O Segredo
Anda o mar
Fustigando a terra,
Batendo-lhe com estrondo,
Perguntando pelos segredos que encerra.
E ela está calada,
Em segredo mareada.
E deixa-se estar.
O seu segredo,
É o bater
Do mar.
jpv
Anda o mar
Fustigando a terra,
Batendo-lhe com estrondo,
Perguntando pelos segredos que encerra.
E ela está calada,
Em segredo mareada.
E deixa-se estar.
O seu segredo,
É o bater
Do mar.
jpv

Bem me quer
Uma canção.
Mal me quer
Uma distância.
Bem me quer
No coração.
Mal me quer
Na errância.
Bem me quer
No palpitar.
Mal me quer
Na ausência.
Bem me quer
De tanto amar.
Mal me quer
Esta insuficiência.
Bem quer
Todo o dia.
Mal me quer
A noite inteira.
Bem me quer
Por magia.
Mal me quer
A sensação rotineira.
E vive em cada pétala
A energia e a paixão
Que alimenta o sonho de amar
Dentro deste coração.
E nasce
Na minha louca desfolhada,
A insanidade, o prazer e a morte,
De uma vida entregue à sorte,
De uma paixão conquistada,
De uma paixão abandonada!
Bem me quer!
Mal me quer!
jpv
Falem e teorizem os políticos e os politólogos,
Os democratas e os anarquistas,
Os comunistas e os estado-novistas.
Discorram os que sabem
E os ignorantes também,
Em nome de Jesus e de sua Mãe.
Digam que é natural.
Reclamem que é crime.
Invoque-se Marx,
Trotsky e Estaline.
O caso que importa analisar,
É que existe no balanço do sambar
Uma doçura e um ritmo nunca visto.
Calem-se, Senhores,
Liberdade de Expressão é isto!
jpv

Andam ondinhas
Revolvendo meu coração,
São esperanças minhas
No poder da emoção.
E consigo senti-lo, por vezes,
Bravio, Selvagem e solto,
Arranca-me à alma o choro
Com a força de um mar revolto.
E fica, traçada, nesta contemplação,
A linha e a jogada,
A teimosia
E a razão.
O que quero
E controlo.
O que desejo
E me escapa.
O sentido
E o desnorte.
O Azar
E a sorte.
E ficam as pessoas,
As coisas más
E as boas.
A esperança
E o desespero.
O descuido
E o esmero.
E fico eu,
Sozinho, despido e nu,
Sem terra nem céu,
Sempre que me faltas tu!
jpv

Nunca pensei chegar a isto. Eu não duvido só do que ela me diz. Eu duvido dos meus próprios sentimentos. Dos meus próprios pensamentos. Por exemplo, esta coisa dela digitalizar o diário e me mandar como uma espécie de prova da verdade dos seus sentimentos, normalmente eu acreditaria nisto, mas não consigo deixar de pensar até que ponto aquilo é mesmo honesto e até que ponto é uma manobra para reconquistar a minha confiança e reconstruir a confiança do casal. Até que ponto aquelas palavras refletem a minha Bela e até que ponto são uma estratégia da Bela que me vasculha o telemóvel e a carteira para recuperar o clima de confiança.
Acusa-me de estar sempre a trabalhar e não ter tempo e não lhe dar atenção… mas como é que aquela alma acha que nós sustentamos o estilo de vida que temos? Casa, carros, roupas, almoços, jantares… nós temos padrões de vida muito acima da média. É quase um crime pensar isto, mas a verdade é que nem temos sentido muito a crise.
Pareceu-me honesta quanto ao Sebastião, aquele paspalho. Que raio de gajo a minha cunhada foi desencantar. Merecia bem melhor. Espero que seja verdade o que ela escreveu, mas, mais uma vez, pode só ser uma forma de me trazer descansado. Não sei que pense. Esta mulher está a dar comigo em doido. Preciso esclarecer e sistematizar as minhas ideias para saber o que fazer. Ora, deixa cá ver…
Trabalho: Acha que eu trabalho demasiado. Vive um profundo ressentimento pelos sacrifícios que fez. Ou seja, trabalho igual a ressentimento.
Filhos: Parece ser a grande questão da Bela. Eu pensei sempre que tinha sido uma decisão assumida pelos dois, mas agora percebo que não. Arrependimento é o que ela sente. Profundo! Ou seja, filhos igual a ressentimento.
Sexo: Um desencontro total. Eu quero, ela não. Ela diz que sim, eu acho que não. O sexo não é mau, pelo contrário. Mas quase nunca é! Estamos desencontrados. Ou seja, sexo igual a desencontro.
A nossa relação: Acho que ela se referiu a nós como se sentindo num atoleiro. Por mais que me ame, e é preciso ter em consideração esse amor, a Bela sente uma profunda e indisfarçável mágoa em relação a mim. E, se quiser ser honesto com os meus botões, eu também sinto essa mágoa em relação a ela. Ou seja, a nossa relação é igual a mágoa.
E tem estado entre nós a dúvida. E acho que esta dúvida nasce nestes aspetos todos. Repara, Mário, se a tua mulher sente por ti ressentimento, arrependimento, mágoa e… qual era a outra? Ah, já sei, desencontro sexual, em que é que tudo isto dá? Dá num clima de dúvida em que cada pequeno gesto ou pormenor pode ser mal interpretado. E depois, andamos desnecessariamente à defesa. Estou-me a lembrar dos recibos do hotel. Andei eu preocupado e afanosamente a gastar energias a esconder uns recibos de hotel que eram do aluguer de uma sala de reuniões. Desnecessário. E porquê? Por causa desta puta desta dúvida. O pior é que não sei se é só dúvida ou se tem fundamento.
Acho que nenhuma relação resiste a este clima. Eu sou um tipo pragmático e não convivo com estas situações. Vou mesmo conversar com ela. Tentarei ser meigo e delicado, mas não há dúvida que não acredito neste casamento, sobretudo, no ponto a que isto chegou. Amanhã, peço-lhe o divórcio. Tem de ser. É melhor uma má situação, mas definida do que o prolongamento da indefinição.
Só preciso esclarecer uma coisinha de mim para comigo. É que eu acho que ainda amo esta mulher… ou não? Não sei… preciso de um banho. Frio, de preferência!
jpv

Desde que viajo em comboios regionais, tenho reparado num pormenor interessante. São muito mais concorridos. Estão sempre cheios. É como se houvesse sempre duas multidões. Uma a querer ir para Lisboa e outra a querer sair de Lisboa. A toda a hora!
O que isto tem de menos bom é que se torna um bocadinho mais desconfortável viajar como sardinha enlatada. O positivo é que a fauna é muito mais profusa e diversa. E presta-se a um jogo. Sempre que regresso a casa, entro em Sta. Apolónia onde o comboio não fica cheio mas, seis minutos depois, no Oriente, atafulha. Leva sempre gente em pé. Ora, isto cria uma certeza. Sei sempre que alguém vai sentar-se ao meu lado. O jogo é tentar adivinhar quem. Será a velha conversadeira que não se cala até que eu saia em Riachos? Será o velho gordo que me entala contra a janela? Será a mãe de família que telefona para a cresce, o marido, a mãe dela ou a sogra, e põe tudo a mexer mesmo antes de chegar a casa? Serão aquelas duas amigas que vêm juntas do trabalho e fazem as fofocas todas no comboio? Será o tipo magro e circunspecto que abre o computador e vai o caminho todo a trabalhar? Será a senhora de meia-idade que não para de ler? A solteirona que ouve música pelo auricular? Ou serão os dois militares que vão a pôr em dia as promoções lá do serviço… quando as houver?
Se, por ventura, o amável leitor imagina que enumerei as tipologias todas de passageiros, desengane-se. Ainda falta o jovem alternativo com roupas largas e sujas, rastas no cabelo e faixa de lã na cabeça, a segurar o cabelo, com as cores da Jamaica. O tipo andrajoso com cheiro insuportável e um carrinho de transportar compras cheio tralha. As adolescentes em manada, aos gritinhos e aos sms e essa raríssima espécie que é a miúda gira. Sorri, dá as boas-tardes e segue compenetrada e bela nas suas roupas distintas exalando um inebriante perfume.
Enfim, agora estão quase todos. Mesmo assim, um dia destes, sentou-se ao meu lado o mais improvável dos companheiros de viagem. Um saco da tropa! Não. Não foi um tropa. Foi um saco da tropa.
Eu explico. À minha frente, três lugares. O do meio, vazio. Os das extremidades, ocupados pela mãe de família e pela senhora de meia-idade que lê. Eu, junto à janela. Ao meu lado, nada. Na ponta oposta à minha, a solteirona que ouve música pelo auricular. Entra um jovem. Jovem no aspeto e na atitude. Traz consigo uma mochila de tamanho considerável e um enorme saco da tropa. Repara que vamos quatro para seis lugares e repara que os lugares vagos são frente a frente, ao meio. Não está com meias medidas:
– Com licença.
Sentou-se entre a mãe de família e a senhora que lê, colocou a mochila entre as pernas e, claro, toda a gente pensou Onde é que ele vai enfiar o saco? e ele respondeu com gestos. Atirou-o para cima do outro banco vago.
E lá fui eu até Riachos entre uma janela e um saco da tropa. Não cheirava mal, não se meteu comigo, deixou-me escrever…revelou-se um companheiro bastante tolerável, tendo em conta que no dia anterior fui ao pé de 4 sogras e 1 velho.
Nunca mais me calha a miúda gira…
jpv
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