Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Sway

This bare foot
Was made for your shoe.
Nobody but you
Would shelter
This old worn foot
In such fitted shoe.

It’s not about
The shine of the shoe.
It’s not about
The strength of the foot.
The foot will surely stumble.
The shoe won’t last forever.
It’s simply about
Their swaying together.

jpv


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Guarda-Rios

O guarda-rios
Guarda o meu olhar.
Eu olho o guarda-rios
E sei que ele me está a guardar.

Guarda, o guarda-rios,
A minha presença.
Eu olho o guarda-rios
E sinto sua guarda intensa.

Guarda, o guarda-rios,
Teu suave dormir.
Eu olho o guarda-rios
E estou quase a fugir.

O guarda-rios
Guarda a minha intenção.
Eu olho o guarda-rios
E escondo o coração.

O guarda-rios veio pousar
Naquele frágil ramo
Só para me guardar.
Eu olho o guarda-rios
E descubro coisas
Impossíveis de ocultar.

jpv


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De Rerum Natura

Na Encruzilhada Do Édipo Ainda Por Ser Rei

“Édipo e a Esfinge” por Gustave Moreau

Quando li pela primeira vez o “Rei Édipo”, o do Sófocles, bem entendido, não sabia bem, ainda, o que estava a ler. E, contudo, foi logo, nesse momento, e para sempre, ali, naquela hora e naquele espaço, que me foquei. Com toda a inconsciência de adolescente, na altura, e com o desespero todo de homem maduro, hoje.

Não foi no incesto, nem nas palavras de Jocasta, mãe-esposa, Não foi no pai Laio misteriosamente assassinado, Não foi no enigma óbvio e bafiento nem, mais tarde, na punição auto-mutilante com que Édipo limpou o podre do erro da face da desonra, Não foi no Creonte sisudo e perdido nem na figura enigmática de Tirésias. Onde o meu ego aterrou e se pregou para não mais se deslocar foi no pó da estrada, na encruzilhada do Édipo ainda por ser rei.

As nossas vidas são isso mesmo, uma sequência de encruzilhadas a pedirem decisão. Esquerda ou direita? Certo ou errado? Fortuna ou desgraça? Paz ou terror? Amor ou ódio? E o problema, um deles, pelo menos, é que não vemos o horizonte do futuro, nem o futuro no horizonte. Vemos pouco mais do que o nosso umbigo, uma passada talvez. E é aqui, neste momento e neste espaço que temos de traçar o caminho, optar, apostar, arriscar… e não temos indicadores. Sabemos nós alguma coisa do destino de ambas as hipóteses, do que nos trará cada um dos caminhos? Não. Não sabemos. Assim sendo, é o aqui e o agora, o presente, que define o futuro, que o constrói. Por consequência, planear o futuro é rematada loucura, estultice absoluta. É preparar o que não existe. Eu só existo hoje, o Universo só existe hoje, Deus só existe hoje. O futuro é o que fazemos hoje. E, hoje, perante a encruzilhada edipiana, temos de decidir com o coração e com a mente e ter consciência de que o futuro será o que fizermos agora.

A própria extensão da vida, sempre tão importante e com tão significativo peso em todas as decisões estruturantes, perde relevância. Não faz sentido ter em conta um hipotético tempo de vida a viver na adoção de um projeto, na tomada de uma decisão determinante, porque esse tempo que falta viver não existe. Existe, somente, este tempo que está a ser vivido. Uma pessoa jovem, com a ideia, falsa, mas socialmente aceite e veiculada, de que tem mais tempo de vida do que uma pessoa de meia idade ou idosa, terá mais dificuldade em perceber este raciocínio, em aceitá-lo, em viver de acordo com ele. E, contudo, a sua vida poderá terminar antes que termine a da tal pessoa de meia idade, idosa, mesmo.

A ideia, em si, requer maturidade e não deve confundir-se com o hedonismo ao jeito do carpe diem latino. A ideia não tem nada de hedonista. Pelo contrário, é de uma dureza atroz e de uma tragicidade cruel. O Ser Humano necessita de interiorizar os conceitos de futuro, esperança e perenidade, para poder proteger-se de um pensamento quase letal: o do seu fim iminente e inexorável. Resta a encruzilhada. As encruzilhadas. Sempre a pedirem decisões. Haja ponderação, bom senso, haja consideração e até racionalidade, mas haja, sobretudo, em cada decisão, paixão, entrega e amor, essa força redentora de todos os vícios e falhas humanos. E haja, claro, coragem para decidir de acordo com o que nos pede o coração e a alma anseia.

Maputo, 20 de janeiro de 2020
joão paulo videira


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Omnia

Toda a existência
Num átomo de tempo,
Quase imaterial,
Sem palavras,
Antes das palavras.
Toda a Ciência
Num olhar,
Sem teoria
Nem experimentação.
E todo o saber
No teu corpo
Sob a minha mão.
Toda a literatura
Numa palavra muda
Não articulada,
Tudo, tudo,
No universo
De quase nada.
Toda a distância
Suprimida entre dois corpos cingidos
Na militância
Da Liberdade.
Toda a mentira do mundo
Dentro de uma só verdade.
Todo o desespero
E toda a revolta
Numa palavra solitária
De esperança.
No universo deste amor
Todo o impossível
Se alcança.

jpv


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Crónicas de Maledicência

A Vida Depois do Pantoprazol

No meu caso, a vida depois do Pantoprazol começou de noite. Anunciou-se de mansinho, assim como uma indisposição ligeira, insinuou-se mais séria depois, sensação de empanturramento, digestão mal feita ou coisa que o valha. A meio da noite, quando era suposto dormir-se o justo sono dos justos, incendiou-se um fogo incontrolável no estômago, como se toda a Serra d’Aire e Candeeiros estivesse em labaredas no meu abdómen. Homem fiel aos masculinos propósitos e princípios de vida, pensei que ia ter um enfarte, que era melhor chamar uma ambulância, acordar os vizinhos, rezar a Deus, enfim, nada de mais, portanto. As passeatas a pé, no quarto, da janela da varanda para a casa de banho e regresso, incomodaram quem coabita comigo e, como se não fosse nada grave, olhai lá a desfaçatez, um gajo quase a morrer e ela nem os olhos abriu, estendeu-me um frasco redondo cheio de uns comprimidos de cor ocre, muito pequeninos, e disse, Toma um destes, vai fazer-te bem, isso foram as chamuças. É que é preciso lata! Nem abre os olhos, ignora o sofrimento atroz de um tipo, uma coisa de morrer, e ainda consegue fazer o diagnóstico e a prescrição! Mereceu, no mínimo, a dúvida:

– O que é isto?

– Pantoprazol.

– Pantó quê?

– Pantoprazol. É para a digestão.

– E como sabes que é da digestão?

– Foram as chamuças. Abusas, depois olha…

E fiquei, ali, desconfiado, a olhar aqueles comprimidinhos minúsculos. Quem padece de um fogo avassalador no estômago tem direito, pelo menos, a comprimidos para homem macho, coisa grande que se veja e custe a engolir, ou então uma injeção qualquer para um gajo sobreviver.

– Isto chega?

– Não tomes o frasco todo! Isso é só um!

Tomei. Poucos minutos volvidos, já não estava para ter um enfarte nem ia morrer tão cedo. Aquilo aliviou com eficácia. O nome é que é o caraças para um gajo se lembrar dele! Prantó quê? Também, para que é que havia de saber o nome daquilo? É o tipo de coisa que um gajo toma uma vez na vida.

Fosse por sugestão, por vingança dos comprimidos por não me lembrar do nome deles, ou fosse lá pelo que fosse, duas noites volvidas, deu-se o diálogo que agora recordo e me fez não mais esquecer o nome dos comprimidinhos minúsculos de cor ocre:

– Olha lá, tens aí aquele frasquinho com o…

– Pantoprazol.

– Como é que sabes que era disso que estava à procura?

– Comeste demasiado ao jantar, amorzinho.

– Tu é que puseste no prato!

– Mas não quer dizer que comas tudo. Toma. É Pantoprazol.

– Eh pá, será que tenho alguma coisa? Eu nem conhecia isto e agora… duas vezes na mesma semana?!

– Tens!

– Tenho?! Tenho o quê?

– Cinquenta anos!

A vida depois do Pantoprazol ensina-nos muitas coisas. Uma delas é  não ignorar a idade que se tem, sobretudo, se essa idade já chegou aos cinquenta. Outra, é a jogar na antecipação. A malta aprende que o comprimidinho minúsculo e ocre pode tomar-se antes da bronca, como quem evita em vez de remediar. A vida depois do Pantoprazol inclui análises cíclicas ao sangue, à urina, às fezes, e mais uns quantos diagnósticos preventivos mais ou menos incómodos. O Pantoprazol tem efeitos psíquicos. Ajuda-nos a olhar o Tempo e as oportunidades com mais valor e ensina-nos a não desperdiçar nenhum deles. Não sou médico e ainda não tive possibilidade de questionar um, mas ia jurar que o comprimidinho minúsculo de cor ocre tem efeitos secundários severos. Por exemplo, desde que o tomo comecei a ver menos, tive de ir ao oftalmologista e agora uso óculos para ver ao perto. Também tive de ir ao otorrino e descobri que tenho tinnitus devido a perda de audição. Custa-me mais a levantar porque as costas “prendem” e demoram seu tempo a “desprender”. Tenho de regular a tensão arterial, a barba ficou branca e o cabelo desapareceu por completo. Tudo isto, muito resumido para não aborrecer, são presentes da vida depois do Pantoprazol.

Animem-se, amigos! Não são tudo más notícias. A vida depois do Pantoprazol tem-se revelado deliciosa em muitos aspetos. Passo a revelar. Com tanta contrariedade, com a obrigação de tomar o comprimidinho minúsculo e ocre sempre que se anuncia uma simples e deliciosa sopa de peixe, com todas as maleitas adjacentes, o espírito começou a soçobrar, o ânimo começou a fraquejar, até que chegaram os efeitos secundários positivos. Ah, pois é. Surpreendentemente, ainda não me dei ao trabalho de perceber as causas de tão distraído que ando com as consequências, a vida depois do Pantoprazol traz consigo o interesse das mulheres. Num alcance etário e comportamental sem precedentes: das mais novas às mais velhas, das menos interessantes às mais interessantes, e também, pasmem, das menos interessadas às mais interessadas. De repente, passamos a existir! Falam connosco de doenças, de comprimidos, de consultas, de especialistas, encontramos pontos em comum na dor, manifestam admiração pela nossa experiência e sabedoria, reparam no que vestimos, e, qual cerejinha em cima do bolo, deixamos de ser bonitos ou jeitosos ou “bons” e passamos à muito melhor categoria de “charmosos”. Isto do charmoso é muito fixe e só acontece depois dos primeiros pantoprazóis. É como se um tipo fosse elegível nos critérios delas, mas podendo ter barriga e cabelos brancos e rugas na cara. Na verdade, estando muito menos atraentes, somos tratados como se estivéssemos muito mais. Surpreendeu-me, sobretudo, o encantamento das mulheres mais jovens. Claro que, neste caso, mais jovens também é uma categoria que já configura trintas e quarentas, mas o certo é que antes do Pantoprazol elas nem me viam e agora sou um tipo rodeado de amizades sinceras para a vida e uma carrada de “Gostos” no Feicebuque. Consequência: fui à farmácia e trouxe três caixas de Pantoprazol. Nunca fiando…

A vida depois do Pantoprazol traz deceções e tristezas profundas. Morrem familiares distantes, morrem familiares próximos e morrem amigos de sempre, do tempo do Liceu, dos primeiros anos de trabalho, morrem companheiros e companheiras de jornadas e lutas difíceis e, como se tudo isto não fosse já suficientemente doloroso e assustador, os mais jovens, aqueles que ainda não sabem de cor o nome do Pantoprazol, pensam que somos uns privilegiados, uns bafejados pela Sorte do Destino. Esquecem esta coisa dolorosa e dilacerante que é ver as pessoas das gerações imediatamente acima da nossa morrerem todas e também algumas da nossa idade e começarmos a pensar que a morte está no nosso horizonte. Se a vida fosse um caminho estreito por onde seguimos em fila indiana direitos a um precipício, os lá de trás, que ainda não veem o precipício, invejam-nos o modo de vida e as condições conquistadas, e nós estamos preocupados com os amigos e os familiares que tombam a uma velocidade alucinante no fim de um caminho que já vislumbramos.

Enquanto o fim da linha não chega, quero ainda falar-vos de um outro aspeto interessante da vida depois do Pantoprazol. Os filhos saem de casa, normalmente, sozinhos, e vão à vida deles, viver as suas aventuras, ter as suas responsabilidades, as suas vitórias e deceções. E um dia voltam, normalmente, acompanhados, e fazem planos e crescem e já nós vamos a meio do quinto frasco de Pantoprazol e eles chegam e dizem, Vais ser avô! Nunca, na puta da vida, tinha pensado que um simples comprimido para a digestão me pudesse encher de tamanha alegria e júbilo. É como renascer. É como sentir que a vida vai começar de novo. Não é um milagre, é uma miríade de milagres. E lá vamos nós fazer mais uns exames preventivos a ver se garantimos mais uns tempos a Pantoprazol para ver o miúdo crescer.

No dia em que fiz cinquenta anos, caí num recife de coral e esfacelei uma perna toda. Esse ano terá sido o mais difícil da minha vida. Não houve nada que não me acontecesse, não houve maleita que não me batesse à porta. Foi nesse ano que fiz do Pantoprazol um amigo frequente e, curiosamente, foi nesse ano, também, que recomecei a viver. A vida não é igual depois do Pantoprazol, mas continua a revelar-se prenhe de entusiasmos e deceções, de alegrias e tristezas, de vitórias e derrotas, de gente boa e menos boa que se cruza connosco. A grande diferença é que na vida depois do Pantoprazol tudo isso é reperspetivado e redimensionado à luz do usufruto do tempo que já não temos e não do tempo que ainda temos. E isso faz toda a diferença. Os planos adquirem novos prazos, bem mais ao alcance do desejo, ficamos mais seletivos, ficamos mais seguros, mais tranquilos, fazemos escolhas com mais critério e mais rigor e focamo-nos naquilo que realmente interessa. Hoje, o almoço vai ser bacalhau assado na brasa com batatas a murro. Adivinhem o que tenho aqui na mão… sem medos… tenho uma mão cheia de vida, cheia de esperança, temperadas com o bom senso e a sabedoria que só a idade do Pantoprazol nos pode dar. O resto? O resto é uma aventura!

jpv


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Travessia

Fechaste a porta.
E saíste.
A porta estava ali,
Deserta e inerte.
Não ia fechar-se sozinha.
Tenho cavalos doidos
E selvagens
A correr nas planícies
De meu peito.
E, mesmo assim,
Estranho fenómeno,
Inusitado efeito,
A porta continuava
Só e deserta.
No meio do nada,
Inerte e aberta.
E tu, sem aviso
Nem tolerância,
Cruzaste o limiar
Da porta e saíste.
De razão em riste,
Como se fora uma espada,
Cruzaste o limiar da porta
Aberta e abandonada
E saíste.
E eu vi-te sair,
De braços estendidos
Ao desespero.
Estava aberta, a porta,
E por ela passava
Uma jangada.
Agora,
É só uma porta fechada.

jpv


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Hebreus 11:1

És tu, no caminho.
E eu,
Perdido e sozinho,
Nesta floresta de emoções.
São as mesmas,
As ondas
Que te trazem
E te levam.
Umas não sabem o que fazem
E as outras são como crentes que rezam
Num altar despido
De fé e pudor.
Não. Não é do corpo
Este pecado.
É um violento
E sôfrego amor
De teu peito excomungado.

jpv