Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

Reeguer Leiria

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Um vento
Uma ventania
E já ninguém
Sabe o que é
Seu.
Exceto o medo.

——

Quatro painéis fotovoltaicos
Aqui, onde estavam as minhas flores.
Algumas telhas que me faltam,
Tenho sorte, foram só quatrocentas e cinco,
O vizinho, além, tem mais de duas mil e quinhentas,
Que fugiram para não sei onde.
E outro veio à procura delas,
Mas, às tantas, estão todas misturadas,
A maioria partidas.
Foi a dança das telhas,
Fugiram e foram dançar.

——

Os políticos surpreendidos
Levaram umas águas
Depois fizeram uma reunião,
E mais outra.
Afinal eram mil milhões,
Sem contar com
O que cada mão revela.
Políticos, chegam tarde,
E enganados,
E eu, aqui, sem luz.

——

Uma chaminé caiu-me
E luz
E água
E as comunicações foram.
Faz hoje oito dias.
Oito dias.
Uma semana.
Sem luz,
Sem água,
Sem comunicações.
Inventámos…
Ao sexto dia
Um rádio-transistor.
Reparamos, então,
O quão atrasados estão
Os políticos.
Os presidentes de câmara estão sós.
Os Bombeiros,
A GNR,
A PSP,
A mão de obra vadia,
Esses chegaram a tempo.
Vítimas também…
E nós aqui,
No meio do século XXI,
Nem um telefonema,
Nem um banho,
Nem uma lâmpada.

——

Oiço o rádio-transistor.
Uma melodia gasta
Traz-me memórias.

——

A minha casa?
Onde está a minha casa?
Ninguém sabia responder-lhe
Porque a resposta
Já ele sabia.
Costumava estar ali.

——

Primeiro, era um
Velhote com a
Mania que conhecia
Geradores.
Depois foram nove,
Depois deixei de contar.
Depois caíram
Dos telhados
Como se andassem
Às cerejeiras.
E morreram
Como se andassem
À fruta
Alegres
Com um traço
A alargar-lhes o desespero.
Morreram.
Não estavam à espera.

——

Uma luta de gigantes
Aconteceu aqui:
Os Hércules, os Martes,
Fizeram das nossas vidas
O seu campo de brincar.
Um poste de luz,
Que estava aqui,
Viu-se lá longe
De pernas para o ar.
O carro que estava aqui,
Agora foi preciso caminhar
Para o encontrar.
E aquela casa
Que veio para o meio
Da estrada,
E o cabo de longa tensão,
Ali pendurado,
Jaze no chão.
Como se crianças traquinas
Brincassem com eles,
Como se tivessem formas
De brincar.
Um leão, uma girafa,
E um Hércules com pouca força
E isto assim
Vezes sem conta,
Vezes mais do que eu
Pudesse contar.

——

E veio a manhã.
Só desgraça.
Só dor.
Um mar imenso
De dor.

——

Os políticos demoraram mais.
Primeiro não souberam.
Há dificuldades:
Não era isso
Que a imensidão
Que era preciso
Fazer
Exigia.

——

Era um ministério
De coisas.
Famílias desalojadas,
Pessoas afogadas,
Muitos foram os mortos
Após a tempestade.
Vítimas de geradores
A funcionar em casa
Por medo de assaltos.
Vítimas de telhados assassinos
Que cospem quem vai lá acima.
Vítimas de cabos soltos.
Vítimas.
Da boa vontade.
Do medo.
Primeira, três meses.
Segunda, seis meses.
Por fim, um ano.
Um ano.
E as árvores todas
Que falta levantar.

——

Foi esse tempo
De contar mortos.

——

Chegou o tempo
De contar os estragos.
Bem contados
E os milhões
Multiplicaram-se.
E havia gente sem luz
Sem água
Sem comunicações
Sem casa.

——

Por fim
Só muito por fim
Se ouviu a expressão
Reerguer Leiria.

——

E agora
Vivemos assim
Uns sem luz
Outros sem água
Outros sem comunicações
Outros sem casa
Outros sem ter onde trabalhar
E Mundo lá fora
Continua.
E nós também
Continuamos.
Até à próxima
Kristin.

jpv

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

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