Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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De Negro Vestida – LIII

 

De Negro Vestida – XVII

Vivemos nós, quer queiramos, quer não, e sem teoria que comprove o contrário, na mais absoluta umbilicalidade. E nem há nisto falta de vontade de conhecer o outro ou de ser solidário com ele. Deve-se, simplesmente, ao facto de, para estarmos neste mundo, termos uma existência e a ela vivermos agarrados e dela fazermos depender a perspectiva que vamos tendo do que nos rodeia.

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O Romance “De Negro Vestida” foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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1-1-11

Pois, não é sempre que pode escrever-se uma data com esta curiosidade: 1-1-11.
Será que vamos ter um ano fundador, iniciático em qualquer plano? Nos planos todos?
Independentemente disso, a Natureza brindou 2011 com águas abundantes e transbordantes. Combinou-se com isso, o facto do meu Bronco permitir passeios pouco usuais uma vez que passa por quase todo e qualquer terreno. Juntamos uma companhia familiar agradável e temos uma manhã do primeiro dia do ano com alguma emoção e diversão.
Como já disse noutras alturas, não é preciso muito para usufruir das coisas mais fantásticas do mundo. A mãe Natureza fornece-as gratuitamente.
Votos de um bom ano. Pleno de realizações. Com riscos, ganhos e perdas que são o sal da vida.
JP


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Feu

Feu

Ardia forte e em rubor
E trazia nesse arder
Mais coisas do que calor.
Era um chamamento
De gentes rurais e antigas,
Um aquecimento de velhos,
De rapazes e raparigas.
E pouco se ouvia falar
Que ficavam enfeitiçadas as gentes
Pela conversa do crepitar.
Em silêncio.
Um respeito mudo por aquele poder
De aquecer em plena praça
Qualquer alma errante que passa.
E as gentes vieram chegando
Em ritmo lento e venerado
Como se estivessem orando
À coragem de Prometeu Agrilhoado.
E pairou ali uma nuvem ancestral,
Uma história de contorno imperfeito,
Uma dança e um ritual
Com homens, fogo e respeito.

jpv


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Scrabble

Scrabble

Sim
Não
Amor
Razão
Tudo
Nada

Eu
Tu
Ela
Porta
Parede
Janela

Alvorada
Poente
Saúde
Doente
Magia
Esforço
Parto
Torço

Aventura
Segurança
Loucura
Constança
Óptimo
Bom
Melodia
Tom
Harmonia
Tensão
Amor
Razão
Sim
Não

Já dei uma volta ao coração
E falta-me no tabuleiro da razão
Uma peça do jogo da emoção.

jpv


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Feliz 2011

A todos os leitores e amigos, votos de um excelente 2011.
Que se concretizem todos os sonhos.
JP


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Ouvido de passagem

“Vá, quando der, vamos revolucionar Lisboa!”


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Made in China

Made in China

Era uma montanha
Com casario serpenteando a colina.
Era o breu da noite
Cortado por uma luz feita na China.

E não havia gente
Que a gente estava dormindo,
E cortava o frio constante
A luminosa estrela cintilante.

E senti naquilo um prenúncio,
Um aviso de um povo distante,
Um luminoso anúncio
De uma combinação intrigante.

Lá longe, onde se não ouve a Sua palavra,
Há um menino que produz
Esta luz psicadélica e brilhante
Que anuncia a chegada de Jesus.

jpv


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Morte d’Alma

Morte d’Alma

Ninguém percebeu.
Ninguém viu.
Ninguém suspeitou.
Qualquer coisa se partiu.
Algo em minh’alma se quebrou.

Foi uma coisa despercebida
Que fez um estrondo só meu.
Foi um lenço branco de despedida
Na mão de uma donzela que morreu.

E o navio já lá vai,
Eu lá com ele,
Eu cá comigo.
E pergunto a meu defunto pai
Qual é da vida o maior perigo.

E responde-me com palavras doces e suaves:
“Filho, arrepende-te do que fizeres,
Não queiras arrepender-te do que não fazes.
Procura no peito o que quiseres
E segue-o com gestos ousados e audazes.”

Morreu algo em minh’alma
E, no meio da turba, sinto chegar a calma.

jpv


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Alvorada

Alvorada

Vós, na cama deitados,
Não tendes como saber
Que anda no céu uma nota de alegria.
Junto às sete e trinta,
A luz faz uma finta
Ao breu
E já se vê o dia.
Anda o Sol às voltas
Com as voltas da Terra
E banha-a de mansinho,
E meu visual sentido não erra
Porque se corta a noite devagarinho.
E espraia-se a alvorada,
E isto é tudo
mesmo parecendo nada.
Há luz e vida
Nesta revolta.
Há um anunciar
De Liberdade.
Há almas vivas à solta.
E neste sentido
Que me conduz
Minh’alma nasce para a vida
Para a esperança e para a luz.

jpv


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O Clã do Comboio – Julieta, porque é que não fazemos amor?

Julieta, porque é que não fazemos amor?
Não é possível ninguém dizer com rigor qual é a sua canção preferida ou a sua música preferida. Quando nos fazem esse tipo de pergunta, em vez de dizermos uma, respondemos com uma imensa listagem. E isso é normal. Dependendo do momento que estamos a viver e da nossa disposição, referimos temas mais tranquilos ou mais exuberantes, géneros mais clássicos ou mais revolucionários. E acontece isto porque a música é uma expressão da nossa alma.
Há, no entanto, um critério que restringe um bocadinho as nossas preferências. É o das músicas e/ou canções que nos marcaram.

Tinha eu 17 anos, estava no auge dos amores, dos sentimentos arrebatados, das paixões, das descobertas, das leituras marcantes, das mulheres para além das roupas, das tristezas profundas, dos desgostos de amor, das saídas à noite, das amizades para sempre, das ideias, dos planos para mudar o mundo, das escolhas que iriam afectar a minha vida para sempre, das borbulhas na cara, das causas e da ideia de que algo no Universo seria diferente por minha causa, quando um amigo me estendeu um par de cassetes e disse:
– Toma, vendo-tas baratas. Isto é do melhor que há. Ouve um bocadinho.
Corri a um gravador e ouvi. Ouvi e apaixonei-me. Aquilo era diferente daquele som tecno e formatado que inundava os anos oitenta. Aquilo era genuíno. Tinha poucas palavras, mas os instrumentos, sobretudo a guitarra, pareciam falar. E aquilo soava como se tivesse uma história e acordava em mim coisas boas. Comprei-as. Era um álbum todo gravado num concerto o que quer dizer que, além da música, eu ouvia a multidão exultante e a sua interacção com os músicos. Aquela música marcou-me de tal forma que nunca mais a deixei de ouvir. As cassetes passaram tantas vezes que acabaram por, literalmente, gastar-se. Mais tarde comprei o vinil e depois, quando surgiu a tecnologia digital, acabei por comprar os CDs que entretanto estão riscados de tanto uso. Ouço-os em casa, no carro, no computador, onde quer que esteja e possa. Depois, quando o vídeo se tornou mais portátil e de melhor qualidade ofereceram-me o DVD do concerto. E mais recentemente com o surgimento dos sistemas de armazenamento de massa, vulgo pen drive, leitores mp3 e mp4, arranjei o ficheiro com o concerto coloquei-o no meu leitor mp3 e volvidos 26 anos continuo a ouvir esta música como se fosse a primeira vez e de cada vez que a oiço sinto esperança e força e fé e volto a querer mudar o mundo e a fazer coisas geniais e a fazer a diferença e a tocar o Universo de bondade. É a minha música da manhã, da tarde, da noite, do levantar e do deitar. É a minha música de rir e de chorar, de pensar e de reflectir e também de brincar.

O colega que me vendeu as cassetes chamava-se José Sioga, morreu dois meses mais tarde num acidente de automóvel, mas deixou-me esta herança de vida. E eu fui ser feliz, fui namorar, fui casar, fui ter um filho e criá-lo, fui tirar um curso, fui ser professor, fui ser outras coisas, fui fazer um mestrado, fui ver a minha irmã crescer, fui ver o meu pai morrer, fui ver o meu filho fazer-se homem, fui celebrar-lhe os aniversários, fui marcar as férias com a minha mulher, fui construir uma casa, fui traçar um caminho de vida e sempre, mesmo sempre, em momentos de exultação e acabrunhamento, o meu som de fundo esteve lá a acompanhar-me, a ajudar-me a fazer de mim o homem que sou.

Ia aqui no interregional das 7:18, com seis ou sete pessoas à minha volta com música nos ouvidos, e ia a pensar o que é que estariam a ouvir e porquê. E, de repente, pensei nas minhas próprias motivações e na minha própria música e, como tantas vezes na minha vida, escrevi ao som dela. Só que, desta vez, escrevi também sobre ela…

Este Natal quis homenagear o jovem que me apresentou esta música e faleceu tragicamente dois meses depois. Faleceu mas continuou vivo. É que o simples facto de me ter apresentado o concerto “Alchemy Live” dos Dire Straits mudou por completo a minha existência. Não sei como teria sido a minha vida, mas sei, com a certeza do meu crer, que teria sido algo completamente diferente, infinitamente mais pobre.
E queria homenagear o Mark Knopfler e os Dire Straits por me terem transmitido essa energia e essa força e por terem sido o meu canal de contacto e comunicação com a Divindade ao longo dos últimos 26 anos.

Eu não sei o que é que os outros passageiros do interregional das 7:18 vão a ouvir, embora sinta essa curiosidade. Eu cá vou escrevendo enquanto a guitarra chora, suave e doce, e o Mark entoa:
– Juliet, why don’t we make love?