Maputo é ligeiramente diferente. Vejamos o seguinte: há aqui uma instituição do tipo Registo Civil que se dedica exclusivamente a casamentos. E os casamentos são tantos que já começa a haver celebrações à sexta-feira uma vez que os sábados e os domingos já estão totalmente requisitados. Se, num fim de semana, só viste dois casamentos, isso quer dizer que o passaste enfiado em casa e só saíste uma vez para ir ao pão. Se viste quatro, isso quer dizer que podes ter ido almoçar fora. Se deste uma volta pela cidade no sábado e no domingo, podes ter contado seis, oito ou mais eventos do tipo. O noivo dá um dote que inclui a festa da celebração e as roupas dos familiares chegados da noiva. É engraçado de ver porque as mulheres vão todas de igual e normalmente com roupas de cores muito exuberantes. O tipo endivida-se com a celebração, mas isso não é novidade.

Não Há Divórcios em Maputo
Quer dizer, entre os imigrantes há. Sobretudo porque alguns resolvem casar-se com moçambicanas! Mas entre os moçambicanos é um fenómeno raro e as razões são, sobretudo, duas. A primeira é porque uma pessoa não se casa para se divorciar! Pois, há por aqui um certo sentido de não desfazer o que já foi feito. A segunda é que o divórcio é um dos atos jurídicos mais caros de Moçambique. Custa mais do que um casamento. A consequência é óbvia…

Não Há Bancos Sem Fila em Maputo
Dão-se alvíssaras a quem encontrar o primeiro. Se fores o primeiro a chegar a um banco, logo pela manhã, e quiseres fazer um simples levantamento, isso é  rápido, demora 35 a 40 minutos. Qualquer ação num banco a meio da manhã é obra para 60 a 90 minutos. E as filas lá estão! Há muitos bancos em Maputo, uma vasta oferta de locais. Mas há muito mais gente. Reparei num pormenor curioso a este propósito. Em Maputo toda a gente, até os jovens, muito jovens, sempre que têm algum dinheiro, vão ao banco fazer depósitos. É uma espécie de culto da poupança. Isto parece contraditório com o espírito de um povo que vive para o presente, mas é um facto.

Não Há Um Único Lugar de Estacionamento Não Vigiado em Maputo
Chegas, estacionas o carro, seja no local mais concorrido da cidade, seja num ermo onde não está ninguém e vem chegando um jovem para ajudar a arrumar e ficar a “controlar”. Quando estás num local muito pacato e não vês ninguém à volta, até podes pensar, Aqui que dava jeito um “controlador”, não aparece nenhum. Engano teu. Quando desligas a ignição, ele vem chegando numa corridinha silenciosa, Quer que lave? Não, basta controlar. E fica controlado!

Espero não ter desconseguido interessar-vos e dar-vos mais umas luzes do que é a vida em África, nomeadamente, na capital moçambicana. Sim, esse verbo usa-se assim. E, a meu ver, usa-se muito bem. Se me tentares convencer do contrário, vais desconseguir!

jpv


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Pedido de Desculpas

Contra o que é habitual, a crónica que publiquei ontem, independentemente do valor que possa ter, tinha demasiadas gralhas. E é por isso que venho pedir-vos desculpa.

A verdade é que sei a apetência que os leitores têm demonstrado por estas crónicas e sabia também que, por motivos de trabalho, já há alguns dias que não publicava nada. Logo, em vez das três revisões habituais, só fiz uma, para além de que fiz a publicação já muito tarde e depois de um dia muito intenso no trabalho. Ora, o resultado foi o que se viu.


Entretanto está tudo corrigido, claro.


Obrigado.

jpv


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Crónicas de África – Outras Coisas do Quotidiano

Outras Coisas do Quotidiano

Maputo, 27 de outubro de 2012

É natural que, quando chegamos a um local desconhecido, seja de visita, seja em trabalho, tenhamos um olhar mais luminoso e complacente por não termos experimentado as rotinas e as agruras do mesmo. Eu penso que tenho, nos dias que correm, esse olhar em relação a Maputo. Parece-me, contudo, que não é uma perspetiva menos válida. É a perspetiva do momento e, por isso mesmo, para que se rememore mais adiante na linha dos dias passados, importa registá-la aqui.

Miúdos na Rua
Há nesta cidade um delicioso pormenor de que me não lembrava de assistir desde criança. Miúdos na rua. Magotes deles correndo e brincando e empurrando-se e jogando a bola na estrada, pelas ruas menos movimentadas, e em brincadeiras entusiasmadas pelos quintais, nas traseiras das casas. Não me refiro a crianças na escola, ou em família, ou numa festa de um amigo. Falo daquelas tardes infindáveis em que o tempo era todo nosso para o quisessemos e o que queríamos era brincar e crescer juntos. Essa liberdade primeira e genuína perde-se com o tempo e, em algumas sociedades, morre sufocada em regras. Em Maputo há uma música vespertina que nos embala à hora do lanche: os miúdos em correrias e gritarias entusiasmadas pela brincadeira. Sem esquemas de segurança, nem pessoas a guardá-los, nem escolas a prendê-los para serem livres. Só miúdos. Na rua.

O Chão
Um outro aspeto muito interessante que, curiosamente, me transporta também para a minha meninice, é a relação dos moçambicanos com o chão. É curioso que, em Portugal, e não só, há uma estratégia pedagógica no ensino pré-escolar a que convencionou chamar-se “tapete”. E, nesse momento, educadoras e crianças estão ao mesmo nível. O do chão. Mas é só aí. No resto do nosso quotidiano, parecemos querer erguer-nos acima do chão. Ora, os moçambicanos não parecem ter essa veleidade e interiorizaram que o chão é mais do que a casa dos nossos pés. É a casa da nossa vida. Sentam-se no chão para venderem o que tiverem para vender, sentam-se no chão esperando uns pelos outros, sentam-se no chão para descansar, e, no merecido intervalo do almoço, deitam-se no chão. É comum ver homens deitados no chão junto à sua venda ou no intervalo do trabalho ou no fim de um excesso de cerveja. Não se escondem. Num relvado, num passeio, às vezes com os pés na estrada, outras vezes com o corpo semi-coberto por um carro estacionado, entregam-no à terra, ao cimento, à pedra, à relva, à erva, a qualquer que seja a cobertura e esperam, descansam, dormem… Talvez seja uma vida chã. Talvez seja a consciência intuída de que o chão é o céu dos homens. Talvez seja uma sábia perceção de que é esse o nosso lugar. Não sei exatamente o que é. Mas sei que se sentem à vontade no chão.

Armas na Cidade
Viver em Maputo é também aprendermos a interiorizar a presença das armas. A cidade está repleta de armas de fogo pesadas. Nada daquelas pistolinhas de trazer à cintura como usam as forças de segurança em Portugal. Na capital moçambicana, seja um militar, seja um polícia municipal, seja um segurança de um banco, ou mesmo de um hipermercado, os agentes da autoridade e da segurança estão sempre armados com armas de canos serrados ou com espingardas de cano longo ou ainda com metralhadoras. Ao princípio estranhamos um arsenal tão pesado a cada esquina, a cada porta, depois vamo-nos habituando a conviver com ele e já não estranhamos quando alguém nos pede os documentos e traz ao colo uma arma pesada, capaz de estragos significativos.

Modernices
Já aqui tenho contado, a propósito das assimetrias desta cidade, alguns pormenores de tecnologia avançada a ser utilizada em Maputo. Um dos bancos locais está agora a lançar um produto muito interessante. Chama-se Conta Móvel e consiste na substituição do cartão de débito pelo telemóvel. Uma vez feita a ativação da Conta Móvel pela primeira vez, pode transferir-se dinheiro para o telemóvel. Depois, numa máquina ATM, insere-se o número do dito telemóvel, o PIN de segurança e já está, pode levantar-se o dinheirinho. Dá jeito para quando nos esquecemos do cartão e para ter o dinheiro distribuído por diversos meios de acesso, não vá o diabo tecê-las! Modernices…

IDE

Hoje foi o dia do IDE. Trata-se de uma festa religiosa muçulmana que assinala, salvo erro, o fim da peregrinação a Meca. É um momento de alegria e agradecimento. O interessante é que o IDE é universal, ou seja, é celebrado por muçulmanos em todo o mundo. Em Portugal, naturalmente, quase não dou por esta celebração, mas estas são terras com cheiro a Oriente e com uma forte multiculturalidade. Tão forte, que foi decretada, pelo Governo, tolerância de ponto para os trabalhadores muçulmanos. E, também na escola, se sentiu a ausência de uma parte da nossa comunidade de aprendentes, os alunos que estavam celebrando o IDE.


O quotidiano, em Maputo, é diferente, mas não é diferente por uma grande razão, é diferente por todas estas que se juntam e fazem da vida aqui um passar do tempo bailado ao som das brincadeiras dos miúdos.
jpv