A luz clara e límpida da manhã Traz-me o teu olhar claro e límpido. E há um silêncio que as aves cortam com seu chilreio, Uma perfeição acabada, Só melhorada Com as imperfeições que surgem pelo meio.
Na quietude e na paz da folhagem que sussurra O sol brilha no céu limpo E a água azul e cristalina murmura.
Não espero nada. Nem, tão pouco, um sobressalto. E, menos ainda, uma recompensa, um elogio. Aguardo, só, A sequência dos minutos que morrem a fio Com a consciência de os ver morrer. E há neste vazio e neste nada absoluto A paz da existência E o espetáculo dos monstros com que luto.
Não é espanto. Não é admiração. Nem é surpresa. Não é, por certo, zanga… de facto, não se alterou a batida do coração nem um bocadinho. Pouco depois, medi a tensão e estava a 12-6. Normalíssima e aconselhável para a minha idade. De um jovem! Não perdi um átomo de segurança e determinação. E não vacilei. Quando a nossa história é feita de momentos destes, os outros não percebem que, por ser a nossa história, estamos já habituados a todos os cenários, à forma como os olhos se movem, ao som trémulo da voz, ao movimento dos lábios e a surpresa, afinal, não é surpresa nenhuma. É só tristeza. É só uma desolação profunda pelo profundo desequilíbrio que presenciamos a cada gesto, a cada decisão, a cada movimentação… e fico, depois, a olhar o quadro com uma lucidez fria e gélida e pergunto se não sabem que sei. Que sabia. Quando se chega a esta idade e já tanto se presenciou e viu e sabe, cada decisão é pensada e tomada e assumida com ponderação e firmeza e o caminho será sempre o que for e as surpresas são só novas oportunidades que a vida nos abre… ainda ontem… sim… ainda ontem privei com o futuro. E o futuro sorriu-me e disse-me para seguir tranquilo!
É fresca e frondosa, A sombra. Suave, A brisa que corre. São doces e atrevidos, Os lábios Junto dos quais Meu coração morre.
És só uma imagem. És a verdade E a miragem E o orgulho Deste velho moribundo. Nos teus olhos renasço, Em teu corpo percorro o mundo, E é nos teus braços Que me deito para morrer.
Não há nada, A não ser solidão, Até ao momento de te ver.
Crónicas de Maledicência Não havia Escola antes da Covid-19!
Não podemos querer tudo. Peço desculpa pela revelação abrupta e pela contundência das palavras, mas, efetivamente, não podemos querer tudo. Das duas uma, ou a Escola, considerando a evolução diacrónica, trabalhou bem, fez muito pela Humanidade e, naturalmente, temos de a melhorar, mas reconhecemos que houve um trajeto de muitos sucessos pelo que melhorá-la não é arrasar o que existe e refundá-la, ou a Escola fez tudo mal e temos de a refundar porque nada do que chegou até hoje representa um esforço positivo. Não podemos é ter tudo. Não podemos opinar dizendo que a escola fez tudo errado e depois reclamar responsabilidades na evolução da Humanidade. Também não podemos dizer que fez tudo certo e apontar falhas na evolução da espécie pensante.
Enfim, o mais prudente, penso, seria admitir que a Escola fez muito pela Humanidade, que muitos progressos se fizeram graças aos seus esforços, mas que, como qualquer organismo vivo, está em constante evolução e pode sempre melhorar.
Ultimamente, olho para esta Escola, vítima da Covid-19, e fico com a sensação de que não sabíamos nada, não sabíamos fazer nada antes da Covid, de facto, chego até a sentir que não fizemos mesmo nada. Tenho a sensação de que não sabíamos comunicar, de que não sabíamos registar o que fazíamos, tenho a sensação de que andámos a empatar as aprendizagens dos nossos alunos e o progresso da Humanidade. E sinto mais. Sinto que, não fora a pandemia ter-nos forçado a ser competentes e diligentes e assíduos e produtivos e teríamos ficado no marasmo improdutivo em que vivíamos antes desta abençoada pandemia que nos veio acordar da letargia e transformar-nos em excelentes trabalhadores, em excelentes professores.
Ora vejamos.
Antes do Moodle não fazíamos planificações nem produzíamos materiais para os alunos. Antes do Zoom não reuníamos uns com os outros nem falávamos sobre o nosso trabalho. Antes do Teams não trocávamos materiais nem fazíamos registo do nosso trabalho.
Antes dos mecanismos inerentes ao ensino a distância, a bem dizer, praticamente, não havia ensino. Deambulávamos, perdidos, pelos corredores das escolas forçando o tempo a passar e deixávamos os nossos alunos ao abandono, sem ensino de qualidade nem uma avaliação cabal e válida das suas competências. Efetivamente, foi preciso surgirem, como que por magia, estas ferramentas, da neblina espessa da pandemia para que começássemos a trabalhar à grande e a partir de casa e a quaisquer horas, mesmo doentes, mesmo infetados.
Sejamos claros. Em tempos de emergência e perigo, temos de nos adaptar e ser diferentes. Temos de dar mais, extraordinariamente mais, temos de fazer as coisas de forma diferente, mas não podemos cair na falácia autofágica de que nada prestava antes, nada se fazia antes, nada se media e controlava antes. De resto, deixem-me revelar-vos o seguinte: o que temos feito, enquanto docentes, em tempos de pandemia, é valiosíssimo, temos sabido dar a volta a um problema muito sério e difícil que é preservar um clima de aprendizagem nestas condições. Mas sejamos ainda mais claros: o que temos feito é incomparavelmente mais pobre do que o que fazíamos antes. Do ponto de vista pedagógico, a pandemia forçou-nos a regredir. Não há pedagogias de sucesso sem alunos na escola, há remendos. Não há pedagogia de sucesso sem o contacto pessoal, direto e humanizado entre alunos, professores, funcionários e toda a estrutura que permite e favorece as aprendizagens. Nós temos feito o possível e, por vezes, até o impossível, mas tudo isso é muito pouco comparado com uma Escola preparada para receber os seus alunos nas suas salas de aula a desenvolver os seus projetos de aprendizagem.
É urgente desligar os computadores e ligar as pessoas. É urgente desinstalar os Teams e os Zooms e os Moodles e ligar as salas de aula e os ginásios e os recreios e os olhos nos olhos e os dedos no ar e as perguntas quando não se percebe e o sentir da pessoa que o aluno é, ali, à nossa frente e não num monitor à distância da impossibilidade de o perceber.
Eu alinho muito pouco no discurso de que esta pandemia tem coisas boas e veio ensinar-nos coisas boas. Esta pandemia, no âmbito da educação, não tem nada de bom. Não trouxe nada de bom. Nem mesmo a tão propalada autonomia dos alunos. Nós nem sequer sabemos se foram eles que fizeram o que pedimos ou se, simplesmente, alguém fez por eles! Esta pandemia trouxe remendos, trouxe cortes e supressões, trouxe a ultrapassagem de etapas fundamentais da aprendizagem, trouxe desumanização, falta de contacto, roubou-nos a capacidade de avaliar progressões, evoluções, processos e produtos e trouxe produtos que tanto o podem ser como não.
Nunca, antes disto, deixámos de inovar, deixámos de ser criativos, deixámos de estudar, deixámos de produzir, deixámos de registar e de avaliar. Nunca. E, contudo, propaga-se, como uma praga pestilenta, esta ideia de que a pandemia nos veio ensinar a reinventar o ensino e a nós próprios. Temos sido dedicados e briosos, temos investido milhares de horas extra não reconhecidas, nuns casos, reconhecidas e valorizadas, noutros. Temos tentado fazer face a uma dificuldade global que decorre deste contexto pandémico, mas, em honestidade, temos de reconhecer que estamos muito aquém do que já fazíamos na Escola pré-pandémica. É que há aspetos inultrapassáveis e a natureza da Escola é um deles. Não sei se repararam, ao longo das últimas décadas, pelo menos desde a década de 70 do século passado, têm-se feito experiências sucessivas para reinventar a Escola e, contudo, a sua matriz emerge sempre das experiências como aquilo que restou, aquilo que permaneceu incólume ao nosso experimentalismo. E essa matriz é a matriz humanista de ensinar em presença fazendo com o outro, construindo com ele, ensinando pela palavra, pelo exemplo, pela orientação. É a matriz dos valores de cidadania. E, até que haja uma alternativa válida, esta Escola que temos construído olhos nos olhos é mesmo a melhor que existe.
Primeiro, Era o papel limpo e branco Por onde deslizou o traço firme e escuro Com que desenhaste o sonho e o encanto De um retângulo marinho sem vedação nem muro. Riscaste a brisa Refrescando a pele do homem Sentado ao fundo da sala ampla. Muita luz, pouca mobília, Uma cozinha recheada de imaginação E um alpendre de conversas para amigos e família. Emocionou-se o traço E tremeu-te a mão Quando desenhaste O quarto do abraço Onde semearemos O amor pelo chão. Avançou o carvão No papel antes deserto E agora prenhe de horizontes e ilusões. Pensaste nos afetos mais chegados E, em linhas retas e simples, Abriste as portas Dos quartos visitados. Deixaste a claridade entrar E as sacadas imensas abertas de par em par. E com teu traço Certo de incertezas Fizeste um passadiço, Espreguiçadeiras e mesas. Ficou gravado Com finas sombras, Contrastes e nuances, um breve cantinho Para os meus romances. Um a um, desenhaste cada pormenor delicioso, Perfumado pelas ondas do mar. A carvão, recortaste, Em nossos sonhos, O edifício de amar.
“A frontalidade requer muita coragem, uma grande preparação mental, dá muito trabalho e não nos conquista amigos. É mais fácil e cómodo calarmo-nos do que enfrentar a vida, mas não é mais honesto, nem é mais digno. A generalidade das pessoas não é frontal. Quando uma pessoa diz que é frontal, normalmente, vai começar uma discussão. A frontalidade é serena e quotidiana. E é, na maioria dos casos, incompreendida.”
O Amor Próprio nasceu como uma página nas redes sociais e se transformou em um espaço acolhedor para quem busca reencontrar sua força, sua essência e seu valor.
O assunto básico é Arte/Fotografia e Psicologia. Eventualmente há indicações de livros e equipamentos interessantes lincados na Amazon, Shopee e SocialSoul.