Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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A Ligeirinha

A Ligeirinha

A ligeirinha
Vagueia pela casa,
Saltita pela cozinha,
Esvoaça borboleteante
Pelo seu quarto de princesinha.

A ligeirinha
Dá beijinhos de borboletinha
E, por mais que se lhe peça,
Não sabe ficar quietinha.
Tem muitas coisas para preparar,
O mundo inteiro para viver.
O seu coração gosta de amar
Cada coisa que precisa de fazer.

E, lá vai vivendo,
Suave e leve,
Por entre as coisas que tem e teve.
E desliza no mundo agreste
Com sua pose elegante e campestre.

jpv


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Gastronomia

Gastronomia

Nunca pensei que pudessem fazer parte do carinho
Um prato de peixe e um copo de vinho.
Nunca pensei que pudesse excitar a pele
Uma finíssima tosta banhada em mel.
Nunca pensei amar em ritmos campestres
Embalado no suave ácido dos frutos silvestres.
Nunca pensei que pudesse ser minha
Uma bailarina saltitando pela cozinha.
Nunca pensei ouvir com êxtase e emoção
O entoar caseiro e melódico de uma canção.
Nunca pensei que nos gestos pequenos e cuidados
Estivesse o profundo segredo dos amantes apaixonados.

jpv


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Not Sex

Not Sex

Quando eu te preencho e tu me ganhas
Não há nessa entrega
Qualquer centelha de invasão,
É um dar que preenche
É um receber em explosão.
E tudo o que se passa está
Para além das palavras que há,
Vive no teu corpo,
Habita meu coração,
E sai de mim
Porque vai para ti,
E há nisto um caminho
E um rosário
Como se o sentido da vida
Andasse ao contrário.
Recebes tu, dou eu.
Recebo eu, dás tu.
E há nesses gestos fantasia,
E atravessa o ar um sorriso de harmonia
Quando eu te preencho e tu me ganhas.

jpv


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Lady Von Trapp

Lady Von Trapp

Estas são algumas das minhas coisas favoritas.

Os teus dedos no meu corpo.
Os teus lábios sabendo a mel.
O teu calor na minha pele.
Estas são algumas das minhas coisas favoritas.
A tua voz ecoando uma canção.
As tuas mãos navegando pela comida.
O calor da tua voz entoando uma canção em francês.
As tuas mãos fechando um frasco de cada vez.

Estas são algumas das minhas coisas favoritas.
O teu olhar sorrindo a vida.
O teu cabelo desalinhado como um sol.
Os teus seios espetados.
As tuas tangerinas pequeninas.
A tua manteiga e o teu pão mole.

Estas são algumas das minhas coisas favoritas.
O teu andar miudinho.
O teu vaguear inquieto pela casa.
A tua dispersão no dar e no receber.
O teu querer fazer-me feliz.
O teu movimento gracioso e sem nexo.
A forma como me ofereces o teu sexo.

Estas são algumas das minhas coisas favoritas.

jpv


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De Negro Vestida – LII

 

De Negro Vestida – XVI

As mulheres gostam de ser mulheres.
Os homens gostam de ser homens.
A vida lá terá as suas variações, contradições e naturais excepções, mas o facto é que costumamos vestir bem a pele que o Senhor nos deu. E há aspectos que admiramos mutuamente no sexo complementar que oposto não é. E há até algumas circunstâncias que são particularmente cativantes de acordo com os tempos usos e costumes. São modas. Hoje em dia, por exemplo, as mulheres, que apreciam um físico masculino em boa forma, deixam-se cativar mais facilmente por um homem que passeie um cão pelas ruas ou que se faça acompanhar de uma criança prestando-lhe cuidados e atenção.

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O Romance “De Negro Vestida” foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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Sete Pecados

Sete Pecados

Deixai-nos, Senhor, pecar com inocência,
Que faz falta à vida
O risco do pecado
Em consciência.
Perdoai-nos, Senhor,
Pela Gula constante do Amor.
Perdoai-nos, Senhor,
Pela Avareza constante da paixão.
Perdoai-nos, Senhor,
Pela constante Inveja de quem ama em paz.
Perdoai-nos, Senhor,
Pela Ira desse amor não ser capaz.
Perdoai-nos, Senhor,
Pela Soberba deste soberbo amor.
Perdoai-nos, Senhor,
Pela Luxúria de acarinhar os necessitados.
Perdoai-nos, Senhor,
Pela Preguiça de não cometer todos os dias estes sete pecados.

jpv


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O Clã do Comboio – Trim, triiim, triiiiiiiiiim…

Trim, triiim, triiiiiiiiiim…
Há dias que nascem agitados até mesmo no seio de um clã semi-adormecido e com os rituais muito incorporados.
Um dia destes, parecia que andava o diabo à solta no interregional das 7:18h. Mas não um diabo qualquer. Era o diabo dos ruídos incomodativos.
Já na estação me pareceu que havia certo alvoroço no ar, pouco costumeiro. Pensei, Assim que o comboio arrancar, começa tudo a dormir e é um descanso. É o começas. Vamos por partes.
Primeiro sentou-se um moço à minha frente com música nos ouvidos. Acontece que tinha um daqueles auriculares que, além de empurrarem a música para dentro, também a explodem para fora em forma de ruído impreciso. Acresce ainda que se tratava de um moço generoso que não queria a sua frenética batida só para si. Vai daí, coloca a coisa no máximo do volume e, que eu reparasse, nove pessoas deitaram-lhe olhares acusadores. E o moço nada! Até que alguém lhe tocou no ombro e disse:
– Olha, importas-te de baixar o som?
O tipo não ouviu. O outro falou mais alto e alterou ligeiramente a frase:
– Baixa o som!
Pensámos que a coisa ia tranquilizar. Não tranquilizou.
Duas filas mais atrás, toca um telefone. Triim, triiiim… Que eu contasse, tocou aí umas cinco vezes. A dona dele atendeu e falou baixinho. Nisto, o tipo que tinha mandado baixar o som ao outro começou a emitir um ruído polifónico do bolso do casaco:
– Estou?!
Falou baixinho mas não se livrou da vergonhaça. Ainda agora tinha mandado calar o outro e já não deixava ninguém dormir. Depois, tocaram mais três telemóveis e quando chegámos a Vila Franca de Xira, o ambiente acalmou e o pessoal pensou que embora só faltasse um terço da viagem, poderíamos finalmente descansar um pouco. E foi aí que se deu o episódio que acabou por motivar este texto. Ao fundo da carruagem viajava uma alma que dormia profundamente com música nos ouvidos e por essas duas razões não ouvia nada. Ora, por cima dela, tinha colocado uma mochila que, entre outras coisas, levava um telemóvel estridente no máximo do volume. O desgraçado tocou, tocou, tocou… E a senhora adormecida com a música nos ouvidos nem pestanejava. Quando alguém conseguiu perceber o esquema, ou seja, de onde vinha o som, de quem seria mochila, acordou a mulher que atendeu o telefone. Guardou-o no bolso do casaco e recolocou a mochila na prateleira por cima da cabeça. A malta das 7:18 pensou que ia descansar uns minutinhos. Enganou-se. Um som igualmente estridente mas diferente do anterior ecoou na carruagem e ninguém parecia querer atender aquele também. O pessoal olhava, olhava, o som parecia vir do mesmo sítio mas a senhora já tinha de lá tirado o telemóvel e ainda por cima aquele não era o toque dela. Quando já ninguém conseguia disfarçar a má disposição, ela olhou em volta, viu as caras zangadas dos companheiros de viagem, tirou a música dos ouvidos, apercebeu-se do som, foi à mochila, tirou de lá outro telemóvel, atendeu e foi a conversar até Lisboa numa voz audível em toda a carruagem. Deu instruções para o almoço, para o jantar, disse o que ia fazer a Lisboa, combinou quem ia buscar as crianças e falou muito do seu trabalho e do seu marido. Se bem me lembro, comentários pouco simpáticos.
Quando chegámos a Lisboa, as olheiras eram mais que muitas e os passageiros regulares do interregional das 7:18h. não sabiam bem se haviam de rir ou chorar. Para catarse colectiva, houve um que, ao sair, ainda exclamou:
– Este pessoal deixa os telemóveis ligados e não os atende. É uma falta de respeito.
Era o tipo que tinha mandado baixar o som ao outro quando julgávamos que esse era o maior dos nossos problemas.


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O Clã do Comboio – A Mulher Vampiro Ataca de Novo

A Mulher Vampiro Ataca de Novo.

A mulher vampiro hoje sorriu-me! Tem um sorriso bonito.

Mas, antes de sabermos como e porquê, vamos lá a perceber porque é que este texto tem no título a expressão “Ataca de Novo”. Ela não ataca nada. Só quer que a deixem dormir a viagem. Mas como quem faz os títulos das crónicas sou eu e como ia escrever de novo sobre ela, escolhi este porque me apeteceu.
A verdade é que tenho mais pormenores dela. Faltou à minha descrição anterior dizer que também as suas mãos são alvíssimas e que tem as unhas impecavelmente pintadas de negro. Faltou dizer que ouve música toda a viagem com uns phones brancos que contrastam com o negro da indumentária. E faltou dizer que dorme toda a viagem, que viaja sempre no mesmo banco. Não me perguntem como é que consegue apanhá-lo vago, mas o certo é que consegue. Acorda sempre no mesmo local, levanta-se, compõe-se e vai à sua vida.
Esta semana, contudo, foi semana de mudanças profundas. Abandonou o negro. Veste toda de cinzento. Quer dizer, quase toda. Calças de fazenda cinzentas e um enorme casaco de fazenda num xadrez miudinho castanho-escuro e branco. Um lenço farto a sair-lhe do casaco num tom castanho-clarinho seco muito suave e o calçado, botas, no mesmo tom. Esta roupa não é tão monocromática como a anterior mas cria a sensação de estar toda de cinza. E depois, claro, emerge aquela labareda laranja que é o seu cabelo. Continua a qualificar para vampiro do século XXI.
Hoje, três tipos simpáticos que costumam ir a meio da carruagem a discutir como é que lavam os carros ao fim-de-semana e despejam o lixo à noite, foram lá para trás. Ficaram ao pé dela. E conversavam abundantemente com o seu usual entusiasmo de tipos que passeiam o cão. E é precisamente essa conversa que não a deixa dormir. Ela forçou. Fechou os olhos e tentou, mas eles agora iam a falar de marcas de pneus e não dava mesmo para ela dormir. Eu estava a olhar para ela, tirava-lhe a pinta à nova roupa para escrever este texto, quando ela abriu os olhos com cara de poucos amigos, olhou para eles, encolheu os ombros como quem diz, Nada a fazer, e depois olhou na minha direcção e sorriu. Um sorriso “Já me topaste”. Eu sorri de volta encolhendo os ombros a dizer-lhe sem palavras, Hoje não se dorme. Ela confirmou com o olhar, sacou de uma revista e foi ler. Eu vim escrever. E os três amigos continuaram a salvar o mundo. Alto e bom som.


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O Clã do Comboio – Curta e Grossa

Curta e Grossa
Nunca me tinha acontecido. Foi desta. Alguma havia de ser a primeira.
Dia intenso e cansativo. Comboio de regresso tardio. Frio na rua. O ar condicionado lá dentro aqueceu o corpo e a alma. Adormeci.
–
Quando acordei, o painel do comboio anunciava “Próxima estação: Lamarosa”.
Como a Lamarosa é depois do Entroncamento onde é suposto eu sair, pensei, “Esta treta destes comboios andam todos desregulados.”
Reparei entretanto que o comboio tinha muito pouca gente. Perguntei a uma senhora, “Já passámos o Entroncamento?”. Ela não gostou de ser interrompida no seu meio sono e respondeu curta e grossa:
——– Já!


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Esclarecimento

Antes de mais, muito obrigado a todos os leitores pela atenção que dispensam a este cantinho. A nossa família continua a crescer.

Uma avaria no meu portátil, impediu que mantivesse o ritmo de publicações nos últimos dois dias. Mas fiquem descansados. Há muitas histórias do “Clã do Comboio” e já há mais 20 capítulos de “De Negro Vestida”.

Continuarão as citações, tão apreciadas que estão a ser e, claro, uma musiquinha para distrair…

Abraço Grande,

JP