Author Archives: mailsparaaminhairma
Amendoeiras Floridas
Amendoeiras Floridas
Saíram à rua,
Engalanadas,
As amendoeiras floridas
De pétalas perfumadas.
E quando a brisa
Sopra um pouco mais forte,
Elas tombam dançando,
Em voltas e reviravoltas,
À procura da sua
Sorte.
Há uma festa
De branco pintada,
Uma alvorada
De perfume
E flocos tombando.
Entrou a Primavera
Alegre e enfeitada
De neve densa
E desfolhada
Cobrindo o chão.
E há nisto uma invocação
De lendas belas e antigas,
Porque surpreendem
Sempre os homens
As manhãs perfumadas
De amendoeiras floridas.
jpv
O Clã do Comboio – Algazarra Total

Algazarra Total
O Regional anda a revelar-se fantástico. É um autêntico viveiro de histórias. Além de ser mais concorrido, é, sobretudo no regresso, ao final da tarde, muitíssimo ruidoso.
Um dia destes, julguei que estava num manicómio. Foi a algazarra total. À minha frente-direita, uma velhota com a testa toda cosida a queixar-se da queda e do hospital e dos sapatos e da velhice. À minha frente-frente, uma velhota silenciosa que não parecia daquele comboio. Tinha um pequeno saco de viagem aos pés. À minha frente-esquerda, dois tipos a falar de futebol. Ao meu lado esquerdo uma moça toda jeitosa com um ar compenetrado. Atrás de mim, uns tipos a falar de política. Mais à frente umas mulheres a vender acessórios. Eram pulseiras, colares, etc… Em pé, uma carrada de jovens a falar da escola e do Intercidades. Num curto espaço de tempo vários telemóveis tocaram. As pessoas atenderam e falaram alto. De repente, o telefone da rapariga com ar compenetrado tocou e parecia uma filarmónica, ela atendeu e começou a falar muito entusiasmada, aos gritos ao telefone, com a carruagem toda a ouvir a conversa. Umas pessoas mudaram de lugar e as que se sentaram no lugar delas, ao pé de mim, começaram a falar do trabalho e a rir-se muito alto. E a do telefone falava cada vez mais e mais alto. E foi então que fiz um juízo de valor precipitado e Deus Nosso Senhor, que tudo vê e sabe, castigou-me de imediato. Pensei, Tirando eu e a velhota silenciosa, isto vai aqui uma algazarra quase total. Esta malta fala, ri, grita, e só nós dois é que nos portamos bem. Ainda não tinha acabado de pensar isto e o meu telefone começa a tocar, parecia que o queriam matar. Atendi. Mas o efeito do toque do meu telefone ainda não tinha terminado e fez-se sentir. Dentro do saco de viagem que a velhota silenciosa levava aos pés começa um cão a ladrar muito alto e muito esganiçado. A carruagem desaba a rir e as pessoas a comentar. Eu acho que o cão queria atender o meu telefone. O bicho lá se calou. Eu também. A velhota também. Os outros todos, incluindo a esganiçada ao telefone, redobraram esforços para fazer a algazarra… total!
jpv
Not

Not
Os teus lábios
Na minha boca,
Louca.
Na minha língua,
À míngua.
As tuas mãos
No meu peito,
Feito.
No meu sexo,
Perplexo.
Podia ter sido
Tudo isso.
Mas não foi.
Foi o olhar
Incendiado,
O sorriso
Rasgado
Que me atiraste
Ao passar.
Foi essa
Promessa
Por cumprir.
Foi essa
Promessa
Não saciada,
A ténue distância
Entre tudo e nada,
Que me incendiou
E me deixou a arder
No lume brando
De não te ter,
Na impossibilidade
De te esquecer.
jpv
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O Clã do Comboio – Frutinha Fresca e Dulce Pontes

Frutinha Fresca e Dulce Pontes
O Clã do Regional é diferente. Embora, na essência do seu comportamento, seja idêntico, há aspetos do dia-a-dia em que, naturalmente, difere. Um deles, já aqui referido, tem a ver com o facto de levar muito mais gente. O outro, também interessante, é a elevada taxa de professoras que viaja no Regional. Também viajam professores e pessoas de muitas outras profissões, mas, sem dúvida alguma, grande parte da população viajante do regional são professoras. Do 1º Ciclo.
Um dia destes, sentaram-se duas à minha frente. Uma mais nova, antes dos trinta, cabelo castanho liso, casaco de fazenda grosso, em verde seco, calças de ganga e uns óculos retangulares de massa preta. E falava, falava, falava… sempre de trabalho. Sempre dos seus projetos e atribulações. E falava, falava, falava. O interessante não foi ela falar pelos cotovelos, disso há muito no comboio. O interessante foi a frutinha toda que a outra comeu enquanto ela falou. Ela expunha, explicava, gesticulava e a outra ia dizendo, Sim, sim, pois, pois… e vai de estender uma mão à mala. E, sem olhar para a dita mala, abriu-a, desviou uns papéis, tirou um garfo inox, um saquinho de plástico, desatou-o e tirou lá de dentro uma tacinha com tampa. Destapou-a. E, enquanto a outra continuou a falar, ela comeu uma laranja previamente descascada e cortada em pedacinhos. Com garfo! Quando terminou, a outra continuou a falar. Então, ela, sem tirar os olhos da outra, tirou um guardanapo de papel do saco, limpou o garfo, fechou a taça, reenfiou-a no saquinho de plástico e meteu tudo na mala. E como a outra não se calava, ela, de novo sem olhar para a mala, tirou um paninho onde vinha embrulhada uma maçã e foi comendo-a lentamente. Quando terminou, sempre a olhar para a outra, arrumou o paninho na mala, levantou-se, tirou o casaco da estante e vestiu-o. O comboio parou e ela saiu. Já tinha comido a frutinha toda!
No lugar dela sentou-se uma moça com calças castanhas acetinadas, justas, um casaco de fazenda preto e o cabelo escuro apanhado atrás numa espécie de tótó. Tinha a boca pequenina e os lábios bem desenhados. Os olhos escuros e redondinhos sobre a pele clara. Quando a vi sentar-se, lembrou-me alguém, mas não soube quem. Pensei até que a conhecia, mas não. Era só uma parecença.
– Já alguém lhe disse que é muito parecida com a Dulce Pontes?
– Não, nunca.
E riu-se.
– Pois, mas é.
Estendi-lhe um cartão do blogue ao sorriso matinal e luminoso. Claro que levei uma cotovelada da Rapariga com Brinco de Pérola que me acha muito atrevido. E sou. Mas educado.
Ainda estive para perguntar-lhe se tinha a certeza que não era filha da Dulce Pontes, mas isso era capaz de ser um bocadinho exagerado. Vai daí, quando chegámos, despedimo-nos cordialmente e fomos às nossas vidas. Não pensei escrever este texto, mas, hoje de manhã, ia descansadinho no meu lugar e vi entrar no comboio uma moça que era a cara chapada da Dulce Pontes…
jpv
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A DÚVIDA – CAPÍTULO XII

A DÚVIDA
CAPÍTULO XII
À medida de caminho, que piso as pedras claras da calçada, sinto-me como elas. Frio e abandonado entre semelhantes, parte de um puzzle de que não conheço todo o desenho. E levo comigo a documentação do divórcio. E, contudo, não deixo de sentir no meu intimo que há algo de desnecessário em tudo isto. E se ela estivesse a ser honesta? E se não houvesse nada entre ela e o Sebastião? Se o seu amor ainda fosse apaixonado e sincero? E se esta hesitação que sinto fosse ainda amor verdadeiro? Se, onde vi hábito, estivesse uma rotina a corroer o quotidiano, mas não a falta de amor? É curioso. Passei tanto tempo a duvidar, senti tanto tempo o peso da dúvida dela, tomei decisões sérias e definitivas por causa da dúvida e das suas consequências e é agora, a caminho do tribunal, a caminho de assinar a papelada que põe termo a tudo, que duvido da dúvida!
E nunca lhe dei razões para duvidar de mim! A minha cunhada nunca passou de uma fantasia minha. A minha secretária foi sempre só isso. Acabei mesmo por dispensá-la para a Bela descansar a cabeça, nenhuma outra mulher alguma vez me interessou e é terrível pensar que da parte dela pudesse tudo ter sido análogo. Seria um golpe cruel do destino. E só seria possível se fossemos fracos e incrédulos.
Talvez ainda lhe pergunte uma última vez…
Lá vem ela, traz o advogado, claro, e… como não podia deixar de ser, o Sebastião. Mas em que é que eu estava a pensar? Onde é que tinha a cabeça? Olha-me aquele paspalho e as suas maneiras gentis e delicadas com ela, está a tentar provar-me o quê? E ela? Porque é que tinha de trazer aquele tipo com ela?
Nem sei como duvidei da dúvida. Não vou perguntar-lhe coisa nenhuma. O que está feito está feito, está feito e está bem feito.
Ainda demorou um bocado. Estou exausto. Acho que só agora reparo que hoje está sol. Há em mim um sentimento misto de libertação e desperdício. Acho que a vida é feita de decisões. Acho que nunca sabemos se vamos decidir bem ou mal e, mesmo depois de ter decidido, a qualidade da decisão afere-se pela forma como vivemos com a realidade que ela própria configurou.
No amor, ama-se ou não. Dedicamo-nos ou não. Duvidamos ou não. Decidimos ou não. Aceitamos ou não. Não há vencidos nem vencedores. Há só a vida que construímos com as nossas atitudes. O que ficou para trás não volta. O que temos pela frente é a vida que resta viver. Não importa se muita ou pouca. Importa se é bem vivida. Vivida de acordo com aquilo que somos, que queremos ser. Temos de nos descobrir. De aceitar quem somos e viver com isso.
Bem, vou tomar um café. Já mereço. E vou viver. Também mereço. Com certezas. E com dúvidas.
——————————- FIM ————————–
jpv
29 de fevereiro de 2012
Praia

Praia
Tinhas a presença leve.
Chegavas quase sem deixar marca
Na areia da minha emoção.
Vinhas como quem se atreve
A despertar um coração.
E ficaste passeando
A minha existência,
Entregando ao homem
A consciência
E o poder
De se reinventar.
Ficaste como areia
Que aguarda a batida suave
Do mar.
E os ventos sopraram
E depois mudaram
E voltaram a soprar.
Redemoinhaste-me
Os dias
Com palavras,
Jogos e fantasias
De encantar a alma
E o corpo.
E eu fiquei
Como um miúdo
Absorto
Que vê passar o comboio
Faiscando lume.
É já longa
A história
Desta praia.
Foram muitos os sois,
A luas mareadas,
A areia marcada
Pelas nossas pegadas
De amar.
É já longa
A história
Desta praia.
E isso
É que é preciso
Aceitar.
jpv


