Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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A Infância do Sorriso

A Infância do Sorriso

A minha língua
Na tua boca,
O desenho dos teus lábios
No meu desejo.
O movimento solitário
De um longo e húmido beijo,
Só meu.
Só eu.
Os meus olhos
No teu olhar incógnito,
Perdido, incerto e terno.
Uma visão quente e doce
No pico do inverno.

Esta impotência de ti.
Esta estrada de que fugi.
Este tempo que passou.
Uma ilusão que partiu,
Em manhã de sol,
E não voltou.

Só tu, eu e a terra
E os segredos
Que o tempo encerra
Na dor e na distância.
Nessa gloriosa e áurea
Infância
Do sentir.
Quando tudo era puro
E não carecia explicação.
Um sorriso,
Um olhar,
Uma mão pousada
Noutra mão.

E agora olho-te
E anoiteço.
És mais do que peço.
És a outra ponta da vida.
A quimera.
A oportunidade perdida.
Nem sei que sejas.
Nem sei que seja.
Mulher que brota vida,
Mas não me beija.
Para ti,
Não existo,
Não me reconheces ao passar.
Ah, se ao menos,
Teu coração pressentisse
O meu,
A pulsar!

jpv


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Dedicatória

Para a minha Mana. 
Só ela sabe porquê!


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Conversas Vadias – Canhota

Conversas Vadias – Canhota

Prof. – T. vai ao quadro.
M. – Stôr, a T. é canhota!
H. – Ela é canhota das duas!

Momento real
e delicioso
em situação de aula.
jpv


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Mandela Depois de Mandela

Mandela Depois de Mandela

Não quero dar para o peditório da expiação do pecado do antigo Primeiro-Ministro, Dr. Aníbal Cavaco Silva, ter votado contra ou a favor ou nim da libertação incondicional de Nelson Mandela. Não me parece que Madiba deva ser misturado com esse tipo de questiúncula e muito menos nesta altura.

As coisas são simples. Antes de Mandela não havia liberdade. Depois de Mandela há. E isso não se troca por nada, nem se confunde com nada, nem se desculpa com nada. Eu vivo perto da RSA e visito o país com alguma regularidade. Se está perfeito? Não. Os próprios sul-africanos sabem, admitem e afirmam isso, mas a verdade é que também ninguém quer dar um passo atrás e a razão é simples. A conquista de Mandela não é só a conquista de um povo ou de uma nação, é a busca constante da Humanidade.

O que sempre reparei nele é que, através dos tempos, foi um homem capaz de sorrir! Mesmo nas circunstâncias mais difíceis. É um traço de caráter que denota grande personalidade e grande sensibilidade. Foi capaz de sofrer, de persistir, soube, como temos visto poucos saberem, ganhar. Teve dignidade e ponderação na hora da vitória. Preferiu ser unificador a fraturante e isso é um traço de quem conquista a liberdade com sofrimento.

Mandela não é sul-africano. É um homem do mundo, para o mundo. Um ícone universal, um símbolo da defesa dos direitos humanos e um símbolo do mais precioso dos bens da Humanidade: a Liberdade!

O resto, o que fica da sua passagem é algo que ainda não vi ninguém referir mas penso que temos de o fazer: é fundamental que a sua herança permaneça, é fundamental preservar o bem da tolerância, da igualdade e da liberdade. É importante que haja Mandela depois de Mandela.

So long Madiba!jpv


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Crónicas de Maledicência – No Reino Animal

Crónicas de Maledicência – No Reino Animal

Amigos e leitores, isto hoje é assim uma crónica do tipo “National Geographic”. Só com alimárias. E daí, não sei não, porque há um macaco que parece que não é bem macaco. Quer dizer, ele nasceu macaco, mas parece que para sair do cativeiro não pode ser macaco. E onde é que isto se passa? Nos Estados Unidos, claro. Se Darwin não conseguiu, os americanos dão um jeito. A coisa foi assim: ao que parece há um chimpanzé que está em cativeiro. Preso, portanto. Houve uma ONG que quis libertar o macaco e por isso pediu o seu Habeas Corpus ao tribunal. Acontece que o Habeas Corpus, segundo a lei, serve para libertar uma pessoa detida ilegalmente. Ora, que o macaco esteja detido ilegalmente, ninguém duvida. Já que ele seja uma pessoa… Ao que parece, a ideia é o macaco ser pessoa por um dia e depois voltar a ser macaco. Mas isso, a mim, desculpem-me o conservadorismo e a falta de sensibilidade, parece-me um passo maior do que a perna. Parece-me, mesmo, uma daquelas coisas absurdas saídas de Hollywood. Eu tinha cá uma ideia mas deve ser muito simples para as complicações dos homens. Então e se libertassem o macaco como macaco e pronto não se fala mais nisso sem ser preciso ele ser por um dia o que nunca será por tempo nenhum? Eh pá, amigos, andamos a complicar um poucochinho acima da conta.

 
Por falar em animais, mas desta vez mais pertinho do que nos EUA, ali mesmo em Lisboa de Portugal, aconteceu uma daquelas coisas que, se o ridículo matasse, os envolvidos já estavam a prestar contas ao Criador. Quem me conhece, sabe que sou um tipo ordeiro e respeitador da lei, da ordem e das autoridades que a garantem, mas… às vezes, até eu duvido! Vejamos, os senhores da Guarda Nacional Republicana, como isto aqui não é a balbúrdia que vai nos States, apreenderam, apreenderam é o termo, nove, não um, nem dois, nem três, mas nove(!) leões a um circo. E foi para proteger os animais? Nada! Foi porque não tinham papéis de identificação. O GNR passou por ali, pediu o Cartão de Cidadão ao leão, ele não tinha, passaporte muito menos, e vá de o apreender. Até aqui tudo bem. Os meus amigos sportinguistas que me desculpem, mas leão que é leão ou anda identificado ou apreende-se! Ora, tendo apreendido os felinos, o que lhe fez a GNR? Entregou-os ao dono! Pois, chegámos, no nosso país, a este estado de coisas. A GNR já nem tem jaulas nem tratadores para tomar conta dos leões que vai apreendendo no quotidiano da Capital. Eu até considero a medida muito adequada. Por exemplo, se me apreendessem o meu carro por falta de documentos, eu não me importava nada que mo entregassem à minha guarda. 
As notícias que deram origem a esta crónica encontrei-as aqui e aqui e parecem-me fidedignas. Mas lá que são estranhas… e a malta com tanta dívida pública para pagar!
jpv


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Divulgar – Para os Braços da Minha Mãe

Fresquinha, acabadinha de sair do novo álbum de Pedro Abrunhosa, “Para os Braços da Minha Mãe” é uma composição repleta de melancolia, da saudade portuguesa, que reflete uma das facetas da situação que Portugal atravessa. Se Abrunhosa é cantor, ou não, há dúvidas, ao que parece. Contudo, para mim, é um indiscutível músico e poeta português, talvez um dos mais contundentes da atualidade. Nesta composição apresenta-se em dueto com Camané.

“Para os Braços da Minha Mãe”, do álbum “Contramão”.


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Crónicas de África – Tempestade

Crónicas de África – Tempestade

O dia amanheceu radioso, pelas seis da manhã, o sol sentia-se bem na pele e havia aquele esplendor luminoso da luz irradiada e aspergida pela Terra dos homens. Uma coisa que se aprende em África, rapidamente, é que a Natureza tem muita força. Desde as bactérias de uma alface por lavar que fazem percorrer o calvário da casa-de-banho vezes sem conta, passando pela pele de um peixe que não se deveria ter comido e que deixa o corpo pintado de encarnado e branco como um equipamento do Benfica, às enxurradas de vinte minutos de chuva que parecem querer lavar toda a superfície da Terra e, claro, ao fulgor de uma tempestade. A manhã aqueceu bem. Pela hora de almoço, estavam mais de trinta graus e foi por essa altura, também, que o ar deu em ficar meio húmido. Sentia-se o vapor de água na atmosfera. Pelo meio da tarde, levantou-se uma brisa leve e, ao longe, o céu, até então azul celeste, começou a pintar-se de um azul inox intenso. A conclusão foi certeira porque óbvia: vem lá borrasca! E se veio. O vento levantou-se, o capacete nublado cobriu a cidade que, dada a sua situação geográfica, quando é coberta por nuvens de tempestade, estas ficam muito baixas, muito próximas do solo. Os clarões de luz têm uma intensidade irrepetível e o som dos trovões é atroador, os vidros das janelas cantam e, com o tremor da trovoada, saltam bocadinhos de estuque que prendem os vidros das tais janelas e os alarmes dos carros dão em disparar feitos loucos como se alguém estivesse baloiçando as viaturas. A água chega de mansinho e em segundos as pingas da anunciação da chuvada se convertem em generosas e ruidosas bátegas. É um espetáculo fabuloso, belo, imponente e, ao mesmo tempo, a pôr em sentido a alma das gentes, mesmo daqueles que se dizem imunes a esses inconfessados temores.

Eu, sempre que chega um momento destes, colo-me ao vidro de uma janela como uma criança que vê televisão pela primeira vez  e deixo-me maravilhar pelo recorte da luz na escuridão.

Hoje trago-vos três momentos que captei esta noite da janela da minha sala. Uma foto entre clarões, ou seja, com a luz natural da noite que é quase nenhuma, um breu cerrado. Uma foto do auge de um clarão. A foto não tem nenhum tratamento. Aquela luz é toda do clarão do relâmpago. Sem corantes nem conservantes! Sim, há dias de sol menos luminosos! E, por fim, meia dúzia de segundos de filme do céu passando de negro a riscado pelos raios.


É assim, a Mãe Natureza, em Maputo!

 Foto entre relâmpagos com a luz natural da noite:

 Foto do clarão de um relâmpago:

 Os raios cortando o breu nos céus de Maputo:


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Vermelho Direto – Paulo Futre Revisitado

Vermelho Direto – Paulo Futre Revisitado

O engraçado nas memórias é que, por vezes, adormecem e ficam latentes na mente, mas não ativas. Elas estão algures, emparedadas entre dois neurónios, e quase não sabemos que as temos. Vai daí, um dia, por uma qualquer e imperscrutável razão, tornam-se vivas e presentes e podem até, as coisas rememoradas, adquirir significados que não tinham em primeira instância.

Foi isso que me aconteceu hoje. Abri o jornal “A Bola” online e vi uma notícia perfeitamente natural que envolve o presidente do Sporting e a procura de investidores. Não pude deixar de sorrir, contudo, quando percebi onde ia procurar os ditos investidores. Quem diria que, anos depois, Bruno de Carvalho me viria a relembrar o inimitável Paulo Futre.

E olhem, como as palavras dizem pouco, aqui ficam os testemunhos.

Basicamente, isto:

Lembrou-me isto:


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Sexta-Feira em Moçambique

Como Anima a Marrabenta – Neyma


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No Trilho dos Escritores Moçambicanos – Rui Nogar

No Trilho dos Escritores Moçambicanos


Eu não descobri o Rui Nogar. Foi ele que me encontrou. Um livro dele, mais precisamente. O único livro que Rui Nogar publicou: “Silêncio Escancarado”. É um livro de poesia.

Estou a reagir a quente. Adorei cada poema. Cada um melhor que o outro. Uma dor constante, uma revolta interior, um balançar entre Portugal e Moçambique, um profundo conflito com o Cristianismo, um fervor e uma paixão constantes. Intrinsecamente político, contundente, de palavra veloz e dura. É moçambicano, sim, mas é também um poeta do mundo, universal.

Enfim, o melhor é que leiam e avaliem por vós. Afinal, o melhor que podemos fazer quando encontramos um escritor de que gostamos, é partilhá-lo.
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Do amor pelas pedras

se fores capaz
de amar uma pedra

se conseguires amar um pedra
dessas a que chamam calhaus
vulgaríssimas na sua textura
inconsequentes nas intenções
e que rolam no leito dos rios
desgastando-se até ao absurdo

uma pedra que julgamos inútil
sem outra beleza que não seja
a que só tu lhe podes emprestar

 se fores capaz de amar essa pedra
ama-a
acarinha o seu silêncio
responde ao seu mutismo
iletrado irreflexo
ama essa pedra
mesmo que te chamem louco
e que se riam na cara que hasteaste
no mastro da tua irreverência

e se for preciso
se os não loucos
forem longe longe demais
nas suas vaias
seus arremedos insultuosos
atira-lhes então a pedra
atira-lhes então a pedra
com toda a força do teu amor
com todo o poder transfigurador
das tuas mais íntimas convicções
ah com a violência que te possui
nos momentos em que és capaz
de amar uma simples pedra
que a tua sensibilidade vitalizou

atira-lhes essa pedra
atinge-os em cheio
e esmaga
esmaga as conveniências
que a burguesia libidinou
para que os outros
um dia saibam
que o absurdo apenas mora
onde jamais será pssível
florescer um amor qualquer

e tu
tu amarás essa vulgar pedra
quer eles queiram quer não
como se ama
apaixonadamente
a independência da nossa pátria
a liberdade de qualquer povo
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Nota Biográfica
 
Rui Nogar é o pseudónimo de Francisco Barreto, filho de emigrantes brancos oriundos de Goa, nascido em Lourenço Marques, a 2 de Fevereiro de 1932, e falecido em Lisboa, a 11 de Março de 1993.Após a morte do pai, abandonou os estudos secundários, a fim de prover ao sustento da família. Considerava-se um autodidacta, cuja formação devia tanto ao exemplo dos pais como ao de professores, exilados políticos portugueses, que o alertaram para as questões sociais e a necessidade de as problematizar no contexto colonial.
Viveu de perto desigualdades e injustiças, quer no subúrbio laurentino, que «conhecia como os seus dedos», quer no seu percurso profissional: trabalhou junto dos carregadores do cais e como praticante de escriturário nos Caminhos de Ferro de Moçambique, funções que só não foram mais humildes porque, como disse, «era impossível ser servente. Na altura só os havia de raça negra». Posteriormente, foi copywriter, contabilista e redactor em diversos títulos da imprensa, como a Tribuna ou O Brado Africano.
Com Craveirinha, participou nas actividades da Associação Africana, aí se notabilizando como declamador. Foi, aliás, na sequência de uma das sessões culturais dinamizadas naquela associação, em 1953, que a polícia política o deteve pela primeira vez. Os seus poemas mais antigos datam de 1954-55 e surgem em O Brado Africano e no Itinerário. Nessa época, reconhecia «ser mais provocador de vocações do que ser ele próprio vocacionado», mas acabou por assumir a escrita como um instrumento de expressão do seu «mundo interior», o que, nas suas palavras, significava tudo «aquilo que nós achávamos justo», tudo o que «pensávamos realmente não poder continuar a acontecer à nossa volta».

Mais informação sobre Rui Nogar, aqui:
http://www.revistarubra.org/?page_id=1263