
Poema do Menino que Dormia
Há momentos
Em que acordo
E noto que morri.
Nasci morto.
Cresci cego
E comandado.
E, hoje, não nego,
Morro acomodado
À fuga
Que empreendi.
A vida
Que havia a viver
Fugi.
Perdi-me os movimentos,
Algemei as mãos
E agrilhoei pensamentos.
E quando vim
A libertar-me os intentos,
O mundo não me acreditou…
E não me quis.
Era demasiado
O preço
Do que não fiz.
Estava extinta
A força,
Soçobrada a vontade
Do poeta
De tenra idade
Que acordou
Demasiado tarde.
Julgo ter cá dentro
Um fogo que arde,
Mas são só cinzas…
Um cadáver andante
De grande e vistoso porte
Deambulando pelas ruas,
Putrefacto,
Exibindo a vida da morte.
Há momentos
Em que acordo
E noto que morri.
Olho à volta
E vejo-me aqui,
No meu centro,
Na periferia de tudo o resto.
Ouço um sino
Longínquo e funesto
E vou a sepultar-me sozinho.
Foi tudo tão triste
E patético
Quanto errar
Uma curva do caminho.
O brilhante e profético
Sonho de ser
Desvaneceu-se.
Era uma vez
Um menino que dormia…
Hoje acordou
E veio ver
O homem que morria.
jpv
10/03/2014 às 01:01
Olá João Paulo, mais uma vez me identifico com aquilo que escreves. Também eu tenho um menino assim, dentro de mim e, tantas vezes já vi o seu olhar desapontado e triste e tantas vezes senti o seu incentivo e acreditei que podia ou que havia de conseguir para, logo a seguir, me acobardar e me deitar na minha própria sombra. As cinzas surgem quando deixamos de acreditar e aqui gostaria de pegar nas palavras da Patrícia que afirma que “somos livres e é isso que importa no nosso renascimento!” Bjs.
GostarGostar
06/03/2014 às 22:49
Muito obrigado por suas palavras, Patrícia. O seu comentário é poesia. Beijos. jpv
GostarGostar
05/03/2014 às 23:18
Boa tarde, João. Morremos e nascemos ao longo da vida.
Erramos e acertamos, queremos sair da escuridão quando encontramos a luz, a mesma que muita vezes nos cega.
Somos poetas do amor, das mazelas, da vida e dos medos.
Antes de qualquer coisas somos livres e é isso que importa no nosso renascimento.
Tenha um dia de paz!
Beijos na alma!
GostarGostar
05/03/2014 às 01:02
Muito obrigado, Isa. É uma doce simpatia sua.
GostarGostar
05/03/2014 às 00:03
Eu acho que o Mundo abre os braços a esse menino poeta. Como de resto poderia ser, a um menino que faz versos assim?
Abraço
GostarGostar