Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Notícias e Agradecimento

(Maputo, Avenida Marginal)
Caros Amigos, Leitores e Familiares,

Chegámos. Depois de uma viagem longa, 19 horas, mas confortável, cá estamos. Saímos às 15h do dia 13 de setembro, de Lisboa, chegámos às 17:30 a Londres donde saímos às 19h. Por pouco, muito pouco, não perdemos este avião. Chegámos às 5:30 da manhã do dia 14 a Joanesburgo donde saímos às 10h e aterrámos em Maputo às 11h.

Muito boa receção com toda a gente a querer ajudar, mas, efetivamente sou forçado a distinguir alguém e faço-o com grande sentido de reconhecimento. Aos nossos primos Marco e Sandrine agradecemos a receção, a imersão na grande cidade que é Maputo, os ensinamentos sábios acerca das coisas mais básicas e também as mais complexas que eles nos deram entre ontem e hoje. Sem a ajuda deles, o apoio na mobilidade, nos contactos e na adaptação aos hábitos, teríamos a tarefa de integração e adaptação muito complicada. Assim está a ser fácil. Quer dizer, mais fácil…

Farei as “Crónicas de África”, para já, importa dizer que as gentes são muito simpáticas, que tudo é novo e entusiasmante, que estamos a renascer e a aprender a viver outra vez! É fácil gostar de África! Vir para África não é como visitar uma cidade europeia em que vemos coisas diferentes mas mantemos o estilo de vida. Aqui a VIDA, os hábitos, as práticas e, sobretudo, os conceitos são mesmo diferentes! Conceitos como o tempo, a distância, a posse, a transação, tudo isto muda!

Falar-vos-ei de tudo, mas agora preciso trabalhar e, fundamentalmente, preciso de me instalar e essa tarefa não é nada fácil!

Obrigado por todas as mensagens de e-mail e comentários de comunhão e encorajamento… vou contar-vos tudo com pormenor e, claro, escrever muita poesia e publicar o romance em curso, “A Paixão de Madalena”, em que tenho avançado no manuscrito.

Um abraço a todos e voltem sempre.
jpv


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Dizer de Mãe

Lá vai julho e agosto,
Lá vão estes dois meses.
Vai-se embora o meu amor
Com quem eu falava às vezes.

Luísa Videira


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Crónicas de África – Antes de África

Antes de África

Zibreira, 12 de setembro de 2012.

Pois, não é lá muito normal escrever uma crónica de África na Zibreira. Acontece que, bem vistas as coisas, a vida não é nada normal. Apresenta-se como se apresenta e nós, depois, na nossa pequenez, fazemos os juízos de valor e até inventamos conceitos impossíveis. Como o da normalidade, por exemplo.

Amanhã parto para África. Isto tem matizes diversos. Eu nasci em África, vivi lá oito anos, regressei há trinta e seis e amanhã é o dia de regressar. Este é um matizado especial. Um outro é a expectativa que familiares, amigos e colegas de lá têm manifestado. Toda a gente quer ajudar. Ainda não fui, mas os ventos africanos parecem já estar entrando na minha vida. E fazem promessas bonitas, Vem, vem, vais adorar, Isto aqui é a tua cara, Não precisas trazer boa disposição, há cá muita… assim se cumpram. E há um matiz de entusiasmo, as roupas pela cama, as malas abertas comendo o conteúdo e barrigudas de demasiado cheias, abri-las e deixar ficar aquilo que não era tão essencial assim, os alunos esperando. Dar aulas é sempre dar aulas, milagre ímpar, mas antecipo que o facto de serem outras terras e outras gentes traz também suas mudanças e suas aprendizagens e, claro, isso entusiasma. É um fervilhar de emoções…

E há tristeza. Lágrimas incontidas na noite. A mãe que fica, a mana, sim a deste blogue, a cunhada e o cunhado, os sogros, os tios, os primos, os amigos, a nossa casa, nosso lar, e essa falta, esse peso no peito que é deixar o menino para trás. O menino tem vinte e dois anos, feitos ontem, é um homem, o menino. Mas, se fosse ele a partir, acho que não me doía tanto. É natural os filhos buscarem vida. Partir eu e deixá-lo para trás implica dúvidas e dor e saudade antecipada. Espero que essa África de coração grande ajude a sarar estas feridas que agora se abrem.

Mas esse continente já se anuncia na nossa vida. E tens de ir não sei onde, E vais fazer não sei quê, E vais adorar isto e aquilo, E os dias são assado, E as chuvas, As estações, E o peixe, e as gentes que são maravilhosas… Sim… Essa África lá longe, hoje, e já tão perto aqui… Essa África de antes de África anda-me entusiasmando, só faltou levar o menino…

PS: Tinhas razão, mamã, um dia ia-me acontecer.
jpv



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A Paixão de Madalena – Ponto de Situação

Caros leitores e amigos,

tem sido muitas as mensagens de correio eletrónico perguntando pelo terceiro capítulo. Tal como anunciei, estou numa fase muito atarefada e a publicação pode ser mais lenta. Ainda assim, sempre vou dizendo que este terceiro capítulo é muito extenso. Cinco ou seis vezes maior que o segundo e a sua preparação tem sido demorada. Está para breve… Grato pelas vossas mensagens.
jpv


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O Nosso 11 de Setembro

Caros Leitores,
peço muita desculpa a todos quantos sofreram a tragédia do 11 de setembro em Nova Iorque e àqueles que ainda sofrem com a tragédia, mas, para nós, este é um dia de imensa, inqualificável e redobrada alegria.

Com altos e baixos, com certezas e dúvidas, com alegrias e tristezas, com regozijo e dor, hoje fazemos 24 anos de casados… e acresce a isso o facto de o nosso filho fazer 22 anos de vida. Efetivamente, o rapaz resolveu nascer no mesmo mês, no mesmo dia e, imaginem a pontaria, à mesma hora em que tínhamos casado dois anos antes.

Assim, o nosso 11 de setembro é de alegria, é de vida e júbilo e, se é importante para nós o marco do casamento, sem dúvida que a presença do nosso filho ofusca tudo o resto.

Costuma dizer-se que os pais só têm olhos para os filhos. Acho que é mais do que isso. É só ter bons olhos. É sentir a nossa vida suspensa a cada decisão deles. É protegê-los, guardá-los e guiá-los para depois os ver partir como se nunca nos tivessem sido nada. Esse desprendimento, esse reconhecimento de liberdade e autonomia a quem amamos mais do que a nós próprios é o verdadeiro amor!

Não nos interessa muito o que o nosso filho é ou possa vir a ser. Não nos interessa muito o que ele possa vir a realizar. Para nós, a única coisa que realmente interessa é que ele é nosso filho e, faça o que fizer, será sempre entendido, valorizado, relativizado, percebido como uma centelha de perfeição no Universo. Quem não sentir este aperto no estômago, quem não depender dessa vida terceira, quem não souber abrir mão daquilo que mais ama, não é verdadeiramente pai, nem mãe.

Quem me conhece, sabe que sou um homem de múltiplas facetas e realizações e posso dizer, aos 44 anos, que já fiz de quase tudo. Pois, amigos, olhando para trás, a única coisa de que me orgulho 100% e sem qualquer reserva, não sou eu. É essa fantástica criatura que me tem cativo, como cativa tem sua mãe: o nosso filho. Melhor do que todos os outros como todos os outros, para seus pais, serão melhores do que ele, e se assim não fosse, não estaria correto.

Parabéns filho!
Vive sempre e para além de nós. Isso, aceitamos com naturalidade e regozijo.

jp/ap


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Poema da Mudança de AC

Poema da Mudança de AC

Estás na idade
Em que se define
A tua figura fina.
Anuncia-se a mulher,
Despede-se a menina.
Ondulados, os cabelos,
Como numa estátua helénica,
O sorriso cândido,
O olhar melancólico
E a pose fotogénica.
Finda o tempo
Da menina que anda,
Começam os dias
Da mulher que caminha
E se insinua
Só com o passar.
Estás na fase de ser senhorinha…
Para nós, sabes como é,
Mude o que mudar,
Veremos sempre a bebé.

Mas vive, já,
Nos teus gestos
E na tua presença,
O porte que dita
A sentença
Da perseguição.
Olham-te com volúpia
Os mancebos e os homens,
Teu pai senta-se à porta de casa
Com a caçadeira na mão!

E tudo isto
Me conta uma história,
Ainda que guarde na memória
Quem foste,
Eu já não o sou.
Passou por mim o tempo
Que te esculpiu
E me desgastou.
O mesmo espelho
Que te reflete mulher
Mostra-me velho.
E a única glória
É ver na minha morte
A tua vitória.

Nenhum homem
Comanda o tempo.
Nenhum homem,
Faça o que fizer,
Fica isento
À mudança de uma menina
Para mulher.

jpv


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Poema Escrito com os Pés dentro de Água

Poema Escrito com os Pés dentro de Água

O mar
Persiste
Em regurgitar
A clara
E límpida ideia.
Essa falua
De sonhos e imaginários
Batendo contra a rocha
E mostrando, exposta,
A luz e seus contrários.
E a escuma rebrilhando
Multiplica os brancos
Na água dançando.
Presa estava a alma
Do poeta,
E agora vive liberta
E voa
Na água ondulante
Prenhe de vida
E sal.
Passa a moça
Em seu biquíni sensual
E o poeta não a vê,
Bronzeada,
Porque nesse exato
Momento
Tem a alma lavada.

E o mar persiste em seu vai-e-vem,
E o poeta vê como ninguém
A clara e límpida ideia:
A vida é uma imensa teia
E não há coisa nenhuma
Que se não lave
Com a ondulante
E branca escuma.

jpv


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Seara

Seara

No andar,
A força da terra.
No olhar,
O espanto do céu.
Na mente,
O sonho de luz.
Nas mãos,
Pouco de seu.
Na voz,
A melodia do amanhecer.
No peito,
A vontade de viver.

Em cada dia,
Um gesto certo
E outro impreciso.
A ciência antiga
Nas coisas simples
E nas complexas.

No ventre,
O calor da seara por ceifar.
Um grito contido
No pecado do prazer.
Escapa-se um gemido
Na hora de acontecer
Vida.
Prometida.
Em teu seio de acolher.

jpv


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Crónicas de Maledicência – Eu quero de volta as Matronas

Crónicas de Maledicência – Eu quero de volta as Matronas

Caros leitores e amigos,
esta crónica é um autêntico grito de revolta, é um pedir de volta, é um ato desesperado procurando ajuda e socorro. Eu percebo que o mundo tem de mudar e evoluir, eu percebo que as coisas não podem ficar iguais, mas há ícones que não podem perder-se, há verdadeiros baluartes da nossa cultura que não podem desaparecer e, contudo, alguns vão-se eclipsando paulatinamente e, quando damos por ela, é demasiado tarde. Já se foram. Um gritante exemplo disto que vos acabo de escrever é a genuína matrona portuguesa.

Não sei se gastam tempo com estas observações e reflexões de alto teor intelectual e sociológico, também conhecidas pelo nome técnico de “parvoíces sem jeito nenhum”, mas eu gasto e sinto-me realizado com isso. Ultimamente tenho reparado nas recém-mamãs, aquelas senhoras que ainda estão na fase pós-parto e que, a bem dizer, deveriam estar deprimidas e cheias de olheiras, e que vejo eu? Vejo que a única coisa que têm em comum com a antiga matrona portuguesa, é estarem a empurrar um carrinho com um ou mais bebés. Tudo o resto mudou. A mãe dos dias de hoje tem as pernas bem feitas, o rabo firme e bem colocado, os seios hirtos a fazer inveja às solteiras, a barriguinha musculada e com aquelas covinhas dos lados, usa vestidinhos de malha agarradinhos ao corpo e nota-se claramente que a lingerie é diminuta, ou então calças justas de cós baixo com o ventre ali a saltitar à nossa frente, o cabelo brilha lustroso e luminoso e fazem os homens retorcerem-se todos a olharem para trás e garanto-vos que não é para ver as belas das criancinhas. Tem um ar jovem e fresco, deslocam-se com elegância e falam pausadamente e em tom sereno como se não carregassem o fardo da educação, a responsabilidade de cuidar de uma vida, e nada nelas transparece sacrifício. Enfim, quase nada. A verdade é que deve ser um sacrifício aturar o tipo barrigudo que segue atrás dela com um pólo Ralph Loren de imitação, uns calções, chinelos de enfiar no dedo e um chapéu de palha na cabeça.

Sejamos claros, eu não me importo que haja mulheres assim, muito pelo contrário, são um regalo e um bem da Natureza. Só estava à espera que fossem solteiras e não mães de gémeos!

Ora, o advento deste fenómeno tem erradicado a terna e tradicional figura da matrona portuguesa. Normalmente era uma senhora de pose avantajada, uns vestidos largos às pregas, uma barriga proeminente, umas cuecas que davam para fazer um jogo de lençóis para uma cama de solteiro, duas rodelas de tecido por baixo do sutiã que eu nunca percebi para que eram uma vez que o vestido surge manchado do leite materno na mesma. O mais normal é estarem com o cachopo mais pequeno ao colo e a darem uma valente bofetada no mais velho que estava a implicar com o mais novo. Atrás segue um marido em tudo idêntico ao já descrito só que este empurra o carrinho de bebé que, imagine-se, vai vazio! Esta mãe desloca-se desajeitada e fala alto com toda a gente como se continuasse sempre a ralhar com os filhos. É desajeitada, mas muitíssimo atenta e cuidadosa. Faz parte do meu imaginário juvenil e sinto um vazio imenso por estarem a desaparecer… por isso e por continuar a achar que as outras, as apetecíveis, não deveriam ser recém-mamãs. Uma recém mamã apetecível faz-me lembrar aquelas fatias de bolo da minha avó, acabadinhas de fazer, muito cheirosas e luzidias e quando a malta ia deitar a mão, alguém dizia, não comas que isso está acabadinho de fazer. Ora gaita, atão não é por estar acabadinho de fazer que apetece comer mais?

Tenho dito!

jpv


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Crónicas de Maledicência – A Culpa não é Dele


Crónicas de Maledicência – A Culpa não é Dele


No domingo, ao final da tarde, em Espanha, reparem bem, caros leitores, em Espanha, o mediático Cristiano Ronaldo, num jogo que não interessa para nada à nação lusa, marcou dois golos e em vez de comemorar, fez birra! Amuou!


Nessa noite, os jornais online e as televisões encheram-se com a notícia. Chegou mesmo a ser a notícia de abertura em alguns canais de televisão. Na segunda-feira, os rádio-jornais acordaram a falar do assunto e a imprensa escrita dedicou meias páginas e páginas inteiras ao sucedido. Na terça-feira, os comentadores da TV voltaram à carga e hoje, quarta-feira, ainda é notícia. Não a birra, mas as razões da birra!

E a mim apetece-me perguntar, Mas então anda tudo louco?
O país definha economicamente, a taxa de desemprego nunca foi tão elevada, há milhares de professores sem trabalho, os enfermeiros são pagos a tuta e meia, as empresas fecham, a restauração está na miséria e a fechar, o fogo queima Portugal de lés a lés, a troika visitou-nos pela quinta vez e o Senhor Primeiro Ministro disse que ninguém gosta de aumentar impostos mas ele não pode prometer nada, os ordenados são cortados, os subsídios de férias e Natal são suprimidos e o jonalismo retrógrado e bacoco da nação atreve-se a abrir telejornais, noticiários e a gastar tinta com a birra de um tipo que ganha mais de QUINHENTOS MIL EUROS por mês?! Mas então anda tudo louco?

Eu admito todas as dificuldades e faço todos os esforços, mas haja decoro! Haja respeito por quem tem de viver com dificuldades, por quem passa fome neste país, HOJE! Então mas aquilo é lá notícia? Para QUATRO dias?!

Eu bem sei que hoje em dia é muito difícil dizer mal do jornalismo. É uma Santa Intocável. E depois lá vêm as represálias! Sabem que mais? Estou-me nas tintas para as represálias! Qualquer jornalista, jornal, rádio, televisão, que tenha dado mais de 3 segundos de atenção à birra do CR7 praticou MAU JORNALISMO!

Tenho Dito!

jpv