Author Archives: mailsparaaminhairma
Crise? Mas qual Crise?!
Aleixo

Aleixo
Gosto de ver-te assim,
Entregue a nada
Abandonada a mim.
Fica desenhado
Nesse teu desleixo
O ar apaixonado
Duma quadra do Aleixo.
És mulher e menina
E tens nessa figura fina
Tudo o que me encanta.
Tudo o que me surpreende
E espanta!
jpv
Pormenores

Pormenores
Não é em ti que penso
Mas nos teus gestos,
Não é a tua figura fina
Que rememoro,
Mas as posições que te apanho
Na distracção dos dias.
Aquele olhar que fazes quando pensas,
A forma como franzes a testa
Quando procuras
O que não encontras.
As meias que vestes
Nas pernas nuas,
O corpo abandonado ao sono
Após as carícias.
E são estas as delícias
Que levo da vida.
Outras não quero.
É aquela ponta de cabelo
Por apanhar.
Aquele teu ar
Desentendido
Que transpira um amor sentido.
Não é o quadro geral
Da tua formosa figura
Que ando à procura.
São os detalhes,
Aquelas expressões
Que não preparas.
Aquelas imagens raras
De ti
Que vivem em mim
E me alimentam…
Este amor sozinho e louco
Que sendo já tanto
Me sabe sempre
A tão pouco.
Não é a pessoa
Partilhada e pública
Que recordo.
É a amante exclusiva e privada
De dar-me a vida a conhecer,
Um amor inteiro a amar.
E vive nestes pormenores
À sombra de coisas maiores
O que realmente interessa nesta passagem.
A vida vivida,
E sentida,
A única que faz parecer eterna
A efémera viagem.
jpv
Curioso Exercício
O Clã do Comboio – O RB Fez Anos
O Mundo das Palavras

O Mundo das Palavras
Não sou desta vida.
Não conheço estas palavras.
Não tenho estes juízos.
Não são minhas
Estas determinações.
Não vivo nestas ideias
Nem navego estas ilusões.
Há na minha vida
Uma vida que não é minha.
E sei que vive algures
Uma vida que não sabia que tinha.
Não cresce em mim
Esse mundo que construíste,
Não chega a ter fim
Porque não conheço o que sentiste.
Minha vida é um terreno árido,
Seco, estéril e abandonado.
E tudo o que falta neste deserto
Vive em verdejante e longínquo prado.
Queria tanto,
Queria mesmo tanto
Que não sofresses.
Queria que percebesses
Que não és tu.
São as palavras,
As que digo e te não tocam,
As que dizes e me não importam.
São só as palavras
E as palavras são um mundo
Onde se esconde este sentir profundo
Que vive adormecido.
Faltam-lhe só as palavras
Para acordar e ser vivido.
jpv
Correcção
Histórias do Autocarro 28 – ‘Tá Bué da Cheio

‘Tá Bué da Cheio
8:50h. Espero o 28 no Cais do Sodré. Demora-se. Entretanto, chega o eléctrico 15. Duas moças com menos de 20 anos esperam que ele pare. Depois, quando está imóvel, pressionam o botão para abrir as portas que deslizam para os lados e vê-se que vem cheio. Lá dentro há pessoas até ao limiar da porta. Uma das moças, desistindo de entrar, diz para a outra:
– ‘Tá bué da cheio.
Ambas se afastam um pouco. Nesse preciso momento chegam duas pessoas a correr, sobem para o eléctrico e empurram quem lá está dentro. Há quem reclame, mas elas não querem saber. As raparigas hesitam. Não entram. Chegam mais duas pessoas, fazem exactamente o mesmo, saltam e empurram. Elas olham uma para a outra. Hesitam. Ficam onde estão. Chegam mais duas pessoas, saltam lá para dentro e empurram. Elas olham uma para a outra e sorriem. Depois de terem desistido, ainda entraram 6 pessoas ali mesmo à frente delas. As portas fecham-se com custo, o eléctrico 15 arranca. Elas voltam a olhar-se e a que tinha estado calada remata como quem se conforma:
– ‘Tava bué da cheio!
jpv
Dreamer
No voice left in my throat:
For you have guessed how I have been
And hit the spot of my thought!
You have guessed : I am a dreamer!
One of those not really living
Often caught and made thinner
By the odds of her own being
Not really here, not really gone
I leave in my dreams, and so what?
Be sure, I know, I’m the only one
But I sometimes let you see that!
Thoughts and dreams live in me
As ambition or sorrow live in others
I’m proud of it, why shouldn’t I be?
Why hide it, who really bothers?





