Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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A DÚVIDA – CAPÍTULO II

A DÚVIDA
CAPÍTULO II

O meu carro é a casa dos meus pensamentos, uma espécie de incubadora onde eles nascem antes mesmo de eu perceber as consequências do que pensei. É ótimo rolar na estrada e pensar sem ninguém por perto, sem uma voz a incomodar-me, sem uma voz a interromper-me. O meu carro é uma ilha. A minha ilha de pensar.

A minha mulher anda diferente. Não sei o que é que se passa com aquela gaja, mas não é coisa boa. Anda triste. Ignoro o que possa ser, mas uma coisa eu sei, não é a mesma mulher de há oito anos. Falta-lhe alegria, o brilho no olhar. É normal que se instale alguma rotina num casamento e que daí advenha certa tristeza, mas isto é diferente. Parece-me preocupada, alheada deste mundo. Pressinto que tem algo para dizer-me, mas não sei se quero perguntar-lhe. Na volta quer-se ir embora e isso não quero eu que aconteça… Acho!

O problema é que não sei mais o que fazer. Já trabalho tanto! Ganho bem. Providencio-lhe tudo o que precisa… Acho que tínhamos todas as condições para ser felizes, mas há sempre aquela insatisfação, aquele querer mais… que me obriga a trabalhar mais, o que a leva a queixar-se de que não estou presente.

Mas não sei se será disso que se trata. A verdade é que,  sendo honesto comigo mesmo, aquilo de que não tenho gostado nada é da proximidade do meu cunhado. O tipo não descola. Sempre a compreendê-la, sempre a dar-lhe razão em tudo, a pôr-se do lado dela. Será possível que ela esteja interessada nele? Huumm… Acho que não, quer dizer, nem sei, já não sei o que pensar. A verdade é que ela prefere conversar com o cunhado do que a própria irmã. Ainda bem que tive aquela conversa com a minha cunhada. Fiquei a saber coisas interessantes sobre a minha mulher. Deu-me um diário dela, enfim, é mais um livro de pensamentos, quando era adolescente. É um miminho. Tenho de o ler com atenção. Bem, quase a chegar ao trabalho, a minha secretaria à espera. Bem simpática! Bem gira! Gira é pouco. Ela é boa! Também, o que é que eu ia fazer? Não a contratava por ser bonita? Isso era discriminação ao contrário. A minha mulher é que não gostou da ideia… Enfim, deixa-me concentrar no trabalho…

jpv


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ErotiKa – Eduardo

AVISO
Esta publicação contém um texto de teor erótico. Se se sente ofendido com textos, imagens ou quaisquer conteúdos sobre erotismo e sexualidade por favor não prossiga.
Do mesmo modo, o conteúdo desta publicação só pode ser acedido por pessoas maiores de 18 anos.
Assim, caso prossiga com a leitura, o utilizador fá-lo por vontade própria e assume ter idade para aceder aos conteúdos.
Obrigado
jpv
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Eduardo

Há quem defenda, e eu aceito, pelo menos em parte, a teoria de que o erotismo e o sexo estão, antes de mais, na cabeça.

A história que vai contar-se não pretende provar a teoria, será tão-só um reflexo dela. Quanto ao resto, caberá a cada um de vós fazer as projeções, regressivas ou progressivas, consoante os casos.

O casal é jovem. Sendo jovem, não é recém-casado. São pessoas nos seus trinta e poucos anos que levam sete de casamento. Eu não acredito na teoria da crise dos sete anos pelo que, infiro, será coincidência o facto de viver este casal uma profunda crise de cansaço matrimonial. Deixaram de sair juntos, deixaram de tolerar-se as pequenas falhas, discutem exaltados com frequência desaconselhável e, não menos importante que tudo isto, não fazem amor. E quando fazem, é maquinal, como quem cumpre um ritual que outrora foi um jogo de sedução e desejo.

Quando o dia nasceu, ele jamais imaginara o que iria passar-se num período tão curto de tempo. Um simples dia. Tinha agendada uma reunião que duraria exatamente um dia de trabalho. E durou. E foi cansativa. E houve momentos que lhe correram bem e outros houve de que não gostou tanto. Trocou palavras de circunstância ao almoço, apresentou projetos, debateu, discutiu, concluiu e, quando tudo terminou, quando já só se ouviam as vozes espaçadas dos últimos a abandonar a sala, ela aproximou-se. Era uma mulher baixa, de olhar azul e brilhante a enfeitar a face redonda. Tinha o cabelo farto e encaracolado e a passada pequena, mas determinada. Estava habituado ao caráter resoluto dela, mas também à distância que, até então, tinham mantido sem saberem porquê. E, talvez por isso, as palavras dela surpreenderam-no:
– Ouve lá, tu não achas que um tipo inteligente como tu merece ir para a cama com uma mulher bem resolvida como eu?
– Não sei… não te estarás a precipitar?
– Porquê? Vais terminar o dia voltando para a tua mulherzinha?
– É uma opção. Tu não vais voltar para o teu maridinho?
– Depende de ti!

Irrompem pelo quarto do hotel com gestos sôfregos e apressados. Mais tarde nem sequer saberão como é que o sutiã dela ficou pendurado no candeeiro e as cuecas dele foram parar acima da televisão. É como uma batalha. Os corpos entregam-se e exigem-se. Ele abre-lhe a blusa e mergulha nos seios dela. Ela desaperta-lhe o cinto das calças. Ele enfia-lhe uma mão por baixo da saia, percebe que ela usa uma lingerie diminuta, dá-lhe um puxão, mas as cuecas não cedem, ela diz, És um maricas!, ele puxa de novo e fica com elas na mão, projeta-a para cima da cama e invade-lhe o sexo com a boca ávida, ela empurra-lhe a cabeça como se quisesse devorá-lo por ali, ele percorre-lhe o corpo com a língua até lhe beijar a boca ansiosa e nesse momento penetra-a com vigor, ela crava-lhe as unhas nas nádegas e arranha-o, ele grita num misto de dor e prazer. A batalha das carícias sensuais continua até tombarem exaustos para o lado:
-Gostaste?
– Estás louca? Foi a foda do século!

José Carlos entra em casa e tenta fazê-lo com a maior naturalidade possível. Ao sair do hotel, tentou desligar da mente aquele fim de tarde tórrido e estonteante para assumir de novo o papel do marido tranquilo e previsível. Entrou. Beijou a esposa, como sempre, de forma fria e rotineira, dirigiu-se à casa-de-banho, lavou-se e preparou-se para o jantar. Quando chegou à sala, as luzes estavam apagadas, havia velas espalhadas pelos móveis projetando sombras trémulas, a mesa tinha dois pratos, dois copos de champanhe e uma garrafa num balde de gelo. A sua mulher tinha um avental de empregada que mal escondia a lingerie sexy:
– Hoje quero dar ao meu maridinho tudo o que ele merece… tudinho…

Vários pensamentos lhe ocorreram, várias hipóteses de atuação, uma delas, a mais viável, seria mostrar-se surpreendido, dizer que estava cansado e recusar o que lhe parecia ser um convite. Não é que estivesse descansado, pelo contrário, tinha o corpo exausto do trabalho e do sexo ardente com a colega, mas naquele momento dois pensamentos lhe assaltaram a mente. Em primeiro lugar, sabia que sentiria a consciência pesada se negasse à sua própria mulher o que acabara de dar a uma colega de trabalho para com quem não tinha qualquer obrigação. O que quer que fizesse fora de casa, fossem quais fossem os seus pecados e as suas sacanices, eles não podiam refletir-se em casa. Era uma regra que tinha para si e há muito respeitava. Em segundo lugar, acabara de fazer com a colega umas coisas inusitadas que não se importaria de repetir com a mulher, quem sabe se ela até alinharia nos jogos. Afinal de contas, toda esta encenação do jantar romântico era tão improvável e inesperada, porque não tentar ir um pouco mais longe?

Coloca-lhe as mãos sob o avental, segura-lhe as nádegas, senta-a na mesa, derrubam os copos, mas essa loiça, hoje, era mesmo para partir!

Os dias e as semanas têm corrido bem a José Carlos. São um caos total, mas entusiasmante. Divide as forças entre o trabalho, os encontros fortuitos com a amante e o surpreendente e efusivo sexo com a sua mulher. Nem parece a mesma. Ele começa a acreditar naquela teoria marialva de que um caso extra-conjugal pode apimentar ou mesmo ressuscitar um casamento desinteressante e condenado. Está convencido de que as suas escapadelas trazem outra vida à cama conjugal e isso, por sua vez, se reflete no quotidiano. Ele anda mais meigo com a mulher e ela com ele, retomaram certas carícias e atenciosidades, há um novo carinho e uma harmonia reconquistada.

José Carlos está certo no seu raciocínio. Só ainda não viu o quadro todo, mas vai vê-lo em breve.

Chega a casa. A mulher espera-o no quarto com uma túnica branca semi-transparente e roupa interior rendada e da mesma cor. Põe-lhe as mãos no peito e beija-o demoradamente enquanto lhe desaperta as calças. Quando elas caem, também ela desce para o acariciar com os lábios humedecidos, depois volta a pôr-se de pé e beija-o de novo. Pouco depois estão em perfeito frenesim entregando-se com sensualidade um ao outro. Satisfazem os corpos e ficam deitados e enroscados por longos minutos. Ele levanta-se, nu, para ir à casa-de-banho, dá dois passos e ouve a voz dela em tom admirado:
– Que arranhões são esses no rabo, José Carlos?
Ele gelou. Agora que as coisas estavam a correr tão bem, um pormenor iria deitar tudo a perder. Sabia que não havia resposta que a satisfizesse, não havia mentira credível para aquela situação, ela iria sentir-se enganada, zangar-se, gritar, iniciar uma discussão violenta e tudo voltaria ao inferno de uns meses atrás. Virou-se lentamente para ela e foi surpreendido porque ela já não estava na cama. Estava mesmo junto a ele. Quando o apanhou virado para si, segurou-lhe o sexo com a mão esquerda e começou a massajar-lho enquanto, com a direita, lhe percorria os arranhões nas nádegas:
– Com que então o meu maridinho gosta de ser arranhado?! Sussurrou-lhe ao ouvido. Segura-lhe o pénis com mais firmeza, puxa-o para si, dá dois passos para trás na direção da cama enquanto o beija e o deixa tombar sobre si. As mãos dele procuram-lhe os seios e acariciam-lhos, cai sobre ela e beija-lhe os mamilos, ela coloca-lhe as mãos na nuca e pede, Vem! Faz-me tua! ele penetra-a com ternura e inicia um movimento ritmado e certo, beija-a no pescoço, ficam entregando-se mutuamente, a excitação cresce e quando estão perto do êxtase, ela crava-lhe as unhas no rabo, arranha-o e diz com excitação, perdendo o controlo dos gestos e das palavras na loucura do momento:
– Vem, meu amor, faz-me tua! Vem, Eduardo, vem! Possui-me, meu amor, sim… sim… sim…
Ele espeta os olhos arregalados na parede e pensa:
– Eu não me chamo Eduardo, porra!

jpv


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A DÚVIDA – CAPÍTULO I



Caros leitores,

Dulce Morais acabou de publicar o Capítulo I de “A Dúvida” no Crazy 40 Blog.

Cabe-nos agora continuar a história, o que faremos em breve.


Boas leituras!
jpv


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ESCRITA A DUAS MÃOS

ESCRITA A DUAS MÃOS
APRESENTAÇÃO

Numa parceria pouco usual, os blogues Mails Para a Minha Irmã e Crazy 40 Blog vão publicar uma história partilhada.

Dulce Morais e João Paulo Videira vão escrever “A Dúvida” e publicar alternadamente os 12 capítulos da história nos seus blogues.

A ideia é contarmos uma história com a perspetiva masculina e feminina não só das relações humanas, mas também do próprio ato criativo.

Sempre que um capítulo for publicado num dos blogues, o outro blogue apresentará um link para o mesmo. Desta forma, os leitores não perderão pitadinha da história independentemente de qual seja o blogue que sigam com mais regularidade.

Dulce Morais publicará o primeiro dos 12 capítulos e João Paulo Videira fará o encerramento daqui a algumas semanas.

Desejamos-vos boas leituras.
Divirtam-se!

Dulce Morais
João Paulo Videira


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Pequenos Milagres – O Anjo

O Anjo

Fazendo fé nos contadores de histórias, menosprezados ao longo dos milénios, mas também amados, mormente por serem sopro de muita vida, inspiração de muitas, grandes e nobres ações, e fazendo fé, também, no livro dos livros, entre nós ocidentais, de Bíblia chamado, esteve Jesus 40 dias no deserto. Aí sofreu, contam, e aí defrontou os demónios que o apoquentavam, os exteriores e os interiores, e daí saiu fortalecido.

Esta história é também sobre 40 desses dias milagreiros que mudam a perspetiva das pessoas, lhes iluminam os caminhos a seguir e as fortalecem para todas as provas.

Já parece não ser tão consensual entre a tão digna classe de conta as histórias e, sobretudo, entre seus ilustres ouvidores, a data em que terá nascido o menino, Jesus chamado, esse menino que haveria de andar perdido pelo calor das desérticas areias durante os 40 dias já aqui mencionados. Por isso mesmo divergem as teorias sobre a localização cronológica do Natal. Como se fosse necessário posicionar o que pela sua própria natureza posicionado está. É Natal porque nasceu o menino e, celebre-se quando se celebrar, sempre que o nascimento de Jesus se celebre, Natal há de ser.

O povo, em seu salomónico juízo, remata a querela com um “Natal é quando um homem quiser” e o facto é que não é por ser popular  empírica que a teoria está menos certa. Isto para dizer que, quando Lucy entrou em coma, era Natal. Fosse porque os supermercados assim o anunciassem, fosse porque os Cristãos estavam em véspera de festejar a data, fosse porque para Lucy chegara o tempo de celebrar as coisas boas, a alegria, os sorrisos e a esperança, a árvore enfeitada e os presentes debaixo dela. Ora, para enfeitar-se a árvore, necessário será, antes de tudo o resto, que haja árvore. E esta manhã, ainda com a luz a despontar fraca ao longe, Lucy saiu de casa com o pai para ir buscá-la, a árvore a enfeitar. Gorros na cabeça, luvas nas mãos, casacos quentes por cima de camadas sucessivas de roupa e aí vão eles armados de sorrisos, esperança, um machado e uma motosserra. A carrinha desliza entusiasmada e célere enquanto no auto-rádio nasce uma voz melodiosa entoando “Rudolph Red Nose”. Pai e filha perseguem a canção enquanto o espectro amarelecido dos faróis se projeta no chão que desaparece das suas vistas sob a carrinha.

E, seja Natal ou não, a vida continua a realizar-se e a acontecer e o cãozito vadio, enregelado e famélico que agora se atravessa à frente de Lucy e do pai poderia ter continuado pela berma da estrada, poderia ter mergulhado na floresta circundante, mas não o fez. Sentiu o apelo do outro lado da sua vida e atravessou a estrada indiferente ao movimento dos veículos. O pai, num impulso de vida e proteção, desviou-se, tentou retornar à sua faixa de rodagem, a carrinha não obedeceu e, no contra-movimento, capotou e rodou sobre si mesma até estacar na faixa contrária com as quatro rodas olhando o céu.

Gabriel Saint está de folga e dorme profundamente. Na empresa onde trabalha e na comunidade de camionistas de longo curso, Gabriel tem uma alcunha como todos os outros. A sua é “The Angel”. A combinação do nome próprio com o apelido era, como diziam os colegas, demasiada santidade num tipo só. Claro que a alcunha lhe custou algumas brincadeiras de mau gosto em torno da sua orientação sexual, que é como quem diz, chamavam-lhe amaricado. Gabriel Saint superou tudo isso e um dia, como todos os outros camionistas, mandou fazer uma chapa de matrícula com a sua alcunha, “The Angel”, e colou-a no interior do parabrisas. Então, as brincadeiras mudaram e começou a ouvir-se, quando ele se aproximava com o enorme veículo, Deixem passar o anjo…

O telefone tocou. Gabriel Saint não queria acreditar que alguém se atrevera a ligar-lhe a meio da noite. Viu que era da central:
– Sim?
– Olha lá pá, hoje vais mesmo ser um anjo e vais desenrascar a malta…
– Foda-se, pá, ligas-me à uma da manhã para me cravares? O que é que foi?
– Estávamos a carregar “A Besta” e partiu-se um eixo. Preciso de transferir a mercadoria que já lá estava para o teu carro e acabar de carregar e preciso que me faças este serviço.
– E porquê eu?
– Eras o próximo na lista, pá!

O anjo desliza na estrada perigosamente gelada e vê ao longe os faróis de um veículo de pequeno porte. Seria só mais um. E volta à nossa história o cãozito vadio, enregelado e famélico. Gabriel Saint vê-o atravessar-se na estrada e fala alto na cabina do camião como se o pai de Lucy o pudesse ouvir, Não te desvies, pá, não com este gelo, passa-lhe por cima, pá! Ainda não tinha acabado de dizer isto e assiste ao bailado da carrinha no gelo até virar-se e ficar imóvel uns metros à sua frente. Conduzindo um veículo de grandes dimensões e dezenas de toneladas de peso, Gabriel não se atreveu a projetar-se para a berma. Seria o fim. O instinto levou-o a travar a fundo. O camião deslizou bloqueado, a caixa de carga atravessou-se na estrada, por fim, o embate inevitável e a carrinha onde estavam Lucy e o pai foi projetada para uma distância superior a cinquenta metros. Gabriel Saint está bem. Liga para as urgências. Fosse quem fosse que estivesse na carrinha, fossem muitas ou poucas pessoas, não poderiam estar bem. Corre para lá. Um homem geme de medo e dor. Uma menina jaz inanimada.

Lucy entrou em coma. O pai, com um braço fraturado, conseguiu explicar o que se passara. O acidente fora grave. Estarem vivos era um milagre. A questão residia, agora, em saber se Lucy acordaria. Foi nisso que a família se concentrou quando se abateu a consternação e a tristeza. E voltamos nós, contadores de histórias, ruminantes de pormenores, aos 40 dias. Foi esse o tempo que Lucy esteve adormecida. Foi esse o tempo do desatino. O pai hesitou entre a vida e a morte. Sentiu a culpa roer-lhe a existência. A mulher oscilou entre a tentação de o culpar e a contenção das palavras por saber que poderia acontecer a qualquer um. Mas as discussões surgiram e foram ferozes e a palavra divórcio andou ali a espreitar a oportunidade. A família uniu-se e houve conversas tensas e magoadas e outras de saudade pura. Caminharam todos os dias para o hospital, fizeram turnos às visitas, mandaram dizer missas, consultaram pessoas com poderes paranormais, rezaram a todas as divindades, fizeram oferendas, consultaram médicos para falarem com os médicos do hospital. Choraram, recordaram, choraram, recordaram. E, sobretudo, repetiram entre si palavras de esperança. E prometeram peregrinações e doações e cuidar de crianças desamparadas. Podiam tudo. Só não podiam acordar Lucy do seu sono letal. Essa era uma impotência que só um milagre poderia superar.

E o milagre aconteceu.
Ao 40º dia Lucy acordou. Estava fraca e não falou. Só veio a falar dois dias mais tarde. A família mergulhou em lágrimas de alegria e preces de agradecimento. Fizeram-se conjeturas sobre o que teria resultado para que o milagre se tivesse operado, mas foi Lucy quem o revelou, foi ela que disse porque voltara das profundezas do sono, foi ela que revelou por que razão se mantivera ligada a este mundo de sofrimento e alegria:
– Ouvi um anjo! Esteve sempre comigo um anjinho bom que, dia e noite, não parou de dizer-me baixinho, Fica, Lucy, fica. Tu vais conseguir. Ainda tens muitas coisas boas para viver. Fica, Lucy, fica. Tu vais conseguir.

A família soube de imediato do que se tratara, mas não o revelou à pequena. Afinal de contas, era importante preservar aquela fé e aquele anjo que, de facto, existia, que, de facto, estivera à cabeceira dela dizendo aquelas palavras. Nesse momento, um homem alto e bem constituído abandona o hospital mergulhado em lágrimas. À medida que caminha, vai pronunciando baixinho como se se tratasse de uma canção de embalar, Fica, Lucy, fica. Tu vais conseguir. Ainda tens muitas coisas boas para viver. Fica, Lucy, fica. Tu vais conseguir. E foi dizendo estas palavras que subiu para o camião e abandonou o local. No interior do parabrisas tinha uma chapa de matrícula colada onde podia ler-se “The Angel”.

jpv


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ErotiKa – Um olhar

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Esta publicação contém um texto de teor erótico. Se se sente ofendido com textos, imagens ou quaisquer conteúdos sobre erotismo e sexualidade por favor não prossiga.
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Obrigado
jpv
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Um Olhar

Ele trabalhava ali há algum tempo, já. Ela chegara de novo.
Ele tinha luz e promessas no olhar, na voz e na forma doce como se movimentava.
Ela era silenciosa e observadora.
Quando começaram a cruzar-se, repararam um no outro, mas nada mais do que um Bom Dia, Boa Tarde, foi alguma vez arriscado. Queriam preservar-se.
Ela tinha um olhar fundo e um andar pequenino. As formas comedidas do corpo eram, no entanto, definidas com clareza e graça feminina.
Os dias passaram e continuaram a trocar palavras de circunstância, por vezes uns documentos, outras vezes algumas opiniões acerca do trabalho.
Um dia, ao passar-lhe uma pasta, ele tocou ao de leve a mão dela que, não se tendo oferecido, também não recuou.
O tempo passou e as pessoas que eram habituaram-se à presença suave e discreta do outro. Notada, sem ser imposta. Sentida, sem ser absolutamente necessária.

Um dia amanheceu de sol e frio. Os casacos e os cachecóis tomaram conta dos corpos. O trabalho desenrolou-se com naturalidade. Ao fim da tarde, quando todos abandonavam o local, ele veio despedir-se deles. Era um ritual. Apertava-lhes a mão e desejava-lhes um bom resto de dia. Chegou a vez dela e todo o seu relacionamento se alterou num par de segundos. Não se aperceberam, então. Só mais tarde. Ele estendeu-lhe a mão, ela aceitou-a e trocaram um olhar demorado. No dela havia um convite quase súplica, Toma-me! No dele havia um vigor quase invasão, Quero-te!

Não sabem as pessoas como percebem o que percebem. Sabem só que percebem. E estes dois perceberam. Poderiam ter continuado as suas vidas, poderiam ter pensado que tudo aquilo fora uma ilusão, um mero olhar trocado com um pouco mais de demora, mas qualquer um deles sabia que aquela troca de olhares fora uma conversa.

Ela saiu. Ele seguiu-a. Ela entrou no seu carro e ele no dele. Desconheciam-se. Não sabiam ao que iam, não sabiam, sequer, um do outro, se seriam comprometidos ou não. Simplesmente fizeram o que fizeram. Ela percorreu algumas ruas da cidade. Ele seguiu-a. Ela estacionou numa zona habitacional tranquila. Ele estacionou ao lado dela. Ela dirigiu-se para um prédio. Ele seguiu-a. Ela entrou e não fechou a porta. Ele entrou e fechou-a. Ela dirigiu-se à aparelhagem para colocar a Dulce Pontes a entoar a Canção do Mar. Ele aproximou-se dela por trás, tomou-lhe o sexo na mão, sentiu-o latejante e húmido e beijou-a com demora.

Não devassemos mais a sua privacidade. O que se seguiu foi a sinfonia das carícias, a troca das emoções, o bailado dos corpos na entrega e na dádiva dos gestos incendiários. Quando terminaram, trocaram poucas palavras. Ela começou:
– Fica dentro de mim!
– Ficarei.
– Como é que soubeste?
– Pelo olhar.

jpv


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ErotiKa – Contos

ErotiKa – Contos

Em breve iniciar-se-á em Mails para a minha Irmã a publicação de uma série de contos com a denominação genérica de “ErotiKa”.

Sim, é exatamente o que o nome parece indicar. São histórias contemporâneas e não só, da nossa cultura, mas também de outras, que pretendem uma abordagem das diversas manifestações do erotismo na vida das pessoas.

Serão o que tiverem de ser. Mais explícitas, mais contidas, mais trepidantes  e mais tranquilas. Mas serão sempre eróticas!

Não esperem um livro de posições mais ou menos sensuais. Esperem o erotismo das sensações, umas à flor da pele, outras nos cantos recônditos da mente.

As histórias serão precedidas de um aviso de conteúdo e só se acederão após um clique voluntário num botão “ENTRAR” que colocaremos por baixo do aviso.

Divirtam-se!

jpv


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"Com Amor," – Como se fez um Romance

“Com Amor,” tem uma caraterística original. É um romance sem narração, ou seja, não há ninguém a contar a história. Ela tem de ser inferida pela leitura dos diversos documentos trocados entre personagens. Sempre cartas e e-mails.

O romance teve um total de 102 documentos. 3 cartas e 99 e-mails.
O primeiro foi publicado em 27 de abril de 2011 e o último em 28 de janeiro de 2012.

A história decorre entre 2005 e 2011 e é por isso que nunca foi adotado o novo acordo ortográfico.

O romance tem 9 personagens. 4 homens e 5 mulheres. No início do romance há 4 casais heterossexuais e uma personagem sem relacionamento. No fim há 2 casais heterossexuais, um casal homossexual e 3 personagens sem relacionamento.

TODOS os endereços de e-mail existem e todas as mensagens de correio eletrónico foram efetivamente enviadas de umas personagens para as outras.

Houve 6 leitores que enviaram e-mails às personagens.

Nenhuma personagem e nenhum relacionamento do romance existe na vida real, contudo, todos eles são inspirados em pessoas ou factos que podem ter existido ou acontecido mas não com os mesmos contornos.

A planificação do romance durou 6 meses e a escrita durou outros seis.

Todos os textos foram manuscritos em cadernos e só depois passados para o processador de texto. Numa fase seguinte foram escritos no Gmail, enviados e por fim colocados no Blogue.

A capa é também da nossa autoria e execução técnica sendo que a foto foi uma cedência de uma ex-aluna, a Isabel Évora.

Em baixo, uma sequência de imagens com pormenores da planificação e redação do romance.

Esperamos tenha gostado e, caso deseje, agradecemos deixe o seu comentário acerca deste Romance. Obrigado.

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(clique nas imagens para aumentar)

Esquema actancial com todas as personagens e relacionamentos.
Sequência dos acontecimentos e idade das personagens em 2005.

Pormenor de um documento.
Cabeçalho e primeiras linhas.


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"Com Amor," – Documento 102

Meu Amor,

A vida partilhada contigo não tem sido boa, nem tem sido como planeáramos. Tem sido fantástica e melhor, muito melhor, do que alguma vez imagináramos.

Adoro os fins de tarde em que te preparo um petisco enquanto acabas qualquer coisa no computador.

Depois, eu chamo-te, tu vens para baixo, comemos juntos, beberricamos um espumoso amabile e vamos dar um passeio a pé enquanto conversamos.

Mais tarde, já em casa, preparamo-nos para dormir e eu interrompo-te o sono pela madrugada para fazermos amor sonolento e apaixonado.

Foi bom teres instalado o wireless cá em casa. Assim, podemos comunicar e posso escrever-te como sempre fizemos, como, afinal, aprendemos a conhecer-nos. O meu portátil cá em baixo e o teu computador aí em cima transformam-se em ferramentas de amar.

Tenho na mesa uma salada de alface e tomate com queijo fresco e pedacinhos de ananás, tenho uma omeleta de espargos e fiambre e um copo de Cabriz branco frio espera por ti.

E é neste ponto das nossas vidas, meu menino Rui, que me  sinto incomensuravelmente feliz por poder escrever-te este e-mail sabendo que dentro de segundos os meus lábios estarão junto aos teus.

Vem para baixo, meu querido Rui! Para sempre, todo o sempre, o único sempre!

Com Amor,

Verónica

——————————– FIM ——————————–


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"Com Amor," – Documento 101

Meu Menino Rui,

Não cresces. O tempo passa por ti e tu continuas a amar e a esbanjar carinho e ternura como se fosses um adolescente.

Não precisas esperar por mim, meu amor. Há já algum tempo que te espero. Em silêncio.

Não sei se as coisas com o Eduardo não correram bem porque não podia ou porque eu deixei de esforçar-me quando pressenti que poderias finalmente caminhar para mim com todas as tuas energias, com toda a tua disponibilidade.

Sou tua, Rui. Sou tua porque nunca fui de outro. Mesmo antes de conhecer-te.

Sim irei. Irei incondicionalmente ao encontro do que tens para dar-me, oferecendo-te tudo o que tenho. É pouco, Rui, mas é tudo o que tenho. É o meu ser. O meu sentir mais profundo e inteiro. A vida despida de tudo o que é acessório, no estado mais límpido, com o amor mais genuíno e juvenil que uma mulher pode encontrar em si, mesmo depois do cinquenta, Pouco depois! 🙂

Não tenho certezas. Estou cheia de dúvidas e prenhe de entusiasmo. Não imagino como seja viver contigo, mas sinto, no mais profundo de mim, que seja como habitar os meus sonhos, realizar as minhas fantasias.

Sim, Rui, quero o teu vigor e a tua paixão e quero o meu corpo sob o teu na sensualidade das carícias que só nós sabemos.

Irei, Rui, irei e não terás de esperar!

Irei determinada. Irei sem volta. Para todo o sempre. O único sempre.

Carícias mil,
Com Amor,

Verónica