Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Fadas e Duendes

Foto por jpv – Pedrógão

Choveu.

Mas choveu muito.

Tanto, que as estrelícias caíram,

Tanto, que roupa não se aguentou no estendal,

Tanto, que tonto, fui ver quem andava lá.

E, foi essa visão noturna da casa,

Que espantou.

A casa não tinha ninguém.

Nem mesmo nós lá estávamos.

E o espanto veio

Com a manhã ensolarada,

Com as fadas e duendes

Que faziam refletir cada raio.

jpv


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Hás Tu…

Foto por jpv – Coimbrão

Tu não sabes,
Não poderias saber,
O quanto
Eu te amo.
Para além das outras coisas,
E aquém delas,
Hás tu.
Tu, só tu mesmo,
Sem modas,
Nem teorias,
Nem religiões,
Nem políticas,
Só mesmo tu.
És a esperança
Pela qual eu morro,
E prazer que não me
Deixa viver…
Não te desabitues
De mim.
Eu não sou assim.
Os meus hábitos
São como rochas
Que de fixam,
E dão paz.
Que não seja
A paz dos vencidos.
Amo-te.
E este amor
Não tem fronteiras,
Nem barreiras,
Nem se vive em nuvens
Com berloques de arlequim.
Este amor
É assim,
Como todas as coisas
Que nascem
Sem saber como.

jpv


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Republicação – ANTÚRIOS


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Curtas do Metro – As Razões do Gato Preto

As Razões do Gato Preto Manhã normal. Comboio normal. Metro normal. Gente normal. Movimento normal. Gato estranho. O que vou contar-vos hoje é só um apontamento e já aconteceu há três semanas. Durante todo este tempo pensei sempre que era demasiado insignificante para ser contado. Por outro lado, o que o gato fazia, sem uma […]

Curtas do Metro – As Razões do Gato Preto


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CRÓNICAS DE MALEDICÊNCIA – Onde é que vamos parar?

Onde é que vamos parar?

O posto de saúde está aberto. O posto de saúde está fechado. Enfim, nem aberto nem fechado. A meio gás também não se pode designar. Como as fotos demonstram, é novinho em folha e lá dentro tem salas limpíssimas que dá gosto olhar. Mas só olhar. Consulta, nem vê-las!

Esta Unidade de Saúde existe no Coimbrão.

É uma freguesia do concelho de Leiria, e neste posto de saúde há qualquer coisa como 2500 utentes. Onde, agora, me incluo.

Estava tudo a correr bem, quando a médica que aí se encontrava, foi à sua vida. A bem dizer, já não chegava a ajumentação, para tão pouco pastor, mas o certo é que a senhora doutora, de uma forma, ou de outra, lá dava conta de tanto jumento.

Não foi por falta de aviso, sempre houve quem dissesse que, Qualquer ficamos sem médico.

E ficámos.

Se calhar perdeu-se o norte, pois umas vezes é considerado UCDP Norte, e outras é considerado Programa Operacional Regional do Centro.

Contam as línguas, que foi pedido um médico em regime de substituição, mas ninguém quis ir.

Ora, eu como doente prioritário, acho que um AVC ainda qualifica para tal, fui ao Centro de Saúde do Coimbrão, e, de  depressa entrei, mas rápido saí.

Agora que houve  umas eleições quaisquer, não era caso para fazer uma promessa eleitoral e pedir médico para o UCDP Norte, ou para o POR Centro, para qualquer um dá. A malta aqui é que não pode andar a ter AVC lá por haja médico. Aí isso é que não!

jpv


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Gaivotas

Foto por jpv

Num domingo,

Em que saí à rua,

Não houve pássaros.

Mas estavam umas centenas

De gaivotas,

Sedentas de África.

Ali, observando o mar,

De frente para um destino

Que já conhecem,

Como que perguntavam,

Quanta distância nos separa

Do calor?

Quantas horas de mar?

Quantas de nós sucumbirão?

Levantaram enxotadas

Por um transeunte

Para quem uma gaivota

É só uma gaivota.

Longe pensar, e sentir,

E questionar

Sobre o futuro,

O que virá depois dele.

Sobre o futuro do futuro.

Passaram por mim,

E num grasno irrepetível,

Adeus.

jpv


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Beatles

Foto por jpv

Não sou, nunca fui,

Uma semente.

Mas escuto,

Com atenção,

O que as sementes

Têm para dar.

É vida, é loucamente vida,

E é morte também.

Uma semente,

Indigente,

A semear tudo…

Para morrer.

Para viver.

jpv


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Limoeiro

Foto por jpv

Era uma árvore

Na parede.

Era uma árvore

E o dia fenecia.

Já mal se ouviam

Os gritos.

Entre o que se

Via da árvore,

E o que estava

Espelhado dela,

Havia cavernas

De sombras,

E luz.

Com homens

Ensaguentados,

Pedindo ajuda.

jpv


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Aliteração

Foto por jpv

Um véu negro

Vai vendo

Meu mundo morrendo.

Passa, faz negaça,

E não corta

A corda que me abraça.

jpv


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Motorcycle Chronicles – Put Your Head On My Shoulder

Put Your Head On My Shoulder

Na vida das pessoas há sempre assuntos por resolver. Às vezes, para os resolvermos, precisamos de uma longa conversa. Esta é a história do Senhor Nolan e da conversa que teve com a sua amada, M.
Quando se conheceram, o Senhor Nolan usava fato e gravata, era um executivo de uma empresa de comunicações, tinha três filhos, uma mulher prendada com quem praticava sexo sempre missionário, um carro cinzento escuro com quatro metros de comprimento e uma vivenda com dez assoalhadas numa zona proibitiva dos arredores da cidade. A ele, não lhe era vedada a zona, pela simples razão de que podia pagar o luxo. E a vida desenrolava-se entre reuniões, os problemas dos filhos e os orgasmos fugazes e fingidos. Fugazes, os dele…

Um dia, num desses dias em que a mente se questiona a si própria, nesses dias em que o trabalho lhe entorpecera o cérebro, num desses dias em que todos os problemas parecem combinar-se para o atormentar, bateu violentamente com a porta do escritório, disse, Foda-se para isto tudo, e saiu à rua. Caminhou. Sem pensar em nada a não ser no que via. Caminhou para fugir à vertigem de problemas acumulados e soluções por encontrar. Olhou as mulheres, os homens, as crianças, as lojas, os jovens em suas roupas despreocupadas, sentiu o sol, comprou um gelado, e caminhou, caminhou sempre, até que viu…

Vinham numa moto preta com cromados reluzentes. Ele segurava o guiador de braços abertos, tinha uns óculos escuros, um blusão de cabedal e botas como as da tropa. Ela ia atrás, agarrada a ele com um cachecol pelo pescoço em tiras castanhas alternadas com amarelo torrado e as pontas esvoaçantes, os cabelos soltos e um blusão de ganga. Nenhum levava capacete e os dois sorriam ao vento. Para o Senhor Nolan esta fora a visão da liberdade e da libertação, da felicidade e da harmonia. Estava naquela imagem passageira tudo o que lhe faltava. Por vezes, um breve instante na vida de um aprisionado é o suficiente para que pressinta o sabor da liberdade. Por vezes, um episódio insignificante na vida de outra pessoa, pode mudar a nossa. Foi o que aconteceu. Aquela imagem ficou a fazer-lhe comichão na mente, a inquietá-lo. Ponderou imenso. Pensou que estava senil e pensou depois que, se o estivesse, era porque tinha já conquistado esse direito. O Senhor Nolan decidiu mudar. Amadureceu todos os passos e momentos da sua vida. Os do passado e os do futuro.

Divorciou-se. Atravessou essa floresta de complicações e tensões. Meses se passaram. Um ano. E meio! Encontrou novos ritmos de estar consigo, de partilhar a vida com os filhos. Comprou uma casinha pequenina no campo, entalada entre choupos altos. Um carro pequeno e modesto. Entreteve-se na decoração nihilista onde figuravam abundantes velas de cheiro a serpentear a casa. Vivia bem consigo. Inscreveu-se numa escola de condução e tirou a carta de moto. Comprou roupas informais e habituou-se a sorver o tempo só pelo tempo. Um dia foi à Internet e comprou uma moto em segunda mão parecida com a da distante imagem reveladora. Longe no tempo, perto nas intenções. Começou por curtos e breves passeios à volta de casa e, a pouco e pouco, foi conquistando terreno, hábitos, habilidades, mecanismos, até ficar confortável naquela relação homem-máquina.

O Senhor Nolan está diferente. Só vive encarcerado no fato de executivo o tempo indispensável para exercer as suas funções. Todos os dias ao chegar a casa se entrega a si, às suas pequenas prioridades, aos seus pequenos rituais. E, mais extraordinário, quando habita o fato, há uma parte de si que não se deixa aprisionar. O coração do Senhor Nolan rebelou-se, tomou o gosto da liberdade e agora não há amarras nem prisões que o retenham. E os fins-de-semana? Os fins-de-semana são a liberdade em estado puro. Às vezes pára a moto para arrumar o capacete numa das malas laterais e anda uns quilómetros com o vento a fustigar-lhe a face e o cabelo ondulado e ralo. Só porque sim. Um dia parou de frente para o mar e lembrou-se de que algo lhe faltava no sonho de liberdade. Algo estava na imagem reveladora que não viera ainda para a sua. Era M. Lembrar-se-ia ela dele? Claro que sim! Mas o que sentiria? Precisava partilhar esta liberdade com a única mulher que conhecia capaz de a perceber sem a julgar. Precisava de uma longa conversa com M. Decidiu trazê-la para a sua vertigem.

M continuava no mesmo hospital pediátrico como enfermeira. Os mesmos hábitos e rituais. Depois do Senhor Nolan, não quis mais homens na sua vida. Nenhum a preenchia como ele soubera fazê-lo. Nenhum a magoaria tanto como ele o fez só por ter partido. Às vezes punha a música que eles costumavam ouvir juntos quando ele fugia do casamento para os seus braços por uma noite, um dia. E essa memória valia-lhe por uma vida vivida. M era uma mulher sensível e tranquila. Daquelas que sofrem a vida com estoicismo e são capazes de ser felizes com o canto de um pássaro, o ronronar de um gato. Era uma alma que esquecia com facilidade um grande feito mas nunca um pequeno pormenor de humanidade e sensibilidade. Falava com a expressão da face e com o olhar e guardava as palavras como tesouros pelo que dizia só o que tinha para dizer quando isso fosse significativo. Há três anos que M não sabia nada do Senhor Nolan e, por isso, e por todo o passado comum de emoções fortes, o seu coração sobressaltou-se quando abriu o e-mail e viu na caixa de entrada o nome dele em negrito.

No próximo sábado apanho-te à porta de casa às oito da manhã. Veste-te de forma prática, botas de caminhar ou sapatilhas, calças de ganga e um blusão. Pode ser aquele teu blusão preto. Um lenço ao pescoço é opcional, mas vinha a calhar. Se puderes, nem precisas responder, nem sequer faças perguntas. Se não puderes basta que me respondas «Não posso.» Mais palavras não serão precisas.

É sábado. O Senhor Nolan tem o coração cheio de emoção. Calçou as botas pretas, vestiu a roupa da liberdade, calças de ganga e um blusão de cabedal, colocou o capacete, um outro, suplente, na maleta lateral e dirigiu-se para casa de M. O ar frio fazia-o sentir-se livre, rijo, confiante e o sol entusiasmava-lhe a alma. Nem sequer sabia se ela lá estaria, mas o Senhor Nolan era já um homem feliz.

Quando se aproximou da casa de M, pensou mesmo que ela poderia lá não estar. Não se deteve no pensamento. Era impossível. E era. Há coisas que são como são porque são assim e não de outro modo e tentar explicá-las é rematada loucura. Ela lá estava, no passeio, a figura fina e insegura, o porte gentil e elegante mesmo na ganga. Não o reconheceu. Não o esperava numa moto. Não o esperava com aquele aspeto. Não o esperava. Ele parou junto a ela e só quando tirou o capacete, ela percebeu. Percebeu e sorriu. Ia para falar, mas não o fez. Ele também não. Os dois sabiam conversar sem palavras. Sempre haviam sido bons com o silêncio. O Senhor Nolan estendeu-lhe um capacete, ela sentou-se na moto, ele puxou-lhe os braços e colocou-lhos à volta do seu tronco mostrando-lhe onde se agarrar. Ele, querendo que ela visse o caminho, virou a cabeça para trás e disse:
– Put your head on my shoulder!

Deslizaram durante uma hora e meia, viram a paisagem mudar diversas vezes e conversaram. Sem palavras. Ela encostou-se a ele, sentiu o seu calor, o pulsar do seu peito, agarrou-lhe o tronco e ele sentiu-lhe a força e a vontade de estar ali. Segura a si. E seguiram conversando em silêncio. Chegaram junto do mar onde ele havia estado sozinho. Pararam. Ficaram longos minutos ouvindo o mar em silencio respeitoso, em comunhão. Abraçaram-se, ela encostou a cabeça no ombro dele. Nunca se disse uma palavra. Partiram. Pouco depois ele parou, tirou-lhe o capacete, tirou também o seu e seguiram rolando contra o frio revigorante do vento enquanto o sol alaranjava sobre o oceano. Quando ele decidiu rumar ao interior do território, voltaram a pôr os capacetes. Mais uma hora e meia, sempre conversando, sempre em silêncio. Caíra já a noite cúmplice quando chegaram a casa dela. Não houve palavras nem convites, nem justificações. Ela limitou-se a subir puxando pela mão dele. Fizeram amor puro e intenso toda a noite, em refluxos de entrega e paixão e ausência e presença. Adormeceram dentro um do outro.

No outro dia, quando acordaram, perceberam tudo. Reencontraram todos os motivos, todas as razões e os sentimentos todos. Relembraram o sentido e os sentidos. E foi então que a conversa terminou para que outra pudesse acontecer:
– Bom dia Nolan!
– Bom dia M!
– Amo-te Nolan!
– Amo-te M!

jpv