Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Paradiso IV

É noite.

A sequência de luzes,

Ainda que pequena,

É visível.

Primeiro a Lua,

Depois, umas quantas,

Poucas,

Luzernas de barcos

Perdidos na noite.

Depois, mais frequentes,

As luzes aqui

Ao pé, à distância

De uma mão

Curiosa.

Juntam-se,

Firmes,

As que se vêem

Ou se pressentem,

As luzes brancas

Da vila..

Lá longe, por fim,

Algumas persistem

Sozinhas,

Pela serra acima.

Fui dormir.

jpv


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Paradiso III

À medida que

O Sol se esconde

Espalha-se na minha frente

Um caminho de luz.

Não é prata

Nem dourada,

É um caminho.

Se tivesse

Aqui uma barca

Podia segui-lo

Até à origem

E fundir-me

No astro.

Descem lentamente

As luzes,

E os pés

Sobre a areia da praia

Pedem-me para retornar,

Faço-lhes a vontade.

Cumprimento um cão.

Olho-o uma vez mais,

E penso, crédulo,

Se não te vir

Amanhã,

Hoje,

O espetáculo

Foi grandioso.

jpv


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Paradiso II

Duas cadeiras sós

Como se estivessem ali

Todo o tempo

A olhar o espaço

E, talvez, os anos.

Que histórias quentes

De amor têm para contar.

E um guarda-rios

Tão esguio

E tão doce,

Nem parece

O letal bico que tem

Para pescar.

Porque será

Que às coisas

Doces e meigas

Deus dá sempre

Um instrumento

Para matar?

O guarda-rios,

Um par de cadeiras

Abandonadas.

jpv


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Paradiso I

Há algas

A bordejar o mar.

De que são feitas?

Bordejam o mar

Com tanta beleza

E tanto carinho.

Eu segui as algas

E encontrei, lá longe,

Um pescador.

Daqui é como

Se estivesse parado,

Mas sabemos

Que hora a hora,

Traz o seu pescado.

E mais longe ainda

Um farol.

Não se vê a luz,

Agora,

Mas eu sei que existe.

Quando uma traineira

Passa longe

E uma garça

Desliza longínqua

E silenciosa,

Eu sei que

As janelas do paraíso

Foram abertas.

jpv


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Congresso “Os Lusíadas na Escola”

Quase a fazer dois anos, sempre cheio de atualidade. Como se ensinam “Os Lusíadas” fora de portas.

E, não sendo aquelas portas, alguns aspectos hão de ter em comum.


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Suavidade

Quando te vi,

Sentares-te assim,

Na cadeira,

Como quem se esconde,

Como quem não queria saber,

Eu soube que era

Livre.

jpv


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Águas – III

Lá longe,

Onde as águas brotam

Sozinhas

E soam vagos

Os cantos das aves que passam,

Lá onde a noite

Segue os dias

E todos sabem,

Lá onde não há humanos,

Eu fui lá

E gritei.

Gritei o teu nome

Como se as cordas vocais

Não soubessem

Mais nada.

Lá onde quebrei

O silêncio.

Foi lá

O princípio de todas as coisas.

jpv