Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


2 comentários

Crónicas de África – A Terra do Benfica

Crónicas de África – A Terra do Benfica

Maputo, 11 de fevereiro de 2013

Antecipemos juízos de valor errados: não é o benfiquista que vos escreve, é o mesmo João Paulo de sempre, o das “Crónicas de África”, o escritor, portanto. Equivale isto a dizer que estas palavras procuram, como sempre, a isenção, sem paixão clubística, neste caso.

Maputo é a terra do Benfica. Nunca vi, noutra cidade, como vejo nesta, uma manifestação de simpatia clubística tão acentuada, tão ferverosa.

Por exemplo, em dia de jogo do Benfica, seja ao sábado, seja ao domingo, seja mesmo durante a semana, são aos milhares, os habitantes de Maputo que envergam camisolas do SLB. Antigas, recentes, do equipamento principal, do secundário, genuínas ou falsificadas, tudo o que seja encarnado e tenha um emblema do Benfica serve. É engraçado vê-los atrás das esposas no supermercado, a empurrar o carrinho, é engraçado pararmos num semáforo e o carro ao nosso lado ter quatro homens lá dentro e todos estarem vestidos à Benfica. E eu perguntei:
– Bom dia, então para onde é que vão?
– Vamos ver o jogo! O Benfica é um orgulho nacional!

Esta resposta deixou-me perplexo. Ele disse vamos ver o jogo como se o jogo fosse em Maputo num dos estádios da cidade. E disse “orgulho nacional”. De que nação? Da Moçambicana? Da Portuguesa? Acabei por concluir que era o orgulho da nação benfisquista e a nação benfiquista é multinacional! E depois, à hora do jogo, os bares e os restaurantes que transmitem o jogo numa televisão enchem-se de camisolas do SLB a gritar ferverosamente goooolo!

Tenho de ser justo. Também se veem por cá camisolas do FCP e do SCP, mas o fenómeno não tem, nem lá perto, a dimensão do fenómeno benfiquista. São situações pontuais. Ora, quando joga o benfica, mesmo antes do jogo, ao longo do dia, é impossível atravessar-se uma avenida da cidade, ir a um supermercado, a um restaurante ou a um café sem nos cruzarmos com diversos simpatizantes vestidos a rigor! A cidade pinta-se de encarnado.

Assim, cito aqui uma expressão do meu colega e amigo benfiquista, Francisco Carvalho, sobre haver, ou não, seis milhões de benfiquistas. Diz ele na sua página do Facebook: “Seis milhões? Façam lá o update!”

Se eu pertencesse aos corpos dirigentes do SLB, tratava de premiar os habitantes de Maputo pelo seu inquestionável benfiquismo, nomeadamente, visitando, com a equipa principal, a capital moçambicana com alguma frequência. Assim, podia ser que, um dia, quando me dissessem “Vamos ver o jogo!” estivessem mesmo a dirigir-se para o espectáculo ao vivo e a cores com o clube do seu coração, o tal que é orgulho nacional!

jpv


Deixe um comentário

Citação de Kyle Mckenzie

“- O mundo não é como to dão, será como tu o fizeres.”

Kyle Mckenzie

in A Paixão de Madalena, Cap. 7
A publicar brevemente neste blogue.


1 Comentário

Citação da Perplexidade

“Vivemos num dos poucos países do mundo onde a empresa que distribui a energia elétrica patrocina jantares à luz da vela!”

jpv


3 comentários

Poema da Mala Vazia na Beira da Estrada

Poema da Mala Vazia na Beira da Estrada

Revoltaram-se,
os teus olhos,
contra mim!
Olharam
A vida vazia
E pensaram que era o fim.
São curiosos,
Os olhos,
Veem e pensam.
Encontram na beira da estrada,
Sem sonho,
Nem noite,
Nem alvorada,
A mala onde
Outrora
Esteve a fantasia.
A mala,
Como a vida,
Vazia!

E essa luz
Triste
E húmida,
Esse despertar
Da mente
A que chamas olhar,
Pediu-me.
Só o aconchego,
Só o afago,
O meu peito
Ao teu encostado.
E abri a mala
Donde saiu a cama
Que estava no quarto
Que fica na casa
Que está na fantasia
Da mala
Na beira da estrada
Que teus olhos contemplam
Antes de se zangarem comigo.

Não há jogo
Nem perigo
Como este de ter uma vida
Para viver uma vida,
Quando há tantas
Na mala da fantasia.
Na palavra incendiada,
Pujante epopeia,
Triste elegia
De uma mala
perdida na estrada vazia.

jpv


Deixe um comentário

Conversas Vadias – A Condição Económica

Conversas Vadias – A Condição Económica

Ele – Estás Grávida?
Ela – Eu? Não. Não tenho condição económica para engravidar!
Ele – Hã?! E isso é condição?

jpv
(Ouvido de passagem)


Deixe um comentário

Conversas Vadias – A Horta

Conversas Vadias – A Horta

Ela – Só me apetece é ir para os meus tomates!
Ele – Hããã?!
Ela – E para as minhas beringelas…
Ele – Oh, estragaste tudo!

jpv
(Ouvido de passagem)


2 comentários

Citação das Causas

“A causa dos grandes problemas é a ausência de pequenas decisões.”

Num Pacotinho de Açúcar


Deixe um comentário

Crónicas de África – A Slice of Heaven

Crónicas de África – A Slice of Heaven

Maputo, 5 de fevereiro de 2013

Era fim de semana prolongado. O carro necessitava manutenção. Um familiar e amigo, suporte fundamental na nossa chegada a Maputo, aconselhou uma oficina em Nelspruit. Descobrimos depois que metade de Maputo tinha ido de fim de semana a Nelspruit. Para nós foi óbvio. Juntar a necessidade da manutenção a uns dias de repouso. E foi assim que me pus à procura na web de um local para ficar. Encontrei. Mas encontrei um pouco mais do isso. Um cantinho do Paraíso a onze quilómetros do centro da cidade. O High Hide Lodge.

Pertence ao Norman e à Debbie Smith que têm ali mais do que uma forma de negócio. É onde eles próprios vivem. É um espaço de que cuidam com todo o amor e carinho e a que dedicam grande parte do seu tempo livre. Ideal para quem quer descansar num ambiente idílico. De jardins belíssimos e muito bem cuidados, muito enquadrados com a paisagem natural circundante, o High Hide Lodge oferece conforto, recantos belíssimos, uma piscina feita pelos próprios com um enquadramento delicioso, dezenas de espécies de pássaros, um lago artificial com peixes e a visita vespertina dos kudu, um antílope da zona. O lodge não tem muita oferta, mas isso é um dos seus encantos, uma das razões por que nos sentimos em família e em ambiente privado e acolhedor. Tem duas cabanas em cima da rocha, uma para duas pessoas e outra para quatro, uma tenda em canvas para 4 pessoas e uma casa maior para 6 pessoas. Diversos equipamentos para fazer uma boa grelhada, desporto nacional na África do Sul, e todas as condições para, com ou sem luz elétrica, passarmos uns dias de verdadeiro descanso, alheados de tudo, próximos de tudo. Depois, para o Norman e a Debbie, os hóspedes não são hóspedes, são amigos que estão de visita e é nesse espírito que nos convidam a assistir a alimentar os peixes, a esperar pelos kudu ou a apanhar fruta das árvores para a comermos fresca pela manhã. Se procura agitação, não é o local apropriado, embora esteja perto do centro da cidade. Se, ao contrário, procura relaxar ou levar a sua cara metade para um fim de semana romântico, é que nem hesite, passe pelo site deles e faça uma reserva… pois, a propósito disso, é importante dizer que os preços são muito acessíveis, um pouco abaixo da média praticada por aquele tipo de oferta, pelo menos a avaliar pelos preçários que se encontram na web.

E como há palavras que não chegam, aí ficam algumas das centenas de imagens que captámos no High Hide Lodge.

—————————-

Maputo, the 5th February 2013
(This text is not a translation of the above)

The past weekend we met Norman and Debbie Smith, a honest, hardworking couple who offers us a really quiet relaxing lodge with a fantastic  swimming pool and wonderful gardens. It’s a very comfortable and perfectly included in the surrounding environment place. Therefore, I took some time to advise all my friends (sorry guys in Europe, Asia and Americas!) that this is a perfect place for resting or, why not, a romantic time with your partner in the sweet crime of love!
To get to know more about this place, please visit the site of the High Hide Lodge, just 11km away from the centre of Nelspruit, in South Africa, and yet, a perfect slice of Heaven: http://highhide.webs.com/.

—————————-
The High Hide Lodge Experience

Casa na Rocha


Lago dos Peixes


Uma das muitas zonas para Grelhadas


Piscina


Escorrega e Piscina


Pormenor dos Jardins


Piscina


A Árvore do “Rei Leão”


Piscina e Escorrega


Piscina e Cascata


Casa na Rocha


Interior de Alojamento para duas pessoas


Entrada


Explosão Laranja


Pormenor de Jardim


Casa na Rocha


Ave no Jardim

jpv


2 comentários

A Paixão de Madalena – Capítulo 6

A Paixão de Madalena

Livro I – A Paixão de Madalena

6. A liberdade é um conceito. Às vezes também é um facto. Uma realidade. Não acontece sempre. E as mais das vezes nem é porque seja cerceada por terceiros, é porque nós próprios a desconhecemos, ignoramos os seus limites, e navegamos pela vida sem percebermos que liberdade temos, que liberdade podemos ter, que liberdade queremos ter e, não menos importante, que liberdade é a dos outros. Madalena sabe. Não sabe porque tenha pensado nisso, refletido e consciencializado. Sabe, porque sente no seu íntimo o desenho dos limites da sua ação, do seu desejo e do bater do seu coração. E foi por isso que decidiu mudar. Não sabe ela porque decidiu naquele momento da sua vida, naquele dia, naquele serão, e, por certo, não o sabemos nós que imperscrutáveis são os desígnios das personagens, mormente, das que são dotadas de caráter e vontade própria, como é ocaso. Ainda assim, podemos deitar-nos a adivinhar. Uma teoria possível é a do irrompimento. Há ideias que irrompem como plantas. Certo será que tiveram seu tempo de gestação, contudo, concentramo-nos nós por força da evidência no momento em que rompem a terra e beijam a luz em sua fragilidade que é afinal a inteira pujança da vida.

Madalena estava sentada num cadeirão da sala. Era uma cadeira antiga com braços de madeira estofados por cima em tecido de flores envelhecidas rodeado por uma fileirinha de tachas de latão pregadas muito juntas. Assentava um cotovelo num desses braços da cadeira e havia dobrado as pernas para as guardar debaixo de si. Tinha um pijama vestido. Segurava um livro aberto com os dedos da mão em V. A luz em redor era suficiente mas amarelecida. Nem ela, nem Kyle gostavam da agressividade das iluminações jorrantes de watts. Tinham feito amor ao final da tarde, depois um duche quente, depois um chá com leite e biscoitos de manteiga e, por fim, abandonaram-se às leituras que tanto apreciavam e estavam devorando páginas quando Madalena começou a mudar de posição frequentes vezes. Ele levantou os olhos por cima do óculos de ler e percebeu que um incómodo a apoquentava. Não era físico. Era uma comichão na mente. Regressou ao livro sem lhe dizer nada nem voltar a olhar para ela. Conhecia-a a bem e sabia que, o que quer que fosse, rebentaria em breve em palavras atrapalhadas e mal organizadas, primeiro, e depois num discurso mais pensado e terno. Decidiu esperar, portanto. Assim foi. Ela estava pensando, desenhando hipóteses, organizando o pensamento e ele, mesmo sem saber, entrou nessas linhas de vida traçadas pelo coração dela. Entrou e interrompeu a sequência do pensamento dela. Havia ali uma informação que, por despiciente que fosse, era fundamental para a organização que ela estava a dar às ideias. Aborrecida pela quebra da fluência das ideias e, sobretudo, pela continuidade do seu raciocínio depender de terceiros, colocou um ar interrogativo e sério e perguntou como quem desafia:
-Tu queres casar comigo?
-Já pensaste na hipótese de abandonares o curso geral e fazeres um curso profissional de contabilidade e administração?
-Não desconverses. Eu fiz-te uma pergunta séria.
-Em primeiro lugar eu não posso desconversar porque não havia conversa nenhuma, em segundo lugar se tu podes fazer perguntas do nada que não têm nada a ver com nada, eu também reclamo para mim esse direito e, por fim, doce Madalena, dificilmente a tua pergunta é mais séria do que a minha.
-Estás mesmo a falar a sério?
-Claro. Muito a sério…
-Hummm, não me apanhas, primeiro a minha pergunta.
-Porquê a tua primeiro? Eu sou mais velho…
-Muito mais velho! Acontece que eu perguntei primeiro.
-Estás a pedir-me em casamento?
-Como?!
-Já vi que não… o que queres com essa pergunta?
-Pensei que era óbvia…
-Mas não é!
-Pois, preciso de saber, quer dizer, estava aqui com um pensamento e de repente pareceu-me importante saber se tinhas intenção de casar comigo um dia, se para ti isto é para continuar, se… enfim, eu tenho uma ideia, vamos dizer uma determinação, mas ela só faz sentido contigo na equação…
-Quase me assustas, mas… mesmo não sabendo se casaremos ou não, conheces as minhas reservas em relação ao casamento, sei que farei parte de todas as equações em que estiveres, enquanto quiseres…
-Queres com isso dizer…
-Quero dizer que seja lá o que for que essa cabecinha esteja a magicar, podes contar comigo para tudo!
-Uau!
-Uau?
-Sim, uau! Já viste que acabaste de fazer uma extraordinária declaração de amor?
-Não pensei nisso, mas tudo o que vai de mim para ti leva amor.
Madalena saiu do cadeirão, dirigiu-se à secretária, abriu uma gaveta, tirou um caderninho e começou a registar apontamentos e a escrever pedaços de texto e unia-os com traços e gráficos e datas. Kyle, em tom sereno, interrompeu-a:
-Não vais responder à minha pergunta?
-Está tudo aqui.
-Onde? Nos rabiscos?
-Não são rabiscos. É um plano.
-Um plano. E acaso posso saber do que se trata? É que muito dificilmente não estarei envolvido nele e tu tens a mania de ter esses ataques de determinação, assumes e fazes e mudas e não perguntas nada… tens de partilhar.
-Tens razão. Em todo o caso isto são coisas minhas… envolvem-te, sim, mas são determinações minhas.
-Não serão nossas?
-Minhas com a tua ajuda…
-Ok, como queiras, o que se passa?
-Quero seguir o teu conselho e mudar para o profissional de contabilidade, quero trabalhar e, sobretudo, quero tratar da minha emancipação.
-Sabes ao menos o que é uma emancipação?
-Vá lá Kyle, leva-me a sério… que sentido faz depender dos meus pais para tudo, para todas as assinaturas e autorizações, estar constantemente a depender dos contactos entre a minha avó e eles, se eu sei o que quero da vida, como quero, com quem quero… eu não preciso de ninguém para decidir por mim ou para me autorizar o que quero para mim. Eu decido a minha vida. Então que isso fique claro. Que se acabe de uma vez por todas com essa farsa que é a tutoria dos meus pais…
-Não forces. Não avances tu, não vás à frente. Fala com Albertina. Ela levantará o assunto, dirá que será mais prático, dirá que é para facilitar e depois entras tu e tratas da papelada…
-Por mim, falava com eles, explicava tudo e arrumava o assunto.
-Não arrumavas nada. Tens de ter sentido estratégico…

E teve. Avançou para o curso de contabilidade. Fez uns exames de equivalência que superou com facilidade e a roçar o brilhantismo. Conversou com Albertina e surpreendeu-se com a naturalidade com que a avó encarou a ideia e se dispôs de imediato a conversar com os pais. Fosse porque reconhecessem a independência de sua filha Madalena, fosse porque o destino os obrigara a confiar os passos da jovem ao critério de Albertina ou, mais seguramente, fosse por medo de acordarem fantasmas do passado e reabrirem feridas nunca verdadeiramente saradas, os pais de Madalena, mesmo discordando claramente da ideia, quase não se opuseram. Uma leve resistência que cedeu aos primeiros argumentos de Albertina. Os papéis foram tratados, assinado o que havia para ser assinado, autorizado o que havia para ser autorizado, renunciado o que havia para ser renunciado, assumido o que havia para ser assumido e uma mulher nasceu. Já nascera a menina, depois nasceu mulher para um homem e agora nasce mulher para si e para o mundo. Em abril de mil novecentos e oitenta e nove, no dia do seu décimo sexto aniversário, Madalena enverga um vestido lilás de roda larga e mangas apertadas no punho com um botãozinho pérola. A entrega do processo foi surpreendentemente fácil. O mais difícil seriam as sessões seguintes. Ora sozinha, ora com Albertina, ora com Kyle, Madalena viu a sua vida vasculhada, a sua intimidade devassada. Respondeu a tudo com serenidade. Três meses depois, numa manhã chuvosa e fria, sai do tribunal, corre para o carro, beija Kyle com sofreguidão e diz-lhe, Conseguimos, meu amor, conseguimos. Já não sou tua por empréstimo, sou uma mulher que decide o que fazer com a sua vida e eu entrego a minha nas tuas mãos, Kyle Mckenzie. Oh! Princesa! A tua vida a ti pertence e a mais ninguém. És uma alma livre, sempre serás. Tens a fragilidade das flores e a tenacidade dos seres mais fortes e resistentes… não serás minha, nunca. Serás sempre de ti e é isso que amo. Serei teu companheiro enquanto conseguir. Deixa-te de lamúrias, irlandês teimoso! Quero-te ao meu lado para sempre, prometes? Prometo. Kyle ainda não sabe, mas há de cumprir a promessa.

Não é que precisasse, mas decidiu trabalhar para sentir o sabor da autonomia. Com a ajuda de Kyle, conseguiu um trabalho à noite num pub onde se jogava snooker em mesas dispersas num enorme salão de mesas atapetadas de verde e longos candeeiros sobre elas projetando luzes fortes. Madalena servia as mesas, limpava-as, mantinha a sala limpa e enquanto se deslocava apaixonava-se pelo jogo. Tudo aquilo lhe parecia matemático e fácil. Calculável como uma equação. Kyle não a vigiava, mas ficava por ali muitas vezes. Agradava-lhe a ideia de a ter por perto enquanto bebia uma Guiness. O orçamento dele daria perfeitamente para viverem confortáveis como, de facto viviam, mas não podia cortar-lhe o sentido de independência e realização que só com o trabalho se conquista. Era preciso que crescesse e este sacrifício de estudar e trabalhar e viver com ele e para ele estava a fazer da menina cada vez mais mulher. De alguma forma, Kyle percebera que só a reteria junto a si se a soltasse. Qualquer atitude de posse, qualquer movimento de retê-la, seria perdê-la para sempre.

Um dia Madalena atrasou-se no trabalho. Era já tarde e Kyle adormecera. Acordou assustado, meteu-se no carro e encontrou o pub fechado com uma luz trémula lá dentro. Bateu à porta devagarinho, sentiu passos, um homem de barba por fazer e uma chama velha de cigarro ao canto da boca abriu-lhe a porta e disse-lhe:
-Entra, não vais acreditar nisto.
-O que se passa?
-A miúda…
-O que tem a miúda?
-Está a dar uma coça ao Liam!
-Ao Liam? Mas… espera, ao jogo?
-Ao jogo… ela tem muito jogo!
-Mas quando é que ela aprendeu a jogar?
-Uma noite destas, o próprio Liam ensinou-lhe as regras e deixou-a experimentar, foi já no fim da noite e, para um primeiro contacto, aquilo foi promissor… depois parece que treinou um bocadinho nas últimas noites depois de fechar o salão…
-Por isso estava a chegar mais tarde. E a dizer-me que era o trabalho…
-Sabes como são os jovens… mas olha que esta vai longe…
-Snooker?! Só me faltava esta!

É claro que jogaram juntos. Madalena ganhava-lhe quase invariavelmente e só quando via Kyle desesperar, errava umas bolas e perdia uns pontos e ele recuperava a sua dignidade masculina. Mil novecentos e oitenta e nove. Dezasseis anos. Uma menina feita mulher entregue a si própria. Uma estudante de sucesso. Uma trabalhadora dedicada. Uma jogadora de um jogo tradicionalmente masculino. Uma alma livre. Um coração indómito. A vida toda pela frente. Quando chegou o Outono e os primeiros frios, acendiam a lareira ao fim de semana e ficavam lendo enroscados um no outro, por vezes trocavam impressões sobre a leitura, outras vezes ficavam em silêncio encostados um ao outro a sentir o calor do fogo e dos seus corpos encostados. Foi num desses momentos que Kyle resolveu reinventar a pergunta:
-Tu queres casar comigo?
Ela não confundiu a pergunta com nenhuma outra e não hesitou na resposta. Já tudo havia sido dito sem palavras, agora que era preciso fazê-lo com elas, sabia bem como. Mais uma vez foi sucinta e direta. O brilho no olhar e o som a ecoar no coração dele:
-Quero!

———————————– jpv ———————————–


1 Comentário

Crónicas de Maledicência – Quem Aguenta o Quê?

Crónicas de Maledicência – Quem Aguenta o Quê?

Fernando Ulrich, originário “de uma família ligada ao comércio bancário”, ou seja, com a experiência do dinheiro no sangue, disse ontem que Se os sem-abrigo aguentam por que é que nós não aguentamos?”

Acrescente-se que Fernando Ulrich pertence à Administração do BPI, um desses bancos que têm o rótulo de privados, mas que os portugueses andam a sustentar com o seu sacrifício e à custa de “aguentar” cada vez mais.

O senhor Ulrich, como todos nós, tem direito às suas opiniões e tem direito a expressá-las. Até aí, nada de novo. E tem um estigma a que eu chamo de “Carreirista”. Carreirista porque, à semelhança do senhor Medina Carreira, o senhor Fernando Ulrich, por vezes, gosta de dizer umas coisas para agitar as águas e provocar as pessoas. E resulta. Este texto é disso prova. Não sei é se o Senhor Ulrich sabe que pode bem acabar como o Senhor Carreira que, num momento, era o paladino da moral, dos bons costumes e da austeridade e no momento seguinte estava a ser investigado por causa de uma coisa chamada de “Favorecimentos”. Veja lá onde põe as palavras hoje, não vão elas escapar-lhe amanhã…

Ora, eu também tenho direito às minhas opiniões e às minhas dúvidas e às perguntas que surgem delas. E algumas das perguntas que me andam aqui a bailar na mente desde que li as declarações do douto administrador do BPI são as seguintes:

1) O senhor estava mesmo a falar a sério ou estava a gozar com o povo português?

2) O senhor sabe que nós sabemos que está tecnicamente falido e só não foi viver debaixo da ponte porque há portugueses que estão a ir por si?

3) Acaso passa-lhe pela cabeça, ou pela cabeça de qualquer responsável pela Nação, que a forma de nivelar os portugueses é convertê-los todos em sem-abrigo?

4) Por fim, mas não menos importante, admitindo que sim, que aguentávamos todos tudo, até mesmo sermos uma Nação de sem-abrigo, gostava de perguntar-lhe diretamente porque é que esse raciocínio serve para os portugueses mas não serve para o seu banco? Não acha, no plano ético e moral, que o BPI devia aguentar-se sem o auxílio dos sem-abrigo?

E pronto, não pergunto mais nada. Vou-me embora para o trabalho sem almoçar. A ver se aguento. E o senhor Ulrich? Já almoçou hoje?
jpv