Monthly Archives: Março 2012
O Clã do Comboio – Mix Cultural

Mix Cultural
O que os une
Esta não é uma história exclusiva do Clã do Comboio. O que ela tem de engraçado é que todos os eventos aconteceram no mesmo dia. A razão por que a publico na secção do Clã do Comboio prende-se com o facto do primeiro e último episódios terem acontecido a bordo do comboio. O certo, contudo, é que tem apontamentos de todos os meios de transporte públicos que uso durante o dia. Chamei-lhe Mix Cultural, mas poderia ter sido Mix Educacional. O que une estes apontamentos são questões culturais e educacionais. São traços da sociedade que vamos construindo. Não têm de ser alvo de acordo ou desacordo, de aprovação ou desaprovação. Têm, só, e a meu ver, de ser alvo de reflexão.
Restos da noite
Quando o regional das 7:47 em Riachos chegou a Vila Franca de Xira, eram quase 9 horas da manhã. Entraram as quatro em alvoroço, falando alto umas com as outras e com as pessoas que tentavam entrar com elas. Falavam e gritavam com essas pessoas, visivelmente embriagadas, com roupas de noite, já sem brilho e restos de maquilhagem do dia anterior, e quando um homem parou no meio do corredor, à espera que as pessoas à frente dele avançassem, uma delas disse, Ó senhor, tire daí o rabo. E correram todas na direção oposta, à procura da casa-de-banho num alarido gritado e muito pouco comum. E quando alguém, uma senhora de idade, com idade suficiente para perguntar o que lhe apetece e ter direito a resposta, perguntou donde vinham, e uma delas não hesitou:
– Estamos a chegar da discoteca.
É “mêmo velho”
O 28 estava à pinha. Estávamos todos apertados, encostados uns aos outros. Nos lugares reservados a idosos, grávidas e deficientes iam dois jovens a rondar os quinze, dezasseis anos. Junto a eles um idoso sentado e de pé uma senhora velhinha e dobrada pelo tempo. O idoso falou para o ar, como que para ser ouvido por alguém que se interessasse:
– Se fosse um filho meu, eu obrigava-o a dar o lugar à senhora.
Ninguém reagiu. A impessoalidade leva-nos a isto. Mas o idoso também não deu muito tempo. Virou-se para um dos jovens e disse-lhe:
– Esses lugares são para idosos, ouviu?
– Ouvi, ouvi.
– Então dê o lugar à senhora.
– Está bem, está bem.
Levantou-se. Não falou para a senhora, nem olhou para ela. Ela sentou-se e o velhote repreendeu:
– Esses lugares são para idosos.
– Eu já tinha dado o lugar, não já?
– Deu depois de eu falar…
– Já dei, não dei? Vê lá se te calas, ó velho.
O idoso encolheu-se assustado com o olhar ameaçador do miúdo que, antes de eu sair, ainda disse:
– Eu já tinha dado, ó velho. Óvistes velho? É mêmo velho!
A mim!
Entrámos no metro, ao final da tarde, no Cais do Sodré com destino a Baixa/Chiado, e a carruagem não podia estar mais cheia. Os alarmes das portas já tinham soado, mas havia pessoas que continuavam a forçar a entrada e a conseguir entrar. Uma senhora jovem encostou-se às costas dos bancos para se amparar, cada um se agarrou onde podia e um senhor de meia idade ficou entalado entre as pessoas sem ter onde se agarrar e foi por isso que desabafou:
– Não tenho onde me agarrar!
Ela olhou, sorriu e respondeu:
– Agarre-se a mim!
Mais curta do que curta
De regresso a casa, no comboio, sentei-me e fiquei a ver quem entrava e onde se sentava. Ela tinha trinta e poucos anos, era alta e possuía uma ossatura larga. Casaco de cabedal, meias de lycra castanho escuro, mas transparente, e uma saia curta, tão curta que era quase impossível classificar como saia. Era assim mais da categoria dos cintos. Quando uma saia é curta, mas, ainda assim, é uma saia, as senhoras sentam-se e conseguem tapar o básico. Esta não conseguia! E lá foi ela, com o básico à mostra e os homens encabulados a olhar e fingir que não olhavam…
Stôra
Este foi o momento enternecedor do dia. Aquele que me fez acreditar de novo nas pessoas. Entraram juntas, a aluna e a professora, e ambas podiam e deviam ter deixado o trabalho no trabalho. Mas não deixaram. Continuaram no comboio como se estivessem na sala de aula. A aluna era surda, mas falava de forma perfeitamente percetível. Tinha um semblante feliz e pleno de esperança. A professora já tinha passado os quarenta, mas continuava a brilhar no seu olhar o prazer de ensinar. E foi no comboio que a ensinou a estruturar um trabalho, uma apresentação. Explicou-lhe o que era preciso fazer e como era preciso fazer. Puxou de um papel e foi explicando e exemplificando. Quando terminaram, a miúda atirou-se a uma calculadora gráfica:
– Tens trabalhos de casa?
– Não. É só para lembrar a cabeça.
– Por isso é que tens sempre 18.
E depois saíram e deixaram para trás um clima de entrega e dádiva.
Juízos de valor
Já não faço juízos de valor. Ando cansado da Humanidade. Deixo-os para que possa o leitor fazê-los, mas foi bom regressar a casa com a Stôra e a aluna cúmplices e distraídas no trabalho e pelo trabalho num dia de tanta agressividade.
jpv
19

19
Já gastei as palavras todas!
Já te disse as emoções redobradas.
Já reinventei as vírgulas,
As preces,
Já relembrei os dias
E as noites passadas
Na companhia da tua paternidade.
Já rezei.
Já fingi que falava contigo.
Já falei contigo.
Já te fiz os elogios todos
E refi-los depois.
Já te celebrei o dia.
Já nos cantei
Aos dois!
Já te vi pelos olhos da mãe,
E pelos da mana também.
Já te disse como tu
Nunca encontrei ninguém.
Mas não chega, Pai.
Nada suprime
Esta ausência surda
Esta lâmina longa de desespero
Entrando-me na alma.
Há coisas pequenas, sabes,
O toque da tua pele,
O cheiro do teu corpo,
Os teus cabelos encaracolados no peito
Fazendo de mim criança e menino,
O tom da tua voz,
Os olhos rindo no silêncio das palavras.
O poder das tuas mãos,
A bonomia com a mana
A proteção com a mãe
E a esperança em mim,
Teu infinito rapaz
De realizar-te os sonhos.
Faz-me falta, Pai,
Um homem que acredite em mim!
Faz-me falta que me façam sentir
Assim.
E não há dia 19,
E não há aniversário
Nem celebração
Que comprove
Estar na tua,
A minha mão.
Não chega, Pai.
Só tu te bastas.
Só tu me bastarias
Na passagem confusa
Dos dias
A emergir com vigor
E com força
Da Humanidade perdida e difusa
Prenhe de convicção e Amor.
Não me venham com merdas,
Com outros mundos e outros céus,
Com divindades plenas e com véus
De ilusão
Que dizem ser as perdas
De hoje
Recuperadas amanhã.
Não há vida, amanhã, Pai.
A que havia ontem
Não sei já onde vai.
Desde que te foste e me perdi
Não há vida, Pai,
Num Universo onde a vida seja sem ti!
jpv
Por causa dA Dívida – III

Por causa dA Dívida – III
O melhor é calar-me um bocadinho, vê-se mesmo que ele vai a fazer o frete de me ouvir. No que diz respeito a carros, o maridinho trata-se bem. Este é muito giro. Nem sei o que isto é, mas gosto dos estofos e do design. Pelo aspeto deve ser bom. De resto, o que é importante é que seja bonito e este é liiindo! No que toca a carros, só gosto de escolher a cor. Só espero que ele não repare que estes sapatinhos Blahnik são novinhos em folha, senão vem logo com a conversa do dinheiro. Mas ele hoje está charmoso… e cheiroso… espero que se atire a mim no final da noite com aquela avidez que o carateriza. Já vou tendo pouca paciência para ele e a sua claque de seguidoras, mas na cama… na cama… é do mais afanoso e engenhoso e… como é que é aquela palavra… laborioso, é isso, é do mais laborioso que tenho visto… e se eu tenho visto muito! Aquelas delambidas é que me enervam… ele é sms, ele é telefonemas, ele é reuniões, saídas, visitas, inaugurações, vernissages… mas porque é que será que onde quer que ele esteja, aparece sempre uma das amiguinhas? É a Sandra, a Andreia, a Joana e a pior de todas… a Marlene… só me apetece arranhá-la toda… o telefone? Quem será agora? Hugo?! Este garoto enlouqueceu! Agora como é que disfarço isto?! Calma, Belinha, calma, tu consegues.
– Estou? Mané, querida, como vai? Então, rica, passa-se alguma coisa?… estou aqui com o Mário, o meu marido, vamos ao jantar de beneficência… não vai, rica? Que pena, pensei que íamos caturrar um bocadinho as duas… beijinho, beijinho.
Enfim, esperemos que ele não tenha reparado. Cá estamos, já chegámos, esta noite vou arrasar. A Mané está cá! Ai meu Deus, a bronca. Mas não era suposto ter ido à festa da Tété Barroso? Ai o Mário vai falar…
– Boa noite Mané, que surpresa, pensei que não viesse, aliás, ia jurar que a Belinha tinha falado consigo há uns instantes.
– Hã? Comigo? Claro, claro, sabe como são as mulheres, mudam de ideias rapidamente.
– E de roupa!
Meu Deus, ela bem tentou safar-me, mas agora tenho um problema pela certa… o melhor é mudar de assunto, vou falar das Maldivas, tem de ser em público, à mesa, sempre quero ver se em frente aos amigos se põe a dizer que não pode ser, não temos dinheiro, ou se come e cala… não tem dinheiro, não tem dinheiro, mas tem orgulho… e carros caros. Olha, olha, tentou chutar para canto a dizer que as Maldivas não estão na moda. Nem precisei fazer nada, foi abafado pelo resto da mesa a contradizê-lo. O Marecos Valdez até o desafiou para irmos juntos por causa da pesca grossa em alto mar… toma, toma… ai vai ser tão bom, tão bom… o meu cartão de crédito, amigo secreto, tem de ser discreto em Portugal porque nas Maldivas vai dar-me um jeitão.
Olha a Marlene… esta, topo-a eu à distância, olha-me aquelas roupas, tudo a ver-se à transparência… já é falta de decoro… os brincos são giros, tenho de descobrir onde é que os foi desencantar… lá vem ela distribuir beijinhos, mas só no ombro do Mário é que a cabra pôs a mão… a etiqueta do sutiã visível sob o tule no ombro… o que é aquilo? Aquilo é o que eu penso? Chantal Thomass?! O mesmo que eu trago!!! Que o meu maridinho me ofereceu?! Não me digas que o tipo compra disto à dúzia…
– Olá Marlene, como está rica?
– Bem, muito bem, então como é que havia de estar numa festa?
– Um Chantal Thomass… não dá para não reparar…
– Foi um presente.
Cabra, cabra, mil vezes cabra. E este mentiroso vai pagar-mas todas! Ai andas com dificuldades e compras lingerie de luxo à Marlene, ai é? Ai é assim? Então espera, espera que não tarda estas dívidas vão parecer-te poucas! Ora, deixa lá ir à casa-de-banho fazer um telefonemazinho…
– Estou? Hugo? Como está o menino?… bem, enfim, quase bem. A festa está uma seca. E esses músculos? Continuam firmes? O menino é uma tentação… olhe, querido, lembra-se daquele fatinho Armani de que me falou?… é seu! E a gravatinha CK, lembra-se?… é sua! E aquele relógio, como é que era a marca? Aquele do nome difícil de dizer… isso, isso, esse, o tágue auér, aquele esquisito com os brilhantes… olhe, fazemos uma loucura, é seu! Caro? Quanto? O quê? Dois mil euros no seu pulso não é caro, é um prazer! Olhe, querido, saímos amanhã à tarde? Claro, vamos pela linha, compramos-lhe uns miminhos e depois vamos verificar o estado dessa musculatura… que me diz? Claro! Beijinho, beijinho…
Lá volto àquela maldita mesa, deixa-me lá fazer uma entrada arrasadora…
– Ó maridinho, você está um gatão. Hoje quero dançar consigo. Aqui e lá em casa também!
jpv
Azáfama – 2
Azáfama
ErotiKa – Londres

AVISO
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jpv
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Londres
O dia amanhecera fresco. Ela vestiu-se e agasalhou-se. Roupa interior confortável, uma T-shirt e uma camisola de lã de gola larga por cima. Um casaco comprido de fazenda beige. O cabelo solto. Sem jóias. Com o brilho no olhar. Sentia-se bem. Não estava em si, neste dia solarengo e frio, um espírito e uma sensação de sensualidade, a libido não tinha acordado ainda, mas sentia-se confortável. Pronta para a vida. Apanhou o Underground em King’s Cross.
Ele sente-se o rei o Universo. A reunião do dia anterior foi fantástica. Agora é só orientar a equipa. Veste um fato azul-escuro com uma pequena e ténue linha fantasia. Coloca o relógio, perfuma-se, a barba está impecavelmente feita. A mala com o PC, os cadernos de apontamentos e as folhas com os gráficos impressos espera no chão. Camisa branca, gravata azul-celeste. Sai de casa. Não pensa em mulheres, hoje. A libido ainda não conseguiu acordar. Está afogada no sucesso do dia anterior. Entrou no Underground em Russel Square.
Quando ele entrou na mesma carruagem em que ela seguia, nunca se tinham visto e nada fazia prever o que iria passar-se a seguir. Ela estava de pé junto à porta. Ele sentou-se a meio da carruagem. A distância era considerável, mas conseguiam ver-se perfeitamente. Ela olhou-o e, com naturalidade e porque se sentia bem, sorriu. Ele não percebeu se o sorriso era consigo e por isso não sorriu de volta. Os dois desviaram o olhar e quando voltaram a olhar um para o outro foi exatamente ao mesmo tempo e então, por via dessa sintonia, os dois sorriram. E voltaram a desolhar-se e a reolhar-se e voltou a acontecer a coincidência como se ambos tivessem um relógio interior de olhar o outro. E desta vez sorriram primeiro e ficaram mais sérios depois, mas nunca se desolharam. Fixos nas emoções e nas possibilidades.
Quando o Underground parou, começou o mais estranho dos bailados, a mais fantástica das danças e aquilo que acontecera com o olhar veio a suceder-se com todo o movimento dos seus corpos, como se entre eles houvesse um estranho e poderoso magnetismo. Ela estava mais perto da porta de saída, acontece que algumas pessoas se precipitaram à sua frente e isso permitiu-lhe a ele percorrer a meia carruagem que os separava. Quando saíram, estavam lado a lado. Pressentiam e sentiam a presença um do outro, mas nunca se olharam. Mantiveram-se caminhando, olhando em frente. Quando, no atropelo da saída da carruagem, algumas pessoas os tocaram, passaram entre eles, adiantaram ou atrasaram o passo junto a eles, sem qualquer combinação, mantiveram-se lado a lado. Ao longo dos cinquenta metros da plataforma, diversas foram as pessoas que passaram entre eles, que se cruzaram com eles, mas o seu ritmo estava numa inexplicável e indestrutível sintonia. Mantiveram-se caminhando lado a lado, sentindo a presença mútua. Só isso. Sem se olharem. Contudo, à medida que os segundos passavam e aquela proximidade não combinada se mantinha e o ritmo da passada se acertava por instinto, foi crescendo certa cumplicidade. Sentida por cada um deles. Nunca partilhada. E chegaram às escadas a subir, e aos controladores de bilhete. Nesse momento pensaram que iriam separar-se. Por estranha coincidência, entraram em controladores paralelos, livres ao mesmo tempo, e quando surgiram do outro lado, como que por milagre, estavam lado a lado. Continuaram caminhando e agora interrogavam-se se os olhares trocados e os sorrisos atirados um ao outro na carruagem teriam sido os causadores daquela coincidência de proximidade, daquele ritmo síncrono de vencer o espaço. E continuaram.
Já perto da saída da estação de Picadilly Circus, com a luz do dia brilhando lá fora, e antes de mergulhar nela e na imensa multidão da urbe londrina, ela percebeu que seria impossível manter-se a coincidência, ele percebeu que seria impossível manter-se a coincidência. E continuaram, passada certa, caminhando lado a lado e, mesmo antes da luz do dia, do banho de cor e som que Picadilly Square lhes tinha reservado, ele encostou a sua mão esquerda à mão direita dela. Ela sentiu e não retirou a sua mão. Os quatro passos que ainda tinham para dar foram percorridos com o calor de uma mão na outra.
Ele sentiu o sexo entumescido e ruborizou. Ela sentiu-se invadida por um calor húmido e reconfortante onde começa a vida das pessoas todas.
Quando saíram para a luz do dia, ele tomou a direita, ela tomou a esquerda. Nunca mais se viram, nem nunca mais se esqueceram um do outro.
jpv





