Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Via Crucis – Décima Estação

X – Décima Estação

Jesus é Despojado das suas vestes

Não tenho nada.
Nunca tive nada.
Não temos nada.
Nunca tivemos nada.
A nossa Natureza é nua
E despojada.

Estes pensam que me despem,
Mas é a sua alma que resta nua.
Estas vestes,
Estes trapos,
São a terrena
E imediata ligação
A um mundo de que me despeço.
O tangível.
Ao alcance da mão.

Tiram-me as roupas
Para que lhes entregue a vida.
Condenam-me
E salvo-os.
Pensam que a tenho perdida
E só eu lha posso oferecer.
Pensam que venho morrer,
Mas venho para que possam viver.

É pobre, a carne.
É fraco, o corpo,
E pouco pode.
Ainda hoje me subirão
Por suas mãos
E por suas mãos
Me hão de descer.
Tratarão deste corpo
Sujo e ensanguentado,
Vê-lo-ão fenecer.
E eu estarei ocupado
Garantindo que possam viver
Livres de seu próprio pecado.

Terão dúvidas.
Hesitarão.
Terão pena de mim…
Só eu estou certo
Do meu fim,
E seguro.
Só eu sei
Que hoje começa o futuro!

Não quero mais
A matéria.
Não quero essa vil e material
Miséria
Que é ser escravo do corpo.

Vem buscar-me, Pai!
Está quase terminado
O sacrifício.
Despirei depois minha’alma
Deste corpo que a vestiu.
E descansarei junto a ti,
Já só ideia,
Já só luz,
Que estes perdidos cordeiros
Conduz.

jpv – Via Crucis – X


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Via Crucis – Nona estação

IX – Nona Estação

Jesus cai pela Terceira vez

É pesada, a cruz, Pai.
Não me chega teu conforto, Mãe.
Foi preciso cair de novo
Para que tenha mais valor
Aos olhos do Povo
A força de um homem
A reerguer-se.

Senti o chão fugir
E caí pela terceira vez
Sabendo que não voltaria a cair.

Não voltarei a descer ao solo
Senão já morto.
Ver-me-eis pregado na lenha desta cruz.
Contemplar-vos-ei suspenso
De um madeiro de luz!

jpv – Via Crucis – IX


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Via Crucis – Oitava Estação

VIII- Oitava Estação

Jesus encontra as Mulheres de Jerusalém

Estas mulheres que me cercam
E rodeiam
Não conhecem as razões
Que me incendeiam.
Cada uma sabe de mim
Só o homem que experimentou.
Nenhuma conhece
O homem inteiro que sou.
Da minha vida e da minha alma,
Não são mais do que breves estilhaços,
Mas são elas que dão sentido
Ao disperso dos meus traços.

E sofrem,
E choram por mim.
As mulheres que me acompanharam na vida
Vêm confortar-me no fim.

E sei-as!
Percorro, com facilidade,
Os caminhos da sua dor.
Reconheço-as na fraqueza
Como as conheci no fulgor.

E sofrem,
E choram em pranto.
Não era preciso tanto.
Não era preciso
Esse choro emprestado.
Aos invés de chorarem por mim,
Deveriam carpir o sangue,
Por seus filhos,
Derramado.

Erguei-vos, mulheres de Jerusalém,
Mulheres do mundo inteiro.
Secai essas lágrimas de dor
E má fortuna
E contemplai o corpo
Do homem completo.
Limpai-o e tratai-o,
Que, amanhã,
Sereis testemunhas
Do Cristo ressurreto!

jpv – Via Crucis – VIII


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Via Crucis – Sétima Estação

VII- Sétima Estação

Jesus cai pela Segunda vez

Senti o chão fugir
E caí pela segunda vez
Sabendo que voltaria a cair.

Não interessa a correção,
Nem a melhoria.
Não interessa a insistência,
Nasce sempre o dia
Em que cair se torna reincidência.

Cair e erguer.
Eis o cíclico percurso
Até morrer.
A única forma
De ver a luz pela queda
É aproveitar o tombo
Para aprender.

Caí, já.
E já me levanto.
Fi-lo em pouco tempo.
Não seja para vós motivo de espanto,
Antes sirva de exemplo.

jpv – Via Crucis – VII


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Sem Problemas de Escolha

Outra pequena conversa de interesse relativo que presenciei no supermercado. Trabalho longe de casa, logo, o fim-de-semana é a minha única hipótese de visitar o zoológico das compras.
Um casal jovem. Com menos de trinta. Junto à prateleira dos vinhos. A primeira fala é dela:

– Qual é que levamos?
– Este é bom.
– Olha, este aqui também.
– Olha, e porque é que não levamos este. É o que a minha mãe bebe.
– E este? Este é muito bom. O meu pai bebe este.
– Não levamos nenhum desses. Levamos este. Este é que é bom.
– Deixa-te de coisas. Levamos aquele que tem a fotografia das raparigas…
– Olha, já baralhaste tudo. Vamos levar uma de cada.
– Está bem. Assim como assim bebe-se todo!

E pronto. Sem problemas de escolha. Hoje devem estar a Guronzan e águinha com gás!


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A Tristeza que Fica


Não, amigos, não vou cair no elogio fácil.
Um homem como Gabriel Garcia Marquez já tem os elogios todos e o mérito deles.
É uma alma superior, um escritor de eleição.
Os seus livros marcaram o meu crescimento como homem e muitas das suas passagens constituem para mim exemplos de vida e escrita.
Ainda recordo as suas palavras acerca da importância do primeiro parágrafo de um livro na captação da atenção do leitor. Lembro a magia das palavras, o Ser Humano revelado,  a sensibilidade, o amor, a vida, a morte e a transcendência dela.

Hoje é um dia triste. O homem vive. O escritor já não. Pouco há a dizer. O mais relevante é que as suas obras serão Património da Humanidade para sempre. E a tristeza… a tristeza fica nos corações daqueles que se entusiasmaram, que se entusiasmam e que para sempre se entusiasmarão olhando o mundo e a Humanidade através das palavras do mestre.

Obrigado, Gabriel!
jpv


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Via Crucis – Sexta Estação

VI- Sexta Estação

Verónica limpa o Rosto de Jesus

Terá o teu nome, esse pano,
E correrá do Mundo
As sete partidas.
Dia após dia,
Ano após ano,
Todas as fronteiras serão vencidas.
E vingará teu gesto
Na sua simplicidade,
Será a bandeira
Da caridade.

Que rosto me limpas, Verónica?
Que manchas vês?
Já não tenho rosto!
Dei-o por meu Pai,
E depois entreguei as mãos,
E agora o fôlego deste corpo que cai.
Não te importuna meu sangue impuro.
Não te aflige meu suor.
Limpas a face deste homem sem futuro
Que morre por um tempo melhor.
Mas não virá!
Terei de morrer
Outras vezes ainda,
Que o pecado dos homens
Não finda.
Tu mesma pecarás, Verónica,
E este teu gesto
Que me limpa
Não te lavará a alma.
Por isso terei de voltar
E morrer de novo.
Também por ti!

Pelo que vi e senti
Neste Mundo infetado,
Tem raízes fortes e fundas
O pecado.
Precisava de uma mão como a tua
Que fosse de porta em porta,
De rua em rua,
Limpar o pecado do mundo
Com pano prenhe e fecundo
De caridade.

E é por isso que reclamo e protesto:
Humanos, pecadores e impuros,
Repeti, de Verónica,
O gesto!

jpv – Via Crucis – VI


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Gestão do Tempo

No supermercado, enquanto andava a escolher vegetais, estava um homem, também ele, de volta dos pepinos, dos tomates, das alfaces, dos alhos franceses e eis que toca o telemóvel dele.
Ele prendeu o telemóvel entre o queixo e o ombro e enquanto escolhia os vegetais, teve esta conversa:

– Sim, amor…
– (…)
– Estou quase.
– (…)
– Mesmo quase, já estou na fila da caixa e só tenho uma pessoa à minha frente.
– (…)
– Não demoro nada. Dentro de dois minutos estou na rua.

Desligou e, tal como eu, continuou a escolher vegetais!


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Via Crucis – Quinta Estação

V- Quinta Estação

Simão Cirineu ajuda Jesus

A dor no horizonte…
Mais a da alma
Que a dos espinhos na fronte
Cravados.
Suportam-se melhor
Que os pecados.

A dúvida nascendo
E a convicção cambaleando,
Emerge uma rocha
No caminho,
Baila um corpo tombando.
O meu.

E estendes-me a tua mão
Aberta, oferecendo ajuda.
Hesito, antes que me iluda
E dê novo trambolhão.
Mas insistes
E penso na pura atitude e certa
Que é aceitar, humilde,
Tão generosa oferta.
E encontro a grandeza
Que nasce nessa humildade,
Um homem cresce
Para além da idade.

E tens, amigo Simão, a mão estendida.
E pequei porque duvidei
Da tua dádiva de vida.
Amparas-me.
E há nesse gesto, a beleza
De ver-te amparado
À minha própria fraqueza.

É mais doce o caminho
Quando não é feito sozinho.
Palpita na tua mão
A força que a amizade conduz
Hoje, ensinaste-me, Simão,
Com um amigo,
É mais fácil carregar a cruz!

jpv – Via Crucis – V


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Via Crucis – Quarta Estação

IV- Quarta Estação

Jesus encontra sua Mãe

Porque me olhas, Mãe?
Porque te não escondes na multidão?
Porque me olhas e confortas,
Se meu Pai nos votou à perdição?
Tu, mãe sem marido,
Eu, filho sem pai,
Sabes, só, ter parido
A mentira dos outros,
A tua verdade.

Não temos tempo, Mãe!
O tempo arde
Enquanto assumes a coragem
Que pertence a meu Pai covarde.
Porque te não envergonhas
Das minhas passadas?
Porque me ajudas e confortas?
Estão fechadas para ti
Todas as portas.
Há mistério
No mistério de ser mãe.
Pareces levar a sério
O que mais ninguém
Escuta
Ou acredita.
Minha errante caminhada,
Minha solitária desdita.

Tens o tempo
Esculpido na pele,
Mas permaneces suave
E acolhedora,
E vive em ti a força que me impele
A caminhar para a sepultura.

És o conforto.
És o tempo que não passa.
Avé Maria, minha Mãe,
Sempre cheia de Graça!

Não és menos
Por não seres divina.
Ainda hoje subirás esta colina.
E, faças o que depois fizeres,
Teu lugar é perene
No coração de todas as mulheres.

Deixa-me ir, Maria,
Pode ser que o meu calvário
Neste funesto e rigoroso dia
Ao menos te salve a ti .
Ao menos a ti…

Seja feita a Sua vontade!
Seja ela qual for.
Viva Ele na impunidade,
Morramos nós no Amor.
E essa,
Será nossa vontade realizada.
Hoje, filho de um Deus órfão.
Amanhã, em teu colo aconchegado.

Restará somente uma verdade:
O que n’Ele for violência
Em Ti será Piedade.

jpv – Via Crucis – IV