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Por causa dA Dívida – EPÍLOGO

Por causa dA Dívida
EPÍLOGO
ALGURES NAS AREIAS TÓRRIDAS E DESÉRTICAS DO SAHARA…
– Ventoiiiiinha!
– Sim, chefe, diga, chefe.
– Está um calor que não se pode. Vá buscar um garrafão de água ao jipe…
– Sim, chefe, mas, ó chefe…
– Diga…
– A história não tinha acabado? E na disputa entre os dois autores o Senhor João Paulo não reconheceu, no final do último capítulo, que a Dona Dulce tinha vencido?
– Deixe-se de parvoíces Ventoinha. O Senhor João Paulo só admitiu aquilo para que a Dona Dulce e a Dona ISA E. julgassem que tinham ganho…
– Mas, ó chefe, assim isto nunca mais acaba, pode haver sempre mais um capítulo!
– Irrraaa que é burro! Ventoinha, isso seria possível se o Senhor João Paulo tivesse numerado este capítulo, por exemplo com o número 19. Acontece que o Senhor João Paulo, inteligente e excelsa criatura, chamou a este capítulo EPÍLOGO! Você sabe o que é um epílogo homem?
– Nem conhecia a palavra, chefe.
– Irrraaa que é burro! Um EPÍLOGO é o capítulo que fecha uma história, a partir daí não pode ser mais continuada. É o fim!
– Eh chefe, o Senhor João Paulo é mesmo superior, certo?
– Certíssimo! Aproveitou-se dessa falha da Dona Dulce que em vez de fechar a história, limitou-se a numerá-la… é um homem muito inteligente!
– E ó chefe e nomeadamente e o que é que gente veio aqui fazer?
– Irrraaa que é burro! Você está no deserto, tem areia a toda a volta, tem uma pá na mão e pergunta o que é que veio cá fazer?
– Sei lá chefe e nomeadamente e apanhar um escaldão.
– Irrraaa que é burro! Veio cavar, sua cavalgadura, veio cavar… olha aqui está… EUREKA!!! Em cheio… Viemos carregados de mapas e bússolas mas isto deu resultado, é aqui mesmo!
– Ó chefe, sente-se bem? Isto são só uns arbustos…
– Abra os olhos, sua cavalgadura, que figura desenham os arbustos?
– Um X!
– E onde é que está sempre o X?
– Na palavra táxi?
– Irrraaa que é burro! No local do tesouro, sua besta! Comece a cavar que eu vou enviar um pombo-correio ao Senhor João Paulo a dizer que encontrámos o tesouro. Estamos ricos! Cave, homem, cave!
– Chefe, chefe, encontrei o baú! Está cheio de moedas de ouro e tem aqui um livro…
– É muito ouro?
– Eh chefe, mais do que alguma vez eu imaginei que existisse!
– E qual é o título do livro, Ventoinha?
– Na capa diz assim: “Por causa dA Dívida” pelo fabuloso João Paulo Videira e suas carinhosas ajudantes, Dulce Morais e ISA E.
– Certo, na mouche! Agora leia o último parágrafo.
– Certo, chefe e é nomeadamente para já, chefe. Ó chefe, o que é um parágrafo?
– Irrraaa que é burro! Leia essa parte final que diz epílogo…
– Eh chefe, somos nós no deserto, chefe…
– Ó homem passe à frente, leia o último trecho, o que está escrito em itálico porque é suposto estar a ser lido por si…
– Certo, chefe, é para já, chefe.
ILHAS SEYCHELLES
Num resort turístico nas Ilhas Seychelles, com cabanas de fundo envidraçado sobre o mar, pequenas praias privadas e areias alvíssimas e águas marinhas de um azul cristalino. Através da água do mar vê-se o fundo do oceano, seus corais e peixes multicolores. Numa enorme toalha de praia estão Huguinho e Joaninha beijando-se apaixonadamente depois de terem resolvido juntar os trapinhos por sugestão do multimilionário autor João Paulo Videira que descobriu um tesouro antiquíssimo nas areias do deserto do Sahara. Ao lado deles, recostados em duas enormes cadeiras espreguiçadeiras, estão Marinho e Belinha que bebem um refresco de leite de coco a partir do próprio fruto chupando por uma palhinha. Ela está a ler uma revista cor-de-rosa e ele tem um jornal desportivo sobre o peito mas adormeceu há muito e está apanhar um escaldão. O magnânimo João Paulo Videira pagou-lhes as dívidas e indemnizou as vítimas das suas vigarices e trouxe-os consigo para lhe fazerem companhia, afinal de contas, são uma criação sua. No meio do mar estão Patilhas e Ventoinha a pescar e a conversar animadamente. Num lançamento desajeitado, o anzol de Ventoinha atinge o rabo de Patilhas e ouve-se ao longe, Irrraaa que é burro!
Um pouco afastado deste grupo está João Paulo Videira recostado numa cadeira espreguiçadeira, com os joelhos dobrados e o seu caderno preto sobre eles. Está a escrever. Ajoelhada na areia, atrás de si, envergando um biquíni minúsculo em sua bunda redondinha e bronzeada está ISA E. que se dedica a massajar-lhe os ombros. Ao lado do escritor, também ajoelhada na areia, com um biquíni igualmente minúsculo em sua bunda encarnada queimada do sol, está Dulce que lhe vai passando um pouco de protetor solar no peito e nos braços. ISA E., com carinho no olhar, diz para Dulce:
– Quirida, o nosso JP é imbativéu, sê não acha não?
– Claro ISA E.! Só ele se lembraria de fechar uma história com o epílogo, como deve ser. Estou rendida à sua arte e aos seus encantos.
– Põe encanto nisso, quirida! Eli é tão espadaúdo! Músculo rijinho paca, viu?! JP, nosso amor, a massagem tá bem assim, tá?
– Muito bem ISA E. Você é ainda mais carinhosa ao vivo do que no blogue.
– E o creme, está bem assim, JP?
– Muito bem, Dulce, tens muito jeitinho.
– JP, é este o final que pensaste para “Por causa da Dívida”?
– Não, Dulce, isto é só parte do final… ainda falta um toque…
– Um toque quê, JP?
– Um toque apoteótico. Olha, aí vem ele… estás a ver a vegetação aí na parte de trás da praia?
– Estou, JP, mas não vejo nada…
– Olha com atenção, Dulce, e você, ISA E., olhe também…
Na vegetação por trás de JP começa por sentir-se um restolhar de gente e um som ao fundo como se fosse música, depois o som vai ficando mais elevado e mais nítido e percebe-se que é um ruído imenso de festa. O primeiro a surgir é o Brutamontes Quebra-Ossos. Com sua força descomunal traz um bar de madeira às costas atira com ele e o bar fica cravado na areia da praia, depois surgem dezenas de pessoas da vegetação, todos amigos e leitores de JP, Dulce e ISA E. Os homens trazem geleiras com bebidas frescas e rádios às costas, as mulheres, trazem saias ao estilo havaiano, colares de flores e biquínis diminutos e vêm todos a dançar e a cantar, Brasiiil, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá… Marisete Zanon passa dançando e pulando e deixa um beijo na testa de JP marcando-o com batom, abraça-se a ISA E. e Dulce e lá vão cantando e dançando, abanando suas bundas ao ritmo da música enquanto balançam os braços para cima e para baixo. Depois chegam Marly, Bia Hain, Antônia Ivani, Claudia Fernandez, Elaine Neves, Vera, Ingritt Maiara, Sofia Toscana, Milton Alves e tantos, tantos outros amigos de ISA E.E quando o sotaque brasileiro parecia tomar conta da praia, surge do arbusto o Clã do Comboio, primeiro, a Senhora das Caralhotas, não se vê o biquíni, está tapado pela bunda e pelos enoooormes seios, depois a Senhora da Revista de Culinária, o Rapaz do Fato Cinzento, um Tipo Careca a que a gente Chama Álvaro, o VM, O RB e todos os outros dançando e pulando ao som da música. Por fim entram na fantasia os leitores de Dulce e JP e tomam conta do pedaço. Joga-se à bola, dança-se, brinca-se à apanhada e há risadas ecoando no ar. O Brutamontes Quebra-Ossos começa a distribuir caipirinhas, todos cantam e dançam e riem e fazem a festa da amizade em português, a festa da fraternidade sem fronteiras, com muita música, muita alegria, muita paz e, claro, biquínis diminutos! À medida que vão dançando, afastam-se um pouco de JP e o escritor contempla-os e pensa, Isto, sim, é um final digno da mais louca Bologonovela da Web. Nesse preciso momento, uma lágrima corre-lhe pelo olho, mas tem de ser… ele empurra a caneta para o papel e escreve… FIM!
jpv
Por causa dA Dívida – XVIII
Pequeno-Almoço
Por causa dA Dívida – XVII

Por causa dA Dívida – XVII
– Ventoiiiiinha!
– Sim, chefe, diga, chefe.
– Abra a porta!
– Não prefere uma janela, chefe?
– Irrraaa que é burro! Não é para arejar, sua cavalgadura, é para entrar quem bate!
– E quem é que bate, chefe?
– Irrraaa que é burro! E como é que eu sei se a porta está fechada e as pessoas estão do lado de fora?!
– Chefe…
– Sim, Ventoinha…
– E se o chefe e nomeadamente não vê e como é que sabe que são pessoas e não é pessoa?
– Bem visto, Ventoinha!
– Bem visto e com a porta fechada!
– Abra a porta, cavalgadura!
– Bom dia, Senhor Inspetor Patilhas.
– Olha quem são eles! O Marinho e a Belinha… Ventoinha, aplique o código 666.
– O Livro do José Rodrigues dos Santos, chefe?
– Irrraaa que é burro! Quero lá saber do livro de um jogador de futebol! O nosso código 666!
– Mas ó chefe e nomeadamente o número não é esse, o do livro, bem entendido, e o José Rodrigues dos Santos não é um joga…
– 666! Já!!!
– E temos um problema, chefe…
– Irrraaa que nada acontece consigo! O que é agora?
– Esqueci-me, chefe, a gente trabalha tão pouco que eu esqueci-me do código!
– Irrraaa que é burro! É uma ordem de prisão! Meta-os na cela!
– Mas, Senhor Inspetor…
– Calem-se! Aqui a autoridade sou eu…
– Chefe, e temos e nomeadamente um problema…
– O que é que foi agora?
– Só temos um par de algemas, chefe, e os suspeitos…
– Culpados!
– Certo, chefe, os suspeitos culpados são dois!
– Irrraaa que é burro! Prenda cada um a uma argola das algemas e meta-os na cela!
– Ó chefe, mas a cela não tem porta!
– Meta-os na casa-de-banho!
– E depois onde é que a gente se alivia chefe?
– Irrraaa que é chato! Meta-os na cela do Brutamontes Quebra-Ossos!
– Ó chefe, e o chefe sabe porque é que lhe chamam Quebra-Ossos…
– Faça o que eu disse!
– Ó Senhor Inspetor, não faça isso, nós somos inocentes!
– Quais inocentes, quais quê! Tenho ordens superiores para os enjaular para sempre.
– Superiores? Nem houve julgamento!
– Nem foi preciso. A Dona Dulce e o Senhor João Paulo é que mandam nisto. Ou era isso, ou passavam uma borracha na minha existência. Perceberam?
– Safados! Autores malvados! Isto é uma injustiça! Ó Senhor Inspetor, foram eles que mataram a Alice Ferrier!
– Não sei nada disso e se soubesse fingia que não sabia!
– SOCORRO! INJUSTIÇA, INJUSTIÇA!!!
– Dulce…
– Sim, JP…
– Tenho de te tirar o chapéu. Grande Plano! Pões a Belinha e o Marinho a assinar um contrato que dá plenos poderes sobre o destino deles a uma tal de Alice Ferrier que não é mais do que um pseudónimo teu, matas o pseudónimo, enfias com o casal maravilha na cadeia para a vida inteira e livras-te, perdão, livras-nos, daquelas chagas para todo o sempre. Genial!
– Estás a ver, JP, nunca me subestimes. Eu disse que resolvia e resolvi.
– Dulce…
– Sim, JP…
– Mas a verdade é que eles não cometeram o crime e vão passar o resto da vida a apodrecer ao pé do Quebra-Ossos.
– Deixa-te de lamechices, JP. Eles são só personagens. Nem sequer são de carne e osso e estavam a tentar tomar conta da nossa história e a tentar tramar-nos.
– Está bem, mas, mesmo assim, não cometeram o crime…
– Queres que eles voltem?
– Não, não!
– Então, JP, caso encerrado.
– Caso encerrado, Dulce. E o que é que lhes vais fazer? Como vais escrever o último capítulo?
– Vou optar pelo óbvio. No último capítulo vou deixá-los presos com o Quebra-Ossos, vou indemnizar todos os que eles prejudicaram e vou dar uma lição ao Huguinho e à Joaninha que são dois adúlteros sem emenda. Que me dizes, JP?
– Acho bem, Dulce, acho bem. Tenho de reconhecer que o teu plano livrou-nos de boa… olha, olha, estou aqui a receber um e-mail da ISA E., a autora do Blogue “Diário de Um Ano Bom”. É bem simpática, não achas?
– Claro que acho. É muito carinhosa e muito generosa… olha, também estou a receber um e-mail dela. Qual é o assunto do teu?
– O meu chama-se “Mudança de Planos”.
– Olha que engraçado, JP, o meu também… acho que a ISA E. nos mandou aos dois o mesmo e-mail. Lemos em conjunto?
– Lemos. No meu telefone ou no teu computador, Dulce?
– No meu computador, JP.
– Ok, abre lá isso.
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De: ISA E.
Para: Dulce Morais
Cc: João Paulo Videira
Assunto: Mudança de Planos
Caros amiguinhos portugueses,
Estou adorando essa história “Por causa dA Dívida”, é muito engraçada, repleta de aventuras, como dizemos aqui no Brasil, é uma história jóia, muito legal. Sês são uns escritores maravilhosos e fazem uma excelente dupla. Suas personagens são muito cômicas e algumas são mesmo intrigantes. Foi uma excelente idéia escreverem juntos. Sês têm todo o meu carinho. Quando for o Carnaval, podem vir ao Brasil que eu ofereço o alojamento! Tenho acompanhado o desenvolvimento dos acontecimentos. O Patilhas e o Ventoinha são fantásticos e a Belinha e o Marinho são dois errados mas tem bom coração. E aqui surge a motivação deste e-mail. Eu penso que eles abusaram um pouco da sua paciência, mas também me parece que condená-los a prisão perpétua junto com o Quebra-Ossos é um castigo demasiado pesado até porque sendo sês os autores, os defeitos deles são só o reflexo dos vossos.
Assim, meus queridos, me permiti a liberdade de tomar algumas providências. Contratei um hacker, um pirata do ciberespaço, para entrar na área de trabalho dos vossos blogues, depois pedi para ele mudar as senhas de acesso e os bloqueei para sês.
E porquê eu fiz isso? Eu, ISA E., vou ser a autora do último capítulo de “Por causa dA Dívida” e nesse capítulo farei justiça e trarei algum equilíbrio a essa trapalhada que sês chamam de história. Claro que, para proteger o capítulo, ele será publicado no meu blogue, “Diário de Um Ano Bom”.
Foi o melhor a fazer para o bem de todos! Vos deixo com muita paz e muito carinho. Sua incondicional amiga,
ISA E.
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– JP…
– Sim, Dulce…
– Não consigo aceder à área de trabalho do meu blogue!
– Nem eu do meu, Dulce…
jpv
Crónicas de Maledicência – A Loja do Verdadeiro Cidadão
Quando a Publicidade Fantástica Inova!
Quando a Publicidade Fantástica Estraga Tudo!
Até Já!

Até Já!
O som inconfundível
Da máquina nos carris,
A travagem chiada,
A porta desliza
E abre-se a entrada.
Lá dentro a sonolência
Matinal
E a tua figura jovial.
Tens um traço de ruralidade
E um outro cosmopolita,
E vive em ti
Uma companheira de viagem,
Uma pessoa bonita.
Foram horas de leitura comum,
Dias a escrever aventuras,
Histórias e poesias,
Conversas sobre loucuras
Cheias de sentido
E também vazias.
Foram sorrisos,
E foram lágrimas,
Foi a conversa
E a cumplicidade,
Foi a partilha de duas almas
Ligando o campo
À cidade.
O lar ao trabalho.
A realidade ao sonho.
Não me vou despedir de ti.
Esta, sendo a última,
Não é a derradeira
Das nossas viagens.
A vida tem surpresas,
Tem esquinas
E tem mais paragens.
E será numa dessas
Que nos vamos reencontrar,
Sem promessas,
Só com a esperança
De voltar
A escrever um verso,
Uma linha partilhada
Sobre o mistério da vida
Ou,
Tratando-se de nós,
Sobre rigorosamente nada.
Foi sempre e só
Uma questão de amizade,
Uma viagem menos solitária,
Uma ideia,
Uma frase
Com ou sem dor.
Na tua mente,
Na minha mente,
E no teu computador.
Na blogosfera,
Na emoção,
Na excitação…
E, depois, Santa Apolónia.
Até amanhã!
Até amanhã!
E, na manhã que depois vinha
Tudo de novo se repetia,
Os mesmos gestos
De vida,
A mesma magia.
Adeus, companheira!
Até já!
A única coisa verdadeira
Que fica
É esta amizade bonita
Nascida nos bancos
De um comboio,
Crescida no apoio
Que trocámos
E cristalizada
Nas palavras que reinventámos.
À Dulce,
Pela amizade partilhada
Em dois anos de inúmeras viagens.
As de comboio. E as outras.
jpv
Pequenos Milagres – Ricochete

Ricochete
Já se tem ouvido dizer em meios diversos que os milagres são um retorno. Recebemos consoante aquilo que semeamos. Há mesmo quem vá mais longe e assegure que toda a nossa existência, a nossa presença no Universo e o próprio Universo são imensos canais de energia e, como tal, tudo à nossa volta é uma complexa rede energética. O tipo de energia que colocamos naquilo que fazemos multiplica-se e volta para nós reforçado. Em bem ou em mal consoante o que semeámos. É uma espécie de teoria do ricochete aplicada à nossa existência. Sempre percebi isto e consigo até concordar, o difícil era ver a teoria em realização plena como agora se mostrará.
Era um homem idoso, as pernas arqueadas pelo peso do tempo, as mão engelhadas com os sulcos da vida, a barriguita proeminente, a cara lisa e os olhos muito azuis por baixo da testa longa e do boné enterrado na cabeça. De vez em quando tirava-o para o recolocar, assim como quem ajeita um vício, e via-se o cabelo muito ralo e muito branco. Tinha uma mal-formação na face como se fosse um sulco aberto que secou sem cicatrizar. Começava na cana do nariz, abria caminho por entre os sobrolhos e acabava-lhe no meio da testa. Era uma ferida feia se fosse uma ferida. Sendo uma marca de nascença não ficava mais bonita por isso. Entrou no comboio, sentou-se de frente para mim, abriu as pernas, pousou as mãos na bengala e disse-me:
– Este é o que vai para Tomar?
– É sim senhor.
– Muito obrigado.
– Não tem de quê.
– Já há pouco quem dê uma informação. Cada um só quer saber de si.
– Ainda há quem o faça.
– Como é a sua graça?
– João Paulo. E o senhor?
– Eu sou o Matos. Também me chamam o Ricochete.
– Ah sim? Interessante…
– Esse Ricochete que me puseram na alcunha salvou-me a vida. Não fosse isso e estava frio debaixo da terra há mais de quarenta anos.
– Ainda bem que tudo correu bem.
– Não sei se correu tudo bem. Sei que, até certa medida, correu bem para mim. Quer ouvir a história?
– Claro que sim, adoro histórias.
– Para que é esse caderno preto?
– É para escrever histórias.
– Bem me parecia. Então ouça esta e depois escreva-a. Começo pela parte do helicóptero… gosto da parte do helicóptero.
– Ah… mete helicópteros!
– Claro. Vou contar o que me lembro e o que não me lembro contaram-me. E eu fiz fé no que me contaram porque camaradas de armas são camaradas de armas. Só há entre eles a verdade da vida e da morte. Nada mais. O helicóptero pousou já eu sangrava há mais de duas horas. Raiava a madrugada. Tinha uma camisola interior enrolada na cara completamente empapada em sangue. Quatro camaradas agarravam na maca com uma mão e seguravam o boné do camuflado com a outra enquanto se dobravam para não serem atingidos pelas hélices. Era um barulho sibilante e entrecortado, a deslocação do ar dobrava o capim que sendo da altura de um homem, ali parecia raso. Tiraram-me o pano da cara e a luz da manhã que nascia feriu-me a vista. Não conseguia ver nada, mas ouvi um camarada dizer, Nossa Senhora, o que para aqui vai, foderam-lhe a cara toda, quem é que fez isto? Foi um turra, só não percebemos porquê. Não percebem o quê? Não percebemos porque é que o turra não lhe limpou o sebo… teve-o ali à sua mercê. Quem é ele? Nem o reconheço. É o Matos. E o que é que ele diz? O gajo não se cala. Pois não, desde que levou a cronhada nos cornos que não pára de gritar ricochete, ricochete, ricochete. Fui transportado e levado ao hospital de campanha. Por causa de uma bactéria qualquer e por causa da força do calor a ferida não queria sarar, eu acordava dos sedativos, arrancava os pensos com as minhas próprias mãos e percorria o hospital descalço e com o pijama cheio do sangue que me escorria pela face abaixo e pelo queixo e pelo peito, sempre a gritar, ricochete, ricochete, ricochete. E fosse quem fosse que se aproximasse, eu agarrava em tudo o que fosse sólido e atirava aos camaradas. Cadeiras, tigelas da sopa, daquelas metálicas, baldes, facas, era o que apanhasse à mão. Estava louco. Levei três meses a acalmar. A ferida secou, mas nunca fechou. Quando me viram mais são enfiaram-me num avião e mandaram para o Puto. Nunca mais fui à África. Eu que tinha ido por vontade própria.
– Vontade própria? Mas naquele tempo não eram todos obrigados?
– Eram. Mas calharam-me as sortes.
– As sortes?
– Sim. De tantos em tantos, uns milhares, creio eu, sorteavam um para ficar e a mim calhou-me e eu disse logo, Nem pensem que volto para a terra com a mala feita. Isso era uma desonra. Vim aqui para embarcar para a guerra e é para a guerra que vou, defender a Pátria. E sabe que mais? No fim nem um obrigado. E morreu tanto miúdo novo à minha beira. Mas, olhe, a gente também não defendia a Pátria. Defendíamos-se uns aos outros e já não era pouco.
– Posso-lhe fazer uma pergunta?
– Venha ela.
– Porque é que o senhor não parava de gritar ricochete, ricochete, ricochete?
– Ah, bem lembrado. Isso tem a ver com o início da história. Uma ocasião subimos ao Ambriz, Ambrizete, até ao nosso Congo. Era um alto, via-se o valado todo e do outro lado o Congo Belga. Assentámos arraiais e por ali estivemos uns dias a patrulhar aquela zona da fronteira. Mais tarde, recebemos ordem para descermos mais para sul mas sem ser junto ao mar, parece que havia notícia de andarem por ali os turras. Pudera! Eles andavam por todo o lado. Eu ia em cima de uma Berlier, era uma camioneta blindada muito antiga, tinha uma metralhadora rotativa lá em cima e umas proteções em ferro. De repente, saltam-nos os turras ao caminho e vai de disparar contra nós. As balas as zumbirem-me aos ouvidos e a estardalharem no ferro da Berlier. Eram mais de dez. Eu vi logo que ou era a minha vida ou era a deles e vai de abrir fogo. Caíam que nem tordos. É muito fraca a vida dos humanos. Quando aquilo acalmou, saltámos em cima deles e, para meu azar, ou para minha sorte, ao arredar o capim, sabe o que é o capim?
– Sim, é uma erva alta. Pode ser mais alta que um homem e corta como facas.
– Eh lá, como é que você sabe isso?
– Nasci em Angola.
– Ah bem… adiante… Deparo-me com uma mulher, não tinha mais que era vinte anos, levava uma criança pequenina às costas embrulhada no pano, elas só vestiam aquele pano e a criança ia entalada entre a pele dela e o dito pano. E estavam dois tipos no chão, um todo empapado em sangue, morto. O outro ajoelhou-se aos meus pés, apontava para a rapariga e dizia, Irmãos, somos irmãos, não me mate senhor! Apontei-lhe a arma, encostei-lhe o cano à testa escanzelada e gritei, Vais morrer, cabrão, vais morrer. Começou-me a cheirar a merda. Ele tinha-se borrado todo. Somos muito fracos. Somos carne muito fraca. Não valemos nada. Não fui capaz de o matar, não daquela maneira, indefeso e à frente de uma mulher e de uma criança inocente. Mas não podia dar parte fraca junto dos companheiros e tinha de o fazer prisioneiro. Virei a arma ao contrário, agarrei-a pelo cano e dei-lhe uma cronhada. Abri-lhe a cabeça toda. Quando chegaram ao pé de mim, disse-lhes que estava vivo, e devia ter sido atingido por estilhaços. Levámosios a todos. A ela soltaram-na e foi trabalhar de servir para Luanda. Ele ficou no hospital de campanha, recuperou-se e esteve por ali três meses. Ao fim de três meses, estava são e cheio de força e tinha uma cicatriz na testa que parecia a linha do comboio. Assim como esta que você aqui vê.
– Então e depois o que é que lhe aconteceu?
– A ele?
– Sim, a ele…
– Quando se sentiu com forças e quando percebeu que confiávamos minimamente nele, fugiu.
– E nunca mais o viu…
– Vi, vi… oh se vi! O tipo, às vezes, andava lá pelo quartel e o mal da cabeça, a loucura, apoderava-se de alguns camaradas que disparavam para o chão, junto aos pés dele e punham-se a gritar, Dança o ricochete, ó pá, que é uma modinha lá da nossa terra, dança o ricochete… E o pobre lá ia aos saltos a fugir do efeito das balas. Um dia chegou-se a mim e perguntou, O que é o ricochete? E eu disse-lhe, É quando uma bala bate nalgum lado e volta para a gente. E o tipo só disse, Ricochete…
– É uma história interessante.
– Ainda não acabou. Quer ouvir o resto?
– Claro.
– Um dia chamaram o nosso Alferes e deram-lhe instruções para uma missão de reconhecimento. E lá fomos, todos artilhados, armados até aos dentes com cartas de familiares, fotos das namoradas, das noivas, das mulheres, as armas e o medo. Mas aquilo que mais levávamos connosco era a desconfiança. Qualquer som, qualquer movimento suspeito e fora da normalidade ou da rotina, e desatava tudo aos tiros a denunciar posições. Às tantas, o cansaço do corpo e da alma era tanto que já ninguém fazia nada de jeito. Isto foi assim. Era noite cerrada. Íamos em formação a avançar pelo mato adentro, silêncio quase absoluto, e o filho da puta do Gomes, um tipo ali de Marco de Canavezes, com uma beata acesa nos lábios. O Antunes viu aquele descuido e foi ao pé dele para o avisar. O Gomes fez má cara e jogou a beata para longe. O Saraiva, um tipo pequenino, rijo como os cornos, e mais desconfiado sozinho que o pelotão todo inteiro, ia mais à frente e viu pelo canto do olho o lume da beata a riscar o breu. Não está com meias medidas, volta-se para trás e vai de disparar no escuro. Sabe, senhor, às vezes a sorte é mãe, outras é madrasta. Os turras estavam ali debaixo dos nossos pés… Foi um massacre. Perdi mais companheiros nessa noite do que amigos e familiares em toda a minha vida. Por entre os estrondos e os relâmpagos, fui cuspido pelo impacto de um morteiro. Caí de costas. Limpei a terra da cara deitado no chão e quando abri os olhos estava um turra de olhar fulminante, G3 apontada na minha direção, a um palmo da minha testa, tinha uma cicatriz gigantesca entre os olhos e pôs-se a gritar, Vais morrer, cabrão, vais morrer. Depois, baixou-se, puxou-me pelo pescoço, o bafo dele a aquecer-me a cara, o sangue no olhar, pensei que era o meu fim, o tipo cerrou os dentes e disse, Ricochete! Não me lembro de mais nada, senhor, nem sei quando me comecei a lembrar… sei que durante muito tempo gritei aquela palavra como quem expulsa um demónio, como quem expia um pecado. Sabe, senhor, a minha vida tem sido errante como uma bala perdida e nesse dia fez ricochete na morte e voltou para este mundo. Ainda hoje não sei o que me salvou. Foi uma espécie de milagre. A gente dá e vem a receber, um olho por um olho, um dente por um dente e às vezes, senhor, uma vida por uma vida.
***
Nunca mais vi o senhor Matos. Não sei o que foi feito dele. Sei que aprendeu a nossa fragilidade e a nossa errância. Aprendeu a vulnerabilidade da nossa existência. Uma existência à mercê de ricochetes e bafejada por milagres. Pequenos milagres de dar e receber.
jpv





